26/07/2019

25 anos depois ainda há perigo na América do Sul

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por Floriano Pesaro, sociólogo
Há 25 anos, ficamos pasmados e horrorizados com o atentado antissemita, racista, intolerante e permeado de ódio contra a Associação Mutual Israelita Argentina, a AMIA, entidade fundamental da nossa comunidade em Buenos Aires. Eis que o antissemitismo da raiz antijudaica católica espanhola e o racismo europeu moderno dos séculos 19 e 20 encontraram chão aqui, na nossa América do Sul, que, até então, parecia tão distante tanto dos conflitos que nos são familiares nos EUA, na Europa e no Oriente Médio, quanto do ódio aos judeus. 86 vidas foram ceifadas e mais de 300 pessoas feridas em meio ao pânico terrorista e a uma plateia incrédula do que via.
Não temos, contudo, mais motivos para nos permitirmos incrédulos e, ou, surpresos após 25 anos de um ato antissemita de terror em solo latino-americano. Ainda que quiséssemos focar nossos esforços apenas na busca pela Justiça - que pelo tempo que nos separa de 18 de julho de 1994, ainda não foi concebida aos familiares das vítimas, aos argentinos e a nossa comunidade - o antissemitismo e o ódio tomam novas formas, se articulam, novamente, próximos a nós e nos forçam a recobrar a atenção e a vigilância, além, é claro, da memória.
As agências de inteligência do Brasil, Argentina e Paraguai alertam, em conjunto com o Pentágono norte-americano, sobre a intensa atividade do Hezbollah aqui, bem na nossa tríplice fronteira. Não se trata de fato novo, mas que continua operando sob nossos olhares e o silencio das autoridades, tanto é que, de acordo com relatório do governo americano deste ano, a região sul-americana já representa o principal centro de financiamento do grupo terrorista - por vezes braço armado do Governo de Teerã - fora do Oriente Médio.
É fundamental, é claro, nesta data fazermos o necessário e perene questionamento sobre a investigação do atentado à AMIA, sua condução interessada, malevolente e incompetente - que apenas em Fevereiro deste ano teve seu julgamento, ainda com resultados incompletos recheados de injustiça e preconceito - mas não esqueçamos que a história judaica nos ensina a importância fundamental da memória não só como marco de homenagem e respeito, mas também de aprendizado.
Passados 25 anos de AMIA, nós, judeus latino-americanos, não estamos pisando em terra firme: segundo relatório do Centro de Estudos Sociais (CES) da Delegação de Associações Israelitas da Argentina (DAIA), braço político da comunidade judaica argentina, os atos antissemitas no país portenho cresceram 57,1% entre 2005 e 2006. Daí, seguiram-se governos populistas por toda a América Latina que reforçaram o discurso antissemita e encontrou no "chavismo" venezuelano grande eco para a região. Além disso, as redes sociais propiciam acesso a todos os lugares-comuns do antissemitismo, muitas vezes reproduzidos e sancionados por professores descompromissados com a verdade e o questionamento, que fazem das nossas universidades berços de uma geração antissemita.
Estejamos, portanto, atentos e alertas para que a Justiça no caso do atentado à AMIA finalmente encontre robustez e alivie aqueles que perderam seus entes queridos e toda nossa comunidade, pois ali estava um pouco de cada um de nós, ali nós todos fomos brutalmente atacados. Mas, também, precisamos exigir que nunca mais se repita e, uma das formas para termos êxito, é demandarmos das nossas autoridades respostas quanto a essa articulação do ódio que vem ocorrendo na tríplice fronteira: um dos maiores grupos terroristas do mundo alimentando-se e planejando nossa destruição em nosso próprio território. Após 25 anos, AMIA não está tão longe.
Floriano Pesaro

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