Os sonhos: Utopia, profecia e realidade – Parashat Vaieshev

Os sonhos: Utopia, profecia e realidade – Parashat Vaieshev«E Yosef teve um sonho que contou aos seus irmãos, que o odiaram ainda mais do que antes. Contou-lhes: “Peço-vos que escuteis o sonho que tive. Estávamos a atar feixes no meio do campo, quando de repente a minha foice levantou-se e manteve-se de pé e as vossas foices inclinavam-se em volta dela, em círculo.” Então disseram: “Hás de reinar entre nós?” “Porventura hás de nos dominar?” E continuaram a odiá-lo, tanto pelos seus sonhos como pelas suas palavras. E teve outro sonho, e também o contou aos seus irmãos, dizendo: “Tive outro sonho. Eis que o sol, a lua e onze estrelas se prostravam perante mim.” E contou-o também a seu pai, que o reprendeu, dizendo: “Que sonho é este que tiveste? Por acaso eu e tua mãe prostrar-nos-emos diante de ti?” E os seus irmãos invejavam-no, mas o seu pai prestou atenção ao assunto…»  (Genesis, 37, 5-11)
A seguir às parashot Vaietze e Vayishlach, que se referiam ao nosso patriarca Yaacov, continuamos com o estudo das características e da importância que o livro Bereshit dá ao mundo dos sonhos, fenómeno que se repete nos seguintes livros da Torá. Os sonhos do Chumash que analisaremos são altamente significativos, tanto quando estes sonhos representam o presente, como quando constituem a causa que explica certos acontecimentos que hão de acontecer no futuro.
Todas as personagens do livro de Génesis sonham: Abraham põe o pacto em prática depois de ter caído numa sonolência; Yaacov, o nosso patriarca, com o seu sonho acerca do grande escadote, e o decifrador de sonhos, Yosef.
Todas a parashot que se referem aos nossos patriarcas caracterizam-se por uma surpreendente mistura de sonho e realidade. Por um lado, são-nos descritas as preocupações diárias no que diz respeito ao sustento, ao pão para comer e à roupa para vestir; a luta pela sobrevivência face à ameaça dos inimigos; a rutina do lar e do campo. Por outro lado, temos relatos sobre aparições, anjos, sonhos sobre coisas que não são deste mundo, promessas futuras, nomes simbólicos; tudo está entrelaçado de tal modo que não podemos distinguir entre sonho e realidade, entre pessoas e anjos, ou entre o passado e o futuro.
Pareceria que a experiência acontece alternativamente em dois níveis que por vezes se unem e outras vezes voltam a separar-se, afastando-se um do outro. O nível de realidade caracteriza-se pelo seu materialismo e pela descrição de desejos e instintos humanos, e, por cima destes, está o nível celestial, que por vezes parece não ter qualquer tipo de relação com o que ocorre na Terra. O tecido das histórias da Torá emprega estes dois elementos.
Desprovista dos sonhos e das profecias, a realidade parece débil, pobre, reduzida a tão somente um pequeno grão de pó, a ilusão de um instante, quimera sem sentido, ao ponto de os nossos sábios terem afirmado: «Todo aquele que passa sete dias sem ter um sonho é mau.» A realidade sem sonhos é uma má realidade.
O que é típico do sonho é que o sonhador vê nele coisas que são impossíveis na realidade material. Às vezes, por exemplo, o sonhador presencia, durante os escassos minutos durante os quais decorre o sonho, o desenvolvimento completo de processos complexos que deveriam acontecer ao longo de um período de muitos anos, e outras vezes pode contemplar acontecimentos extraordinários, como feixes do campo a ajoelharem-se perante outro feixe, ou como o sol, a lua e as estrelas a prostrarem-se perante si.
Yaacov, o pai, sente-se muito próximo do seu filho Yosef. O pai sonha, e o filho sonha. Os sonhos dos dois são totalmente diferentes mas os dois sonham. Existe uma continuidade entre os sonhos do pai e os do filho. Yaacov tinha sonhado com um escadote apoiado na Terra, cujo topo chegava ao céu. Yosef complementava este sonho com um relativo à terra, que constitui o caminho na direção desse mundo maravilhoso de que o homem precisa.
Mas, por outro lado, o sonhador geralmente não é aceite na sociedade. Dado que a sociedade está colada a normas, leis e limitações, e o sonho ultrapassa essas limitações, o sonhador fica situado fora das normas. A sociedade, em última instância, não é capaz de incluir nos seus sonhos os seres excecionais, cujo sonho não se refere só a um indivíduo mas sim a toda a sociedade.
O Rabino Kuk, na sua linguagem poética, explica-nos a importância e a necessidade dos sonhos: «Os grandes sonhos constituem o fundamento do Mundo. Os degraus são diferentes. Os sonhadores são profetas que falam através do seu sonho. Os sonhadores são os poetas do futuro. Os grandes pensamentos dos sonhadores vêm redimir o mundo. Todos sonhamos que De’s regressa a Tzion.»
Yosef foi perseguido pelos seus irmãos, mas não só por causa da bela túnica que o seu pai lhe tinha oferecido. Os irmãos já não eram crianças e podiam comprar roupas para eles próprios. A razão é que eles tinham detetado em Yosef a imagem do revolucionário, aquele que não vive fechado dentro das limitações reduzidas da vida diária, mas que é capaz de provocar mudanças. Os irmãos compreendem isto baseados nos sonhos de Yosef, e por isso estão contra ele.
Yosef considera que os seus sonhos são proféticos e conta-os aos seus irmãos para lhes explicar como ocorrerão as coisas no futuro. Esta atitude é característica do sonhador, que considera que o seu sonho representa a realidade objetiva. Por sua vez a sociedade, e neste caso os irmãos de Yosef, relacionam-se com o sonho como expressão subjetiva, carente da capacidade de descrever o presente ou prever o futuro.
De onde provém a força do sonho? Se nos referirmos aos sonhos proféticos, é a sua origem divina que lhes confere a sua autoridade preditiva. E, se explicarmos o sonho como produto da imaginação e da expectativa, então a sua força provém da vontade que o sonhador tem de tornar o seu sonho realidade.
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