02/12/2019

Encontro de almas

     A Parashá da Torá dessa semana fala sobre um poço e o encontro de casais.
Uma jovem estava sendo entrevistada e disse: "Eu estou desistindo de me encontrar por meio de Shiduch". A entrevistadora perguntou o que a levou a tomar uma medida tão drástica. Ela respondeu: "O último rapaz que eu conheci falou apenas de si mesmo por duas horas inteiras. E então ele olhou para mim e disse: 'Chega de de falar sobre mim; diga-me o que você pensa de mim.'"
O Midrash relata que três dos maiores homens da fé judaica encontraram suas futuras esposas em poços de água: Yitschac, Yaacov, e Moshê.
A Torá conta a história detalhada de como Yaacov, o terceiro dos patriarcas, encontrou sua jovem esposa, Rachel, em um poço localizado nos arredores de Charan, uma cidade na Mesopotâmia.
O mesmo ocorreu com relação a Yitschac e a Moshê. Ambos encontraram suas futuras esposas na proximidade de poços. Nós poderíamos entender se o encontro fosse num riacho ou um rio - propício para o romance. A água geralmente evoca emoções deliciosas nos corações humanos e representa a qualidade do vínculo, uma vez que ela serve para unir objetos distintos entre si.
Mas o que tem demais o subsolo e pequenos poços que não estão sequer expostos - uma grande rocha os cobriu na maior parte do tempo - por que trouxe a união de nossos pais e mães originais? E por que esses três homens em particular - Yitschac, Yaacov e Moshê - decidiram lançar sua sorte num poço?
Como todas as histórias na Torá, esta também contém um simbolismo psicológico e espiritual, permitindo que se torne um conto atemporal e que pode nos ajudar em nossos próprios esforços para encontrar um cônjuge e manter um relacionamento significativo com essa pessoa.
Um poço, ao contrário de outras fontes de água, contém componentes opostos. Por um lado, o poço não tem valor sem esforço e trabalho humano. Ao contrário da chuva ou da água oceânica prontamente expostas, devemos cavar com força e, às vezes, profundamente, para descobrir a fonte de água escondida abaixo da crosta terrestre.
Por outro lado, nós seres humanos não criamos, geramos ou mesmo aumentamos o fluxo de água do poço; nossos esforços apenas expõem aquilo que já existe plenamente, antes do nosso trabalho.
Esta é a abordagem da Torá para o casamento também. Nós não criamos nossa fonte pessoal de amor. Através de nossos esforços nós simplesmente expomos uma relação que já foi moldada por D'us antes de nosso nascimento, nas palavras do Zohar, "Uma esposa e seu marido são duas metades da mesma alma." Cada uma das nossas combinações de casamentos, assim como um poço, é feita no céu. A conexão está lá de antemão; o fluxo de energia da água de sua alma para a alma do futuro cônjuge já existe. Pode, no entanto, estar completamente ocultada e o trabalho humano é procurar, cavar e expor essa fonte interna de água.
Devemos procurar e “cavar” nosso cônjuge; mas quando nos encontramos, devemos saber que descobrimos uma relação que existia mesmo antes de nos conhecermos.
E assim como não podemos criar um poço, não podemos destruí-lo. Nós podemos enchê-lo, obstruí-lo ou desviar seu fluxo, mas não podemos aniquilá-lo.
Os três gigantes espirituais que se envolveram em poços também nos ensinaram essa mensagem sobre relacionamentos. Quando você experimenta um conflito com seu cônjuge ou simplesmente se conscientiza das fortes diferenças que movem seus mundos, não conclua que o relacionamento está morto.
Um casal deve lembrar que, na maioria dos casos, sua conexão é essencial e inata, a divisão entre eles é uma aberração de sua verdadeira condição porque é D'us quem criou a conexão entre esposa e marido, projetando-os como "duas metades de uma alma".
O vínculo entre esposa e marido, noutras palavras, é uma condição inerente, não adquirida. É semeado no próprio tecido de ambas as suas almas. Seu relacionamento não está sujeito a destruição.
No entanto, essa unidade preexistente entre cada marido e mulher pode estar enterrada sob muita areia e cascalho, e cada um de nós precisa estar comprometido em colocar uma pá em nossas mãos e trazer à tona a fonte interior do amor que nos liga ao nosso parceiro. Em vida.
Nossos pais encontraram suas esposas por poços para nos ensinar a terapia mais eficaz de todas quando o conflito pode emergir - "a terapia do bem": a convicção inabalável de que o relacionamento está gravado em nossas próprias almas. Nosso trabalho é apenas expor e reforçar um vínculo e unidade preexistentes. [Infelizmente, existem exceções a essa regra. Em alguns casos, o casamento não pode ser recuperado porque o poço secou ou nunca esteve lá para começar. Do ponto de vista da Torá, diferentemente da atual perspectiva secular, esses são exemplos raros e não constituem a norma.]
Os casamentos de Yitschac, Yaacov, e Moshê surgiram particularmente através de muito suor e trabalho. A história conta que Yaacov trabalhou 14 anos por Rachel; Yitschac precisava mandar o servo de seu pai para outro país, a Mesopotâmia, carregado com uma tonelada de riqueza para procurar uma noiva para seu filho Yitschack. Mesmo depois que seu servo executou sua missão e encontrou Rivka, ele precisou trabalhar duro para persuadir a família a deixá-la ir. Finalmente, Moshê lutou com os pastores de Midian por causa de sua noiva, Tsipora.
Uma vez que eles trabalharam tanto para encontrar sua esposa, eu poderia ter pensado que eles acreditavam que o casamento era uma consequência de seus tremendos esforços sozinhos?
Assim, a Torá nos informa que precisamente esses três homens encontraram suas mulheres em poços de água. Isso simbolizava sua própria atitude em relação a encontrar um cônjuge: o relacionamento, assim como um poço, é uma realidade preexistente. Mas uma vez que está oculto sob a superfície da terra, cada pessoa é convidada a fazer sua parte na escavação, a fim de expor e manter o relacionamento fortalecido entre o marido e sua esposa.



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