Carta


CartaEsta carta aberta foi escrita pelo Sr. Chezi Goldberg z"l, um judeu canadense que vivia em Jerusalém, após um terrível atentado duplo na Rua Ben Yehuda, no dia 1 de dezembro de 2001, que tirou a vida de 11 pessoas e feriu mais de 180.

“Era dia 2 de dezembro de 2001”. Ele entrou na sinagoga, no horário de Shacharit (reza da manhã). Eu o cumprimentei com um aceno de cabeça, como eu fazia todos os dias. Mas, ao contrário de me cumprimentar de volta, ele fez um gesto estranho, que eu não consegui entender. Alguns minutos depois, como se ele não estivesse mais aguentando, como se algo estivesse fervendo dentro dele, ele se aproximou de mim e perguntou:

 
- Você não escutou? - Escutou o que? - eu respondi surpreso.

  - Você não escutou? - perguntou ele, de novo, desta vez de forma mais impaciente, quase frustrado. 

Eu entendi que ele estava se referindo ao terrível atentado terrorista que havia ocorrido na noite anterior, em um local frequentado não apenas por jovens israelenses, mas também por muitos turistas. A partir daquele momento, comecei a imaginar que ele estava se referindo a alguém conhecido que havia morrido ou se ferido no atentado. Então eu perguntei sobre quem ele estava falando.

  - Sobre quem? - perguntou ele, me olhando com o se eu tivesse vindo de outro planeta - sobre todos os que morreram e se feriram no atentado da noite passada!

  - É claro que eu escutei - respondi, mas sem entender exatamente onde ele queria chegar.

  - Então por que você não está chorando? - ele perguntou, com muita tristeza e dor no seu rosto.

  Suas palavras entraram no meu coração como uma espada, como ensinam os nossos sábios: "Palavras que saem do coração entram no coração". Ele estava certo. Por que eu não estava chorando? Eu não pude responder nada. Eu não tinha o que dizer. Ele então apontou para as outras pessoas da sinagoga e perguntou:

  - Por que todos os meus amigos não estão chorando? Não deveríamos estar todos chorando?

  Novamente não pude responder nada. Ele estava certo. O que aconteceu com a nossa sensibilidade? Alguns chamam isso de "dormência". Outros chamam isso de "choque coletivo". Alguns ainda dizem que estamos sofrendo um trauma sem fim que afetou os nossos sentidos. Mas, na prática, o que vemos é que, infelizmente, nos tornamos pessoas com corações de pedra".

Por uma ironia do destino, dois anos depois o Sr. Chezi Goldberg z"l foi assassinado, junto com outros 9 judeus, por um terrorista que detonou uma bomba dentro do ônibus 19, quando o ônibus passava pelo bairro de Rechavia, em Jerusalém.

  Nesta semana o Shabat coincide com a próxima Festa do calendário judaico, Pessach, também conhecida como "Zeman Cheruteinu" (A época da nossa liberdade). Nos dias de Pessach, e em especial durante o Seder, revivemos a alegria de termos sido libertados de uma pesada escravidão, após 210 anos de torturas e sofrimentos sem fim. Mas a libertação do povo judeu não foi algo rápido, pois estávamos diante de um Faraó obstinado, que resistia às ameaças de D'us e não permitia a saída dos judeus. Foram necessárias 10 pragas, que destruíram completamente a infraestrutura do Egito, para quebrar sua resistência.

  Porém, percebemos algo interessante quando prestamos atenção nos versículos que descrevem as pragas e a reação do Faraó a cada uma delas.

Após a primeira praga, sangue, está escrito "E o coração do Faraó se endureceu... E ele também não se importou com isso" (Shemot 7:22,23). Nas próximas pragas, sapos, piolhos, animais ferozes e epidemia, a Torá alterna entre "o coração do Faraó se endureceu" e "o Faraó deixou pesado seu coração". Por que na praga do sangue, após a Torá dizer que o Faraó endureceu seu coração, foi necessário dizer que ele não se importou? Além disso, por que a Torá repete tantas vezes que o Faraó endureceu seu coração e deixou-o pesado?

  Explicam os nossos sábios que a praga do sangue foi a única que não atingiu o Faraó. Em um reconhecimento pelo Faraó ter criado Moshé em seu palácio, D'us o poupou desta praga. Se o Faraó fosse um bom líder, mesmo estando livre da praga, ele teria se preocupado com o bem-estar de seu povo. Porém, o Faraó demonstrou ser uma pessoa insensível. Como o sofrimento não o atingiu, então ele não se importou com o sofrimento dos outros. Mesmo que seu povo estava literalmente morrendo de sede, isto não sensibilizou o Faraó. Nas outras pragas, quando a praga cessava e terminava o seu sofrimento pessoal, o Faraó voltava a se comportar de forma insensível, não se importando com o seu povo e todo o sofrimento pelo qual eles passavam.

