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    Realidade é diferente do nosso sonho do Estado judeu


    Realidade é diferente do nosso sonho do Estado judeuEm entrevista à DW, escritora israelense Lizzie Doron fala sobre a vida entre Tel Aviv e Berlim e explica como a amizade com o "inimigo palestino" mudou sua literatura e a história da própria família.Lizzie Doron nasceu em Tel Aviv em 1953, como a única filha de uma sobrevivente do Holocausto. Ela quase não teve contato com o pai, nascido em Varsóvia e que morreu quando ela tinha 8 anos. A mãe não lhe contou nada sobre as experiências traumáticas nos campos de concentração. Aos 18 anos, Doron deixou Tel Aviv e foi viver em um Kibutz nas Colinas de Golã. Depois fez faculdade de linguística. Sua mãe morreu em 1990.

    Quando a filha de Doron quis saber mais sobre a história da família, não havia resposta para muitas perguntas. Doron começou a pesquisar, e assim escreveu seu livro Warum bist du nicht vor dem Krieg gekommen? (Por que você não veio antes da guerra?, em tradução literal) que há muito virou leitura dos currículos de escolas de Israel.

    O trauma da perseguição dos judeus e a "ligação permanente e sinistra entre sobreviventes do Holocausto e seus filhos" são, de acordo com o Neue Zürcher Zeitung, tema central de vida e da literatura da autora. Em seu livro Who the fuck is Kafka, de 2015, a escritora aborda o conflito entre israelenses e palestinos. A obra, assim como Sweet Occupation (2017), foi publicada primeiramente em alemão. Doron vive em Tel Aviv e, há alguns anos, também em Berlim.

    DW: Israel está comemorando o 70º aniversário de sua fundação. O que isso significa para a senhora?

    É uma data que levanta muitas perguntas. Porque tenho que dizer que, quando criança, eu tinha uma ideia diferente do meu país, do meu povo. Eu tinha certeza de que tínhamos um sonho maravilhoso: ser liberal, defender a liberdade, construir um Estado para judeus, mas que deixasse os outros entrarem, para que eles compartilhassem conosco nossas crenças tradicionais. Nós pensávamos que iríamos encontrar abrigo e segurança depois da Segunda Guerra Mundial. Mas aos pouco algo foi mudando. É como numa história de amor ou num sonho, um sonho fantástico. A realidade é diferente. E hoje eu não estou em clima de festa. Eu acho que é a hora de ser corajosa, de fazer perguntas sérias e tentar entender por que, do meu ponto de vista, tanta coisa evoluiu no sentido errado.



    DW: A senhora sente que Israel é a sua pátria?

    Eu acho que Tel Aviv é minha pátria. Porque eu não consigo imaginar passar minha vida como colono na Cisjordânia. E eu não me vejo em Jerusalém, uma cidade muito religiosa. Então, isso significa que eu tenho um lugar no meu país. Mas percebo que especialmente agora uma pátria não basta para mim. Eu provavelmente tenho sorte de poder morar em duas cidades. Isso é especialmente interessante porque você certamente percebeu que eu não estou falando de países, mas de lugares muito específicos, com uma atmosfera muito específica. Atualmente, eu realmente prefiro cidades para passar meu tempo e minha vida.

    DW: O que a senhora sente quando vai de Tel Aviv a Jerusalém?

    Jerusalém é, para mim, o lugar que divide as pessoas. O passado é mais importante que o presente. Deus ocupa mais espaço que as pessoas. Jerusalém tem todos os ingredientes para construir uma sociedade dividida. Lá não se pensa racionalmente sobre as pessoas, a vida, o estado de espírito, mas se tenta excluir os outros. Eu acho que Jerusalém representa um outro sonho. Em Israel há uma espécie de luta invisível: qual cidade assume a liderança no país? Porque estamos falando de valores e estilos de vida muito diferentes. Tel Aviv significa liberdade, direitos humanos, tolerância. Em Jerusalém – e não estou falando apenas das comunidades judaicas – todos reivindicam ser o único representante de sua religião, estirpe ou comunidade e querem ser superiores aos outros.

    DW: Então a questão é se o país está indo mais no caminho de Tel Aviv ou de Jerusalém?

    Sim, e de alguma forma esta é uma discussão enorme. Eu acho que duas identidades foram estabelecidas em Israel. Uma é a democracia, a outra é o Estado judeu. E tenho a impressão de que as duas não funcionam juntas. Porque ser ortodoxo ou religioso não se encaixa com a democracia. E há atualmente muitos jovens seculares, liberais e não religiosos que no mínimo avaliam com curiosidade quais as oportunidades que eles têm de viver em outros países. Isso não acontece entre pessoas religiosas.

    DW: Seu último livro Sweet Occupation (doce ocupação, em tradução livre) já foi publicado em Israel?

    Não.

    DW: E em árabe?

    Não.

    DW: Por que não?

    Eu acho que isso tem muito que ver comigo, pessoalmente. Eu defendo a história da "segunda geração". Em Israel, eu era uma espécie de ícone que contou a história dos sobreviventes do Holocausto, das vítimas. Eu era, portanto, uma dessas autoras que contaram a história judaica e contribuíram para uma narrativa judaica.

