Santificação e Moralidade

E disse o Eterno a Moisés: “Diz aos filhos de Israel: Sereis santos, porque Eu, o Eterno, vosso De’s, sou santo… Cada um de vós temerá a sua mãe e o seu pai, e guardará os Meus Sábados… Não roubarás, não agirás com duplicidade, nem mentirás ao teu próximo… não oprimirás o teu próximo nem o roubarás. Não demorarás o pagamento do assalariado durante a noite até à manhã seguinte… Não escarnecerás do surdo nem porás obstáculo no caminho do cego… Não serás tendencioso no julgamento, nem favorecendo o pobre nem agradando ao poderoso… Não albergarás ódio contra teu irmão no teu coração… não tomarás vingança nem guardarás rancor contra os filhos do teu povo, mas sim amarás o teu próximo como a ti mesmo… (Levítico 19- 1-18)

Por vezes perguntamo-nos de que forma as mitzvot santificam as atividades humanas. Esta parashá ensina-nos que se o Homem de Israel deseja ser santo, deve imitar De’s, que está ao mesmo tempo dentro e fora do próprio Homem, a nível transcendente. A crença em De’s exige que o Homem aspire a desenvolver os valores elevados e absolutos representados por De’s, que é o fator metafísico superior ao Homem.
Pode dar a sensação de que De’s colocou um obstáculo frente ao Homem, dando-lhe instintos que o podem conduzir pelo caminho do Mal. Mas, no entanto, De’s entregou-lhe também a Torá e as mitzvot, através das quais o Homem pode educar os seus instintos. Noutras palavras, o Homem pode satisfazer todos os seus instintos dentro de uma moldura moral, sem que isto implique rebaixar-se a um nível animal. Muito pelo contrário, dentro da moldura haláchica, estes instintos satisfazem-se na base de uma atitude de elevação e santidade sem a qual constituiriam um sinal de descontrolo.
Uma das perguntas centrais dentro da filosofia das religiões é a da relação que existe entre De’s e o Homem. É possível considerar esta pergunta a partir de dois aspetos: “Como e porquê De’s criou o Homem?” E “Que obteve o Homem pelo facto de ter sido criado por De’s?” Se considerarmos a segunda pergunta, podemos compreender que de De’s provêm os valores morais do Homem, e também o conhecimento das ações que este deve levar a cabo. De’s é o símbolo da moralidade segundo a qual nos devemos comportar. De’s é sagrado, e é neste carácter sagrado que se origina a moralidade. O Homem deve seguir o Seu caminho, e deste modo será sagrado e moral.
Numa religião na qual o valor moral ocupa um lugar central, é necessário que De’s tenha um valor pessoal, quer dizer, que não só tenha sabedoria e inteligência, mas também vontade e sensibilidade. Este é um De’s com quem o Homem pode aspirar a criar uma relação de proximidade, que o impulsione a seguir o Seu caminho.
Qual é o caminho que nos aproxima de De’s? A resposta a esta pergunta também depende do conceito de De’s. Se estivermos convencidos de que a moral constitui um valor essencial da Divindade, a moralidade terá que constituir o caminho para nos aproximarmos de De’s. Pelo contrário, se acreditarmos que o atributo central é a inteligência, seremos da opinião de que a forma de nos aproximarmos dEle é através do intelecto.
Por exemplo, a escola neoplatónica considera que o valor objetivo central consiste na relação com o valor transcendental, com De’s. O cristianismo acentua o valor do amor; quer dizer, a base da moral é constituída por uma atividade espontânea do sentimento, e não pela lei ou pelos preceitos. O judaísmo considera que o equilíbrio entre o motivo do amor e o da mitzvá expressa-se na moral e na santidade.
Numa religião moral como o judaísmo, o ideal é a contemplação e a observação espiritual de De’s. No entanto, esta observação é seguida de uma conduta moral. A proximidade com De’s obriga o Homem a agir de uma forma moral.
