O Segredo de Elul

     
O Segredo de Elul
O mês de Elul é a chave para destrancar o significado interior e mais potente do coração. Como é sabido, as letras hebraicas para formar a palavra “Elul” – alef, lamed, vav e lamed, são um acrônimo para a frase (do Cântico dos Cânticos bíblico) ani l’dodi v’dodi li, que significa “Eu sou do meu amado e meu amado é para mim.
Essa frase linda e romântica é aquela que representa nosso relacionamento com o Criador, que é frequentemente comparado ao relacionamento entre marido e mulher, uma noiva e um noivo, em nossas vidas individuais.
O Zohar explica que no início de Elul estamos achor el achor, que significa “costas com costas”, e ao final de Elul estamos panim el panim, “face a face”. Mas como é possível que estejamos de costas? Isso não implicaria que D'us tem Suas costas viradas para nós também? Como podemos dizer isso, quando este é o mês no qual – como nos ensina o mestre chassídico Shneur Zalman de Liadi – “o Rei está no campo”? Não é o mês em que D'us está mais acessível do que nunca, quando Ele está esperando por nós para saudá-Lo, quando Ele está ali no “campo” da nossa vida cotidiana?
O fato de sermos descritos como “costas com costas” e depois “face a face” é uma lição incrível. Com frequência, quando nos sentimos irados, magoados, abandonados, qualquer que seja o motivo do nosso sofrimento, damos as costas. Quando estamos de costas, não temos ideia do estado do outro. E muitas vezes é mais fácil acreditar que não somos o único de costas. É mais fácil pensar que o outro também se virou, e que não está nos encarando, porque se fosse este o caso, então mesmo que nos virássemos isso não iria ajudar, então, por que se dar ao trabalho? Por que dar o primeiro passo, somente para se voltar e ver as costas do outro?
Porém, essa racionalização é a causa de muitas discórdias mal resolvidas, sentimentos magoados, e relacionamentos desfeitos. Como naquela cena clássica, que aparece muito em filmes, na qual o casal caminha um para longe do outro. À certa altura o homem se volta, querendo chamar o nome dela, pedir mais uma chance, implorar perdão. Ele está a ponto de falar, mas percebe que ela virou as costas. Ela está se afastando. Ele diz a si mesmo que é tarde demais, que ela simplemente não se importa. Então ele se vira de volta. Segundos depois, ela se volta para olhar para ele. Ela não deseja que tudo termine. Ela quer dizer algo, mas não consegue reunir coragem, não tem a força. E por que, por que deveria ela, se ele está de costas?
Ela olha para ele com saudade, mas isso não muda nada – ela presume que ele não se importa pois continua a se afastar dela. E nós, os espectadores, sentamos na beira do assento, esperando que talvez eles se virem os dois ao mesmo tempo, para finalmente entender que o outro se importa, e embora pareçam estar de costas, eles na verdade queriam estar frente a frente. Às vezes acontece o final feliz; outras vezes eles simplesmente continuam a caminhar em direções opostas, afastando-se da vida um do outro.
É o mês de Elul que nos ensina a necessidade de estarmos dispostos a nos voltar. O Rei está no campo, nosso Criador está ali, e não importa como possamos nos sentir, Ele nunca deu as costas. Tudo que precisamos fazer é nos virar para perceber que Ele está ali e esperando por nós. O “costa a costa” que vivenciamos no início do mês é baseado em nossas percepções equivocadas, nossos temores, nossas presunções. Somente quando nos viramos entendemos a verdade, a essência interior, e então ficamos “face a face”, o que não somente significa que podemos finalmente olhar um para o outro, mas além disso, podemos olhar um no outro – pois o radical da palavra face, panim é o mesmo que pnimiyut, que significa “interiorização”.
Portanto, agora a questão é como esta lição nos é ensinada, não somente no mês de Elul, mas por intermédio do próprio nome “Elul”. Um nome hebraico não é uma mera maneira de referir-se a alguma coisa, mas na verdade representa sua alma. A Chassidut nos ensina que todo pai ou mãe é dotado com inspiração Divina quando dá nome ao filho. É o nome que representa os aspectos mais profundos dessa pessoa. A Cabalá e a Chassidut nos ensinam que para revelar o significado essencial de uma palavra hebraica, precisamos analisar as letras que a formam, seu valor numérico, sua forma e significado.
Como dissemos acima, a palavra “Elul” é formada de um alef, seguido por um lamed, um vav, e a letra final, outro lamed. A primeira letra em Elul é também a primeira letra do alfabeto hebraico. O aleph é numericamente equivalente a um, o que representa a ideia da total unidade de D'us.
Portanto, agora podemos responder como tudo isso está relacionado ao coração. É aqui que nossos lameds são novamente definidos. À essa altura é importante pensar sobre o símbolo do coração e questionar sua origem. Portanto, não deveria ser surpresa que o significado desse símbolo mais uma vez será encontrado na própria palavra para “coração”.
