O que diz a lei judaica sobre vacinação?


O que diz a lei judaica sobre vacinação?

Pergunta:

Tem havido recentemente muito debate sobre o assunto da vacinação. Como pai, estou curioso para saber o que a lei judaica tem a dizer sobre o tópico.
Cidadão Informado

Resposta:

Caro Cidadão Informado,
Obrigado pela sua pergunta! Ou talvez eu devesse dizer perguntas, porque o tópico da vacinação tem muitos sub-tópicos e questões que precisam ser abordadas. O que torna sua pergunta ainda mais complexa é o fato de que o termo vacinação é muito amplo – há algumas vacinações que são para doenças que ameaçam a vida, e outras para males que não ameaçam. Também, segmentos diferentes da população poderiam ter riscos diferentes baseados em sua idade e localização, e assim por diante. Porém, antes de abordarmos a questão de vacinação especificamente, primeiro precisamos entender a opinião da Torá sobre a importância de proteger sua saúde em geral.

O Mandado Haláchico para Tomar Precauções

Proteger a própria saúde não apenas faz sentido, na verdade é uma mitsvá. Isso significa que se você não quer fazer isso, qualquer que seja o motivo, ainda assim é obrigado a fazê-lo. A Torá está nos ensinando que nosso corpo é um presente de D'us e por tanto não somos os donos dele e não podemos causar-lhe qualquer dano.1
Não basta lidar com questões de saúde quando elas surgem; devemos tomar precauções para evitar o perigo. O capítulo final do Código da Lei Judaica enfatiza que “assim como há um mandamento positivo para construir uma proteção ao redor do perímetro de um telhado para que alguém não caia, também somos obrigados a nos resguardar de qualquer coisa que pudesse colocar nossa vida em perigo, como diz o versículo:2‘Somente se proteja e guarde grandemente sua alma…’”3
Como um exemplo dessa regra, Rabi Moshe Isserles (conhecido como o Rema), um dos mais destacados tomadores de decisões haláchicas, escreve que quando uma praga irrompe numa cidade, os habitantes não deveriam esperar que a praga se espalhe. Mas sim, eles (com algumas exceções4) são obrigados a tentar e fugir da cidade logo no início.5 Quando há uma epidemia, fugir não apenas é sua obrigação, mas como pai você tem a obrigação de garantir a segurança de seus filhos.
Rabi Yeshayaha Levi Horowitz, conhecido como o Shelah, escreve que qualquer pai que não tira seus filhos de uma cidade afetada por uma epidemia é considerado responsável pelo que acontecer a eles.6
Estabelecemos que a pessoa deve fazer tudo que puder para salvar a si mesma, aos filhos, e também aos outros de possíveis riscos à vida, e poderia parecer que não há diferença entre vacinação e ter de fugir de uma cidade quando há uma epidemia.
Porém, a questão de vacinações gerais quando não há epidemia parece ser um pouco mais complexa.

