Jorge Amado é inspiração para escritora israelense Ayelet Gundar-Goshen

Jorge Amado é inspiração para escritora israelense Ayelet Gundar-Goshen
Quando pisou pela primeira vez nas pedras de Paraty, há 13 anos, a psicóloga israelense Ayelet Gundar-Goshen estava cruzando o Brasil com uma mochila nas costas. Com pouco dinheiro, acampou no meio de mosquitos e
 aprendeu até a pedir desconto em português. Até o início da próxima semana, Aeylet está de volta a Paraty e vai poder aproveitar os restaurantes caros onde antes não ousou entrar. Hoje às 12h, ela participa da mesa “Angico”, ao lado da escritora nigeriana Ayòbámi Adébáyò, na Flip.
Naquela viagem de 2006, Ayelet atravessou o Nordeste e desceu até São Paulo. Sonhava passear pelas paisagens baianas descritas nos romances de Jorge Amado, que ela leu, em hebraico, provocada por seu marido, que é filho de um brasileiro.
— Queria refazer os passos dos personagens de Jorge Amado, mas temia que a realidade fosse diferente dos romances. Quando cheguei lá, no entanto, foi como mergulhar de novo nas histórias, reviver aquelas páginas — canta Ayelet, 37 anos, vermelha de sol após uma manhã no sol paratiense. — Gosto de como Amado não descreve as personagens femininas apenas da perspectiva masculina, mas entende como as elas se sentem, como é ser mulher.

Ecos de Gabriela

Dos romances do baiano, o favorito de Ayelet é “Gabriela, cravo e canela”. Ela inclusive recorda uma passagem que podia estar no seu “Uma noite, Markovitch”, romance lançado em 2018 no Brasil pela Todavia.
Em “Gabriela”, dizem a Nacib, o turco ciumento que se casa com a morena, que ele não podia engaiolar um pássaro tão bonito e esperar que ele continuasse cantando. Em “Uma noite, Markovitch”, antes da Segunda Guerra, um judeu da Palestina vai à Europa para se casar com uma judia e, assim, ajudá-la a escapar do nazismo. O trato era que eles se divorciariam assim que chegassem ao Oriente Médio, mas Markovitch se apaixona por Bela, sua esposa de mentirinha, e se recusa a deixá-la. Engaiolada, ela vai se entristecendo e até sua beleza desbota.

influência de Amado — e de outros mestres latino-americanos, como o colombiano Gabriel García Márquez — salta aos olhos em “Uma noite, Markovitch”. O narrador é bonachão e atento às cores vivas, aos aromas, aos decotes das mulheres e flerta com o realismo mágico: um homem atravessa o mar nadando para reencontrar a amada; outro, tem uma ereção que nunca cede.

Personagens no consultório

Apesar do fantástico aqui e ali, o romance é inspirado em uma história real, como conta Ayelet:
— Quando soube da história desse rapaz que se recusou a se divorciar da mulher, só conseguia pensar que ele era um monstro. Mas depois pensei que, se ele viesse ao meu consultório, eu não poderia dizer “eu te odeio” e mandá-lo embora. Eu teria que evitar julgá-lo e tentar entender: por que ele fez o que fez? — diz a doutora Ayelet. — Nisso a literatura se parece com o trabalho terapêutico: temos que coçar os pontos de exclamação até transformá-los em pontos de interrogação.
Os personagens moralmente ambíguos de Ayelet acabam por conquistar o leitor, que não consegue ler o romance com os olhos frios de um juiz. A maioria deles, como o próprio Markovitch, é um pouco ordinária, gente mais interessada em seus ganhos e perdas individuais do que nas batalhas da História. “Uma noite, Markovitch” acompanha esses personagens dos anos 1930 até a Guerra de Independência de Israel, em 1948.

Crítica de Netanyahu

Ayelet afirma preferir investigar a vida das pessoas comuns em tempos turbulentos a acreditar nas narrativas heroicas contadas pelos livros de história. Ela, aliás, é uma crítica ferrenha de narrativas mitológicas e nacionalistas, como as propagadas pelo atual primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Ele, por sua vez, não lida bem com críticos e tende a tachá-los de inimigos da pátria.
— Netanyahu é maior contador de histórias de nosso tempo, maior que(os escritores israelenses) Amós Oz e David Grossman. Ele vê os palestinos como uma reencarnação dos nazistas que, por sua vez, eram a reencarnação dos egípcios que escravizaram os hebreus nos tempos bíblicos, e os israelenses como um Davi lutando contra Golias. —afirma a autora. — Para Netanyahu, se você o critica e não marcha com o governo, não é um patriota. Quando você realmente se importa com seu país, você não tem medo de criticá-lo. E eu não gosto de marchar.
A Todavia promete para o ano que vem o segundo romance de Ayelet, “Waking lions” (em tradução livre, “Despertando leões”), sobre um médico israelense que atropela um refugiado africano e foge. Também é inspirado numa história real que encheu Ayelet de dúvidas.
— Quando uma pergunta me atormenta, eu só fico em paz depois de escrever — conta. — Escrever para entender, por exemplo, por que Markovitch agiu como agiu. Ou como Israel, uma nação que começou tão cheia de ideais, se tornou tão moralmente ambígua em relação aos palestinos.

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