O Faraó representa o nosso Yetser Hará (má inclinação). A Torá repete diversas vezes a reação do Faraó aos sofrimentos que recaíam sobre o seu povo para nos ensinar que esta é uma das táticas do nosso Yetser Hará, de querer tirar a nossa sensibilidade, de nos fazer deixarmos de sentir o sofrimento dos outros. Quando nossos corações se tornam insensíveis, a ponto de não se afetarem mais com a dor dos outros, este é um momento extremamente perigoso para a humanidade. Embora seja parte de um mecanismo natural para nos ajudar a lidar com traumas e dificuldades, se permitirmos que esta insensibilidade cresça a ponto de a dor alheia não ser mais sentida e não nos motivar a tomarmos atitudes corretivas, então isto é um sinal de que perdemos o nosso lado humano.

  Mesmo quando despertamos da nossa dormência com uma tragédia ou nos inspiramos com uma nova ideia, infelizmente acabamos endurecendo nossos corações e ignoramos um possível impulso positivo. Cada vez que endurecemos nosso coração, ele vai ficando mais pesado e mais insensível. Por exemplo, da primeira vez que vimos algum mendigo pedindo esmola nas ruas, provavelmente sentimos uma grande dor e oferecemos algum tipo de ajuda. Porém, com o passar do tempo, vamos deixando de sentir a dor dos outros e, consequentemente, vamos deixando de oferecer ajuda, apesar de aquela cena do mendigo dormindo na rua ainda doer em nosso coração. Se mesmo neste estágio não fizermos nada, o próximo passo é nos tornamos tão entorpecidos a ponto de deixarmos de enxergar aqueles mendigos na rua, como se eles tivessem se tornado parte da "decoração" da cidade.

  Uma dica para o conserto da nossa sensibilidade está contida nos detalhes do Korban (sacrifício) que era oferecido em Pessach. A Torá nos comanda a oferecermos um cordeiro que, após a Shechitá (abate), deveria ser assado, não cozido. Todas as pessoas que quisessem comer de um Korban Pessach precisavam estar juntas em um mesmo grupo. Além disso, nenhum osso do Korban Pessach podia ser quebrado. Por que tantos detalhes estranhos em relação ao Korban Pessach, que não encontramos em outros Korbanót? E por que justamente um cordeiro e não uma vaca?

  Explicam os nossos sábios que o cordeiro é um animal pequeno e delicado. Se alguém pisa em uma de suas patas, seu corpo inteiro se arrepia. Quando uma carne é cozida, o cozimento faz com que as partes do animal comecem a se separar. Porém, quando assamos uma carne, as partes do animal se compactam e se unem ainda mais. Os ossos não podem ser quebrados, pois a quebra implica em uma separação. Os judeus devem estar em grupos para comer o Korban Pessach. A mensagem de todos estes detalhes contidos no Korban Pessach é a mesma, pois aludem ao desenvolvimento de um senso de união e proximidade, que normalmente são sentidos quando estamos em família, e ao desenvolvimento da nossa sensibilidade em relação às dores e sofrimentos sentidos por outros judeus. O povo judeu é comparado com um cordeiro, pois se um judeu sente dor, o povo judeu inteiro deve sentir também esta dor. Quando nos unimos, como se fossemos uma única família, nos tornamos um povo forte.

  Uma dor que não podemos escapar é a dor de quando alguém muito próximo, como um familiar ou um amigo, está passando por algum sofrimento. Portanto, este é o antídoto para que nossos corações não fiquem insensíveis à dor alheia: internalizar que todos aqueles que estão sofrendo são nossos irmãos, parte de nossa grande família. E se conseguirmos sentir isto de verdade, então não descansaremos até que o sofrimento deles seja ao menos diminuído. A Torá descreve o Faraó como sendo alguém pequeno, enquanto a Torá relata que "Moshé cresceu e saiu para ver seus irmãos e observar sua opressão" (Shemot 2:11). Quando a Torá diz que o Faraó era pequeno e Moshé cresceu, não necessariamente está se referindo ao tamanho físico deles, e sim à bondade e a preocupação com o próximo de cada um deles. O mundo do Faraó incluía apenas ele mesmo, pois ele não se importava com os outros, por isso ele é descrito como sendo pequeno. Já Moshé, mesmo estando nos luxos do palácio, saiu para ver seus irmãos. Ele se tornou grande, pois seu mundo não era apenas ele mesmo, incluía também todos os outros judeus, seus "irmãos".

  O processo para voltarmos a ter sensibilidade começa com a personalização das tragédias que ocorrem, como se fossem conosco ou com nossos familiares. Apesar de a dor ser algo desconfortável, ela é um sinal de que ainda estamos espiritualmente vivos. Se, D'us nos livre, perdermos a nossa capacidade de sentir dor, junto nós perdemos a capacidade de verdadeiramente sentirmos a beleza da vida.


  Pessach é Zeman Cheruteinu. É a época de nos transformarmos, de pessoas pequenas em seres humanos gigantes, que se importam com seus semelhantes, como se fizéssemos parte de uma única família. Começamos o "Maguid", parte do nosso Seder, com o "Há Lachmá Aniá", no qual convidamos todos os que necessitam para que venham e comam. Saímos do Egito unidos, como um só povo. Somente quando voltarmos a nos unir seremos libertados deste nosso atual exílio, no qual somos escravos do nosso próprio egoísmo.

Shabat Shalom e Pessach Kasher Ve Samaeach

R' Efraim Birbojm

Fonte: http://ravefraim.blogspot.co.il


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