Vacinações

As diretivas encontradas no Código da Lei Judaica para evitar o perigo não carregam quaisquer riscos por si mesmos (ex., fugir da cidade, não comer carne e peixe juntos, ou não colocar moedas na boca). As vacinas, no entanto, podem ter alguns riscos, por menores que possam ser. Assim nos apresentam a questão se alguém pode tomar um pequeno risco agora a fim de evitar um risco maior mais tarde.
Ao lidar com esse assunto uma das lideranças na época da descoberta da vacina contra a varíola durante o Século 19, Rabi Yisroel Lipschutz (famoso pelo seu comentário sobre a Mishná intitulado Tiferet Yisrael), decretou que apesar do risco de morte pela vacina contra a varíola (naquela época de 1/1000), mesmo assim as pessoas deveriam ser vacinadas.7
Porém decretaram que como atualmente o risco de contrair muitas daquelas doenças tem sido grandemente eliminado – ou pelo menos, é significativamente menor que durante as epidemias de varíola – portanto, mesmo se o risco de efeitos colaterais também é muito baixo, o que nos resta são dois riscos opostos, e o ditado talmúdico de shev v’al taasêh adif8 – “em alguns casos de dúvida, é melhor se sentar e não fazer nada” – aplica-se, e a pessoa não deveria se vacinar.9
Quando a vacina da poliomielite estava sendo implementada em Israel, alguns procuraram o Rebe, Rabi Menachem M. Schneerson, de sagrada memória, para pedir sua opinião. Segue-se um resumo de suas respostas:
No inverno de 1957 o Rebe escreveu uma resposta, frisando que estava se apressando para fazê-lo por causa da importância da questão em pauta: … A respeito de sua pergunta sobre inoculações contra doença:
Fiquei surpreso pela sua pergunta, pois tantos indivíduos da Terra de Israel me perguntaram sobre isso e lhes respondi na afirmativa, pois a enorme maioria de indivíduos aqui [nos Estados Unidos] faz isso com sucesso. Compreensivelmente, se há inoculações que são produzidas por múltiplas empresas farmacêuticas, você deveria usar aquelas cujo produto tem sido usado e provado ser seguro.10
Na primavera de 1956 o Rebe escreveu:
… Em resposta à sua carta na qual pede minha opinião sobre as injeções que são comumente dadas a crianças pequenas: É com respeito a questões como essas que o axioma “Não se coloque à parte da comunidade” se aplica. Você deveria agir de acordo com aquilo que é feito pelos [pais da] maioria das crianças que estão nas salas de aula de seus filhos…11

Mesmo quando a vacina contra a poliomielite efetivamente eliminou a terrível doença, houve exemplos nos quais injeções defeituosas provocaram doença. Numa carta no inverno de 1957, o Rebe abordou esse tema:
… O evento que ocorreu nos Estados Unidos foi no início do uso dessas vacinas, antes que a composição médica [exata] fosse definitivamente estabelecida. Não é este o caso no presente, após meses de experiência com a vacina.
Portanto, uma vez que a confiabilidade da vacina está firmemente estabelecida, não há por que se preocupar. Pelo contrário…12
Numa declaração semelhante, Rabi Shlomo Zlaman Auerbach, um dos proeminentes rabinos do século passado, decreta que se alguém tem preocupação razoável sobre os perigos de não ser vacinado, e a única chance de ser imunizado é no Shabat (ou a pessoa teria de esperar 4 ou 5 anos pela próxima chance de ser imunizada), então a imunização seria permitida no Shabat.13

Vacinações Obrigatórias

Presumindo vacinar-se quando um alto risco de pegar uma doença é similar a fugir de uma epidemia, então é obrigatório para você fazer isso, e outros podem também ser obrigados a fazer. A questão que ainda precisa ser abordada é se, sob uma perspectiva puramente haláchica, podemos obrigar a isso mesmo quando não há epidemia atualmente.
Alguns afirmam que como as vacinas se tornaram a prática aceita e padrão, é obrigado a todos os pais provê-las para seus filhos. Assim, seria correto obrigar a vacinação.14Outros, no entanto, são da opinião de que embora às vezes possamos forçar alguém a receber tratamento médico, não podemos, sob uma perspectiva puramente haláchica, obrigar uma pessoa sadia ou um pai a vacinar, mesmo se a sua recusa é baseada num “medo irracional.”15
Obviamente, como em todos os casos, especialmente com respeito à saúde das crianças, a pessoa deveria consultar um médico pessoal, um doutor licenciado. Se o seu médico pessoal aconselha você a não se vacinar devido a preocupações específicas, então você não deveria se vacinar.

