Judeus Sefarditas no Brasil II

Judeus Sefarditas no Brasil IIVimos, na parte I deste conteúdo, como os judeus se estabeleceram na Península Ibérica e fizeram a identidade Sefardita florescer durante o período da presença islâmica na região e também durante a Reconquista. Vimos, também, que seguido a este período iniciou-se uma nova era de antissemitismo na região, protagonizada pela Igreja Católica e sua Santa Inquisição.
O recrudescimento da perseguição católica aos judeus coincide com o início das Grandes Navegações. Assim, foi natural que muitos judeus buscassem refúgio nas novas colônias, longe dos tentáculos da Inquisição, em um mundo que era, àquela época, descrito como paradisíaco e cheio de novas oportunidades.
Estes sefarditas fugitivos – muitos sob o pseudônimo de “cristãos-novos” ou “conversos” –  acabaram sendo os responsáveis por plantar as sementes das primeiras comunidades hebraicas nas futuras nações latino-americanas, tornando-se pioneiros de algumas das maiores colônias semitas fora de Israel na atualidade.

Fernando de Noronha – o sefardita que batizou o Brasil (e os brasileiros)

Como de praxe ao longo da história do povo judeu, alguns indivíduos obtiveram grande destaque atuando no comércio. No contexto do século XVI, a recém-descoberta América era um paraíso de novos commodities que escoavam do Novo Mundo e eram absorvidos com voracidade pelos mercados europeus.
Do lado português da América, a principal atividade econômica foi, por muito tempo, a extração de pau-brasil. O primeiro mercador a obter a autorização da Coroa Portuguesa para este trabalho foi um sefardita converso chamado Fernão de Loronha1.
Apesar de ser este seu nome de batismo, a corruptela “Fernando de Noronha” acabou se popularizando por uma razão simples: enquanto Loronha era um sobrenome plebeu, Noronha era o sobrenome de uma linhagem de reis da região das Astúrias, ou seja, provinha de uma linhagem nobre e respeitada. Assim, teria sido o próprio Fernão responsável por “confundirem” seu nome, provavelmente para escapar da perseguição aos judeus no final do século XV.
Noronha era um mercador relativamente bem-sucedido em Lisboa. Não se sabe ao certo o que o motivou a empreender no Novo Mundo, mas sabe-se que ele estava relacionado com algumas expedições de reconhecimento, que se deram pouco depois do “descobrimento”, muito provavelmente como patrocinador.
Após estas expedições terem noticiado a abundância de pau-brasil nas novas terras (produto que à época era muito usado como corante vermelho na confecção de tecidos nobres e que tinha como uma das causas de seu alto custo o fato de ser importado da Índia), Noronha teria organizado um consórcio entre mercadores lisbonenses e conseguido o auto da Coroa Portuguesa para monopólio da exploração do produto na “Terra de Santa Cruz”.
Sua operação era enxuta – contava com poucos homens, apenas em funções estratégicas, já que o trabalho duro era realizado pelos índios, que voluntariamente extraíam o pau-brasil e o trocavam por utensílios de ferro, espelhos e outros itens manufaturados de baixo valor agregado. Desta forma, o custo de operação era baixíssimo e o faturamento era alto, pois o corante extraído do pau-brasil era um dos preferidos da nobreza europeia, o que permitia que os preços praticados fossem elevados. Assim, a empreitada de Noronha na costa brasileira conseguiu lucros fascinantes com o extrativismo de pau-brasil.


O pau-brasil é fonte de um corante vermelho-vivo muito popular entre a elite europeia no século XVI. Fonte: Só História
Por volta de 1504, a Coroa concedeu a Noronha a posse da então Ilha de São João – que mais tarde passou a ser conhecida como “Ilha de Fernando de Noronha” – fazendo deste sefardita converso o primeiro capitão donatário do Brasil.
“Brasil” este que só passou a ser chamado assim devido ao fato de ser a terra do comércio de pau-brasil. Naquela época, era comum que as colônias recebessem o nome do principal produto extraído de lá – como “Ilha da Madeira”, “Terra do Rio da Prata” (Argentina) etc. Teria sido Noronha, então – responsável pelo bem-sucedido comércio de pau-brasil – de certa forma o responsável pelo atual nome do país.
O próprio gentílico “brasileiro”, devido ao sufixo “eiro/eira”, remete mais ao ofício da extração de pau-brasil (como em “sapateiro” ou “costureira”) do que a uma nacionalidade propriamente dita, que normalmente recebe o sufixo “ano/ana” (como em “americano”, “italiana” ou “australiana”). “Brasileiro” teria sido o termo pelo qual Noronha e seus homens se referiam aos índios brasileiros – mais por trabalharem com o pau-brasil do que por terem nascido aqui –e que acabou virando o denominador de todos os nascidos na Terra do Brasil.