Em hebraico, a palavra para coração é lev, que é escrita com lamed-beit. Rabi Avraham Abulafia, no ano 1291, escreveu um manuscrito com o nome de Imrei Shefer, no qual ele define o significado do coração.
Rabi Abulafia ensina que a palavra lev, lamed-beit, precisa ser entendida como dois lameds. Isso porque a letra beit é a segunda do alfabeto, e é numericamente equivalente a dois. Ele explica que a palavra precisa ser lida e entendida como “dois lameds”. Porém, não basta ter dois lameds. Como explica Rabi Yitzchak Ginsburgh, para que eles tenham um relacionamento, os dois lameds precisam estar conectados. Precisam estar face a face. Quando viramos o segundo lamed de frente para o primeiro, formamos a imagem de um coração judaico. Embora o coração, como estamos acostumados a ver, seja bem claro nesse formato, uma parte inteiramente nova do coração é também revelada.
O coração e o amor que ele representa podem prosperar, florescer, somente quando há uma totalidade em conexão. Isso porque a letra lamed é a mais alta de todas as letras do alfabeto hebraico. O motivo é porque o lamed representa o conceito de quebrar limites, de ir além do nosso potencial, de entrar no supraconsciente através do consciente.’O lamed também significa duas coisas simultaneamente, Significa tanto “aprender” como “ensinar”, o que nos mostra que os dois são interligados e ambos são essenciais. Num relacionamento, devo estar disposto a aprender com o outro, tornando-me um receptor. Porém, a outra pessoa também deve ser capaz de aprender comigo, o que me torna o professor, o doador.
Além disso, a imagem do lamed pode ser quebrada em três outras letras. A parte de cima é um yud, a menor das letras hebraicas, e representa a cabeça. A cabeça contém a mente, o intelecto, e também a face.
A próxima letra em Elul é um vav. Em hebraico, o vav serve como um “e” conjuntivo. Como palavra, vav significa “gancho” e seu formato parece um gancho. Portanto, neste caso o vav é o gancho que está conectando o yud, a mente, com a letra de baixo, o chaf, que representa o corpo. Fisicamente falando, simboliza o pescoço, que transporta o fluxo de sangue do cérebro para o coração.
Isso nos ensina que o coração, que o amor que ele representa pode prosperar, florescer, somente quando há uma totalidade na conexão. O coração judaico, o verdadeiro amor, representa uma conexão mente a mente, face a face, olho no olho, corpo a corpo, alma a alma. O vav, a conexão entre a cabeça e o coração, deve sempre estar saudável, com um fluxo claro. Se alguma coisa a interromper, o relacionamento não pode continuar. Como todos sabemos, uma das maneiras mais rápidas de matar uma pessoa é um corte direto no pescoço. O pescoço é a nossa linha da vida. Garante que nossa cabeça, nosso intelecto, governa acima de nossas emoções, e que há uma troca saudável entre a mente e o coração.
O coração com o qual todos estamos familiarizados, o símbolo que representa o amor em todo o mundo, não tem o yud e o vav; está sem a mente e o pescoço. O símbolo popular representa apenas a conexão física entre os corpos.
Então é por isso e como Elul é o mês que começa de costas e termina face a face. No início do mês não estamos conscientes da realidade que “Eu sou para meu amado e meu amado é para mim.” Porém, trabalhando em nós mesmos durante o mês, estando dispostos a nos virar e fazer mudanças, começamos a entender que nosso Criador jamais virou as costas. Ele sempre esteve nos encarando, e apenas esperando que nos viremos. E quando o fazemos, então somos como dois lameds que estão face a face, que formam o coração judaico e que são a essência do mês de Elul.
Elul então deve ser entendido como um alef, representando D'us, seguido por um lamed, vav, lamed – um lamed que está conectado (vav) ao outro lamed.
E o coração judaico, esta ideia de amor como uma totalidade de conexão, não é meramente o trabalho para o mês de Elul, mas todo o objetivo de nossa criação. Esse coração judaico é um símbolo de por que fomos criados e o que devemos realizar. Pois a Torá é o projeto da criação, e o guia de como nos conectamos com o divino. E não é um livro com início, meio e fim, mas sim um rolo, pois somos ensinados que “o fim está ligado ao começo, e o começo ao fim.”
Então, o que encontramos quando o fim do rolo de Torá se junta ao início? Como a Torá termina e começa? A última palavra da Torá é Yisrael, que termina com a letra lamed; e a primeira palavra é bereshit, que significa “no princípio”, que começa com um beit. Quando juntamos a primeira e a última letra da Torá, temos lev, a palavra hebraica para coração.
Que sejamos abençoados com a capacidade de canalizar os poderes do mês de Elul, de reconhecer e revelar nossa capacidade de aprender e ensinar, e através disso, ficar face a face com nós mesmos, com nossos entes queridos e com nosso Criador, como somos ensinados pelo coração judaico.



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