Operação em Gaza provoca aumento de ataques anti-semitas na Europa


Maria João Guimarães

Sinagogas foram atacadas na França e na Alemanha ouviram-se slogans violentos como não se ouviam há décadas. Responsáveis da comunidade judaica expressam preocupação.

Slogans anti-semitas em algumas manifestações pró-palestinas, violência contra sinagogas e lojas de produtos kosher, ameaças de morte, ataques a judeus. Aconteceu em França, Alemanha, ou Reino Unido. A ofensiva de Israel em Gaza está a levar a ações anti-semitas em alguns países, a maioria levadas a cabo por franjas extremistas de populações de origem árabe ou muçulmana.

França, onde vive a maior comunidade judaica a seguir aos EUA e Israel (500 mil pessoas), e a maior comunidade muçulmana da Europa (entre 3,5 e 5 milhões), é vista como uma caixa de ressonância do que se passa no Médio Oriente. Mas representantes da comunidade judaica pedem que não se repliquem as hostilidades. “O conflito em Gaza acontece no Médio Oriente, e nós somos os judeus de França, não queremos importar este conflito”, disse Laura Nhari, porta-voz do conselho representativo das Instituições Judaicas de França, ao New York Times.

Em França, há quem considere que o fator decisivo foi a proibição de algumas manifestações pró-palestinianas. “A excepção francesa não foram as manifestações de apoio às vítimas de Gaza. Essas há em todo o lado, até em Israel”, diz o investigador Eric Fassin, do Instituto de Investigação Interdisciplinar das Relações Sociais. “É a proibição de se manifestar.”

Alguns políticos da oposição dizem o mesmo, enquanto o primeiro-ministro, Manuel Valls, argumentou que a violência mostrava que a proibição tinha sido necessária. As autoridades acabaram por autorizar uma manifestação para esta quarta-feira por os organizadores terem sido considerados “sérios e responsáveis”, segundo o jornal Le Parisien. Apenas as manifestações da área de Paris foram antes banidas, várias outras decorreram em muitas cidades sem qualquer incidente.

O anti-semitismo incomoda também o secretário-geral da Associação de Solidariedade França-Palestina, Didier Fagart. O responsável refere que a maioria dos cerca de 300 protestos em 80 cidades francesas promovidos pela associação decorreram sem qualquer incidente. “Queremos mostrar a dor dos franceses pelo massacre em curso em Gaza”, disse. “Condenamos qualquer forma de violência e racismo, incluindo anti-semitismo.”

França tem especiais preocupações com o anti-semitismo, com a Frente Nacional a ter obtido vitórias consecutivas nas eleições regionais e europeias e onde um comediante, Dieudonné, tem sucesso com tiradas abertamente anti-semitas. Apesar da estratégia de “normalização” de Marine Le Pen, esta por vezes tem sido comprometida pelo pai, Jean Marie, que ainda recentemente sugeriu “fazer uma fornada” com críticos do partido de extrema-direita.

Em Sarcelles, subúrbio de Paris conhecido como “pequena Jerusalém”, foram atacadas uma farmácia de um judeu e uma loja de produtos kosher, para além do rasto de destruição deixado pela violência da manifestação proibida – vidros de carros partidos, etc. “Não dormi de noite, não estava tranquilo”, conta um homem de 67 anos cujo carro foi destruído, que não quis dar o nome, à agência AFP. “As pessoas ficaram atordoadas, a comunidade judaica tem medo”, disse o presidente da câmara, François Pupponi.

Políticos estabeleceram a diferença. “Protestos contra Israel são legítimos”, disse o ministro do Interior, Bernard Cazeneuve. “Quando se ameaçam sinagogas e quando se incendeiam mercearias porque o dono é judeu, isso são atos anti-semitas, isso é intolerável”, sublinhou. Na zona de Paris foram atacadas já oito sinagogas nas últimas duas semanas.

Na Alemanha, um imã de uma mesquita de Berlim apelou à “destruição dos judeus sionistas”, pedindo que fossem “mortos, até ao último”, segundo um vídeo divulgado pelo diário hebraico Ha’aretz. Em manifestações pró-palestinianas ouviram-se slogans anti-semitas, como “gaseiem os judeus”, conta a agência norte-americana Associated Press.

Na imprensa alemã também surgiram relatos de slogans ofensivos e violentos, como “judeu, porco cobarde”. O jornal Tagesspiegel não hesitava em escrever que “desde que a época dos nazis não se ouviam palavras anti-semitas ditas tão abertamente como nas manifestações de jovens árabes contra o conflito em Gaza”. Ditas em frente da polícia que, criticava o jornal, “não fez nada”. Ainda em Berlim, um turista israelense que passava perto da manifestação foi arrastado por um pequeno grupo, mas salvo pela polícia.

“Nunca nas nossas vidas pensamos na possibilidade de que este anti-semitismo tão primário se ouvisse nas ruas da Alemanha”, reagiu Dieter Graumann, presidente do Conselho Central Judaico do país. No caso alemão, um estudo recente mostrou que a maioria (60%) das mensagens de ódio anti-semitas enviadas por email ao organismo vinham de alemães com formação, incluindo professores universitários (muitos nem hesitavam em usar contas de email em que eram facilmente identificados), e que apenas 3% vinham de extremistas ou neonazis.

Em Londres, uma grande manifestação decorreu pacificamente no fim-de-semana, mas uma mulher de 57 anos, judia, relatou um ataque em Oxford Street – ia a falar sobre o conflito ao telemóvel quando passou pela manifestação, e depois de ter sido insultada por um grupo de jovens que pareciam ser do Sudeste asiático, perguntou-lhes porque é que o Hamas disparava rockets contra a sua filha, que estava em Telavive. Foi perseguida e agredida até ter entrado numa loja. “Como é que isto acontece em Oxford Street em 2014?” perguntava.

Os ministros dos Negócios Estrangeiros de França, Alemanha e Itália condenaram, numa declaração conjunta emitida esta terça-feira, o que dizem ser um aumento do anti-semitismo nos seus países. “Retórica anti-semita e hostilidade contra judeus, ataques contra crentes na fé judaica e sinagogas não têm lugar na nossa sociedade”, disseram os responsáveis.

O último pico em ataques anti-semitas no mundo ocorreu no início de 2009, segundo dados do centro Kantor da Universidade de Telavive, o que coincidiu com a última incursão terrestre das forças israelitas na Faixa de Gaza, no final de 2008, início de 2009. Nesse conflito, que durou 22 dias, morreram entre 1300 e 1400 palestinianos e 13 israelitas, na maioria soldados. Na atual operação, que vai no 14.º dia, o número de mortos palestinos ultrapassou já os 580 palestinianos e 27 israelenses, também na maioria soldados. 

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