A Cidade Sem Judeus

A Cidade Sem Judeus ENREDO: A normalidade do antissemitismo vigente nos anos 20, a miséria do pós-guerra na fictícia cidade austríaca de Utopia e os culpados de sempre: os judeus. “Tentemos ver se nossa situação melhora com a partida deles”, sugerem alguns. 

O chanceler (Eugen Neufeld) encampa a ideia e leva ao parlamento o decreto de expulsão dos judeus da cidade. Aprovado, ele dá aos infelizes até a véspera do Natal para partirem. A maioria, composta por gente sem recursos, deixa seus lares ancestrais em direção a Sion. 
Mas não somente os judeus sofrem: casamentos e noivados mistos são proibidos e, assim, Leo Strakosch (Johannes Riemann) é obrigado a deixar a amada Lotte (Anny Miletty); mas, dotado de alguns recursos, em vez de Sion, seu destino é Paris. Já Isidor (Armin Berg), apesar da “aparência” de judeu, não o é; ou pode ser que tenha algum antepassado com o “sangue judeu”, mas consegue omiti-lo, e assim consegue permanecer ao lado dos antissemitas. Terminada a “limpeza”, o governo consegue se capitalizar, liberar moradias e baixar o preço dos alimentos, contando ainda com o apoio financeiro de um rico antissemita americano, o sr. Huxtable. 
A Cidade Sem Judeus A Cidade Sem Judeus Porém, o decreto, além de proibir o comércio exterior outrora existente com empresas pertencentes a judeus, provoca o boicote de diversos países e instituições financeiras (claro, “controladas pelos judeus”), o que leva a nova crise econômica, desvalorização da coroa e recriação de impostos. Seria hora de chamar os judeus de volta? 
FILME: disponível no YouTube, por exemplo emhttps://www.youtube.com/watch?v=5iMV7WI0TTw.
AVALIAÇÃO: O filme passou anos perdido e foi recuperado e restaurado em 2015, ainda que talvez não por completo (de qualquer modo, faltariam apenas algumas cenas finais, o que de maneira alguma afeta o entendimento). O diretor preferiu criar a fictícia cidade de Utopia para o drama, em vez de situá-lo em Viena, como o fizera o autor do romance que deu origem ao filme/libelo, Hugo Bettauer (que, aliás, viria a ser assassinado, justamente por causa deste romance). 
Quanto aos atores, a ironia é que alguns dos que interpretaram os vilões eram judeus ou casados com judias e outros – alguns até no papel de judeus – acabaram por se integrar com maior ou menor força ao partido nazista ao longo dos anos, o próprio diretor e o protagonista (Johannes Riemann) entre eles. 
O filme é muito bom, não somente pelo caráter premonitório (quem sabe se o que poderia ter acontecido tivesse feito grande sucesso comercial…), mas também por retratar a dor da separação dos casais mistos e a dor de se ter que abandonar o lar ancestral, muitas vezes tendo que vender os parcos recursos por valores vis (isto quando se lhes era permitido vendê-los)… tudo o que viria a acontecer poucos anos depois. Mas ele perde um pouco do ritmo a partir da metade, quando da chegada do misterioso pintor francês Dufresne, que terá um papel importante na mudança dos rumos. Talvez o escritor pudesse ter escolhido outro caminho nesse momento.

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