O conceito de santidade não é simples e não é possível simplificá-lo. Ao contrário, exige aprofundamento e reflexão. É possível tentar compreender esta noção através de Platão e analisar o conceito de santidade de forma abstrata, ou de forma empírica. O contributo do judaísmo para a conceção de santidade é precisamente considerar que esta consiste numa combinação do abstrato e do empírico.
O conceito de santidade relaciona-se com uma dimensão da experiência que é diferente da nossa vida do dia-a-dia. Na sua interpretação da Torá, Rashi explica este conceito como o domínio humano dos instintos, em especial o instinto sexual. Ramban (Nachmanides) define este conceito na base das causas morais que determinam a realização das mitzvot. Segundo Ramban, o judeu deve analisar as consequências possíveis da realização prática de cada mitzvá de acordo com o espírito e a intenção da mesma e não só de acordo com o seu significado superficial.
O judeu deve, em todas as circunstâncias, ser capaz de fazer parte do mundo, e, ao mesmo tempo, de se elevar acima dele. O judeu pode disfrutar dos prazeres do corpo, mas sem se transformar num escravo dos mesmos. Deste modo, as mitzvot do judaísmo contribuem para a santidade e para a imitação de De’s. A santidade obtém-se através do controlo voluntário, através da nossa possibilidade de fazer parte da natureza e, de, ao mesmo tempo, sermos capazes de nos separarmos dela.
De acordo com a Halachá, a santidade representa o reflexo da essência transcendental mais elevada no nosso mundo concreto. A santidade não nos pisca o olho como uma estrela misteriosa que cintila à distância; ela reflete-se na nossa vida concreta. A origem da santidade está nos mundos superiores, e o seu fim está imerso nas profundidades do Homem e do mundo. O Homem não se santifica através da comunhão metafísica com o oculto, nem através da reunificação misteriosa com o infinito ou através do êxtase espiritual, mas sim através da sua vida corporal, através das suas ações animais e através do respeito pela Halachá, no mundo concreto. A santidade está representada por uma vida regulada e ordenada segundo a Halachá.
No judaísmo, o conceito de santidade não possui um carácter passivo mas sim operativo. O Homem possui uma santidade imanente, já que a Torá afirma que foi criado à imagem espiritual e moral de De’s. O Homem é criado de acordo com a imagem espiritual e moral de De’s, que é o próprio símbolo de todos os valores.
Mas isto não é suficiente: a santidade exige não só ter sido criado à imagem de De’s, mas também caminhar nos seus caminhos.
As normas divinas expressas no judaísmo estão relacionadas com o respeito pelo Homem, pela paz, pela justiça, pela igualdade, pela verdade, pelo amor, pela compaixão, etc. Através dos preceitos e das leis, o judaísmo penetra em todas as esferas da natureza humana. O judaísmo acredita no aperfeiçoamento do carácter do homem e na sua responsabilidade moral através de preceitos obrigatórios em todos os aspetos da sua vida.
O ideal religioso não exige a anulação da personalidade do Homem, mas sim o seu desenvolvimento. Numa religião moral existe a aspiração de nos aproximarmos a De’s, mas uma personalidade desenvolve-se na base de outra; a personalidade do Homem face à de De’s. O Homem deve aspirar a aproximar-se a De’s e a imitá-Lo, mas segundo o judaísmo não existe a conceção de que esta aproximação transforme o Homem num De’s.
A revolução que o judaísmo levou a cabo foi a intenção de mudar a natureza humana até esta se aproximar das características divinas. A exigência de elevar a vida comum a um nível de santidade representa uma revolução insuperável nos valores humanos. Geralmente, nas diferentes religiões, existem expressões de santidade “entre o Homem e De’s” que se relacionam com os princípios da fé e se manifestam através de sentimentos interiores e cerimônias religiosas. Mas o judaísmo acrescentou um aspeto específico ao conceito de santidade: as relações de santidade expressam-se também a nível das relações “entre o Homem e o seu próximo”.
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