Locutor de rádio mais velho do mundo é sobrevivente do Holocausto

Locutor de rádio mais velho do mundo é sobrevivente do Holocausto

Joan Mas Autonell

Jerusalém, 13 abr (EFE).- "A cada dia que me levanto, rezo e me digo feliz aniversário", contou Walter Bingham, judeu sobrevivente do Holocausto e veterano da II Guerra Mundial que, com 94 anos, é o locutor de rádio em atividade mais velho do mundo, mérito pelo qual está reconhecido no Guinness Book, o livro dos recordes, desde 2017. 

Bingham, cujo nome de nascimento é Wolfgang Billig, nasceu no sul da Alemanha em 1924 no seio de uma família judaica de origem polonesa e passou sua infância enquanto o nazismo se fortalecia, até que Hitler assumiu o poder em 1933 e endureceu a discriminação antissemita, que culminaria com a execução planejada de seis milhões de judeus. 

Desde 14 anos atrás, quando se instalou em Israel, ele é locutor de um programa da rádio pública israelense e não quer deixar de trabalhar. 

Seus 94 anos de idade também não o impedem de ter uma memória de ferro, e lembra com nitidez todo o seu passado, desde a infância até a participação, como integrante do exército britânico, na guerra contra a Alemanha nazista. 

Em Israel, que nesta quinta-feira promove o Dia da Lembrança do Holocausto, com eventos que paralisarão o país, Bingham é um símbolo e parte da memória viva daqueles que lutaram contra o nazismo. 

Com 15 anos, pouco antes do início da guerra e quando a perseguição contra os judeus na Alemanha era máxima, seus pais conseguiram que ele saísse do país e pudesse chegar ao Reino Unido, onde viveu em uma comunidade judaica regida pelo modo de vida próprio dos kibutz, de maneira coletiva. 

"Desde 1937 tinha tramitado uma solicitação para viajar para a Palestina, mas me mudei para a Inglaterra porque não obtinha resposta, e fiquei lá", relatou o locutor. 

Pouco tempo depois de ter fugido da Alemanha, seu pai foi deportado para o gueto de Varsóvia, onde morreu em 1941 de uma epidemia, enquanto sua mãe foi internada em um campo de concentração do qual conseguiu sobreviver. 

Quando a Alemanha atacou a Inglaterra, o então jovem Bingham se alistou no exército britânico, recebeu treinamento militar, foi formado como motorista e serviu conduzindo uma ambulância em várias frentes bélicas. 

"Naquele momento, quando estava na guerra, era só um soldado comum e desconhecia o paradeiro da minha família", lembrou o veterano locutor que acredita que "um soldado normal está no exército porque deve estar ou quer lutar pelo seu país, mas com os soldados que éramos refugiados era diferente". 

Para Bingham, os refugiados que combatiam nas forças armadas britânicas "não tínhamos um país pelo qual lutar, mas lutávamos contra o regime nazista para voltar à Alemanha e saber o que tinha sido feito de nossos familiares". 

A partir de junho de 1944, o agora nonagenário passou pela operação militar aliada do desembarque da Normandia, onde dirigiu uma ambulância "em batalhas terríveis", com a qual resgatou muitos soldados feridos, um trabalho que a França reconheceu em fevereiro deste ano com a Legião de Honra, a máxima distinção concedida pelo país. 

Mais adiante, com a ocupação da Alemanha pelas forças aliadas, Bingham passou a integrar uma unidade de inteligência britânica e foi enviado à cidade de Hamburgo para investigar todos os arquivos de documentação dos quartéis nazistas, onde encontrou as botas de um alto oficial e uma adaga honorífica da Juventude Hitleriana que ainda guarda. 

Durante suas tarefas de inteligência na Alemanha, ele chegou inclusive a interrogar Joachim von Ribbentrop, ministro das Relações Exteriores nacional-socialista entre 1938 e 1945, a quem perguntou sobre o destino dos prisioneiros judeus sem obter uma resposta clara. 

"Naquele momento não falávamos de Holocausto, ainda desconhecíamos o alcance do genocídio nazista", comentou Bingham, que vê a situação política atual do mundo com temor e considera que a Europa está dando uma perigosa guinada para a extrema-direita. 

"Estamos vivendo outra vez no início dos anos 30 e, se as coisas não mudarem em breve, tudo ficará muito obscuro", concluiu o nonagenário em tom de alerta. 
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