Burt Bacharach e Hal David, a dupla improvável que deu certo

Burt Bacharach já era um compositor experiente quando estreou na Broadway seu musical Promises, Promises, em 1968. Sua parceria com o letrista Hal David (1921-2012) completava, então, dez anos e a dupla acumulava vários sucessos nas paradas, entre eles as canções Walk on By (1964) e I Say a Little Prayer (1967). Além delas estava em gestação I’ll Never Fall in Love Again, que seria lançada no ano seguinte (1969) – as duas últimas foram incluídas na montagem brasileira de Promises, Promises, seguindo o exemplo do revival da Broadway em 2010 – talvez pela ausência de hits na versão original do musical, que, além da canção-título, um inegável sucesso, tinha poucas canções memoráveis e músicas tristíssimas.

Uma dessas é a comovente Whoever You Are, cantada pela garçonete Fran quando se vê sozinha no apartamento de Chuck, funcionário de uma companhia de seguros apaixonado por ela, e resolve tomar um vidro inteiro de pílulas para dormir.
Parte da falta de peso de outras canções pode ser atribuída à própria adaptação de um filme que, embora popular, trazia como subtexto uma árida alegoria, a do esquema corrupto das grandes corporações americanas (Chuck, alpinista social, cede o apartamento em troca de ascensão dentro da firma). Se Meu Apartamento Falasse, na visão de Billy Wilder, é uma sátira poderosa da hipocrisia, do falso moralismo e da obsessão americana pelo assédio sexual. Sua adaptação para o teatro foi um sucesso, mas as canções de Bacharach-David dessa versão musical não têm o apelo de outros temas compostos pela dupla para o cinema – basta citar apenas dois exemplos, The Look of Love, composta para Cassino Royale em 1967, e Raindrops Keep Falling on My Head (1969), tema principal de Butch Cassidy.
A fórmula desse sucesso residiu tanto na erudição musical de Bacharach, que foi aluno de Darius Milhaud e Martinú, como na combinação de seu talento harmônico com as amargas letras de Hal David, que contrastam invariavelmente com as doces melodias do compositor. O exemplo mais evidente é I’ll Never Fall in Love Again. A letra é um tanto cínica – “o que você ganha quando beija um garoto? Germes suficientes para pegar pneumonia” – e captura a atenção do ouvinte exatamente por sugerir o oposto daquilo que enuncia, a ponto de o intérprete jurar, na coda, que “nunca mais vou me apaixonar… pelo menos até amanhã”.

Hal David era em tudo o oposto de Bacharach, sete anos mais novo, bonito, sedutor, um garoto do Kansas criado no lado leste de Nova York (o rico). David era de classe média, filho do subúrbio com aparência de contador. Bacharach, aos 30 anos, era amante de Marlene Dietrich, 30 anos mais velha, o “anjo azul” alemão que lavava suas cuecas (ela confirma na autobiografia) nas longas turnês pelo mundo – uma delas no Rio, em 1959, em que o compositor fez um arranjo para Luar do Sertão, cantada em português pela diva.

Os dois, de ascendência judaica, mas diferentes visões de mundo, ajudaram a turbinar a carreira da cantora negra Dionne Warwick, que ficou sem boas canções para interpretar quando a dupla se afastou em 1973, após o fiasco que foi o remake do filme Horizonte Perdido, para o qual escreveram a trilha.

Brigaram por causa de dinheiro. Nos dez anos seguintes só se viram diante dos advogados. Bacharach entrou no ostracismo e só o casamento com a letrista Carole Bayer Sager, em 1982, o fez recuperar a velha forma. Hal David morreu aos 91 anos. Nunca mais compôs ao lado do parceiro. Bacharach, agora, compõe com Elvis Costello.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.



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