Alimento para Pensamento

Tendo discutido a abordagem da Torá sobre vacinas em geral, deveria ser notado que nem todas as vacinas são necessariamente iguais, e algumas apresentam questões únicas por si mesmos. Por exemplo (varicela), embora inconveniente, é relativamente benigna e raramente fatal em crianças. Por outro lado, embora adultos sejam menos suscetíveis a infecção da varicela, são mais prováveis de morrer de catapora. Talvez, alguém argumente, seria melhor para a criança ter catapora do que ser vacinada?16
Outra questão em potencial surge com a vacina contra a pólio. Ocorrências de pólio têm sido encontradas em partes de Israel o que pode afetar pessoas não vacinadas. Para remediar isso, há uma campanha para introduzir uma corrente de vírus vivo enfraquecido nas crianças que já foram inoculadas mas podem ainda transmitir o vírus para outras. Tendo recebido o vírus vivo, a criança não vai adoecer, mas lutará contra o vírus e não será um portador, ajudando assim a erradicar completamente o vírus. No entanto, ao mesmo tempo, essa criança não pode entrar em contato próximo com pessoas imuno-deficientes, que irão contrair a doença mesmo por um vírus vivo enfraquecido. A questão então é: comprometemos a saúde de algumas pessoas imuno-deficientes com as quais entramos em contato, para o bem maior?
Em resumo, como ocorre com muitas outras questões da lei judaica, um debate aberto e educado baseado nos princípios da Torá e nas opiniões dos nossos sábios é vital para atingir um consenso. Como escreve o Rebe, é com respeito a questões como essas que o axioma “Não se coloque separado da comunidade” se aplica.


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Vacinação como uma Lição de Vida

Vamos concluir com o incidente a seguir relatado pelo Rebe, rabi Menachem Mendel Schneerson, de abençoada memória.
Um judeu visitou-me recentemente, e discutimos sobre educação. Ele me contou que as estatísticas têm mostrado que uma má educação prejudica somente 5 por cento das crianças.
Perguntei a ele se tinha vacinado seus filhos contra sarampo, pólio, etc. Ele respondeu: “Claro! Somos pais!”
“Você sabe qual porcentagem de crianças que não recebem a vacina contraem realmente a doença?”, perguntei. Ele sabia a estatística – menos que 3 ou 4 por cento. Em outras palavras, mesmo por uma possibilidade de 4 por cento, e especialmente nesses países onde essas doenças são ainda mais raras, ainda é válido vacinar, com toda a dor que isso causa. Por quê?
“Quem se preocupa com aquelas pequenas inconveniências, quando comparadas com aquilo que possivelmente poderia acontecer sem a vacinação?” ele respondeu.
Eu disse a ele: “Se por uma dúvida de 4 por cento vale causar dor à criança, suportar o grito da criança e todos os outros efeitos da vacinação, apenas para evitar a doença – embora para a maior parte não há sequer uma possibilidade de qualquer perigo à vida, mas sim apenas desconforto durante algum tempo – muito mais então vale a pena assegurar a saúde da alma da criança, onde a dúvida é de 5 por cento, e onde a vacina não causa qualquer dor. Tudo que é requerido é matricular a criança para estudos num local educativo de verdadeira Torá! Essa ação vai afetar sua vida inteira!
NOTAS
1.
Mishnê Torá, Hilchot Rotzeach 1:4; Shulchan Aruch ha-Rav, Choshen Mishpat, Nizkei HaGuf 4.
2.
Devarim 4:9
3.
Uma exceção a essa regra seria qualquer profissional de saúde capaz de conter a epidemia da praga.
4.
Uma exceção a essa regra seria qualquer profissional de saúde necessário para conter a maré da praga. Mais sobre isso, veja: A lei judaica permite que uma enfermeira trate um paciente de ebola?
5.
Glossários de Remano Shulchan Aruch, Yoreh De’ah 116:5.
6.
Veja comentários de Ba’er Heitev e Mishna Berurá no Shulchan Aruch, Orach Chaim 576:7.
7.
Tiferet Yisrael, Yoma 8:3.
8.
Talmud, Eruvin 100 a.
9.
De nossa pesquisa, não parece que essa opinião tenha sido adotada por nenhum dos principais líderes haláchicos.
10.
Rabi Menachem M. Schneerson, Igrot Kodesh, vol. 14, pag. 357.
11.
IBID., vol. 11, pag. 137.
12.
IBID., 14, pag. 343.
13.
Minchat Shlomo 2:29:4.
14.
Rabi Yosef Shalom Elyashiv, citado pelo Rabi Akiva Tatz, Dangerous Disease & Dangerous Therapy, pag. 48.
15.
Veja Nishmat Avraham, Choshen Mishpat 426b e 4227a.
16.
Veja o The New York Times, “Chicken Pox Vaccine Lose Effectiveness in Study” (March 5, 2007), retirado de HTTP.

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