Sobreviventes do Holocausto relatam suas memórias em Sorocaba

Sobreviventes do Holocausto relatam suas memórias em Sorocaba
Campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, o maior de todos.
Crédito da foto: Divulgação / Fotos Púbicas
Eles refizeram sua vida no Brasil e foram protagonistas de encontro sobre intolerância na Fadi
O polonês Julio Gartner, 94 anos, e o romeno Joshua Strul, 85 anos, sobreviveram ao Holocausto nazista executado contra a comunidade judaica durante a Segunda Guerra Mundial. Passado e presente caminham juntos ao longo da existência desses dois homens e de todas as vítimas que conseguiram sobreviver aos campos da morte. Eles viveram a experiência dos guetos e campos de concentração que acumularam uma contabilidade macabra de seis milhões de mortos. Conheceram as piores privações na rotina de terror e assassinatos imposta aos judeus e outras minorias pelo líder nazista Adolf Hitler.

Sobreviventes do Holocausto relatam suas memórias em Sorocaba
O polonês Julio Gartner, 94 anos, viveu quase um ano escondido em buraco. Crédito da foto: Fábio Rogério

No conjunto da tragédia, foram discriminados por leis racistas. Suas famílias tiveram todos os bens confiscados. Viram muitos embarcados em trens que tinham como destino as câmaras de gás e as mortes em massa. Foram tempos de fome e crueldade humana. “Uma simples e mísera migalha de pão fazia diferente entre a vida e a morte”, recorda Strul. “A cabeça não consegue pensar em nada mais a não ser em comida”, recorda Gartner sobre a tortura da fome.
Após a libertação dos campos, vieram para o Brasil. Gartner veio em 1947, e Strul, em 1955. Aqui refizeram suas vidas. Moradores de São Paulo, eles estiveram em Sorocaba no último dia 16. Foram os protagonistas do encontro “Intolerância e Guerras Sociais” organizado pelo Centro Acadêmico Dr. Rubino de Oliveira, da Faculdade de Direito (Fadi).
O documentário “Sobrevivi ao Holocausto”, que conta a história de Gartner, foi exibido no auditório da Fadi. Os dois sobreviventes estavam acompanhados do cineasta Márcio Pitliuk, diretor do filme e palestrante sobre o tema do Holocausto, e do professor e pesquisador da ESPM, Gustavo Dainezi.

Sobreviventes do Holocausto relatam suas memórias em Sorocaba
O romeno Joshua Strul, 85 anos, recordou a tortura da fome e as câmaras de gás. Fábio Rogério

Radiografia do mal

Entre os muitos horrores da Segunda Guerra que nunca serão totalmente digeridos pela humanidade, o Holocausto é um dos maiores desafios. Estudiosos se debruçam sobre documentos para tentar responder a questões como até aonde vão os limites do mal e por que a sociedade alemã, notável pelos expoentes do conhecimento nas artes, nas ciências, na tecnologia, rendeu-se ao totalitarismo do governo nazista que invadiu a Polônia em 1º de setembro de 1939, dando início a uma guerra que durou seis anos com saldo total estimado em 60 milhões de mortos.
Como testemunhas de quem viveu os traumas do Holocausto, Gartner e Strul responderam essas questões para uma plateia de estudantes, professores e convidados. Gartner lembrou que a Alemanha, após o fim da Primeira Guerra em 1918, estava arruinada. “Quando não se tem o que comer, alguém aparece oferecendo comida”, disse. Esse alguém era Hitler. “Eles (os alemães) acreditavam.”
A indústria de comunicação de massa também reforçou o preconceito contra os judeus, na análise de Strul: “A imprensa descrevia o judeu como o câncer do mundo.” Após a invasão nazista, toda a Romênia se transformou: “Sinagogas foram transformadas em estábulos, escolas foram fechadas, todos os bens foram confiscados, as casas abandonadas pelas pessoas.”