A época açucareira e as Invasões Holandesas

Passado o auge do extrativismo de pau-brasil, o foco da economia na colônia passou a ser a monocultura açucareira desenvolvida no nordeste. Um dos principais clientes deste cultivo era a Holanda, parceira comercial tradicional dos portugueses. Em 1580, com a morte do rei português, herda o trono D. Filipe II, rei da Espanha, tornando-se rei dos dois países, que passaram a ser representados por uma só bandeira e coroa: a União Ibérica.
Na prática, era como se a Espanha fosse agora dona de Portugal. E uma das principais consequências deste novo cenário decorreu do fato de que Espanha e Holanda eram nações inimigas, o que significou que o comércio de açúcar com os holandeses foi interrompido, já que o Brasil agora era, para todos os efeitos, posse espanhola.
Isto levou os holandeses a empreenderem diversas invasões ao longo da costa brasileira2, com a finalidade de colonizare por conta própria a região e reestabelecer o abastecimento de açúcar em seu território. Eles obtiveram êxito no território que hoje equivale ao Estado do Pernambuco por volta da virada para o século XVII.
Os holandeses eram diferentes dos ibéricos em diversos aspectos. Talvez o mais importante destes fosse a religião: enquanto em Portugal e Espanha vigorava a rígida lei da Igreja Católica, os holandeses, em sua maioria protestantes calvinistas, pregavam tolerância religiosa em suas terras. A principal consequência deste fato foi que, assim como se deu no Califado de Córdoba, nas cidades de Olinda e Recife, sob o governo progressista de Mauricio de Nassau, foi permitido aos judeus que praticassem sua religião livremente.


Maurício de Nassau foi governador do domínio holandês no Brasil entre 1637 e 1644. Fonte: Wikimedia Commons
Este novo cenário levou os judeus brasileiros a começarem a se organizar como uma comunidade. Os primeiros registros escritos da presença judaica permanente no Brasil são provenientes de Recife. Durante o período de 1640 à 1654, houve a fundação da primeira sinagoga no Brasil, que foi também o primeiro centro comunitário judaico das Américas: a Kahal Kadosh Zur Israel3 (Santa Comunidade Rochedo de Israel). Além dessa sinagoga, havia também a primeira escola religiosa e um cemitério judaico. Foi o alicerce da comunidade judaica no Brasil.

Evolução do judaísmo no Brasil

O crescimento da comunidade judaica através dos anos aconteceu de forma natural. Aos poucos, a liberdade religiosa foi ganhando espaço no Brasil e novas ondas migratórias de judeus foram desembarcando não só no Recife, mas também em outras capitais – como Belém, durante o ciclo da Borracha, o próprio Rio de Janeiro e São Paulo. Durante a II Guerra Mundial, o Brasil recebeu também imigrantes judeus sob a égide de refugiados de guerra4, o que só foi possível graças aos judeus já estabelecidos aqui.
Hoje, a comunidade judaica brasileira é diversa, composta por diversas frentes de pensamento e diversas linhagens.

Marcas genéticas da imigração sefardita na América Latina

Um estudo publicado na Nature5, de autoria do geneticista colombiano Juan-Camilo Chacón-Duque, aponta uma descoberta interessante sobre a composição genética da população latinoamericana.
A equipe examinou amostras de aproximadamente 6,5 mil indivíduos e detectou a presença de marcadores genéticos sefarditas em todos os países analisados (México, Colômbia, Peru, Chile e Brasil). Em ao menos 23% das amostras, mais de 5% do material genético era composto de DNA sefardita, mesmo em indivíduos não-judeus.
São números que apontam que o fenômeno da migração sefardita não só ajudou a moldar a história do continente, mas também foi elemento constituinte da genética do Povo Latinoamericano.

Judeus Sefarditas I

Referências

  1. VOGDT, J. Fernão de Loronha and the Rental of Brazil in 1502: A New Chronology. Out-1967.
  2. Invasões Holandesas no Brasil. Brasil Escola. Disponível em: https://www.infoescola.com/historia/invasoes-holandesas-no-brasil/. Acesso em jan-2019
  3. RAMOS, F. Kahal Kadosh Zur Israel: o Judaísmo Tolerado no Brasil Holandês. ANPUH – XXIII Simpósio Nacional de História – Londrina, 2005
  4. CYTRYNOWICZ, R.  Além do Estado e da ideologia: imigração judaica, Estado-Novo e Segunda Guerra Mundial. Rev. Bras. Hist. vol.22 no.44. São Paulo  2002
  5. CHACÓN-DUQUE, J. Latin Americans show wide-spread Converso ancestry and imprint of local Native ancestry on physical appearance. Nature Communications 9, art. n. 5388 (19 dez. 2018).
Fonte Original: https://www.genera.com.br/

Postar um comentário

0 Comentários