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    Parashá Shemot

    Rabino Eliahu Birnbaum
    «E disse o faraó ao seu povo: “Eis que o povo de Israel aumenta cada vez mais e torna-se mais forte que nós. Ajamos, pois, astutamente com ele para impedir que continue a multiplicar-se, não vá acontecer que lute contra nós e consiga sair do país.” Então pôs sobre os hebreus obrigações de tributos e capatazes de trabalhos forçados, obrigando-os a edificar cidades de armazenamento para o faraó… E os egípcios obrigavam os filhos de Israel a servir com todo o rigor, amargurando-lhes a vida com pesados trabalhos de construção, com barro e com tijolos e com duros trabalhos no campo.»  (Êxodo, 1, 8-15)
    Enquanto Gênesis é o relato da criação do universo e do homem, o livro de Êxodo (Shemot) é o relato fiel da criação de uma nova nação.
    Todos os relatos de Génesis posteriores à Criação giram em volta de personagens. No núcleo dos capítulos encontra-se sempre alguma personalidade: Adão, Caim, Noé… os Patriarcas…
    Mas em Êxodo, já desde o primeiro capítulo se vislumbra o aparecimento do povo de Israel como uma entidade central. Com efeito, em Êxodo, os nomes e os detalhes dão lugar a uma nova figura: O povo de Israel.
    Em Êxodo não há nomes nem individualidades, já que estes cedem o lugar à transcendência do coletivo. A geração dos grandes patriarcas desaparece, e, em seu lugar, surge o conceito de uma nova nação.
    É interessante assinalar que, pela primeira vez, Israel é aqui chamado povo e tal definição chega-nos pela boca do faraó egípcio.
    O paradoxo é que um dos grandes inimigos do povo judeu é que o vai identificar como entidade nacional. Este facto ensina-nos, como corolário, que muitas vezes ao longo da história, tribos e famílias transformam-se em povo e recebem a sua identidade precisamente através de outras nações ou povos com os quais convivem e não através de uma fonte intrínseca.
    Génesis culmina com o assentamento dos filhos de Yaacov na terra do Egito. Êxodo começa com o relato das famílias que emigraram para o Egito.
    Êxodo é o livro da mudança. É o livro que relata a dramática alteração da situação dos hebreus, da bonança nos tempos de Yosef à máxima degradação da perda da liberdade e à transformação em escravos do faraó.
    Como a escravidão no Egito foi o primeiro episódio de diáspora judaica, é consequentemente o primeiro episódio de libertação e redenção.
    O povo, apesar de ter sido escravizado pelos egípcios, é finalmente resgatado por De’s, de tal modo que podemos definir Êxodo como o livro que relata a passagem da escravidão à liberdade.
    Esta mudança da escravidão à liberdade não manifesta apenas um período na vida do povo judeu; constitui um exemplo sem igual para descrever a liberdade do homem como conceito universal.
    Qual é o conceito de liberdade segundo as nossas fontes? Tanto a Torá como todas as nossas fontes espirituais atribuem à liberdade um sentimento fulcral. Conceitos como a autonomia e a responsabilidade individual só são possíveis dentro de um contexto de liberdade.
    Apesar da importância do conceito de liberdade na religião judaica, não há nenhum valor tão paradoxal e problemático como este.
    O filósofo Issaiah Berlin descreve, no seu livro Quatro prosas de liberdade, que o conceito de liberdade teve até aos nossos dias umas duzentas definições e ainda não conseguimos entender exatamente o que é.
    Aparentemente, a liberdade é uma condição natural, uma situação biológica inerente ao Homem, mas… Será que o Homem nasce mesmo como um ser livre, ou a liberdade é adquirida somente através da experiência e dos obstáculos?
    A escravidão tem dois aspetos: um deles, o legal, que denigre a condição humana, faz do ser humano um objeto, propriedade do dono, ao mesmo nível que qualquer outro objeto que este possua.
    Um segundo aspeto é psicológico, já que o sentimento do escravo do ponto de vista espiritual é muito mais penoso do que do ponto de vista da dimensão física. Este sentimento, essa mentalidade de inferioridade, subsiste em homens que do ponto de vista legal são livres.
    Um assunto interessante de sublinhar é que o povo judeu tinha sido subjugado e escravizado como entidade grupal e não em termos individuais; é o caso em que uma sociedade mais poderosa assume o controlo sobre um grupo minoritário.
    Os estilos de escravidão diferem segundo os povos e os tempos. Na antiga Grécia, por exemplo, os escravos eram propriedade privada de indivíduos. Noutros regimes totalitários é o próprio Estado quem escraviza boa parte dos cidadãos. Esta diferença é significativa, já que no caso da escravidão individual dá-se uma relação pessoal particular entre o escravo e o seu patrão; quer dizer, existe uma inter-relação peculiar, apesar da diferença de situação entre ambos.
    Fica aberto o caminho para compreender o outro e podem ser estabelecidos sistemas de comunicação e relação, tais como os sentimentos de fidelidade, ódio, compreensão, etc.
    No caso da escravidão social ou grupal surge uma relação despersonalizada, isenta de sentimentos individuais.
    No Egito, os judeus eram propriedade do Estado. Não eram individualmente propriedade de um cidadão egípcio, mas sim do Estado totalitário, de modo que os judeus passaram a ser mais uma engrenagem, mais uma peça do poderoso império egípcio.
    Desta parashá obtemos dois ensinamentos: o primeiro é que uma condição de escravidão é consequência direta de quem quer governar sobre as fontes primárias da existência humana. Com efeito, o faraó tinha mudado, graças à ajuda de Yosef, a situação económica do Egito, chegando esta nação a ser um verdadeiro império que reuniu alimentos e terras. A vontade de governar a natureza complementa-se com a necessidade de controlar também as pessoas que podem extrair do ambiente mais do que aquilo que este dá naturalmente.
    Assim o faraó transformou-se numa divindade egípcia, com a personalidade de um governador totalitário sobre todo o seu império.
    O segundo ensinamento é que, do mesmo modo que Abraham, que tinha começado o seu caminho libertando-se de uma cultura idólatra em favor do monoteísmo, também o povo de Israel iria passar de uma cultura idólatra para a sua liberdade espiritual.
    A passagem da escravidão à liberdade começou quando a escravidão tinha chegado a um nível de sofrimento que não se podia aguentar. A última gota foi o édito de assassinato das crianças judias do sexo masculino.
    A saída do Egito e a entrega da Torá assentam as bases para o desenvolvimento da toda a humanidade, já que nem a liberdade sem lei, nem a lei sem liberdade podem durar eternamente.
    Desse modo, o povo judeu é criado sobre dois grandes pilares: liberdade e lei. A saída do Egito e a entrega da Torá são, por tanto, a essência da sua existência.

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