19 de dez. de 2020

Pandemia levou mais jovens ultraortodoxos a deixar a comunidade em Israel

Pandemia levou mais jovens ultraortodoxos a deixar a comunidade em Israel
Estes jovens recorrem à Hillel, que desde 1991 ajuda jovens ultraortodoxos que desejam deixar as suas famílias para viver de forma diferente.
A crise sanitária devido à pandemia da covid-19 transformou-se numa crise espiritual para alguns jovens judeus ortodoxos em Israel, fazendo aumentar o número dos que este ano decidiram abandonar a sua comunidade.

"O corona(vírus) deu-me a oportunidade de deixar este mundo", disse Yoav, nome fictício, à agência France-Presse.

O jovem de 22 anos foi um dos que decidiu recorrer à associação Hillel, que desde 1991 ajuda jovens ultraortodoxos que desejam deixar as suas famílias para viver de forma diferente.
A Hillel é solicitada por cerca de 350 ultraortodoxos anualmente, mas os pedidos duplicaram em 2020 com a pandemia, indicou à AFP o diretor da organização, Yair Hess.
Yoav contou que durante os dois confinamentos determinados pelas autoridades israelitas para travar a epidemia do novo coronavírus, na primavera e em setembro, ficou fechado em casa com os pais.
Impedido de frequentar a 'yeshiva' (escola talmúdica), o jovem teve de lidar com um pai intransigente em relação à prática religiosa e "as tensões eram permanentes", declarou à AFP.
"Há anos que sabia que não tinha sido feito para essa vida e aí compreendi que tinha de ir embora", adiantou Yoav, que vive desde então com 13 outras pessoas, entre os 18 e os 25 anos, num centro de acolhimento da organização em Jerusalém, financiado pelo Ministério dos Assuntos Sociais.
Acompanhados por membros da associação e assistentes sociais, os jovens contam com assistência psicológica e financeira, além de cursos de reinserção.
"Eles não sabem nada do mundo moderno, do outro sexo, é preciso ensinar-lhes tudo", explicou Etty Eliahu, diretora da casa que recebe quem não tem para onde ir. "Estamos aqui para os ajudar a encontrar o seu lugar no mundo", disse.
Efrat, 21 anos, também vive no centro de acolhimento de Jerusalém e quer tornar-se maquilhadora profissional para "embelezar a vida".
Já tinha deixado antes a sua família numerosa, mas voltou quando a pandemia começou e ficou desempregada e sem poder pagar a renda.
Os 'haredim' ("tementes a Deus" em hebreu ou ultraortodoxos) representam cerca de 12% dos nove milhões de israelitas e vivem normalmente isolados, respeitando "à letra" a sua interpretação do judaísmo.
A maioria dos homens estuda os textos sagrados ao longo do dia. As mulheres vivem separadas dos homens até ao casamento, que geralmente ocorre cedo. Frequentemente trabalham mais que o cônjuge.
Segundo um estudo do instituto israelita para a democracia divulgado em 2019, todo os anos cerca de 14% dos judeus ultraortodoxos em Israel abandona a religião e a maioria tem entre 19 e 25 anos.
Segundo Yair Hess, este ano, o encerramento das escolas talmúdicas devido ao confinamento obrigou os jovens a passar mais tempo com a sua família, criando um fenómeno de "panela de pressão" que explodiu em muitas casas.

Os jovens acolhidos pela Hillel podem ficar quatro meses no centro e depois têm a possibilidade de alugar um alojamento pertencente à associação.

"Perdi anos, finalmente estou a viver", disse Yoav, que agora trabalha para o Ministério dos Transportes e tem aulas de matemática e inglês, das quais foi privado durante os seus estudos.

Com a Hillel, também Efrat descobriu "um mundo novo".

"Aqui aprendi a não ser ingénua, aprendi a falar com os homens, aprendi quem sou e o que sou capaz de fazer na vida", disse à AFP.
"Paradoxalmente, o corona(vírus) salvou-me", adiantou.



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