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O pequeno-grande homem

     'Todos os rios correm para o mar' é livro de memórias de Elie Wiesel (Lev Chaim)
Lev Chaim*
O pequeno-grande homem

"Ontem à noite em um sonho vi o meu pai". Com esta marcante frase, o grande Elie Wiesel (o pequeno-grande homem) inicia a sua autobiografia relembrando o seu pai querido, o qual ele não teve tempo de conhecer muito bem. 

Em suas memórias, Wiesel conta que dividiu os momentos mais negros de sua vida com o seu pai, passados nos campos de concentração de Auchwitz (na Polônia) e Buchenwald (na Alemanha), durante a Segunda Guerra Mundial. Ele nasceu na Romênia e morreu com o passaporte dos Estados Unidos, país onde morou durante muito tempo de sua vida adulta.

Todos os rios correm para o mar termina com a descrição de seu casamento realizado em Jerusalém. Uma cerimônia alegre, mas ao mesmo tempo triste: em silêncio, ele tentava trazer os seus falecidos pais e sua irmã mais nova para participar de seu casamento agora, ali, em Jerusalém. Eles morreram durante a guerra.
Entre o sonho com o seu pai e a descrição de seu casamento, Wiesel nos relata os anos felizes de sua infância no seio de uma família muito religiosa, de seus terríveis momentos nos campos de concentração nazista, de seus anos de estudos em Paris, de seu trabalho como jornalista, de sua partida definitiva para Nova Iorque, de seu romance de estreia e finalmente da Guerra dos Seis Dias, em Israel. E todos esses assuntos acabam se fechando na lembrança de seus pais, já falecidos.

Elie Wiesel (foto: Erling Mandelmann)Elie Wiesel (foto: Erling Mandelmann)
Ao longo de todas as páginas de suas memórias, Elie Wiesel confronta os leitores com a sua constante e urgente pergunta: Como pôde Deus se calar durante o Holocausto e olhar sem fazer nada para a morte de seis milhões de pessoas inocentes? Sem dúvida, Todos os rios correm para o mar é um livro poético e melancólico, que confronta a sua imaginação com a dura realidade daqueles terríveis momentos, em que Wiesel coloca em evidência todo o século 20 e seus mais importantes momentos. E foi com seus escritos que Wiesel próprio respondeu aquela sua pergunta: o Holocausto não foi obra de Deus, mas da maldade do ser humano.  

Em todos esses acontecimentos, descritos de uma forma magistral que fazem a leitura dessas memórias um fato quase que obrigatório, Wiesel evidencia uma coisa: ele perdeu os pais ainda criança nos campos de concentração nazistas, mas, mesmo anos depois, ele se recusa a dizer adeus às memórias de sua querida família. Seu pai, apesar de nunca ter podido conhecê-lo normalmente, nunca o deixou e sempre foi uma luz de inspiração para toda a sua vida. Ele próprio diz: "É uma ligação eterna que jamais irá desaparecer".
Elie Wiesel nasceu na Romênia em 1928, como filho de judeus ortodoxos húngaros. Sua obra se compõe de mais de 40 livros de ficção e não ficção. Em 1986, ele recebeu o Nobel da Paz. Desde 1963, Wiesel se tornou um cidadão norte-americano, com moradia em Nova Iorque em companhia de sua esposa e filho. Uma de suas obras primas, Noite, foi publicada em 2006. Nela ele descreve os seus pesadelos reais dos campos nazistas de concentração, onde ele presenciou, assim que chegou naquele inferno, a ida para a morte, nas câmaras de gás, de sua mãe e de sua irmã mais nova.
Wiesel foi um observante fervoroso do pensamento do religioso de Blaise Pascal, "a nossa natureza consiste em movimento; o repouso completo é a morte", tanto é que ele sempre procurou trazer de volta as suas lembranças, por mais cruéis que fossem, para que elas se movimentassem na memória de todos e trouxessem a esperança de que essas monstruosidades jamais voltassem a ocorrer. Este é o papel da história: relembrar as monstruosidades que ocorreram para elas não se repitam. 
Com essas suas drásticas e sinceras recordações, ele procurou ainda dar a esperança de um futuro melhor para o ser humano. Elie Wiesel lutou a sua vida toda intensamente pela paz em todas as partes do mundo e veio a falecer em 2 de julho de 2016, em Nova Iorque. 
Descanse em paz meu querido Elie Wisel, pois as suas memórias ficaram gravadas para sempre em meu cérebro. Só não sei se elas, quando traduzidas para o português, receberam ou não o título que aqui eu lhes dei, depois de lê-las do holandês Todos os rios correm para o mar.
*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras, para o Domtotal.



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