Ygal Amir vencer*

Ygal Amir vencer*

Por Yossi Klein - Publicado no Haaretz em 1/11/19


Vinte e quatro anos depois, a conclusão é que Ygal Amir venceu. Ele atingiu todos os seus objetivos e mais. Ele não apenas interrompeu o processo de paz, matou o homem que o liderava e colocou seu rival no poder, ele inaugurou uma era que deveria levar o seu nome - a era do não tem com quem falar, nada do que falar e se alguém falar terá que arcar com as consequências.

Amir não era fantasioso como Yehuda Etzion. Ele não estava interessado em um terceiro templo e uma vaca vermelha para sacrificar. Nem a maioria do público. A maioria dos israelenses judeus não é favorável ao restabelecimento do Sanhedrin, mas eles se opõem a “ceder partes da pátria”.

Amir queria evitar que isso acontecesse e foi bem sucedido. Mostre-me alguém na direita, de Netaniahu a Gantz, que fale sobre ceder territórios, mesmo que seja em troca de uma paz duradoura. O assassinato não apenas fez desaparecer alguém que estava aberto a fazer exatamente isso, mas também dissuadiu todos os que apoiavam a ideia. Já não se escuta em Israel sobre o nosso famoso “anseio por paz” e muito poucos ainda acreditam em “dois estados para dois povos”. A esperança de viver em paz junto com nossos vizinhos passou a ser vista como desnecessária.

Descobrimos que podemos viver sem ela. Só o que precisa é um pouco de repressão na cabeça e um passaporte português nas mãos. Ygal Amir venceu porque sua visão de mundo venceu. A maioria não se identifica com o assassinato mas se identifica com a mentalidade que deu origem a ele. E não é diferente da mentalidade de Smotrich e Ben-Gvir. Sim, ele era a favor de governar mais de três milhões de pessoas e ao mesmo tempo roubar suas terras; sim, ele apoiava a ideia de uma transferência de população. Isso por acaso é algo que Ayelet Shaked não apoiaria? A maioria apoia a ideologia de Amir e a minoria engole isso relutantemente, a maior parte em um silêncio raivoso. Ei, conseguimos seguir vivendo, certo? E nós somos uma próspera nação de alta tecnologia mesmo sem paz e sem esperança - basta que nos deixem viajar para o exterior, comprar apartamentos e trocar nossos velhos carros.

No sábado à noite vamos todos voltar à praça e protestar. Não gostamos de estar no lado perdedor, mas certamente podemos admirar vitória. A vitória não apenas ressalta a vantagem do vencedor, ela também sublinha a fraqueza do oponente. Nós somos um débil oponente. Desistimos rapidamente, corremos da briga. Deixamos para trás o apartheid emergente, os postos de controle e a prisão de crianças.

Eles vão ter que se virar sem nós. Estamos derrotados mas aprendemos algumas lições dessa experiência. Aprendemos que o incitamento funciona. Aprendemos que três tiros nas costas resolvem desentendimentos. Aprendemos que a violência compensa. Não apenas na política, mas na família, no trabalho, nas estradas e nos livros escolares. Aprendemos a não nos meter com os lunáticos das colinas ou seus rabinos. Nós os tememos. Nós estamos com medo, nos entendemos com a situação e aceitamos a lealdade e as leis do estado-nação. Protestamos mansamente e seguimos nossas vidas. Ygal Amir nos ensinou a seguir em frente. Ele é o primeiro elo da corrente.

Como escreveu o poeta Yitchak Lamdan: “Devemos permanecer na corrente / para onde você guiar, para onde você for / em frente, em frente, em frente / não investiguemos, não façamos perguntas”.
Amir abriu caminho para eles, removeu o obstáculo que os impedia de ir em frente e em frente, sem perguntas.

O assassinato rasgou a máscara de povo unido que usávamos. Isso não é o que somos. Vejam quem adotou a visão de mundo de Amir e quem não. Vejam quem vai estar no “governo de união” e quem não. A direita decente foi para o centro, o centro para a esquerda e a esquerda desapareceu. Lembre que no ano seguinte ao assassinato o Avodah recebeu 34 cadeiras na Knesset e o Likud 32. O assassinato substituiu desentendimento por ódio. Por 24 anos agora, temos conduzido um diálogo de ódio. Aprendemos que o ódio é o combustível que impulsiona o incitamento e que o incitamento é legítimo porque é “liberdade de expressão”.

Depois do assassinato, aprendemos a duvidar da credibilidade das instituições do estado, aprendemos que tudo é parte de uma conspiração, inclusive o Gabinete do Consultor Jurídico do Estado, a Polícia e as cortes de justiça. Amir, o prisioneiro, está agora com 49 anos. Não é o mesmo que o Amir de 25 anos, o assassino, mas nós também não somos mais os mesmos. Ele não tentou fugir da responsabilidade e não expressou nenhum remorso. Vencedores não têm arrependimentos.

Nós o trancamos em uma cela, mas não a sua visão de mundo. Seu Israel é também o Israel de Bibi e Gantz. Já não há expectativas sobre Bibi mas também não se empolgue com expectativas sobre Gantz. Ele não
Ygal Amir vencer*
é Rabin, mas sim uma consequência do assassinato de Rabin. Ele é um direitista decente que aceita a perspectiva de Bibi mas não sua corrupção. Gantz não é Rabin. Você não vai vê-lo cantando “Shir Leshalom” (“Canto para a Paz”).



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