O histórico pronuniciamento de George Deek



Transcrição [original no inglês] do discurso proferido na “Casa da Literatura” em Oslo.
Quando eu ando nas ruas da minha cidade natal, Jaffa, sempre relembro o ano de 1948.

As ruelas da cidade antiga, as casas no bairro Ajami, as redes de pesca no porto – tudo parece contar histórias diferentes sobre o ano que mudou minha cidade para sempre.

Uma dessas história é sobre uma das mais antigas famílias desta cidade antiga – a família Deek – a minha própria.

Antes de 1948, meu avô George – sendo meu nome em sua homenagem – trabalhava como eletricista na Companhia de Eletricidade Rotenberg.

Ele não tinha muito interesse em política.

E como Jaffa era uma cidade misturada, claro que ele tinha alguns amigos judeus.

De fato, seus amigos na companhia de eletricidade até falavam com ele em iídiche, o tornando um dos primeiros árabes a falar a língua.

Em 1947, ele ficou noivo de Vera – minha avó – e juntos tinham planos de construir uma família na mesma cidade que a família Deek vivia há uns 400 anos – Jaffa.

Mas, alguns meses depois, estes planos mudaram, literalmente, da noite para o dia.

Quando as Nações Unidas aprovaram o estabelecimento de Israel, e alguns meses depois o Estado de Israel foi fundado, os líderes árabes avisaram aos árabes que o judeus estavam planejando matá-los se eles ficassem em suas casas, e usaram o massacre de Deir Yassin como exemplo.

Eles disseram a todos: “ Deixem suas casas e fujam”.

Eles disseram que precisariam apenas de poucos dias, nos quais, com cinco exércitos, prometiam destruir o recém-criado Estado de Israel.

Minha família, horrorizada com o que poderia acontecer, decidiu fugir, com uns outros tantos.

Um padre foi trazido às pressas para a casa da família Deek, e casou George e Vera, meus avós, na própria casa, com grande pressa.

Minha avó nunca teve a chance de ter um vestido apropriado.

Após seu casamento repentino, a família inteira começou a fugir para o norte, em direção ao Líbano.

Mas quando a guerra acabou, os árabes não tiveram sucesso em destruir Israel.

Minha família estava do outro lado da fronteira, e parecia que o destino dos irmãos e irmãs da família Deek era ser espalhado pelo mundo.

Hoje, eu tenho parentes na Jordânia, na Síria, no Líbano, em Dubai, no Reino Unido, no Canadá, nos Estados Unidos, na Austrália e outros.

A história da minha família é apenas uma – e provavelmente não a pior – entre as diversas histórias trágicas do ano de 1948.

E para ser franco, você não precisa ser anti-Israel para reconhecer o desastre humanitário palestino em 1948, Nakba.

O fato de usar o Skype com os parentes no Canadá que não falam árabe, ou com primos de um país árabe que não têm ainda cidadania, apesar de serem a terceira geração, é um testemunho vivo das trágicas consequências da guerra.

De acordo com as Nações Unidas, 711 mil palestinos foram realocados, já ouvimos isto antes – e alguns fugiram e outros foram  expulsos à força.

Ao mesmo tempo, por causa do estabelecimento de Israel, 800 mil judeus foram intimidados a sair do mundo árabe, ficando quase sem judeus.

Como já ouvimos antes, atrocidades de ambos os lados não eram incomuns.

Mas parece que estes conflitos não foram os únicos durante os séculos XIX e XX que levaram a expulsões ou transferências.

De 1821 até 1922, 5 milhões de muçulmanos foram expulsos da Europa, a maioria para a Turquia. Nos anos 1990, a Iugoslávia se dividiu, levando 100 mil pessoas à morte, e mais ou menos 3 milhões a serem realocadas.

De 1919 a 1949, durante a operação Visla entre a Polônia e a Ucrânia, 150 mil pessoas morreram, e 1,5 milhão foi realocado.

Após a Segunda Guerra Mundial e a convenção Potsdam, de 12 a 17 milhões de alemães foram realocados.

Quando a Índia e o Paquistão foram estabelecidos, umas 15 milhões de pessoas foram transferidas.

