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    14/05/2019

    Uma Marcha da Vida para não esquecer a história do Holocausto

    A 28 de abril, ocorreu a Marcha da Vida, um programa anual educativo que junta pessoas de vários países desde a Polónia até Israel para estudar a história do Holocausto. Leia a reportagem de Miriam Assor. 


    Um homem de barba e solidéu na cabeça faz ecoar o shofar [instrumento de sopro] com três sons interrompidos. E a Marcha da Vida inicia-se. O instrumento de sopro utilizado nos rituais judaicos, tocado, assim, em modo "shevarim" traduz-se por lamentos. Honrar os mortos da matança nazi, lembrar para não esquecer os nomes, ou almas, das vítimas, perpetuar a memória dos milhões decepados pelo desvario hitleriano, e lutar contra a barbárie constituem algumas das basilares finalidades do programa educacional anual que leva milhares de judeus à Polônia para estudar a história do Holocausto e examinar as raízes do preconceito, da intolerância e do ódio. 
    Bandeiras de Israel, do Brasil, do Canadá, dos Estados Unidos, do México, e de tantos países, vão nas mãos de jovens. Representantes do governo israelense ,polaco, o bispo da Igreja Católica Apostólica Ortodoxa, o Rabino chefe de Tel Aviv, sobreviventes, cerca de 52 delegações de todo o lado do mundo, passam pela frase inscrita no portão "Arbeit Macht Frei". A marcha, que em 2019 é dedicada aos milhares de judeus gregos que morreram tragicamente durante o criminoso regime nazista do Terceiro Reich, percorre a estrada de três quilómetros entre Auschwitz e Birkenau que era feito a pé pelos prisioneiros, para uma cerimónia no memorial ali construído para a evocação do Yom Hashoah, Dia do Holocausto, este ano assinalado no segundo dia de Maio. No trajeto há quem cante baixinho, quem cante em voz alta, quem cante como se os refrães fossem choro. Há ainda, poucos, que sabem o chão de cor, e esses cantam para dentro.
    A torre de vigia de Birkenau é alcançada ao mesmo tempo que os holofotes expandem "Yidish Mama". A canção escrita por Jack Yellen, e que vive na voz de Billie Holiday, ou de Tom Jones, é uma ode à mãe judia pelo seu amor imensurável e abnegado (e talvez exagerado) pelos seus filhos, e faz parar o passo a uma senhora. Olha para cima, falta-lhe fôlego e sobra-lhe amor: "Nós cantávamos em iídiche, no campo. Era uma forma de nos apoiarmos mutuamente. Mas esta música é muito mais do que uma música; lembra-me a minha mãe, que foi morta no mesmo dia em que aqui chegámos". Dezembro 1943. O israelita Yehuda Poliker, filho de gregos de Salónica deportados para Auschwitz nesse Inverno, cantará na sessão, mais adiante, poemas que recordam o golpe mortal da presença judaica na Grécia: dos 80 mil só regressaram 10 mil.
    Assim que Bartolomeu I, o atual Patriarca de Constantinopla e Nova Roma, segura o microfone diz: "Na História da Humanidade, muito poucos lugares já incitaram o mesmo grau de medo, abominação e escândalo como o chão em que estamos hoje". Na sua intervenção sublinha a importância do diálogo, substantivo capital para "construir pontes", que lhe parece ser "fonte de solidariedade", "um dom precioso de Deus, e um meio para superar os preconceitos e a desconfiança", finalizando com um alerta: "É necessário denunciar o extremismo religioso, o racismo, a xenofobia e anti-semitismo".
    O Rabino Ysrael Lau sobreviveu a Buchenwald e recita em hebraico o começo do salmo 30, símbolo para os sobreviventes, por expressar o milagre da sobrevivência. A seguir, traz a coragem de Chrysostomos, o bispo de Zaquintos, que na Segunda Guerra Mundial teve um papel decisivo no salvamento da população judaica da ilha grega. Aquando a ocupação nazi da Grécia, Loukás Karrer, o presidente da Câmara, e o referido bispo não acataram as ordens nazis, que lhe exigia uma lista dos membros da comunidade judaica, e esconderam 275 judeus em aldeias. A única folha de papel que entregaram continha unicamente dois nomes: os seus. Diante de um tesouro de humanidade, o anti-semitismo, para o rabino chefe de Telavive, é "madness". Uma loucura que precisa de ser tratada por psicólogos e com remédios.
    No que respeita a metafóricos medicamentos, Edward Mosberg dirá mais adiante, em conversa com o embaixador dos Estados Unidos em Jerusalém, David Freidman, que "não há comprimidos que curem a estupidez" -- é uma directíssima dirigida ao Ministro das Relações Exteriores de Israel, Israel Katz, por este ter dito que os polacos "amamentam o anti-semitismo com o leite da mãe". Edward Mosberg não quer saber que o presidente polaco tenha sancionado uma lei que prevê uma pena de três anos de cadeia para todos os que acusarem a nação ou o Estado polaco de participação nos crimes nazis. Não acreditaria que, em Varsóvia, apoiantes da extrema-direita, fossem, após uma semana da Marcha da Vida, protestar até à embaixada norte-americana, contra a pressão dos Estados Unidos para que a Polónia possa compensar famílias judaicas roubadas no período do Holocausto.
