Quanto vale uma Tefilá?

Coisas Judaicas           

"Yaacov viveu uma vida de muita pobreza. Não havia comida suficiente para alimentar sua família, ele não conseguia pagar suas contas e nunca em sua vida conseguiu ajudar outros necessitados. Ele não tinha idéia de como mudar esta terrível situação. Tentou diversos tipos de trabalho, mas o dinheiro nunca era suficiente.

Certa vez um amigo lhe contou que havia escutado que na casa onde Yaacov vivia havia um incrível tesouro enterrado sob as tábuas do assoalho, mas Yaacov não acreditou. Outras pessoas também comentaram a mesma coisa, mas Yaacov continuava cético. De tempos em tempos ele dava uma pancada no assoalho com o calcanhar, mas sem muita vontade, para ver se escutava o som de moedas, mas escutava somente um som oco.

Quando Yaacov já estava velhinho, certo dia sentiu que suas forças terminavam. Em seu leito de morte, viu quando uma pessoa entrou em sua casa, levantou uma tábua solta do assoalho e retirou de lá um baú cheio de ouro e pedras preciosas. A riqueza que poderia ter dado a Yaacov e sua família uma vida digna estava dentro daquele baú. Diante dos seus olhos escurecidos passaram os detalhes de toda a sua vida miserável. O remorso de nunca ter procurado o tesouro foi uma facada no coração de Yaacov, que deu seu último suspiro e morreu". 

Este sentimento de remorso certamente estará presente em todos aqueles que não acreditam e não utilizam a força da Tefilá (reza). Muito do que a pessoa precisa na vida já está pronto para ela, só falta ela pedir para D'us. Mas nós não pedimos. Nos esforçamos, trabalhamos mais e mais, mas não fazemos o mais importante: Tefilá.


Nesta semana lemos a Parashá Vaetchanan (literalmente "Eu implorei"), na qual Moshé continuou recordando os principais acontecimentos dos 40 anos em que o povo permaneceu no deserto, entre eles a reclamação do povo por água, que causou com que Moshé batesse na pedra ao invés de falar com ela, recebendo o decreto espiritual de não entrar mais na Terra de Israel. Porém, mesmo assim Moshé não desistiu e continuou implorando para que D'us revogasse o decreto. Nossos sábios explicam que a linguagem "Vaetchanan" tem o valor numérico de 515, que corresponde ao número de vezes que Moshé Rabeinu rezou e implorou para que pudesse entrar em Israel, tamanho era o seu amor pela Terra e pelas Mitzvót que poderia cumprir lá.

Porém, há alguns questionamentos em relação a este ensinamento. Moshé, apesar de se assemelhar a um anjo, fez um erro que, em seu nível, foi algo muito grave, pois perdeu a oportunidade de santificar o nome de D'us diante do povo, o que os ajudaria em sua elevação espiritual. Foi por isso que D'us o castigou com um decreto tão duro. Portanto, se D'us já havia feito um decreto nos mundos espirituais, de que adiantava Moshé rezar?

Além disso, Rashi (França, 1040 - 1105) nos ensina que, em Lashon HaKodesh (língua através da qual D'us criou o mundo), existem 10 linguagens diferentes para reza. O que representa a linguagem "Vaetchanan" e por que Moshé escolheu justamente esta linguagem para transmitir ao povo que ele havia rezado?

Outro questionamento surge quando observamos o conteúdo da reza de Moshé. A Parashá começa com as seguintes palavras: "Eu implorei a D'us naquele momento e disse: 'D'us, você começou a mostrar ao Seu servo a Sua grandeza e a Sua mão forte, pois quem é como D'us no Céu ou na terra que pode fazer como Suas ações e Seu poder? Por favor, deixe-me atravessar e ver a boa terra que está do outro lado do Jordão'" (Devarim 3:23-25). Percebemos que, antes de fazer seu pedido, Moshé se alongou em louvores a D'us. Mas D'us precisa de louvores? Por que Moshé não foi direto ao ponto?

E, finalmente, se D'us sabe tudo, Ele já sabia que Moshé queria entrar na Terra de Israel, já conhecia o amor dele pela Terra e sua vontade de cumprir as Mitzvót. Então por que Moshé precisou pedir?

Explicam os nossos sábios que da Tefilá de Moshé Rabeinu aprendemos muitos ensinamentos práticos para nossa própria Tefilá. Por exemplo, o Talmud (Brachót 10a) afirma que "mesmo que uma espada afiada esteja colocada sobre o pescoço de uma pessoa, ela não deve desistir da misericórdia de D'us". Isto vale para situações do mundo material, como uma pessoa literalmente em uma situação de perigo de vida, mas também vale em relação à anulação de decretos espirituais. Moshé, mesmo sabendo que havia um decreto espiritual que o impedia de entrar em Israel, não deixou de rezar.

Mas de onde Moshé aprendeu que a Tefilá pode anular até mesmo decretos Celestiais? Observando os atos de D'us. Quando houve o decreto de destruição de todo o povo judeu, após a terrível transgressão do bezerro de ouro, D'us falou para Moshé "E agora Me deixe, e Minha fúria queimará sobre eles e Eu os destruirei, e Eu farei de você um povo grande" (Shemot 32:10). Moshé então se perguntou: "Por acaso eu estou segurando D'us e O impedindo de cumprir o Seu decreto? Por que Ele está dizendo 'Me deixe'?". Moshé entendeu que D'us estava dizendo: "Está nas suas mãos salvar o povo judeu. Depende da sua Tefilá. Se você Me deixar, isto é, se você não fizer nada, Eu destruirei o povo. Mas sua Tefilá pode anular o decreto Celestial". Por isso Moshé entendeu que a Tefilá também tinha força para cancelar o decreto de não poder entrar na Terra de Israel.

