19/03/2019

Carta de vítima de campo de concentração de Auschwitz ressurge do passado

Carta de vítima de campo de concentração de Auschwitz ressurge do passado "Desde que estou aqui, jamais acreditei na possibilidade de retornar. Aqui é um outro mundo. É o Inferno. Mas o inferno de Dante é imensamente ridículo em relação ao verdadeiro daqui, e nós, como testemunhas oculares, não devemos sobreviver. Apesar de tudo, mantenho, por vezes, uma pequena faísca de esperança - talvez por um milagre qualquer. Eu que já tive tanta sorte, um dos mais velhos aqui, sobrevivi a tantos obstáculos, será que ocorrerá o milagre final? Mas, neste caso, chegarei antes que seja encontrada esta carta enterrada".

O trecho acima faz parte de uma carta de oito páginas escrita em 6 de novembro de 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, no campo de concentração nazista de Auschwitz-Birkenau, e que hoje, 75 anos depois, ressuscita do passado em uma trama detetivesca que corrige a História ao revelar a verdadeira identidade de seu autor e surpreende seus familiares. Assinada apenas por "Hermann", a carta foi descoberta em fevereiro de 1945 por um enfermeiro da Cruz Vermelha, Andrejz Zaorski, dentro de uma garrafa de vidro sob os escombros de um dos crematórios de Auschwitz.

Judeu polonês de Varsóvia, radicado em Paris e deportado do campo francês de Drancy em 2 de março de 1943, conforme descreveu em sua carta, Hermann foi imediatamente selecionado em Auschwitz para integrar o Sonderkommando (comando especial), grupo encarregado de transferir os cadáveres das câmeras de gás para os crematórios - o que incluía retirar as vestes, cortar os cabelos e extrair os dentes de ouro dos corpos -, função que exerceu por cerca de 20 meses.

Os membros do Sonderkommando eram isolados dos demais prisioneiros e, como testemunhas das práticas de extermínio, a Solução Final, estavam condenados à morte. Um mês após a conhecida revolta de integrantes do comando especial do Crematório IV, em 7 de outubro de 1944, Hermann, intuindo seu fim próximo, escreveu uma carta de despedida para sua mulher, Hela, e sua filha única adolescente, Simone, que permaneceram escondidas na França durante a guerra, e a enterrou. Trata-se da única carta manuscrita em francês do total de oito encontradas no campo de autoria de integrantes do Sonderkommando.

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