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    19/05/2019

    A banalidade do mal e suas banalidades

    A banalidade do mal e suas banalidadesNa primeira edição de um dos livros mais clássicos da filosofia política do século XX, As Origens do Totalitarismo (1951), a filósofa Hannah Arendt - disposta a explicar a emergência de formas de governo como o nazismo e, posteriormente, o stalinismo - recupera o coelo qual todos os homens se tornaram igualmente supérfluos como seres humanos.
    Inspirada pelas experiências dos campos de concentração, o mal radical como um mal absoluto - não no sentido de extremo, mas arraigado - transformaria a natureza humana, aniquilando a pluralidade e destruindo a espontaneidade de cada indivíduo.
    Na sua obra sucessora, Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal (1963), a autora avança no debate ético e moral do mal. E surpreende ao concluir que o fenômeno totalitário produziu algo novo: a trivialidade da falência dos valores morais.
    Eichmann, o comandante nazista julgado em Israel em 1961, após ser capturado na Argentina, onde se ocultava, não se tratava exatamente de um carrasco monstruoso que foi personagem importante para operacionalizar a solução final. Mas sim, um burocrata pouco reflexivo e oportunista irresponsável que se restringia à obediência cotidiana da lei.
    A partir do conceito presente no subtítulo, questiona-se: como pessoas comuns são capazes de praticarem o mal ilimitado?
    Desde então, o trabalho de Arendt é recorrentemente recuperado para explicar a emergência do mal, principalmente no contexto político e do espaço público. Ao atentar que o perigo do totalitarismo é permanente, mesmo diante da queda dos regimes propriamente ditos, deixa um alerta que parece ter sido consolidado nos debates contemporâneos. A experiência totalitária parece transcender o século XX ao ser recuperada constantemente como um perigo cristalizado que nos faz companhia permanente.
    As angústias do presente, que se apresentam diante das injustiças e sofrimentos da vida, supostamente parecem reviver as lembranças do fenômeno totalitário. Por outro lado, sendo a história uma narrativa que tem muito a dizer sobre o presente, a constante referência à suposta emergência contemporânea de novos regimes totalitários também pode ser provocada pela educação da nossa atenção referente a esse fenômeno histórico e à forma como construímos uma narrativa confirmatória de que vivemos em um processo sistemático e inescapável de retorno ao estágio chocante de banalização da violência.
    Os diagnósticos atuais sobre a iminência da "ascensão do fascismo", seja no Brasil ou no mundo, esquecem uma das características fundamentais do pensamento arendtiano, que consistem na originalidade em assimilar o fenômeno do Totalitarismo não como uma trivialidade histórica encadeada por leis universais e utopias generalistas.
    O que a transformou em uma das maiores pensadoras do século XX foi seu realismo corajoso por, diante da experiência de eventos tão extremos, negar-se a ser fatalista. Sua filosofia é a filosofia dos começos. A Modernidade nos fez natais e não mortais e, por conta disso, somos seres plurais capazes de agir e começar algo novo.
    A leitura atenta da filosofia de Arendt não sustenta que estamos caminhando para um precipício sombrio de violência generalizada novamente. Nem mesmo confirmaria a ascensão de tantas reencarnações de Hitlers ou Stalins pelos mundo no século XXI.
    Deixo, portanto, a pergunta: será que estamos cada vez mais alheios ao mal, como suspeitam alguns, ou temos mais conhecimento e, por isso, muito mais medo das consequências da sua emergência?
    Marize Schons é professora no curso de Relações Internacionais do Ibmec MGmestre em Antropologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Doutoranda em Sociologia pela mesma instituição.

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