Líderes religiosos aconselham vacinação contra sarampo

Líderes religiosos aconselham vacinação contra sarampoVestígios animais em vacinas preocupam ortodoxos em meio a surto da doença
O surto de sarampo nos EUA já é o maior desde que se declarou a eliminação da doença, 19 anos atrás. O retorno desse flagelo foi impulsionado por um fator específico: a desinformação, disseminada por críticos da vacinação, que leva os pais assustados a não imunizar seus filhos.



Junto com os rumores de que as vacinas causam autismo ou que as quantidades vestigiais de mercúrio e alumínio nelas são perigosas – falsidades que já foram desmascaradas há muito tempo –, surgiram insinuações dirigidas a pais devotos.
Segundo os ativistas, as vacinas contêm ingredientes provindos de porcos, cães, macacos e fetos abortados. De fato, a maioria dessas afirmações é baseada em dados verdadeiros. Listas de ingredientes publicadas pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças e pelo Instituto de Segurança de Vacinas da Universidade Johns Hopkins mostram que as vacinas podem conter esses elementos (embora qualquer DNA residual esteja presente apenas no nível de um em um milhão).
No entanto, a vacinação é endossada pelos principais teóricos do judaísmo e do islamismo e pelo Vaticano. As autoridades religiosas estudaram meticulosamente como são feitas as vacinas e o que há nelas, e continuam estipulando que não violam a lei judaica, islâmica ou católica.
Embora não haja vacina sem efeitos colaterais, a imunização é um dos maiores avanços da medicina. A Organização Mundial da Saúde estima que as vacinas tenham salvado mais de 10 milhões de vidas apenas na última década.
"Já que está provado que as vacinas são eficazes para evitar a disseminação de doenças, é obrigatório que todo pai vacine seus filhos", escreveu recentemente o rabino Moshe Sternbuch, vice-presidente do Tribunal Rabínico de Jerusalém, numa carta aberta ao decano de uma importante jessibá ortodoxa nos EUA.
As vacinas são extremamente puras, mas ainda podem conter células isoladas ou vestígios de DNA das células humanas ou animais em que foram cultivadas. Esses "meios de cultura" incluem linhagens celulares originalmente derivadas – muitas vezes décadas atrás – de rins de macacos ou cães, lagartas de mariposas, sangue de novilhos ou tecidos imaturos de fetos humanos abortados. (A afirmação amplamente divulgada de que as vacinas contêm DNA de rato não é verdadeira.)
Algumas vacinas cultivadas em ovos ou usando produtos lácteos contêm proteínas residuais de ovo ou caseína. E, em algumas vacinas, os fabricantes adicionam pequenas doses de gelatina, feitas a partir de pele de porco, para evitar danos causados por calor ou pela liofilização.
À medida que o atual surto de sarampo de Nova York se espalha, os ingredientes mais obscuros da vacina contra essa doença – que costuma ser administrada juntamente com vacinas contra caxumba, rubéola e catapora – tornam-se um problema para alguns judeus ortodoxos.
O "The Vaccine Safety Handbook" (Manual da Vacinação Segura, em tradução livre), publicado pelo grupo antivacina Peach, tem várias páginas dirigidas a esses judeus, incluindo listas de ingredientes em vacinas derivados de animais que eles são proibidos de ingerir.
Mas, segundo o dr. Naor Bar-Zeev, professor de saúde internacional e vacinologia da Escola Bloomberg de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins, as leis dietéticas kosher são "completamente outro assunto. Todas essas complexas regras se aplicam a alimentos ingeridos via oral e não são relevantes para material injetado".
Bar-Zeev observa que os judeus praticantes podem injetar insulina derivada do pâncreas de porcos, e aqueles com insuficiência cardíaca podem ter válvulas de porco implantadas no coração. Eles também podem tomar vacinas oralmente, como aquelas contra o rotavírus, a poliomielite e a cólera, mesmo contendo gelatina de porco, pois são consideradas medicamentos, não alimentos.
Alguns teóricos do judaísmo também determinaram que substâncias "desnaturalizadas", como a gelatina, não estão sujeitas às mesmas restrições que a carne de porco.
Os ingredientes nas vacinas não são um problema apenas entre judeus ortodoxos. O Islã também proíbe a ingestão de carne de porco; assim, informações sobre a gelatina e o DNA viral suíno dificultaram a vacinação em alguns países muçulmanos.
Algumas vacinas mais antigas continham gelatina de vaca, mas os fabricantes mudaram para carne de porco depois que os estudos concluíram que esta desencadeou menos reações perigosas em crianças com alergia à gelatina. Numa dose de vacina típica, a gelatina totaliza apenas cerca de 0,03 de uma colher de chá.
Em 1995, uma reunião de 112 importantes teóricos do islamismo enfocou a ingestão de muitas substâncias, incluindo álcool, coalho e até mesmo noz-moscada, e aprovou o uso de gelatina suína em remédios.
"A gelatina formada como resultado da transformação dos ossos, da pele e dos tendões de um animal judicialmente impuro é pura, e ingeri-la está judicialmente permitido", decidiu a Organização Islâmica de Ciências Médicas.
Os ingredientes não eram o foco central das opiniões recentes de teóricos ortodoxos proeminentes, incluindo Sternbuch e o rabino Asher Weiss – principal autoridade em direito médico do Centro Médico Shaare Tzedek, em Jerusalém.
