A Catedral do Mar

Nova série espanhola relata as injustiças sociais do século XIV em uma Barcelona medieval, sendo uma boa pedida para quem gosta de romances e séries históricas.

Mariza Santana


Para quem gosta de romances e séries históricas que têm como cenário a época medieval, a nova série da Netflix de produção espanhola, ”A Catedral do Mar”, reúne todos os ingredientes necessários para garantir um bom entretenimento: segregação social, amor e vingança, além da onipresença da Inquisição Espanhola, instituição que significava o poder e a repressão religiosa naquela época na Península Ibérica.
A série nos remete a uma das campeãs de audiência da categoria: Pilares da Terra, de Ken Follett, que também tem como pano de fundo a construção de uma catedral. Na série espanhola, a época é o século XIV, e a construção da Catedral do Mar, no bairro da Ribeira, em Barcelona, está em pleno vapor. Enquanto isso, o sistema de classes medieval garante todos os direitos e privilégios aos nobres, enquanto os servos permanecem presos à terra e aos seus senhores, sobrevivendo em meio à maior miséria e injustiça.
Nesse contexto, o protagonista é Arnau, filho de um servo que fugiu da opressão de seu senhor feudal e foi para Barcelona em busca de liberdade e uma vida digna. Mas na cidade também enfrenta dificuldades, fome, e acaba enforcado por participar de uma rebelião popular causada por falta de víveres. Órfão, o jovem Arnau entra para a confraria dos estivadores que carregam pedras para a construção de nova catedral gótica que iria acolher a imagem de Nossa Senhora do Mar.

Dividido entre duas mulheres, questões sentimentais o levam a se envolver na guerra. Depois, no retorno à sua cidade, enfrenta a crueldade trazida pela peste que dizimou grande parte da população barcelonesa. Como todo personagem fictício histórico (feito para agradar o público dos dias atuais), Arnau está à frente do seu tempo, não tem preconceito em relação aos judeus, perseguidos no período medieval em toda a Europa, e vai conquistando seu espaço e ascensão social, ao adotar a profissão de cambista.
As cenas do interrogatório e do julgamento são marcantes
|Foto: Divulgação/Netflix
Vale lembrar que naquela época a troca de moedas e recibos estavam nas mãos dos judeus, que já mantinham informalmente uma extensa rede de casas de câmbio nas principais cidades da Europa. Eles eram os principais credores de nobres e reis, mas nem por isso, ou por isso mesmo, eram segregados e perseguidos. Isso embora tenham sido grandes responsáveis pelo mercantilismo nascente, pela formação e fortalecimento da atividade comercial e pelo surgimento futuro de uma nova classe: a burguesia.
Entretanto, não vale a pena ficar aqui antecipando o desenrolar da série e do que acontece com Arnau, mas destacar o que chamou a atenção nela ou o que pode ser destacado. Primeiro: a situação de abandono que viviam os servos, totalmente à mercê dos nobres. Esses últimos tinham o direito, inclusive, de violentar as esposas de seus servos no dia do casamento deles. Um costume medieval hoje considerado abominável, mas que era comum no século XIV.
A peste, presente na série, mostra como essa doença liquidou indistintamente nobres e simples cidadãos, sem respeitar classe social. Outra participação importante para o desenrolar do drama da série é a da Inquisição Católica. Arnau, ao se tornar uma pessoa de influência política em Barcelona e colaborar na defesa da cidade contra invasores vindos pelo mar, também atrai a inveja e o desejo de vingança de seus inimigos. E será a longa e pesada mão da Inquisição que finalmente o alcançará, levando-o da glória conquistada às masmorras dos inquisidores.
O protagonista é acusado de ser amante de mulher judia e filho de bruxa.  As cenas do interrogatório e do julgamento são marcantes. Afinal, são apenas oito episódios tão eletrizantes, tornando possível para quem o assiste enfrentar uma maratona no fim de semana para trilhar todo o drama, do início ao fim, refestelado na poltrona da sala.
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