Esta tendência também existia no Oriente Médio, por exemplo, a realocação de 1,1 milhão de curdos pelos otomanos, 2,2 milhões de cristãos que foram expulsos do Iraque, e neste momento, yazidis, bahai, curdos, cristãos e até muçulmanos estão sendo mortos e expulsos em uma média de mil pessoas por mês, depois da ascensão do Islã radical.

As chances de qualquer desses grupos retornar às suas casas é praticamente inexistente. Então, por que as tragédias dos sérvios, dos europeus muçulmanos, dos refugiados poloneses ou dos cristãos iraquianos não são comemoradas?

Por que a realocação de judeus do mundo árabe foi completamente esquecida, enquanto a tragédia dos palestinos, Nakba, é ainda lembrada na política atual?

Parece-me ser assim porque Nakba foi transformada de um desastre humanitário em uma ofensiva política.

A comemoração de Nakba não é mais sobre relembrar o que aconteceu, mas é sobre o ressentimento pela mera existência do Estado de Israel.

Isto é demonstrado claramente pela data escolhida para ser comemorada: o dia de Nakba não é em 9 de abril, o dia do massacre de Deir Yassim; nem em 13 de julho, o dia da expulsão de Lod. O dia de Nakba é em 15 de maio, o dia seguinte a Israel ter proclamado sua independência.

Mas os líderes palestinos declaram que o desastre de Nakba não foi a expulsão, as cidades abandonadas ou o exílio – Nakba, a seus olhos, é a criação de Israel.

A tristeza é menor com a catástrofe humanitária que se abateu sobre os palestinos, e maior pelo renascimento do estado judeu.

Em outras palavras: eles não se lamentam pelo fato que meus primos sejam jordanianos, eles se lamentam pelo fato de que eu seja israelense.

Ao fazer isto, os palestinos se tornaram escravos do passado, prisioneiros nas correntes do ressentimento, prisioneiros no mundo de frustração e ódio.

Mas, amigos, a evidente simples verdade é que para não nos reduzirmos a pesares e amargores, temos que olhar para frente.

Para colocar de maneira mais clara: Para consertar o passado, primeiro você tem que assegurar o futuro.

Isto é algo que aprendi de meu professor de música, Avraham Nov.

Quando eu tinha 7 anos, eu me juntei à banda marcial da comunidade árabe-cristã em Jaffa.

Foi lá que conheci Avraham, meu professor de música, que me ensinou como tocar a flauta e, mais tarde, o clarinete. Eu era bom.

Avraham é um sobrevivente do holocausto, e toda sua família foi assassinada pelos nazistas. Ele foi o único que conseguiu sobreviver, porque um certo oficial nazista o achava talentoso ao tocar a harmônica, então o levou para sua casa durante a guerra para entreter seus convidados.

Quando a guerra acabou, e ele estava só, ele poderia facilmente se sentar e chorar pelos enormes crimes dos homens contra os homens na história, e pelo fato de que estava só.

Mas ele não o fez, ele olhou para frente, não para trás; ele escolheu a vida, não a morte; a esperança, não o desespero.

Avraham veio para Israel, se casou, construiu uma família, e ele começou ensinando a mesma coisa que lhe salvou a vida: música. Ele se tornou o professor de música de centenas e milhares de crianças por todo país.

E quando ele viu a tensão entre árabes e judeus, este sobrevivente do holocausto decidiu ensinar esperança através da música para centenas de crianças árabes como eu.

Sobreviventes do holocausto como Avraham estão entre as mais extraordinárias pessoas que podemos encontrar. Eu sempre tive curiosidade de entender como foram capazes de sobreviver, sabendo o que sabiam, vendo o que viram. Mas ao longo desses 15 anos que conheço Avraham, quando fui seu aluno, ele nunca falou do seu passado, exceto uma vez – quando eu perguntei.

O que percebi foi que Avraham não era o único, e que muitos sobreviventes do holocausto não falavam sobre aqueles anos, sobre o holocausto, mesmo aos seus familiares, por décadas, ou mesmo por toda vida.

Só quando tinham assegurado seus futuros, se permitiram olhar para trás, para o passado. Só quando tinham construído um tempo de esperança, eles se permitiram lembrar dos dias de desespero. Eles construíram um futuro em sua velha-nova casa, o Estado de Israel.

E sob a sombra de sua grande tragédia, judeus foram capazes de construir um país que lidera no mundo a medicina, a agricultura e a tecnologia.

