07/05/2019

Escritor israelense Amós Oz tem dois lançamentos póstumos no Brasil

Escritor israelense Amós Oz tem dois lançamentos póstumos no Brasil O israelense Amós Oz, que morreu em dezembro passado aos 79 anos, foi um admirável ficcionista, mas também um intelectual público, surfando décadas a fio no Triângulo das Bermudas político que é o Oriente Médio - por vezes caindo da prancha e engolindo água, porém jamais sumindo do mapa. Qualquer vírgula dele merece atenção, e ainda mais duas obras da estirpe de Sumchi e Do Que É Feita a Maçã, que acabam de sair no Brasil. 
Em 1992, Oz recebeu o Prêmio Frankfurt pela Paz e o prêmio Israel (o mais prestigioso do país). Em 1998 (50.º ano da independência israelense), embolsou o Femina (França). Em 2002 foi indicado para o Nobel e em 2015 para o Booker Prize. Era um daqueles artistas que, ao premiá-los, os prêmios também premiam a si mesmos. 
Oz nasceu em Jerusalém, mas aos 14 anos deu no pé para um kibutz, comunidades agrárias que cultivam o ideal de uma vida camponesa robusta e articulada. Trocou de nome: de Klausner para Oz, que em hebraico significa "força". Em Do Que É Feita a Maçã, ele ri disso: "É o nome que um garoto escolheu, como se assobiasse no escuro para ganhar coragem. Hoje preferiria algo menos melodramático". Oz começou a escrever no kibutz, com o qual partilhava seus direitos autorais. Mais tarde, relativizou a coisa: "Aqueles enclaves idealistas tentavam criar pessoas boas e saudáveis, sem nem sequer desconfiar que nós, seres humanos, não somos nem bons nem saudáveis".
A prosa de Oz, de uma limpidez diamantina, sempre me recorda a dica de Aristóteles: "A perfeição do estilo está em ser claro sem ser raso". O que não exclui imagens arrebatadoras, como esta, em Sumchi, a propósito de metamorfoses: "Um belo dia esse caixa se tornou baterista de um clube noturno. Mas na verdade não foi um caso de troca, foi como uma meia na qual se enfia a mão para revirá-la toda, de dentro para fora".
Sumchi é uma pequena obra-prima. O herói epônimo tem onze anos e vive na Jerusalém ocupada pelos britânicos, depois da 2ª Guerra Mundial. Ganha uma bicicleta, mas depois a troca por um trenzinho elétrico, e depois este por um cão, que lhe foge, e assim o contempla com o primeiro amor. Oz contou esse "causo" outras vezes, em autobiografias e ficções (como Pantera no Porão). Trata-se de um rito de passagem, mas não só infantil: o menino deve prosseguir com fantasias pueris de violência ou dar o passo para a próxima etapa, se expondo tanto a amar quanto a odiar, e na qual perguntas e respostas se tornam cada vez mais ambíguas? 
Os devaneios belicosos de Sumchi são contra o ocupante britânico, mas também contra as meninas, numa disciplina viril: "No recreio eu provocava Esti duas ou três vezes até magoá-la e brotarem as lágrimas. Por isso nossa educadora me aplicava castigos que eu enfrentava como um homem, com os lábios bem apertados".
Mas Amós Oz nunca derrapa na santimônia politicamente correta, sempre tão conveniente e facinha. Em Do Que É Feita a Maçã, uma conversa com a editora Shira Hadad, ele evoca: "Quando era garoto, as mulheres se calavam quando os homens falavam. No kibutz era diferente: as mulheres falavam nas reuniões, e de maneira muito assertiva. Mas depois vi que não era legal. Toda essa igualdade entre os gêneros no kibutz estava torta. Na 'libertação da mulher' que houve nos kibutzim era como se estivessem dizendo às mulheres: 'Se você se vestir como um homem e se comportar como um homem e fizer trabalhos de homem, nós a receberemos como um de nós e terá os mesmos direitos'. Mas isto quer dizer: nem batom, nem meias de nylon, nem cosméticos, nada de sinais de sensualidade. Se você abrir mão de tudo que é considerado 'feminino', ou 'sensual' - em suma, se você virar homem -, será recebida com igualdade de direitos. Mas os homens no kibutz nem sonhavam em abrir mão de nem um só dos clichês da masculinidade. Por exemplo, quem queria deixar crescer o bigode deixava crescer o bigode, e não passava pela cabeça de ninguém dizer: 'Aqui entre nós é proibido ter bigode'. Havia uma mulher, uma das fundadoras, já idosa e doente, que me disse: 'Se eu precisasse viver minha vida novamente, abriria mão das comissões e dos cargos públicos, e teria um piano em casa e convidaria amigos e faria saraus em que tocaria, cozinharia, pintaria e receberia pessoas'. Eu lhe disse: 'Acha que é impossível ter as duas coisas?' Ela não respondeu, apenas rompeu num choro terrível. Eu era o único homem em Hulda para quem trocar as fraldas dos filhos era parte da rotina. E não estou falando de 1 milhão de anos atrás, mas de cinquenta anos atrás. O único que não tinha vergonha de ficar pendurando roupa lavada".


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