Eleições imprevisíveis em Israel

Advogada Orly Eds, CEO da Comissão Eleitoral. Foto de Eric Sultan
     Às vésperas de mais uma votação em Israel, marcada para esta terça-feira (17), a expressão da hora é "beber votos". Quem roubará mais eleitores dos rivais - ou mesmo dos aliados - para eleger parlamentares num dos mais acirrados pleitos da história do país?
Para muitos, o vitorioso usual da última década, o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, líder do partido conservador Likud, conseguirá fazer mais acrobacias e se manterá no poder. Afinal, das oito eleições desde 1996, venceu cinco.
Para outros, no entanto, Bibi, como Netanyahu é chamado, no poder há dez anos consecutivos - ou 13, contando três na década de 1990 - pode naufragar diante de uma série de fracassos, principalmente o que o levou a convocar novas eleições apenas cinco meses depois do pleito anterior, realizado em 9 de abril.
As principais pesquisas de voto mostram o Likud empatado com a coalizão de centro-esquerda Azul e Branco, liderada pelo ex-chefe do Exército Benny Gantz. Segundo enquete da emissora de televisão Canal 13, ambos devem conquistar 32 das 120 cadeiras do Knesset, o Parlamento israelense.
"Pode ser que ele simplesmente tenha começado a perder a enorme força que tinha", especula Ben-Dror Yemini, autor de "Fábrica de Mentiras", sobre o conflito árabe-israelense. "Mas não está claro. Desta vez, ninguém realmente sabe o que vai acontecer nas urnas".
Caso receba mais votos, o partido liderado por Gantz só conseguiria formar um governo caso recebesse o apoio de legendas com histórico difícil.
À esquerda, estaria a Lista Árabe Unida, coalizão de quatro partidos que nunca apoiaram nenhum governo desde a criação de Israel, em 1948.
À direita, o ultranacionalista Israel Nossa Casa, contrário às legendas árabes na área de segurança, mas que encontra pontos em comum em questões referentes à separação entre religião e Estado.
Os possíveis cenários são um desafio a analistas políticos, que observam indiferença de parte dos 6,4 milhões de eleitores: em um país onde o voto não é obrigatório, apenas cerca de 65% parecem dispostos a sair de casa para votar.
Esse panorama pode fortalecer partidos de direita, que têm eleitores mais engajados.
Talvez seja uma boa notícia para Netanyahu, que tem acumulado reveses. Um deles foi simbólico: durante discurso em Ashdod, na semana passada, o premiê foi retirado às pressas do local por seguranças depois do lançamento de foguetes contra a cidade por grupos palestinos de Gaza.
As imagens foram interpretadas como uma humilhação por muitos. Mas o anúncio de que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, principal aliado do primeiro-ministro, pretende se reunir com o presidente do Irã, Hassan Rouhani, foi um baque maior.
"A maior carta na manga de Netanyahu sempre foi ser o 'Sr. Segurança', mas ele não consegue entregar a mercadoria quando o Hamas continua a lançar foguetes e Trump decide conversar com Rouhani", afirma Ben-Dror Yemini.
No pleito em abril, o Likud empatou com o Azul e Branco, e ambas as legendas receberam 35 assentos. Netanyahu só levou a melhor depois que mais líderes partidários o indicaram para seguir no cargo.
No meio do caminho, porém, estava o ex-ministro da Defesa, ex-chanceler e ex-amigo Avigdor Lieberman, líder do Israel Nossa Casa, que já era dado como certo na coalizão com partidos de ultradireita e ultraortodoxos.
Lieberman endureceu, exigindo a aprovação de uma lei que não agradava aos ultraortodoxos. Incapaz de contemporizar e chegar ao número de 61 cadeiras, ou seja, a maioria do Knesset, Netanyahu viu sua coalizão afundar.
Agora, Bibi faz de tudo para conseguir os assentos necessários sem precisar do Israel Nossa Casa, que se fortaleceu.
O premiê tirou da cartola a velha tática do "Gevald!" ("ai, meu Deus!", em iídiche) para "beber" na fonte dos votos de eleitores até mesmo de partidos aliados, como o Yemina (à direita), da ex-ministra da Justiça Ayelet Shaked, e o ultradireitista Força Judaica.
Anunciou a intenção de anexar as 23 colônias israelenses no vale do Jordão e ao norte do mar Morto (Cisjordânia), onde moram 8.000 israelenses. Ele havia feito o mesmo às vésperas da eleição em abril, quando prometeu anexar os assentamentos na Cisjordânia.
Também publicou em uma rede social - e depois negou ter escrito pessoalmente - postagem afirmando que os árabes-israelenses (20% da população do país) "querem nos exterminar". Parece cópia do vídeo que divulgou em 2015, no qual dizia que "os árabes" estariam "indo votar em massa".
"Só há duas opções caso Netanyahu seja novamente indicado para formar a coalizão: um governo estreito de direita ou um de união nacional, com o Azul e Branco", opina Yemini.
Por governo "estreito" entende-se uma coalizão com uma bancada de maioria por um triz, com dificuldades em aprovar legislações e à mercê de exigências dos aliados.
Um governo de união nacional, por sua vez, seria um acordo entre os maiores partidos e com possível rotatividade.
No modelo, cada partido indica um premiê para ocupar o cargo por dois anos. Netanyahu, nesse caso, ficaria no poder apenas metade do mandato, tendo que entregar o cargo a Benny Gantz durante a outra metade. A dúvida é se Netanyahu aceitaria isso.
Relações com Brasil
Quem imagina Israel sem ele como premiê - seja perdendo as eleições, obrigado a aceitar uma rotatividade ou indiciado nos casos de corrupção que pairam sobre ele - já começa a especular sobre o futuro do relacionamento com o Brasil.
Os governos de Netanyahu e Jair Bolsonaro desfrutam de proximidade, que em parte se baseia em afinidade pessoal.
"Não creio que haveria grandes mudanças para o Brasil, porque, mesmo havendo um alinhamento ideológico, o vínculo com Israel é mais forte do que com um governo específico", acredita o professor Samuel Feldberg, do Instituto de Relações Internacionais da USP e pesquisador da Universidade de Tel Aviv.
"Talvez tenhamos um pouco menos de pirotecnia nos discursos e elogios mútuos. Seria uma relação desidratada", diz. No caso dos israelenses, Feldberg afirma acreditar que quem assumir manterá o clima amistoso com o Brasil.
"O próximo formulador da política israelense, independentemente de quem seja, valorizará a mudança de postura em prol de Israel, especialmente junto às organizações internacionais. Seria pragmático".
Para Yonatan Freeman, professor da Universidade de Jerusalém, as relações de Israel com a América do Sul continuarão relevantes, apesar da indefinição sobre Netanyahu.
"Israel tem interesse em evitar que aliados do Irã se estabeleçam na região. Não vejo nenhuma mudança, mesmo que Netanyahu não seja reeleito".



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