Por quê? Porque olharam em frente.

Amigos, esta é uma lição para toda nação que deseja superar uma tragédia – inclusive os palestinos.

Se os palestinos desejam  redimir o passado, precisam primeiro focar em assegurar o futuro, em construir um mundo como deveria ser, como nossas crianças merecem que seja.

E o primeiro passo nesta direção, sem dúvida, é terminar com o tratamento vergonhoso dado aos refugiados palestinos.


No mundo árabe, os refugiados palestinos – incluindo seus filhos, seus netos e até mesmo bisnetos – ainda não estão assentados, são barbaramente discriminados e em muitos caos têm a cidadania e os direitos humanos básicos negados.

Por que meus parentes no Canadá são cidadãos canadenses, enquanto meus parentes na Síria, Líbano ou de países do Golfo – que nasceram lá e não conhecem outro lar – ainda são considerados refugiados?

Claramente, o tratamento dos palestinos nos países árabes é grandemente opressivo, mais que em qualquer outro lugar.

E os colaboradores neste crime não são outros se não a comunidade internacional e as Nações Unidas.
Em vez de fazer seu trabalho e ajudar os refugiados a construir uma vida, a comunidade internacional está alimentando a narrativa de vítimas.

Enquanto há uma agência das Nações Unidas responsável por todos refugiados no mundo, a UNHCR; outra agência foi criada para lidar apenas com os palestinos, a UNRWA.

Não por coincidência, enquanto a meta da UNHCR é ajudar os refugiados a ter uma nova casa, ter um futuro e findar com seu status de refugiado, a meta da UNRWA é o oposto: preservar seus status de refugiados e evitar que sejam capazes de iniciar uma nova vida.

A comunidade internacional não pode seriamente esperar que o problema dos refugiados seja resolvido quando colaboram com o mundo árabe para tratar os refugiados como peões políticos, negando a eles os direitos básicos que merecem.

Seja onde for dado direitos iguais aos refugiados palestinos, eles prosperam e contribuem nesta sociedade – seja na América do Sul, nos Estados Unidos e até mesmo em Israel.

Na verdade, Israel foi um dos poucos países que automaticamente deu cidadania total e igualitária para todos os palestinos depois de 1948.

E vemos os resultados: apesar de todos os desafios, os cidadãos árabes de Israel constroem um futuro. Os árabes israelenses são os árabes com maior nível de escolaridade no mundo, com os maiores padrões de moradia e de oportunidade na região.

Os árabes trabalham como juízes na Suprema Corte; alguns dos melhores médicos em Israel são árabes, trabalhando em quase todos os hospitais do país; há 13 membros árabes no parlamento que desfrutam do direito de criticar o governo – um direito que esgotam ao máximo – protegidos pela liberdade de expressão; árabes ganham reality shows populares; e pode-se encontrar diplomatas árabes – e um deles está aqui de pé, defronte de vocês.

Hoje, quando ando nas ruas de Jaffa, eu vejo os antigos edifícios e o antigo porto, mas também vejo crianças indo para escola e universidade; vejo negócios prosperando; e vejo uma cultura vibrante.

Em resumo, apesar do fato de que nós ainda temos um longo caminho à frente como minoria, temos um futuro em Israel.

Isto me traz ao meu próximo ponto.

Chegou a hora de pôr um fim à cultura de ódio e incitamento – porque o antissemitismo, acredito, é uma ameaça para muçulmanos e cristãos, tanto quanto para judeus.

Eu cheguei à Noruega há apenas dois anos, e aqui foi a primeira vez que eu interagi com judeus sendo uma comunidade minoritária. Eu usualmente... costumava vê-los como maioria. E, devo dizer, parece muito familiar.

Eu cresci em um ambiente similar, em uma comunidade árabe-cristã em Jaffa. Eu fazia parte dos cristãos ortodoxos, que era parte da comunidade cristã, que era parte da minoria árabe no Estado de Israel judeu, no Oriente Médio muçulmano.

É como aquelas bonecas russas; você abre uma grande e tem uma menor dentro. Eu sou como a menor peça.

Um judeu na Noruega ou um árabe em Israel, sendo minoria, significa que você é sempre parte de uma pequena comunidade na qual todos tomam conta de todos e apoiam uns aos outros; é uma coisa bonita saber que não importa o que seja, você sempre tem uma comunidade que se importa com você.