    Mosberg contribuiu para o aprofundamento do diálogo entre judeus e polacos. Vive em Nova Jersey, veio ao mundo em Cracóvia há 93 anos, não teme a morte, muito menos ministros: "Eu já morri há 70 anos quando os alemães assassinaram toda a minha família não muito longe daqui". Em 1941, a máquina nazi depositou a sua família no gueto de Cracóvia, e na liquidação, em 1943, a mãe é deportada para Auschwitz. Matam-na no crematório. Mosberg esteve no campo de concentração Plaszóvia e de lá haveria de ser deportado para outros campos nazis, incluindo Mathausen. Isaac Herzog, que preside à Agência Judaica, lê o início da derradeira carta da prima Annette Goldberg: "Querida mamã, deixámos Drancy ontem e agora estou no comboio, dizem que a viagem demora três dias...". O destino final do transporte que saíra do campo de Drancy, perto de Paris, acabou por ser Auschwitz-Birkenau, que matou, em Setembro de 1942, a sua vida de 20 anos. O descendente do antigo presidente de Israel, Chaim Herzog, que serviu na guerra como oficial do exército britânico e esteve entre os libertadores do campo de concentração de Bergen-Belsen, quer que a dor perpétua possa "Servir de guia de luta contra o anti-semitismo e contra todas as formas de ódio" e lastima que seja "inconcebível que, 74 anos depois daquela guerra miserável, os judeus estejam novamente inseguros nas ruas da Europa".
    A cerimónia termina com a tradicional prece pelos defuntos, El Male Rachamim e o Kadish, uma exaltação ao nome de Deus para fortalecer o enlutado. No dia seguinte, as rezas não vêm nos livros. Os 2 graus de temperatura não ganham ao frio sentido no complexo da morte. O grupo do Brasil liderado por Celso Zilbovicius estremece. Em Birkenau, criado para levar a cabo a Solução Final, localizado em Oswiecim, a sessenta quilómetros a sudoeste de Cracóvia, a matemática da morte escreve-se com hemoglobina: 1,1 milhão de judeus, 140-150 mil polacos, 23 mil ciganos, 15 mil prisioneiros de guerra soviéticos e 25 mil pessoas de outra etnia ou categoria. Construído em Março de 1942, Birkenau foi o maior dos quase 40 campos e subcampos que compunham Auschwitz, e serviu como um centro para extermínio. Vinte mil mortos. Todos os dias. A rotina assassina produzida de maneira operativa e implacável. Os olhos encontram barracões de madeira escura, a linha do comboio e as plataformas de selecção; diretamente para as câmaras de gás ou servir para trabalho escravo. No caminho do bosque de bétulas, os vestígios dos fornos crematórios, das câmaras de gás, detonados para ocultar a hediondez nos dias de Janeiro de 1945, que antecederam a chegada do Exercito Vermelho. 
    Um senhor com sotaque inglês precisa que se saiba: "Os meus pais e tios ficaram aqui. O ar cheira a cadáveres e a natureza é cinzenta. A senhora não vê?". A senhora leu Elie Wisel, Samuel Pisar, Primo Levy, o Diário de Anne Frank, teve o privilégio de ser amiga de Chilberg Goldfarg que saltou o muro do gueto de Varsóvia, entrevistou sobreviventes, viu braços tatuados com algarismos mortíferos e documentos, investigou em arquivos, esteve no Yad Vashem e em outros museus, mas, afinal, é uma criança ainda por andar. Auschwitz II-Birkenau tem uma fala que vem de um além terreno. Auschwitz I, pode parecer uma prisão até vermos as janelas tapadas para que os gritos das taradas experiências médicas chefiada por Eduard Wirths e por Josef Mengele que se encarregava, e com gosto, pelos experimentos que envolviam crianças e particularmente gémeos, não incomodassem os oficiais nazis. As exposições gelam a circulação sanguínea. Um monte de malas. De sapatos. Sapatos pequeninos. Pilhas de próteses, de óculos, de muletas. Latas amontoadas de Zyklon-B, o gás utilizado para aniquilar com maior rapidez. Cabelos humanos que serviram para tecidos. Não se entende os abcessos de ego nas selfies. Existe um hotel com restaurante em frente à entrada de Auschwitz I. Há uma cafetaria dentro do museu do campo. Que estômagos terão fome depois de estar numa morgue aberta onde os mortos parece que surgem numa árvore ou saem das valas. E ainda reservam quarto com vista para um talho de carne humana. 

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