O processo da redenção – Parashat Vaerá

O processo da redenção – Parashat Vaerá«E ao ouvir o gem
ido dos filhos de Israel oprimidos pelos Egípcios lembrei-me deles. Por tanto, diz aos filhos de Israel: “Eu sou o Eterno e libertar-vos-ei dos trabalhos forçados do Egito e salvar-vos-ei da servidão com braço estendido e com grandes castigos. E considerar-vos-ei meu povo e serei vosso De’s, e sabereis que Eu sou o Eterno, vosso De’s, ao vos redimir dos trabalhos forçados no Egito. E vos conduzirei à terra que prometi dar a Abraham, a Isaac e a Yaacov, e dar-vo-la-ei por herança. Eu, o Eterno.”»

(Êxodo,6, 3-9)

A redenção (gueulá), segundo nos é revelado nestes versículos, não consiste num ato único e total, mas sim numa série de quatro etapas que configuram um processo histórico.

A redenção e a liberdade não se produzem geralmente de forma drástica mas sim como resultado de diferentes factos que provocam uma mudança na situação geral.

A redenção expressa-se nestes versículos através de cinco conceitos: tirar-vos-ei, salvar-vos-ei, redimir-vos-ei, considerar-vos-ei, levar-vos-ei.

Ainda no Egito era necessário despertar no povo o desejo de liberdade. Como as primeiras pragas não conseguiram amolecer o coração do faraó, provocando, ao contrário, um aumento das exigências no que diz respeito ao trabalho dos escravos,o povo começou a duvidar acerca das possibilidades de que a redençãoefetivamente acontecesse. No começo da nossa parashá, o Criador tenta despertar e estimular o espírito do povo e aumentar a sua esperança relativamente à redenção. Por isso, é pedido a Moshe que exponha o programa da redenção que se produziria proximamente.

O conceito de liberdade tem cinco expressões diferentes dentro do pensamento judaico:

“E libertar-vos-ei dos trabalhos forçados do Egito.”
A primeirafase no processo da redenção “libertar-vos-ei dos trabalhos forçados do Egito”, constitui o primeiro anúncio: o da liberdade, a saída do exílio.

O sofrimento é o tema geral deste versículo. O sofrimento consiste no trabalho forçado no qual os escravos que o executam carecem totalmente de valor perante os olhos dos seus senhores. A liberdade divina é a libertação desse tipo de sofrimento, a redenção do Egito elevou sobretudo a condição humana dos libertados, devolvendo-lhes a liberdade e o respeito perante si próprios.

“E salvar-vos-ei da servidão”
Apesar de o trabalho ser um valor em si mesmo, os egípcios faziam uso dele para criar e fortalecer a existência de uma sociedade de classes. Esta sociedade obriga certos seres humanos a executarem trabalhos forçados, determinando deste modo a divisão dos homens entre escravos e senhores. A redenção do Egito anulou de uma vez e para sempre esta divisão artificial entre seres humanos, que permite ao Homem exercer controlo sobre a vida do seu semelhante. Esta era a resolução divina que declara pela primeira vez que todos os Homens são iguais e que todos foram criados à Sua imagem.

“E salvar-vos-ei com braço estendido e com grandes castigos”
A salvação é definida não só em termos da saída do Egito mas também em termos da existência da redenção. Nesta redenção une-se a libertação espiritual e cultural. No termo redenção, por tanto, a redenção do Egito une os dois tipos de libertação.

“E considerar-vos-ei meu povo”
A redenção constituiu a base da criação do povo judeu. A redenção do Egito não marcava o fim de um exílio qualquer; o fim deste exílio determinava o nascimento de um povo, segundo tinha sido estabelecido na promessa de De’s a Abraham. A saída do exílio e a salvação dos seus perigos tinham como objetivo a aproximação do povo judeu ao seu Criador com o fim de receber a Torá e se transformar no Povo Eleito.

“E conduzir-vos-ei à terra que jurei dar a Abraham, a Isaac e a Yaacov”
Na sequência das primeiras quatro fases produz-se a etapa final: a redenção do povo não podia acontecer no deserto. Para a redenção é necessária uma terra e neste caso trata-se de Eretz Israel, a terra na qual o povo libertado haveria de viver de acordo com a Torá. Por isso, produz-se o anúncio final “conduzir-vos-ei à terra que jurei dar a Abraham, a Isaac e a Yaacov.”

As fases desta redenção não são únicas e próprias da saída do Egito, tendo-se produzido de forma semelhante também noutras situações relacionadas com a redenção de Israel. Se analisarmos, por exemplo, a tragédia que assolou o povo judeu no nosso tempo, na nossa geração – a Shoá (O Holocausto) – veremos que também depois dessa tragédia aconteceu um processo de “Tirar-vos-ei, salvar-vos-ei, redimir-vos-ei, considerar-vos-ei, levar-vos-ei.”

Do mesmo modo, seja de forma consciente ou inconsciente, todos os libertadores de escravos, desde Spartacus até aos dias de Lincoln, extraíram a sua força e inspiração desta parashá, já que o som da redenção do Egito continua a ressoar no nosso mundo.

Na realidade, devemos considerar que estes versículos que expressam as fases da redenção, descrevem também o pacto entre o Criador e o povo de Israel. Nestes versículos aparece o conteúdo do pacto.

Pacto acerca da libertação do povo

Pacto da Torá

Pacto da Terra

O pacto determina os elementos mais importantes na relação: a existência e liberdade do povo, a Torá e Eretz Israel constituem os elementos básicos e fundamentais que definem o pacto.

Estes três elementos são essenciais na eleição do povo. O povo necessita da sua terra para viver nela livremente e estabelecer as suas leis. Um escravo não é capaz de realizar o seu potencial espiritual, logo a liberdade do povo constitui uma condição essencial do pacto.

Os três elementos do pacto – a liberdade, a Torá e Eretz Israel – constituem, por sua vez, três etapas diferentes na história do povo de Israel: a saída do Egito, a entrega da Torá e a chegada a Eretz Israel. Em relação a cada um dos elementos do pacto, temos uma das três festividades centrais: Pesach, em relação à saída do Egito; Shavuot, em relação à entrega da Torá e Sucot em relação a Eretz Israel.

O judeu assume duas obrigações através do pacto: cumprir as mitzvot da Torá e identificar-se com o destino histórico do seu povo.

A grandeza da saída do Egito consiste em que não se tratou apenas de um facto histórico único e irrepetível de tirar um povo inteiro das garras dos seus opressores que constituíam um império poderoso; tratou-se da primeira etapa da própria vida de um povo, uma etapa especial na cadeia histórica que haverá de forjar o povo judeu. O plano divino começou com a saída do Egito e finalizou com a entrada em Eretz Israel.

Rabino Eliahu Birnbaum

Categories JUDAÍSMO, Porção Semanal da Torá (Parashat Hashavua), Shemot
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