Ambos os rabinos não só endossaram as vacinas existentes, mas também justificaram a vacinação obrigatória e a proibição da entrada de crianças não vacinadas nas jessibás.
Weiss reiterou o mandamento de que as crianças devem ser afastadas de perigos, e Sternbuch citou o princípio de "pikuach nefesh", que sustenta que, para salvar uma vida ou evitar danos permanentes a órgãos, se permite qualquer transgressão à lei judaica, exceto idolatria, incesto ou assassinato.
Num artigo recente, Weiss observou que, mais de 200 anos atrás, o rabino Israel Lifschitz, autor de um famoso comentário sobre a lei judaica oral, declarou que o dr. Edward Jenner, inventor inglês da vacina contra a varíola, era "um dos justos entre as nações", por salvar milhares de vidas.
A atual epidemia de sarampo entre judeus ortodoxos em Israel, na Grã-Bretanha e nos EUA foi desencadeada em parte por uma peregrinação no outono passado ao túmulo ucraniano do rabino Nachman, fundador do ramo de hassidismo em Breslov.
Nachman era, ele próprio, um grande defensor da vacinação. Deixar de vacinar uma criança contra a varíola antes dos três meses de idade "é como derramar sangue", escreveu.
Segundo Weiss, gerações anteriores de teóricos ortodoxos haviam decidido que a vacinação era "permissível e adequada", mesmo com as vacinas primitivas e imperfeitas que chegavam às vezes a matar os vacinados.
As vacinas contra doenças virais são feitas a partir de vírus. Estes são apenas invólucros proteicos contendo pequenas porções de DNA ou RNA, e podem multiplicar-se apenas quando crescem em caldos de células vivas. Essas células são incomuns, pois devem ser "imortais" – isto é, capazes de se replicar durante décadas sem sofrer "morte celular", o processo de envelhecimento.
(O exemplo mais conhecido são as células HeLa, que foram isoladas a partir de um tumor numa mulher chamada Henrietta Lacks, que morreu em 1951. Desde então, foram produzidos mais de 50 milhões de toneladas de células HeLa para uso em pesquisas de câncer.)
As células também não podem conter câncer ou vírus. Essa é uma das razões por que as células-tronco vêm de fetos que nunca foram expostos a patógenos – fetos que foram removidos em ambientes cirúrgicos estéreis, não de abortos espontâneos.
Várias vacinas comuns para crianças são cultivadas nas linhagens celulares MRC-5 e WI-38, células fetais que, se tivessem amadurecido, teriam se transformado em pulmões – o órgão em que proliferam doenças como catapora e rubéola. A linhagem MRC-5 teve origem num feto masculino abortado na Grã-Bretanha em 1964 porque a mãe sofria de problemas psiquiátricos, e a WI-38 veio de um feto feminino abortado na Suécia em 1962 porque os pais acharam que já tinham filhos demais.
Em 2005, respondendo a um pedido de orientação da Children of God for Life – um grupo católico sediado na Flórida –, o Vaticano declarou que as vacinas cultivadas nessas células continuam a apresentar problemas éticos, "apesar de esse mal ter sido realizado 40 anos atrás".
Segundo o Vaticano, os católicos devem escolher vacinas alternativas, caso existam, e pressionar os fabricantes de vacinas a fornecer alternativas.
No entanto, como não há alternativas, o Vaticano declarou que o uso das vacinas existentes – particularmente contra a rubéola – é "moralmente justificado" por causa da necessidade maior de proteger as crianças e as mulheres grávidas.
O Vaticano reiterou essa posição dois anos atrás em diretrizes para trabalhadores católicos no ramo da saúde.
Mórmons, episcopais, luteranos e muitas outras denominações cristãs endossam vacinas, aplicam-nas em suas escolas e as distribuem em seus hospitais missionários.
Autoridades de todas as outras grandes religiões apoiam a vacinação. É o que dizem um estudo de Dorit R. Reiss, especialista em direito médico da Faculdade de Direito da Universidade da Califórnia em Hastings, e um artigo na revista "Vaccine" escrito por John D. Grabenstein, funcionário da divisão de vacinas da Merck.
Entre os budistas, o Dalai Lama aplicou pessoalmente em crianças a vacina contra a poliomielite durante uma campanha mundial de erradicação dessa doença. Um dos primeiros relatos de variolação – uma antiga forma de prevenção da varíola – veio de uma freira budista do século XI, que soprava crostas de varíola para dentro das narinas de seus pacientes.

Embora o Vaticano deseje que os fabricantes de vacinas substituam antigas linhagens celulares por novas, especialistas afirmam ser extremamente improvável que isso aconteça.

Embora o Vaticano deseje que os fabricantes de vacinas substituam antigas linhagens celulares por novas, especialistas afirmam ser extremamente improvável que isso aconteça. É de presumir que o tecido fetal humano ainda será necessário.
O processo de testes, que dura vários anos, também teria de recomeçar do zero – e qualquer outra coisa diferente de um produto perfeito na primeira dose poderia pôr em perigo os milhares de bebês nos quais teria de ser testado.
"Provavelmente, um fabricante teria de gastar US$ 1 bilhão", afirma o dr. Paul A. Offit, diretor do Centro de Educação em Vacinas do Hospital Infantil da Filadélfia. "E eles estariam competindo consigo mesmos. Não há absolutamente nenhum incentivo para que isso aconteça."
Por Donald G. McNeil Jr

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