13/07/2019

Os protestos dos judeus negros em Israel

Após o assassinato de Solomon Tekah, um israelense etíope de 19 anos, cometido pela polícia no último final de semana de junho etíope a comunidade decidiu que já não podiam tolerar essa situação, levando sua indignação às ruas em protestos que já duram uma semana. As manifestações do dia 02 de julho, que ocorreram em todo o país e trouxeram as estradas e rodovias de Israel a um estado de semi-paralisação, foram rotuladas pela mídia como “violentas” e “anárquicas”. Porém tudo que podia ser visto no centro de Tel Aviv na noite daquela terça-feira, onde centenas de pessoas bloquearam a Rodovia Ayalon, um dos principais centros de tráfego de Israel, era tristeza e perplexidade – jovens israelenses etíopes que não conseguem compreender porque isso está acontecendo com eles, que temem por seu futuro, e que esperam que alguém os ouça e que os israelenses brancos juntem-se a eles. Alguns desses manifestantes tinham apenas 10 anos de idade quando o israelense etíope Yosef Salamsa foi encontrado morto após um interrogatório policial, ou quando Damas Pakada foi filmado sendo agredido por um oficial de polícia em 2015. Eles viram com seus próprios olhos como seus irmãos mais velhos foram presos e humilhados, e como nenhuma das promessas do governo de por um fim à violência e à discriminação deu em resultado. “Esse protesto é diferente dos que aconteceram antes”, disse Y., de 18 anos. “Da última vez nós refizemos os passos de nossos pais – ouvir, mostrar respeito. N
ós entendemos que esse caminho não deu nem dará certo, então nós decidimos usar a força”. Y., que pediu para não ter seu nome revelado de forma a proteger sua identidade, explicou que os jovens etíopes estão saindo às ruas porque não confiam em um sistema que deveria investigar os assassinatos pela polícia, mas nunca indicia nenhum dos oficiais envolvidos. “Eles fecham todos os casos e não fazem nada. O oficial é sempre absolvido. Eu acho que esse protesto vai durar, vai durar até isso acabar”. “Eu acho que as pessoas não entendem o que significa sair de casa e ser submetido a uma busca aleatória”, continua Y. “Se elas entendessem, elas teriam reparado quando nossos protestos eram mais calmos. Mas eles não tiveram efeito nenhum, então nós vamos tentar usar a força. Nós não temos nada a perder”. A maior parte dos manifestantes pelo país eram estudantes de ensino médio ou soldados. Nas redes sociais, soldados etíopes publicaram status nos quais eles afirmam não ver motivo para lutar pelo país: “hoje é Solomon Tekah, amanhã sou eu”, um soldado escreveu. Y. disse que escolheu não se juntar ao exército por causa do racismo na sociedade israelense. “Eu não quero servir ao Estado. Eu não quero servir a um Estado que mata meus irmãos ou os árabes”, ele disse. “Racismo é racismo. Esse não devia ser um protesto etíope – esse devia ser um protesto de todos”. “É claro que é por causa da nossa cor” Há seis meses atrás, quando um oficial de polícia assassinou Yehuda Biadga, de 24 anos, em um subúrbio ao sul de Tel Aviv, os protestos foram liderados por membros mais famosos da comunidade etíope. Naquela ocasião, os manifestantes bloquearam a Rodovia Ayalon e marcharam para a Praça Rabin para uma vigília, uma decisão que deixou muitos da geração mais jovem desapontados. Centenas de jovens etíopes acabariam enfrentando-se com a polícia no centro de Tel Aviv após a vigília. Passou-se metade de um ano, e agora os jovens ocupam a primeira linha das manifestações. Por quatro horas no dia 02, eles bloquearam as principais interseções do centro de Tel Aviv, dividiram-se em protestos com grupos menores, cantaram contra a violência policial, e pararam o tráfego em um dos centros econômicos mais importantes de todo o país. Às 20 horas, sua fúria tornou-se palpável, com vários manifestantes ateando fogo em uma lixeira. Outros começaram a dançar e a cantar slogans contra a polícia. Enquanto isso, dezenas de policiais observavam enquanto garrafas de água eram atiradas contra eles pela multidão. Muitos dos jovens se recusaram a falar com a imprensa. “Anarquia”, dizia a manchete do dia seguinte de um dos diários mais