Ser parte de uma comunidade minoritária tem sido uma bênção ao longo da minha vida.

Mas, amigos, a vida de uma minoria é também uma vida de constante luta por um tratamento justo.

Às vezes você é discriminado, e pode até ser vítima de crimes de ódio.

Mesmo em uma democracia como em Israel, ser da minoria árabe não é sempre fácil.

Há um ano, um bando de conhecidos baderneiros entrou no cemitério árabe-cristã em Jaffa, e profanaram os túmulos escrevendo “morte aos árabe”; e um dos túmulos naquele cemitério era do meu pai.

Ser minoria, meu amigo, é um desafio em qualquer lugar, porque ser uma minoria significa ser diferente.

E nenhuma nação jamais pagou um preço tão pesado por ser uma minoria, por ser diferente, do que o povo judeu.

A história do povo judeu acrescenta muitas palavras ao vocabulário humano: palavras como expulsão, conversão forçada, inquisição, gueto, pogrom, para não mencionar a palavra holocausto. O rabino Lord Jonathan Sacks explicou corretamente que os judeus sofreram ao longo dos tempos por serem diferentes.

Porque eram a minoria mais significante de não cristãos na Europa, e hoje a minoria mais significante de não muçulmanos no Oriente Médio.

Mas, amigos, na verdade, não somos todos diferentes?

A verdade é: ser diferente é o que nós faz humanos!

Toda pessoa, toda cultura, toda religião é única e, portanto, insubstituível.

E a Europa, ou o Oriente Médio, que não tem espaço para os judeus, não tem espaço para a humanidade.

Amigos, não esqueçamos que o antissemitismo pode começar com judeus, mas nunca termina só com judeus. Judeus não foram os únicos a se converterem à força pelo julgo da inquisição; Hitler se certificou que os ciganos e homossexuais, entre outros, sofressem junto com os judeus; e está acontecendo agora novamente no Oriente Médio.

O mundo árabe parece ter esquecido que os dias mais notáveis nos últimos 1.400 anos foram quando mostraram tolerância e abertura em favor daqueles que são diferentes.

O gênio matemático Ibn Musa el-Khawazmi era uzbequi, o grande filósofo Rumi era persa, o glorioso líder Salah a-din era curdo, o fundador do nacionalismo árabe era Michel Aflaq, um cristão. E aquele que levou o redescobrimento islâmico de Platão e Aristóteles ao resto do mundo foi Maimônides, um judeu.

Mas em vez de reviver a abordagem bem-sucedida da tolerância, a juventude árabe está sendo ensinada a odiar os judeus, usando uma retórica antissemita da Europa medieval, misturada com radicalismo islâmico. E mais uma vez, o que começou como hostilidade contra os judeus se torna hostilidade contra qualquer um que seja diferente.

Na semana passada, mais de 60 mil curdos fugiram da Síria através da Turquia por medo de serem massacrados.

No mesmo dia, 15 palestinos de Gaza se afogaram no mar tentando escapar das garras do Hamas; bahai e yazidis estão em risco.

E no topo de tudo, a limpeza étnica de cristãos no Oriente Médio é o maior crime contra a humanidade no século XXI. Em duas décadas, cristãos como eu foram reduzidos de 20% da população do Oriente Médio para meros 4% atuais.

E quando nós vemos que as vítimas principais da violência islâmica são muçulmanos, fica claro para todo mundo – no final do dia, o ódio destrói quem odeia.

Então, amigos, se desejarmos ser bem-sucedidos em proteger nosso direito de ser diferente, se quisermos ter um futuro naquela região, acredito que devemos nos alinhar – judeus, muçulmanos e cristão: nós lutaremos pelo direito de cristãos de qualquer lugar viverem sua fé sem medo, com a mesma paixão com que lutaremos pelo direito de os judeus viverem sem medo.

Lutaremos contra a fobia ao Islã, mas precisamos que nossos parceiros muçulmanos se juntem à luta contra a fobia contra cristãos e judeus.

Eu sei que isto pode soar ingênuo, mas acredito que é possível, e a única coisa que está colocada entre nós e um mundo mais tolerante, é o medo.


Quando o mundo muda, pessoas começam a ser preocupar com o que o futuro reserva.