Um segundo ponto que aprendemos da Tefilá de Moshé é a linguagem utilizada por ele. "Vaetchanan" vem da linguagem "Lechanen", que significa "agraciar". Rashi explica que esta expressão se refere a "Matanat Chinam", um "presente gratuito". Normalmente pedimos para D'us as coisas com o sentimento de que Ele está nos devendo, como se fosse obrigação Dele nos dar o que precisamos. Achamos que somos tão bons e corretos que temos o direito, pelos nossos méritos, de cobrar de D'us, como se disséssemos: "Minha parte eu já fiz, D'us. Agora faça a Sua parte". Porém, não é assim que os Tzadikim (Justos) se comportam. Quando eles pedem algo para D'us, o fazem com o sentimento de que receberão um presente gratuito, isto é, eles sabem que não merecem receber nada e que tudo o que D'us nos dá é apenas por causa da Sua infinita Misericórdia. Os Tzadikim sentem como se sempre estivessem devendo para D'us e nunca cobram nada Dele. Assim também deve ser a intenção dos nossos pedidos durante a Tefilá, não como uma cobrança de D'us, e sim como um pedido baseado na Sua misericórdia infinita.

Aprendemos também de Moshé que, antes de pedir algo para D'us, devemos louvá-Lo e engrandece-Lo. É por isso que a nossa principal Tefilá, a Amidá, é dividida em três partes: Louvores, Pedidos e Agradecimentos. Antes de começarmos a pedir algo, louvamos a D'us e reconhecemos a Sua grandeza. D'us não precisa dos nossos louvores, mas nós precisamos, para que antes de nos dirigirmos a D'us possamos lembrar quem Ele é. Para falar com um presidente, uma pessoa precisa de meses de espera, além de passar por um verdadeiro exército de secretárias e assessores. Mas com D'us, o Rei dos reis, é o contrário. Apesar Dele ser infinito, enquanto nós somos insignificantes diante Dele, mesmo assim Ele nos escuta e anseia pela nossa Tefilá.

Finalmente, se D'us sabe tudo, então por que precisamos pedir? Para que possamos colocar no nosso coração a certeza de que tudo vem Dele. Muitas vezes nos perdemos na escuridão e confusão do mundo material. Achamos que a cura vem do médico e dos remédios. Achamos que encontrar a nossa "alma gêmea" depende das pessoas que vão nos apresentar alguém que combina conosco. Achamos que o dinheiro vem do nosso esforço e da nossa inteligência. Tudo isso é uma grande enganação. A Tefilá nos dá a claridade de que tudo vem de D'us. Devemos fazer o nosso esforço, mas nunca esquecendo que tudo vem Dele. É por isso que, mesmo D'us sabendo o que necessitamos, nós precisamos pedir.

O Rav Chaim Vologziner zt"l (Lituânia, 1749 - 1821) explica que as palavras do versículo "Ele (D'us) reconta para a pessoa quais foram os seus atos" (Amós 4:13) se referem à revelação que as pessoas terão, no Mundo Vindouro, em relação aos presentes que elas teriam recebido se tivessem acreditado na força da Tefilá e a tivessem utilizado. Será mostrado para estas pessoas como suas Tefilót teriam feito diferença se tivessem sido ditas com concentração e sinceridade. A pessoa doente poderia ter se curado, o casal sem filhos poderia ter sido atendido e a pessoa procurando por uma esposa poderia ter encontrado. Assim afirma o Talmud (Brachót 6b): "Há coisas que estão no topo do mundo, porém as pessoas desprezam". Rashi explica que este ensinamento se refere a coisas elevadas como a nossa Tefilá, que podem mudar a nossa vida, neste mundo e no Mundo Vindouro, e mesmo assim nós não damos o devido valor.

De acordo com o Midrash (parte da Torá Oral), no versículo "Eu implorei a D'us naquele momento e disse", a linguagem "e disse" se refere a um ensinamento de Moshé para as futuras gerações. Moshé estava dizendo que ninguém deve se desesperar nem desanimar diante de uma situação difícil. Da mesma forma que ele nunca desistiu e continuou rezando mesmo após D'us ter decretado que os portões da Terra de Israel estavam trancados para ele, nós também nunca devemos desistir da misericórdia de D'us.

Depois da destruição do nosso Beit Hamikdash (Templo Sagrado), uma divisória de ferro nos separou do nosso "Pai Celestial". Porém, um portão nunca foi fechado: o portão das lágrimas. A Tefilá é chamada de "o serviço do coração". Portanto, o principal é abrir o nosso coração, colocando toda a nossa confiança em D'us, cuja Misericórdia é infinita. Como um pai que ama seu filho, D'us quer nos dar tudo o que precisamos. Ele está ansiosamente aguardando apenas a nossa Tefilá.

Shabat Shalom
R' Efraim Birbojm
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