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    1945

    1945

    Tem gente que acusa o diretor húngaro Ferenc Torók de falta de sutileza, dizendo que ele carrega no maniqueísmo em 1945.

    Talvez não estejam sabendo ver seu filme direito. O longa que estreia nesta quinta, 5, reabre cicatrizes da guerra. Começa num clima de festa, a celebração de um casamento. Quem está se casando é o filho de um importante funcionário do governo. É quando chegam esses dois judeus de barbas vetustas. Carregam caixas. Trazem o peso da culpa para os habitantes.

    Logo, o que está em discussão é a herança da guerra. Como a população local se comportou em relação aos judeus – à sua deportação, ao seu extermínio? Reabrem-se velhas feridas. As reações variam do medo ao revide violento.

    István, o funcionário que está casando seu filho, parece concentrar todo o mal – antissemita, machista, mantém-se no poder por força de intimidação.

    O novo mundo após a guerra desenha-se sombrio – a noiva trai o marido, é odiada pela sogra. Ocorrem incêndios criminosos, chuvas redentoras. Tudo em preto e branco. É um filme bem melhor do que pesam seus apressados críticos.


    1945 e o mundo que emerge das cinzas da guerra

    Em 1945, a Segunda Guerra Mundial chegou ao fim. Em meio à Europa devastada, cidadãos judeus de diversas nacionalidades começaram a retornar a seus países de origem. No caso de 1945, dois judeus húngaros voltam a seu vilarejo, para a paranoia dos habitantes: eles estariam atrás de uma recompensa? Buscariam reclamar o direito às casas, tomadas por outras pessoas? Visariam disputar espaço no comércio? Os dois judeus silenciosos, “iguais a todos os outros, com chapéu e barba”, como descreve um personagem, são cobertos de um peso simbólico difícil para o povo local assimilar.
    1945

    O drama dirigido por Ferenc Török constitui uma espécie de mea culpa húngaro em relação à perseguição nazista. Alguns personagens reagem com medo, outros partem para o ataque, mas o protagonista, sem surpresa, é um vilão caricatural: Szentes István (Péter Rudolf), funcionário da cidade. Este homem é apresentado pela primeira vez enquanto faz a barba com uma gilete e admira o sangue escorrer de uma ferida - típica descrição de personagens maus - para depois ser visto em cenas de manipulação, violência ou ainda malignamente fumando seu charuto com as sobrancelhas arqueadas, admirando o horizonte com uma luz contrastada delineando o seu rosto - mais um clichê da imagem de vilões.

    István é o alvo desta retratação histórica: ele representa o antissemitismo, o machismo, a família tradicional e as estratégias mafiosas de manutenção de poder. Não por acaso, a chegada dos judeus coincide com o dia do casamento de seu filho com uma bela moça do local, algo programado para corrigir as atitudes permissivas do jovem. 1945 não faz esforço em atenuar as mensagens, pelo contrário: o maniqueísmo é tão intenso que retira do conjunto qualquer possibilidade de reflexão. Este é um filme que não confia na inteligência de seu espectador, por isso lhe diz exatamente quem amar e quem detestar, quem está certo e quem está errado.


    1945


    Em diversos aspectos, o drama remete à estrutura das telenovelas. O acúmulo de conflitos sentimentais pode provocar algumas risadas: no meio do imbróglio nacional e familiar, o roteiro encontra espaço para incluir a traição da noiva com o vizinho que, no fundo, sempre amou; o martírio de uma esposa cujo marido não faz sexo com frequência; as ameaças sombrias da sogra em relação à nora interesseira; pessoas arrumando as suas malas e partindo subitamente; incêndios criminosos; chuvas redentoras etc. O pacote de tragédias é embalado num preto e branco mal trabalhado, primeiro por possuir a textura comum da imagem originalmente colorida, mas dessaturada na pós-produção, e segundo por acentuar os contrastes de uma história já calcada no choque de opostos.

    Talvez Török tivesse medo de desculpar os vilões ao torná-los mais complexos, talvez tenha deixado os judeus como figuras quase anônimas para que pudessem representar toda a comunidade judaica europeia. Nesse terreno espinhoso de representações históricas, o diretor aposta no caminho mais fácil e didático. De quebra, evita dar protagonismo às verdadeiras vítimas para privilegiar a possível redenção dos agressores.




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