O legado de Janusz Korczak e seu Diário do Gueto

O legado de Janusz Korczak e seu Diário do GuetoJanusz Korczak, pseudônimo de Henryk Goldszmit, também conhecido como o Velho Doutor ou o Senhor Doutor, nasceu em Varsóvia, no dia 22 de julho de 1878 ou 1879, e foi assassinado em Treblinka, no dia 5 ou 6 de agosto de 1942. Foi médico, pediatra, pedagogo, escritor, publicitário, ativista social e oficial do exército polonês.
Pertencendo a uma família da elite cultural polonesa, teve a melhor formação pediátrica da época (1898-1904), pois estudou em Paris (que dava ênfase à pesquisa de novos conhecimentos) e em Berlim. Nos seus 8 anos de prática pediátrica deu preferência à população pobre da qual não cobrava pelos atendimentos. Como pediatra tinha conceitos avançados para a época e modernos para os nossos dias.
Korczak escreveu seu "Diário do Gueto" no Gueto de Varsóvia, no período de maio a agosto de 1942. Embora desde 1939 sentisse necessidade de deixar um legado espiritual, tendo mesmo iniciado os primeiros registros já em janeiro de 1940, foi só dois anos mais tarde, quando a morte se aproximava, que o médico-educador retomou o trabalho, e o concluiu.
Para entender e poder avaliar seu relato, temos que levar em conta o local, o momento e as circunstâncias em que foi escrito. O gueto era, então, uma área na capital, relativamente restrita e cercada por muros, onde se comprimia uma população de mais de meio milhão de judeus oriundos de Varsóvia e localidades próximas. Korczak o chamava de "distrito dos condenados", assim o descrevendo: "A aparência do lugar muda de um dia para o outro: uma prisão, uma área acometida por uma epidemia, um asilo de lunáticos".
A fome e o tifo dizimavam a população. As pessoas morriam nas ruas e os encarregados não davam conta da remoção dos corpos. Removidos pela manhã, novas pilhas se formavam à tarde. Crianças brincavam nas calçadas, em meio a corpos apenas cobertos por jornais. O tempo, como o conhecemos, não existia. A existência era conduzida de um instante a outro.
Na época em que escreveu seu diário, Korczak estava com 64 anos e com a saúde muito debilitada. Sofria do coração, além de estar, aos poucos, sucumbindo sob o peso da responsabilidade pelo destino de mais de 200 crianças e adolescentes, na faixa dos sete aos dezessete anos. Durante a ocupação alemã, seu orfanato situava-se em um prédio na esquina das ruas Sienna e Sliska, desde que fora transferido da sede da rua Krochmalna 92, porque esta se encontrava fora dos muros do gueto.
No orfanato, as atividades se concentravam no salão do segundo andar, que, à noite, servia de dormitório, mas de dia se transformava em refeitório e sala de aula. Os eventos e reuniões eram no salão do terceiro andar, onde foi encenada a última peça teatral, "O Correio", do indiano Rabindranath Tagore.
O ambiente era calmo e bem organizado, em virtude de praticarem os princípios pedagógicos de Korczak. A pequena comunidade infantil tinha seu autogoverno, seu tribunal, seu pequeno jornal; havia turnos para a rotina diária: atividades de aula e lições de casa. As crianças estudavam, limpavam e arrumavam a casa, trabalhavam na lavanderia e na cozinha. Uma vez por semana, regularmente, eram todos pesados e medidos, para acompanhar seu crescimento. A alimentação, no orfanato, era muito simples e restrita, mas, para os padrões do gueto, era até luxuosa.
No diário, Korczak fala consigo mesmo, registra pensamentos, memórias e impressões. Nas primeiras páginas, revela a intenção de transmitir para o futuro o legado de suas experiências, teorias e opiniões. Mas com o avanço das linhas, seu desenho inicial se torna cada vez mais distante, porque desligar-se da agonia do gueto era praticamente impossível. Sempre franco, manteve-se fiel às verdades professadas ao longo de sua vida, defendendo-as até o fim.
No dia 5 de agosto de 1942, teve início a marcha das crianças e dos professores do orfanato, liderados por Janusz Korczak e sua assistente, Stefania Wilczinska. Arrumados, vestindo suas melhores roupas, as crianças marchavam em fileiras de quatro, carregando sua bandeira pelas ruas desertas de Varsóvia, em direção à Umschlagplatz, o ponto de reunião perto da estação de trens, Gdansk. De lá foram transportados em vagões de gado, para o campo de extermínio de Treblinka, onde, à chegada, foram todos asfixiados. 

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