Este medo faz as pessoas se encolherem em uma posição passiva de vítimas, rejeitando a realidade e procurando por alguém a quem acusar de estar por trás de tudo isso.

É verdade hoje tanto quanto era em 1948.

O mundo árabe pode superar esta mentalidade, mas isto requer coragem para pensar e agir de forma diferente.

Esta mudança pede que os árabes percebam que eles não são vítimas indefesas, isto demanda que fiquem acessíveis à autocrítica, e que se mantenham responsáveis.

Ainda hoje, nenhum único livro de história no mundo árabe questiona o erro histórico de rejeitar a fundação do estado judeu.

Nenhum acadêmico árabe proeminente se apresentou dizendo que se os árabes tivessem aceitado a ideia do estado judeu, eles teriam dois estados, não teria guerra, e não teria problema com refugiados.

Eu vejo os israelenses como Benny Morris, que está conosco hoje, que ousa desafiar as narrativas das suas lideranças em Israel, assumindo riscos pessoais na questão da verdade que não é sempre confortável para seu povo.

Mas, eu fracasso em achar equivalentes árabes.

Eu falho em ver um debate questionando a sabedoria da liderança destrutiva do Mufti de Jerusalém, Hajj Amin al-Hussaini, ou da guerra desnecessária iniciada pela liga árabe em 1948, ou quaisquer guerras contra Israel nos anos que se seguiram até hoje; e eu falho em ver autocrítica no mainstream palestino hoje sobre o uso do terrorismo, o início da segunda intifada ou da rejeição de pelo menos duas ofertas israelenses nos últimos 15 anos para encerrar o conflito.

Autorreflexão não é fraqueza, é um sinal de força.

Aflora nossa capacidade de superar o medo e enfrentar a realidade.

Exige que nós olhemos sinceramente nossas decisões, e nos responsabilizemos por elas.

Só os próprios árabes podem mudar a realidade deles.

Parando de se apoiar em teorias de conspiração e na responsabilização de poderes externos – América, os judeus, o Ocidente ou o que for – por todos seus problemas; aprendendo com os erros passados, e tomando decisões mais sábias no futuro.

Há apenas dois dias, o presidente americano Obama foi ao pódio das Nações Unidas em frente da Assembleia Geral e disse:

“A tarefa de rejeitar o sectarismo e extremismo é uma tarefa geracional – uma tarefa para pessoas do próprio Oriente Médio. Nenhum poder externo pode gerar uma transformação de corações e mentes”.

Nos últimos dias li um artigo muito interessante de Lord Sacks sobre rivalidade entre irmãos na Bíblia.

Tem quatro histórias sobre irmãos rivais no livro de Gênesis: Caim e Abel, Isaac e Ismael, Jacob e Esau, e José e seus irmãos.

Cada história termina de forma diferente. No caso de Caim e Abel, Abel morre. No caso de Isaac e Ismael, eles ficam juntos no túmulo do pai. No caso de Jacob e Esau, eles se encontram, se abraçam e seguem seus caminhos diferentes.

Mas o caso de José termina de forma diferente.

Para aqueles que não conhecem a história: José era o 11º filho dos 12 filhos de Jacob e Rachel, e o primeiro nascido na terra de Canaan. Em certa etapa, por causa do ciúme que tinha dele, os irmãos decidem vendê-lo para ser escravo. Entretanto, após algum tempo, José desponta para ser o segundo homem mais poderoso no Egito, próximo ao faraó.

Quando a fome se abateu em Canaan, o pai de José, Jacob, e os irmãos de José foram para o Egito. E lá, em vez de puni-los por terem-no entregue, José decide perdoar seus irmãos.

Este foi o primeiro evento documentado de perdão e reconciliação na literatura.

José provê seus irmãos em todas suas necessidades. Eles prosperam, aumentam em número, e se tornam uma grande nação.

No final da história, José diz aos seus irmãos: “Vocês pretenderam me ferir, mas Deus reverteu para o bem, para que fosse realizado o que está sendo feito agora, a salvação de muitas vidas”.

Com isto ele quis dizer que com nossos atos no presente, podemos moldar o futuro, e com isto redimir o passado.

Judeus e palestinos, podemos não ser irmãos de fé, mas nós certamente somos irmãos no destino. E eu acredito que assim como a história de José, através de fazer escolhas certas, ao escolher focar no futuro, nós podemos redimir nosso passado.

