A ordem do dia

     
A ordem do dia
Voltamos aos anos 1930, às vésperas da Segunda Guerra, o mundo à beira da catástrofe. 

Este tempo em que o nazismo chegava ao poder e a Europa caminhava para o abismo foi a inspiração de Eric Vuillard para escrever "A Ordem do Dia", livro sobre os bastidores do pré-guerra, contados sem heroísmos ou dramas. A guerra do escritor é minimalista, nada de superprodução hollywoodiana, mais próxima do teatro, com uma sucessão de cenas absurdas e grotescas, em que os protagonistas são grandes industriais, poderosos políticos e diplomatas, todos desnorteados, pairando sobre a tragédia que começava a se desenrolar diante deles.

Um exemplo? O embaixador do III Reich na Inglaterra acabara de ser nomeado ministro de Relações Exteriores e era homenageado com um almoço de despedida na casa do primeiro-ministro inglês Neville Chamberlain, justamente quando a Alemanha invade a Áustria. À mesa, recebe um bilhete avisando-o sobre a entrada das tropas no país vizinho, mas Chamberlain não ousa encerrar a comemoração e continua, por horas, a ouvir a falação do novo chanceler de Hitler, um bem informado membro da cúpula do partido nazista que alonga a conversa para impedir os ingleses de agir. Para Vuillard, a excessiva polidez, uma certa negligência e a subavaliação dos acontecimentos são traços incrustados na cultura política da época. A anexação da Áustria pela Alemanha em 1938 não leva Chamberlain a encerrar seu almoço, mas é a antecipação da invasão da Polônia no ano seguinte, considerada historicamente como fato detonador da Segunda Guerra.

"A Ordem do Dia" é um livro sobre o passado, mas captura o clima do presente, povoado por populistas de extrema direita, demagogos com recurso frequente à desinformação e ao nacionalismo, padrão que tem levado historiadores a compararem o momento atual com os anos 1930.
"Chama minha atenção o sentimento de superioridade predominante na nossa elite hoje. Entre as duas guerras, essa condescendência cega esteve na origem de erros enormes, como ilustra a política do apaziguamento", diz Vuillard, referindo-se à complacência dos líderes dos países europeus com Hitler.
Recém-lançado pela Planeta no Brasil, essa reconstituição de eventos marcantes, mas desprezados pela história oficial, deu a Eric Vuillard o Goncourt 2017, prêmio de maior prestígio da literatura francesa. Mesmo antes de o júri anunciar o resultado, "A Ordem do Dia" já era um best-seller, antecipando o renovado interesse dos leitores pelo nazismo. 
Apesar de já ter sido inspiração para milhares de livros e ótimos filmes, a Segunda Guerra volta a ser destaque nas listas de lançamento e nas livrarias do mundo.
Por quê? "A Segunda Guerra e o Holocausto foram catástrofes de uma tal amplidão que mudaram nossa maneira de sentir e pensar, nossa consciência e nossos julgamentos. A profundidade do desastre exige sempre novas elucidações. A história não é uma acumulação de fatos estabelecidos de uma vez por todas, nosso conhecimento do homem evolui em função de nossas inquietudes e de nossas práticas. É por isso que o passado não está morto", diz o escritor.
A versão de Vuillard sobre o pré-guerra foi rotulada pela crítica francesa como um "recit", algo entre o romance e o trabalho de historiador, marca dos livros anteriores do escritor, como em "Congo" - sobre a conquista colonial - e "14 de Julho", sobre a Revolução Francesa. Em "Ordem do Dia", ele tenta mostrar que a guerra poderia ter sido evitada, não fosse a cumplicidade dos grandes empresários com Hitler.
O livro começa cinco anos antes da invasão da Áustria, "numa fria e cinzenta manhã de segunda-feira não igual a todas as outras". Neste 20 de fevereiro de 1933, 24 dos mais importantes banqueiros e industriais alemães - Krupp, Open, Siemens - chegam à residência oficial do comandante da Força Aérea, Hermann Goering, para uma reunião secreta. Adolf Hitler, há apenas três semanas no cargo de chanceler, entra em cena logo depois de Goering expor sua visão sobre o futuro da Alemanha. Aparece "sorridente, relaxado, quase amigável" e faz uma vigorosa defesa da sua filosofia política. Ato seguinte, o alto-comando nazista pede uma colaboração para o partido e, "como 24 máquinas de calcular às portas do inferno", os empresários fazem polpudas doações.

Vuillard conta que conhecia esse episódio há muito tempo, mas precisou escrever para realmente entendê-lo. Na primeira versão, descreveu a entrada de Goering e Hitler na reunião como uma cena de teatro, impactante como foi a pertubação sentida por ele ao tomar conhecimento dessa história. Achou que soou falso e deixou o texto de lado por quase um ano.

"Quando retomei me veio uma outra versão, desta vez a entrada em cena de Hitler era um elemento banal, inscrito numa rotina de poder. Assim, o episódio revelava um aspecto terrível, mas real, da vida econômica. Eu fora momentaneamente cegado pelo tamanho dos crimes perpetrados, de alguma maneira os nazistas dissimularam os outros ditadores. Se folhearmos um álbum de qualquer dos grandes industriais do passado, o achamos na soleira de casa com ditadores do mundo inteiro. O interesse dessa primeira cena é contar um acontecimento horrivelmente banal", diz.

Esse episódio, para ele, liga passado e presente. "Já que Balzac, Zola e dos Passos, todos nos alertam sobre o poder do dinheiro, não é vão olhar para trás, armados dos últimos resultados da vida social, e rever a prepotência reforçada da indústria e das finanças, os papéis que eles tiveram na maior catástrofe da história". No presente, seriam exemplos dessa relação entre política e poder econômico as carreiras de ex-primeiros-ministros e ex-chanceleres que continuam em conselhos de grandes empresas. "Tony Blair tornou-se conselheiro do JP Morgan e Gerard Schroeder trabalhou para uma companhia russa de petróleo. Podemos recuperar uma expressão forte de Victor Hugo sobre o Segundo Império: a vergonha é cotada em Bolsa", diz.

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Eric Vuillard - Coisas Judaicas
Foi nos arquivos que Vuillard recuperou algumas das pequenas histórias dos grandes crimes contra a humanidade na época da Segunda Guerra. Por exemplo, o uso de judeus dos campos de concentração como mão de obra para as indústrias. "Era uma prática corrente, à qual industriais recorreram", diz Vuillard. Ele acessou documentos do processo contra a JG Farben mostrando que uma das principais acusações era a de escravidão e extermínio de trabalhadores. "Durante a guerra, no terceiro campo de Auschwitz, a empresa montou importante fábrica de borracha sintética para fornecer ao Exército alemão e, das dezenas de milhares de trabalhadores que passaram por lá, 50% morreram".
As empresas que fizeram pactos com Hitler continuam entre nós, são os carros, as máquinas de lavar, os aparelhos médicos que fazem parte do nosso cotidiano. À cegueira dos países estrangeiros que cediam a Hitler e não viam a catástrofe se aproximar, ele opõe seu olhar sobre um quotidiano revelador dos compromissos que se teciam com o nazismo nesse  pré-guerra. E alerta: "Às vezes, as maiores catástrofes da humanidade anunciam sua chegada com pequenos passos".



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