Sobreviventes do Holocausto relatam suas memórias em Sorocaba
Estudantes, professores e convidados lotaram o auditório da Fadi para ouvir os relatos que emocionaram e chocaram os mais jovens diante da crueldade dos fatos narrados. Crédito da foto: Fávio Rogério

Gartner tem presente na memória as primeiras batalhas da invasão alemã à Polônia: “O soldado polonês era muito valente, lutava com facas contra tanques.” Após a invasão, com base em decretos, o regime de Hitler impôs uma nova Constituição ao país humilhado: “O judeu não podia trabalhar, nem estudar, nem sair de casa após as 5 horas (da tarde). O judeu não podia ficar nas suas casas, tinha que ir para o confinamento denominado gueto.” Ele ficou com os pais, e dois irmãos fugiram para a antiga União Soviética (atual Rússia).

Escondido no buraco

A estadia em um gueto durou nove meses. Outros decretos determinaram que os judeus não podiam mais ficar nesses locais e tinham que ir para os campos de concentração. Nesse período, Gartner viveu quase um ano escondido em um buraco e de lá saía à noite para trabalhar em troca de comida. Havia poloneses que, com o risco da própria vida, ajudavam os judeus a se esconderem. Essa atitude, caso fosse descoberta, era punida com a morte. E muitos morreram por terem cometido o “crime” (segundo as leis nazistas) de salvar as vidas de judeus.

Sobreviventes do Holocausto relatam suas memórias em Sorocaba
Milhões de pares de sapatos simbolizam os mortos no Holocausto. Crédito da foto: Divulgação / Fotos Púbicas

Tempos depois, descobriram a rotina de Gartner no esconderijo e então começou a sua trajetória de horrores em cinco campos de concentração. E ele captou uma lição de vida: “Todos os grandes acontecimentos na história foram feitos pelos líderes, como a Revolução Francesa. Hitler era um grande líder, bastante aliado do mal, e conseguiu levar o povo com ele.”
Strul afirma que o Holocausto foi premeditado, planejado, legitimado, não foi obra do acaso. A figura de Adolf Eichmann, outro líder nazista, ganhou destaque central nos depoimentos: “Dizem que o homem é o pior animal que existe. Esse monstro, Eichmann, alegou que os fins justificam os meios, não matou somente judeus. Em nome da raça pura, ele matou outras minorias.”
Terminada a guerra, a família de Strul tentou refazer a vida em Moinesti, cidade romena de origem, próxima à Ucrânia, mas foi impossível a adaptação às novas leis impostas pela antiga URSS. A partir do contato de um irmão, que tinha um conhecido em São Paulo, veio para o Brasil. Recomeçou a vida na capital paulista, como vendedor de porta em porta, e anos depois se transformou em empresário do comércio.
Para Gartner, o fim da guerra apresentou duas opções: ou continuava preso ao passado ou decidia seguir em frente e superar o sofrimento. Ele decidiu pela segunda alternativa. Pouco falava da experiência nos campos nazistas. Há nove anos, quando participou em companhia de um neto de um roteiro por campos na Europa denominado “marcha pela vida”, o neto chorou muito diante de um cenário de cinzas de corpos incinerados em fornos crematórios. E então o avô compreendeu que precisava dar testemunhos do que viu e viveu como contribuição para que a memória da intolerância não seja esquecida e isso contribua para que ela não se repita jamais.

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Homens, mulheres e crianças também morriam por maus tratos e doenças. Crédito da foto: Divulgação / Fotos Púbicas

Primo Levi

Como Gartner e Strul, o escritor italiano Primo Levi (1919-1987) também conheceu o horror do Holocausto. Deportado em 1944 para Auschwitz, ele sobreviveu. De 650 judeus deportados no seu grupo, somente três sobreviveram. Como parte do esforço para exorcizar o trauma do sofrimento, Levi deixou suas memórias em livros que se tornaram clássicos da literatura. Entre os destaques encontram-se “E isto é um homem?”
A obra narra o cotidiano de trabalhos pesados, humilhações e assassinatos que reduziram a algo inqualificável o que era antes um homem digno desse nome. “A necessidade de contar aos outros, de tornar os outros participantes, alcançou entre nós, antes e depois da libertação, caráter de impulso imediato e violento, até o ponto de competir com outras necessidades elementares. O livro foi escrito para satisfazer essa necessidade em primeiro lugar, portanto, com a finalidade de libertação interior” — escreve Levi no prefácio da edição brasileira pela editora Rocco, com tradução de Luigi Del Re.

Reprodução: https://www.jornalcruzeiro.com.br/suplementos
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