15/04/2019

Filósofo busca as origens intelectuais do nazismo em livro

Filósofo busca as origens intelectuais do nazismo em livroAs publicações sobre o nazismo formariam uma biblioteca tão vasta que uma vida inteira não daria conta. História, Biografia, Política, Sociologia, Psicologia - cada uma partindo de seus próprios terrenos - dissecaram aquele que foi o maior desastre do século passado, mas acabaram transformando seus recortes particulares na explicação principal, deixando o quebra-cabeças incompleto. 

Munindo-se das ferramentas mais variadas, e juntando as peças do Direito, da História, da Política, da Psicologia e até, da Ciencia Cognitiva, Jean-Louis Vullierme (em O Espelho do Ocidente) se arrisca a resolver o enigma. E faz com versatilidade, perspicácia e rara coragem.

Mobilizando por trás do evento mais traumático do século 20 todas as características mais salientes da cultura ocidental, Vullierme começa por passar em revista o próprio pensamento nazista, a partir de amplas amostras não apenas do Mein Kampf, mas do chamado "Segundo Livro" de Hitler (encontrado em 1961) e de todos os seus discursos. Deixando de lado o costumeiro asco que sentimos, tem a paciência de analisar em minúcias os discursos de Hitler & cia., pois ouvi-los permite identificar as forças profundas que estão no coração da civilização ocidental. O projeto nazista não partiu do nada e nem chegou a seu termo ampliando-se na medida dos seus êxitos, mas nasceu reunindo elementos que estavam presentes antes dele e aos quais conferiu apenas um implacável vigor de execução. 
Supremacismo racial, eugenismo, nacionalismo, antissemitismo, militarismo, positivismo jurídico, colonialismo, terrorismo de Estado - entre tantos outros, compõem as partes do quebra-cabeças nazista, aos quais Vullierme ainda acrescenta dois outros neologismos: "acivilismo" - a ausência de qualquer proteção especial às populações civis nas operações militares ou policiais; e o "anempatismo", a atitude de completa apatia em relação ao sofrimento do outro. Com documentação impressionante, examina cada um destes átomos ideológicos ocidentais, todos já disponíveis quando do surgimento da molécula tóxica que foi o nazismo. 

A comparação que Vullierme articula entre a "conquista do oeste" pelos norte-americanos e o projeto expansionista dos nazistas em direção ao Leste Europeu já foi amplamente documentada e é dificilmente refutável. Foi dos Estados Unidos que veio a formulação "científica" do supremacismo racial, calcado na eugenia e destinado a desempenhar papel central na doutrina nazista. Nada a estranhar ainda que, na parede ao lado da mesa de trabalho do escritório particular de Hitler houvesse um grande retrato de Henry Ford e que, na sala de espera, houvesse sempre um exemplar dos livros histericamente antissemitas do mesmo empresário. O nazismo ainda obteve apoios proativos de empresas como Ford, General Motors, Standard Oil, Kodak e até da Coca-Cola - esta última, mais pela indiferença, já que quando faltou o xarope secreto da bebida na filial alemã, criou a Fanta, feita com sobras de bagaços de frutas e água gaseificada. Sem falar da IBM, que forneceu e fez a manutenção de suas máquinas de processamento de cartões perfurados que serviam para a gestão dos campos de concentração. 

Para não recair nas armadilhas comuns, o autor evita até mesmo o vocabulário mais usual. Em vez de "Holocausto", "Tragédia" ou até, "Genocídio", o autor se fixa somente em "extermínio", já que o vocábulo designa genericamente não apenas o extermínio dos judeus, ciganos e outros grupos, mas abrange todas as experiências históricas da brutalidade ocidental.
Elias Thomé Salib é historiador, professor titular da USP e autor, entre outros livros, de "As utopias românticas".

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