    Em 2009, durante uma conferência em Roma, conheci um palestino. Isso foi um ponto de virada para mim, porque fiquei realmente surpresa ao perceber que só tinha cavado na minha própria história e não conhecia a história dos meus vizinhos. E quando decidi escrever sobre os palestinos e suas vidas sob ocupação, eu tinha certeza que havia aí uma certa continuidade do meu passado histórico na Europa até o Holocausto.

    Então eu estava pronta para ouvir outras histórias, sobre pessoas que, como nós, têm sentimentos, que são oprimidas pelo regime, mesmo que este seja o nosso próprio. Então eu escrevi dois livros sobre a história palestina. E fiquei muito orgulhosa.

    Quando fui ao meu editor, ele ficou muito surpreso por eu ter mudado de assunto. Ele disse que o Holocausto vende melhor. E ele rejeitou meus dois últimos livros, Who the fuck is Kafka e Sweet Occupation. Mas, depois de conhecer pessoalmente esse palestino que vive sob a ocupação, depois de visitar sua família e participar de sua vida, tenho muito certeza de que estou me dedicando ao tema certo. Esta é, agora, minha nova missão.

    DW: A senhora passou muito tempo com Muhammed, Jamil e Suleiman, todos palestinos e antigos inimigos. Como essa experiência lhe mudou?

    Descobrir as pessoas por detrás da fachada do inimigo foi um momento importante na minha vida. Primeiro, isso reduz o medo. Também oferece oportunidades, você pode mudar sua vida. E eu percebo que eu, pessoalmente, sou mais livre, e não apenas como escritora com opiniões políticas ou melhores argumentos, desde que encontrei um "terrorista", quer dizer, um "demônio". Esse era aquele que supostamente queria me matar e que se tornou um dos meus melhores amigos. Eu tenho que lhe dizer: isso é um presente. E eu estou muito grata que os palestinos tenham participado dessa jornada.



    DW: Isso significa que escrever mudou sua vida e seus pontos de vista?

    Muito mais, pois mudou a história da minha família, para colocar dessa forma. Nós dividimos nosso tempo entre Tel Aviv e Berlim. A cidade agora também agrada meu marido e meu filho. Meu filho decidiu deixar Israel, ele está agora na Alemanha. E meu marido passa muitos dias comigo em Berlim, ele trabalha daqui. Acho que não somos mais a família que éramos antes de eu lidar com as histórias palestinas. Acrescente a isso as reações de nossos amigos – aqueles que são de direita ou aqueles que não conseguem entender o que aconteceu comigo. Muitos pensam que algo muito ruim me aconteceu, muitos não conseguem entender meu desejo de morar em Berlim, na Alemanha. Minha vida mudou completamente. Hoje, a maioria dos meus amigos são alemães ou palestinos. Tenho apenas alguns poucos amigos judeus.

    DW: Mas por que a senhora escolheu Berlim? Afinal, foram os alemães que mataram seis milhões de judeus.

    Bem, eu nasci em Israel, mas minha mãe é de Viena. Secretamente, eu tinha uma casa que tinha vários problemas para aceitar a terra de Israel. Minha mãe lia à noite literatura alemã em voz alta. Tínhamos um pequeno apartamento, e ela atravessava os dois pequenos cômodos. Ela tinha certeza que eu dormia profundamente e que sonhava, e ela lia Goethe e Schiller e Heine. Era como um mantra, toda noite eu ouvia a língua alemã.

    Então eu cresci com o profundo sentimento de que havia também um outro lugar para nós. Algo terrível aconteceu, e minha mãe teve que se mudar. Mas ela não podia deixar a cultura para trás, o profundo amor e o sentimento de pertencer a outro lugar no mundo.

    Do lado de fora, em Israel, eu vivi o sonho sionista de ser uma soldada, de ser forte, ser Israel. Entre esses dois mundos, ouvi a história do Holocausto. Uma coisa que minha mãe sempre me disse: não há ninguém que tenha sobrevivido ao Holocausto sem ajuda de uma mão amiga. E se eu tivesse a oportunidade de ajudar alguém, então, como ser humano, eu deveria entender isso como missão. Depois que ela morreu, descobri que ela havia sido salva por um médico alemão da SS. E, depois da guerra, e eu não sabia nada sobre isso, ela testemunhou em seu julgamento e pediu ao tribunal para não matá-lo porque ele a salvara.

    Talvez seja por isso que eu não possa odiar os alemães. Neste momento é para mim mais fácil falar com alemães. Eles sabem o preço da guerra, ao contrário dos israelenses, que ainda acham que é possível derrotar inimigos numa guerra. É por isso que estou dividida entre esses dois países e seus povos e me pergunto qual é o melhor lugar. Mas acho que foi óbvia minha escolha pela Alemanha. Faz parte da minha identidade, assim como Israel faz parte da minha identidade.


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    Autor: Silke Bartlick (md)

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