populares em Israel, junto com a foto de um carro pegando fogo. “Foda-se a mídia, fodam-se vocês, é culpa sua. Eles atiram e nos matam por causa da forma como vocês nos retratam” gritou um jovem para um grupo de fotógrafos tirando fotos de um carro abandonado no meio de Ayalon, cujas janelas estavam quebradas. Os poucos que queriam falar com a mídia tinham uma mensagem simples: eles não confiam no sistema. “Não tem uma vez que eu saia de casa e não encontre policiais”, disse um manifestante de 16 anos que preferiu não se identificar. “É claro que é por causa da nossa cor. Eles vêm um preto e sentem que têm o direito de nos matar”. Eles não tinham uma lista de reivindicações, e certamente não esperavam nada de ninguém. “Isso não pode continuar”, disse outro jovem com o rosto coberto. “Estão matando nossos irmãos, nós precisamos acabar com isso”. A polícia permaneceu contida, permitindo que os manifestantes bloqueassem Ayalon, irritando muitos dos que estavam presos no trânsito, alguns deles por muitas horas. Por volta das 22h30, depois que um veículo pegou fogo, centenas de policiais à cavalo, armados com cassetetes e bombas de atordoamento, marcharam para a rodovia. A maior parte dos manifestantes se dispersou, mas alguns permaneceram e atiraram objetos e pedras nos policiais e em seus cavalos. Alguns foram atingidos por granadas, e um pequeno número foi detido. Levou uma hora para a polícia desocupar a rodovia. No fim do dia, mais de 140 foram detidos e mais de 80 estavam feridos em confrontos através de Israel. Duas décadas desde outubro de 2000 Apesar da rápida prisão do policial que matou Tekah, a investigação já está mostrando sinais preocupantes. A polícia revisou inúmeras versões dos eventos do dia 30/06, quando Tekah foi baleado em um subúrbio de Haifa, no norte de Israel. Em um primeiro momento, a polícia alegou que Tekah havia tentado cometer um assalto, depois mudou o tom e afirmou que ele estava envolvido em uma briga. De acordo com várias fontes, a polícia não pôde determinar se a bala foi atirada diretamente no garoto ou se ela ricocheteou depois de ser atirada do chão, e considera processá-lo por homicídio culposo. Em outro momento neste ano, na esteira da morte de Yehuda Biadga, a revista +972 e o portal Local Call descobriram que o departamento do Ministro da Justiça encarregado das investigações das mortes pela polícia não havia indiciado um único policialsuspeito de assassinar cidadãos israelenses. Em maio, o Departamento de Investigações Internas da Polícia anunciou que iria encerrar o caso contra o policial suspeito da morte de Biadga. Tekah é o 15° cidadão israelense a ser morto a tiros pela polícia nos últimos 5 anos. Nove dessas vítimas eram árabes, quatro tinham sobrenomes mizrahim, e dois eram etíopes. Os assassinatos não podem ser vistos em separado das políticas policiais mais amplas de super-monitoramento de bairros de maioria etíope ou árabe, bem como da alta proporção de adolescentes etíopes nos centros de detenção juvenis, e uma rápida olhada nas vítimas da violência policial deixa claro quem essas políticas visam. Afinal de contas, quando os colonos atiram pedras nos palestinos na Cisjordânia, ninguém ousa sugerir que a polícia abra fogo contra eles. Em um lugar como a Jerusalém Oriental, ser da cor ou nacionalidade erradas pode custar aos jovens palestinos sua própria vida, como foi o caso de Muhammad Abir, que foi baleado fatalmente pela polícia no mesmo final de semana da morte de Tekah. O policial que o matou não foi nem detido nem interrogado. Na hierarquia de grupos que sofrem com a violência policial, há sempre um degrau inferior. Ao longo da manifestação de terça-feira, era impossível não pensar em como teria sido se um protesto semelhante tivesse acontecido em uma cidade árabe como Umm al-Fahm, e qual teria sido a resposta da polícia. Esta não é uma questão teórica: quase 18 anos se passaram desde os eventos de outubro de 2000, quando a polícia israelense matou 13 palestinos, 12 deles cidadãos israelenses, um deles vivendo em Gaza. Parece que, duas décadas depois, as coisas não mudaram muito.

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