O inimigo de ontem pode ser o amigo de amanhã. Isto aconteceu entre Israel e a Alemanha, Israel e Egito, Israel e Jordânia.

Já está na hora de começar a fazer uma corrente de esperança nas relações entre israelenses e palestinos, para que possamos pôr um ponto final  na repetição de queixas antigas, e focar no nosso futuro e nas possibilidades excitantes que nos esperam a todos, se apenas ousarmos.

Eu ainda não contei o resto da história da minha família em 1948.

Depois de uma longa jornada em direção ao Líbano, a maior parte a pé, meus avós George e Vera alcançaram o Líbano. Eles ficaram lá por muitos meses. E, enquanto estavam lá, minha avó deu à luz a seu primeiro filho, meu tio Sami.

Quando a guerra acabou, eles perceberam que tinham sido enganados, os árabes não ganharam a guerra como haviam prometido.

E, por outro lado, os judeus não mataram todos os árabes como haviam dito que aconteceria.

Meu avô olhou à sua volta e não viu nada a não ser um beco sem saída na vida como refugiado. Ele olhou para sua jovem esposa Vera, com menos de 18 anos, e seu filho recém-nascido, e soube que ficar em um lugar enfiado no passado, sem habilidade de olhar à frente, não teria futuro para sua família. Enquanto seus irmãos e irmãs viram seus futuros no Líbano e em outros países árabes ou no Ocidente, ele pensou de outra forma.

Ele queria voltar para Jaffa, sua cidade natal.

Porque ele trabalhara com judeus no passado e tinha ficado amigo deles, não tinha sofrido uma lavagem cerebral de ódio.

Meu avô George fez o que poucos teriam ousado fazer –  ele estendeu a mão para aqueles que sua comunidade via como seus inimigos. Ele contatou um de seus antigos amigos da companhia de eletricidade e pediu sua ajuda para voltar.

E aquele amigo, de quem ouvi falar através das histórias do meu pai, e nunca soube seu nome, não apenas foi capaz como quis ajudar meu avô a voltar, mas em um ato de benevolência, até mesmo o ajudou a conseguir seu emprego de volta no que tinha se tornado a companhia de eletricidade israelense, fazendo dele um dos poucos árabes que trabalharam lá.

Hoje, entre meus irmãos e primos temos contadores, professores, agentes de seguro, engenheiros, diplomatas, gerentes de fábrica, professores universitários, médicos, advogados, consultores de investimento, gerentes de companhias importantes israelenses, arquitetos e até mesmo eletricistas.

A razão de minha família ter sido bem-sucedida na vida, a razão por eu estar aqui em pé como um diplomata israelense, e não como um refugiado palestino do Líbano, é porque meu avô teve a coragem de tomar a decisão que foi impensável para os outros.

Em vez de cair no desespero, ele encontrou esperança onde ninguém ousou procurar; ele escolheu viver entre aqueles que eram considerados seus inimigos, e torná-los seus amigos.

Por isto, eu e minha família devemos a ele e a minha avó gratidão eterna.

A história da família Deek deveria servir com fonte de inspiração para o povo palestino.

Nós não podemos mudar o passado. Mas nós podemos assegurar o futuro das nossas próximas gerações se quisermos emendar o passado algum dia; podemos ajudar os refugiados palestinos a terem uma vida normal; podemos ser francos sobre nosso passado, e aprender com nossos erros; e podemos nos unir – muçulmanos, judeus e cristãos – para proteger nosso direito de sermos diferentes, e com isto preservarmos nossa humanidade.

De fato, nós não podemos mudar o passado, mas se fizermos tudo isto, nós podemos mudar o futuro.

Obrigado.
Share on Google Plus

About coisasjudaicas@gmail.com

No Coisas Judaicas, fazemos de tudo para manter nossos amigos e visitantes bem informados. Todo mês, mais de 70 mil visitantes do mundo inteiro procuram nosso Blog para ler sobre:Judaísmo, Israel e o mundo judaico. É a nossa missão

0 Comentários:

[Fechar]

Receba gratuitamente o melhor conteúdo do Coisas Judaicas no seu e-mail e fique sempre atualizado.

Enter your email address:

Delivered by FeedBurner