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    13/07/2014

    A Petição das Filhas de Zelophehad

    A Petição das Filhas de Zelophehad

     
    Por Sarah Schneider

    Há um número crescente de mulheres observantes de Torá se esforçando para reconciliar duas aspirações que não são facilmente combinadas. Uma é o anseio por casamento e filhos, a outra uma paixão pelo estudo e participação mais ativa na vida comunal. Há poucos modelos a seguir, e para muitas o próprio impulso desperta questões. É um anseio sagrado, ou a pessoa está sendo estimulada por valores seculares não apoiados por verdades espirituais?

    A questão é real para toda mulher que procura viver pela Torá. Uma maneira de resolver o problema é identificar uma passagem da Escritura que articula o arquétipo para este dilema, e examina seus ensinamentos em busca de conselhos relevantes.

    “A humanidade favorece os homens acima das mulheres. Mas D'us não é assim…” Sugiro que a narrativa da Torá (Bamidbar 27) sobre como as filhas de Zelophehad apresentaram seu caso perante Moshê para receberem a parte do pai na Terra Prometida com herança, serve como um excelente modelo para as mulheres judias de hoje contestando o status quo.

    Uma petição foi apresentada pelas filhas de Zelophehad… E elas ficaram perante Moshê, o sacerdote Elazar, os príncipes e toda a comunidade na Tenda do Enconrto, com a seguinte petição: “Nosso pai morreu no deserto… sem deixar filhos homens. Por que o nome de nosso pai seria desmerecido em sua família meramente porque ele não teve filhos? Dê-nos uma porção de terra juntamente com os irmãos do nosso pai.”

    Moshê levou o caso perante D'us.

    D'us falou a Moshê, dizendo: “As filhas de Zelophehad falam corretamente. Dê-lhes uma porção hereditária de terra ao lado da porção dos irmãos do pai. Que a propriedade hereditária do pai passe assim a elas.

    “Fala com os israelitsa e diz a eles: Se um homem morre sem filhos homens, sua propriedade deve passar para a filha…” (Bamidbar 27:1-9).

    Há muitos ensinamentos nessa passagem, relevantes tanto para mulheres procurando apoio haláchico (legal segundo a Torá) para mudança e para rabinos que estão legislando sobre essa questão. Isso sugere uma abordagem que se adotada conscientemente por ambas as partes, manterá a paz abaixo e atrairá bênção do Alto. Este artigo explora ambas as perspectivas.

    Orientações para Solicitantes
    Quando as filhas de Zelophehad souberam que a terra estava sendo dividida entre as tribos mas não entre as mulheres, concordaram em discutir o assunto. Disseram: “A misericórdia e compaixão de D'us não é como a compaixão dos homens. A humanidade favorece os homens acima das mulheres. D'us não é assim. Sua compaixão se estende igualmente a homens e mulheres…” (Yalkut Shimoni, Pinchas 27; Sifri, Bamidbar 27:1)

    Elas identificaram o princípio espiritual subjacente sendo violado. No fundo, algo não estava certo, e elas deram nome a isso. Como estavam concentradas na verdade e no bem superior, elas tiveram a força de persistir com resistência interior e exterior.

    As filhas de Zelophehad eram mulheres sábias, pois apresentaram sua petição na hora certa. (Talmud, Bava Batra 119 b; Midrash Rabbah, Bamidbar 21:11).

    Elas não levantaram questões teóricas. Em vez disso, esperaram até o momento da decisão prática e emitiram sua opinião. Aprendemos com elas que há dois critérios de verdade. Seu conteúdo deve ser acurado, e deve ser falado na hora exata. Quando as duas condições são preenchidas, os céus e a terra se abrirão para recebê-lo.

    As filhas de Zelophehad entenderam que o momento exato é profundamente intuitivo. Pelo seu exemplo derivamos um princípio essencial de ação social; deve-se esperar pelo momento exato para corrigir uma injustiça.

    Há três motivos para isso:

        O “princípio ofensor” pode se dissipar por si mesmo.
        O indivíduo que se sente oprimido pelo conceito ofensor pode descobrir, no decorrer da vida, que o assunto se torna irrelevante.
        A mudança pode ocorre naturalmente no momento do contato.

    As cinco filhas de Zelophehad eram mulheres instruídas. Apresentaram sua petição de maneira lógica e halachicamente sofisticada (Talmud e Midrash, ibid.).

    Após identificar a estrutura espiritual mais ampla, elas apoiaram sua petição com princípios e precedentes haláchicos. Construíram um argumento que era verdadeiro ao pé da letra e espírito de autêntico discurso.

    Seu conteúdo deve ser acurado, e deve ser falado na hora certa. Sua petição seguia uma aguda linha de raciocínio que incorporava todas as leis e princípios relevantes, e até formulava a decisão correta.

    É por isso que a Escritura diz: “E Moshê levou seu julgamento perante D'us” – o julgamento delas, não sua pergunta, pois sua petição incluía o argumento legal e sua regra. (Anaf Yosef comentário sobre Ein Yaakov, Bava Batra 119 b).

    E finalmente, elas confiaram [o termo aramaico usado, urechitzu, é do mesmo radical de rachatz, lavar] no Misericordioso, o Mestre do mundo… e foram perante Moshê… e a congregação inteira na entrada do Santuário. (Targum Yonatan, Bamidbar 27:1)

    Elas entregaram o assunto a D'us e se purificaram de qualquer envolvimento com qualquer outra coisa que não fosse a verdade. Embora quisessem um resultado favorável, não o queriam contra a vontade de D'us.

    Esse é o passo mais crítico em todo o processo. A pureza do desejo de alguém pela verdade determina o sucesso de todos os estágios subsequentes. Quanto mais alguém renuncia à agenda pessoal, maior a ajuda Divina que recebe.

    “Tornar-se limpo” é entregar todo o controle, “confiando todo o assunto ao Misericordioso, o Mestre do Mundo.”

    Embora relutantes em aparecerem em público, as filhas de Zelophehad dominaram seu recato natural porque sua questão era fundamental (Tiferet Tzion, Bamidbar 27:2).

    As filhas de Zelophehad estavam vivendo uma parte da Torá Escrita, e queriam que fosse aceita no texto. Não há missão mais sagrada que revelar uma lei da Torá que influenciará o comportamento dos judeus até o final dos tempos. A explicação das belas opiniões é uma tarefa abençoada, mas ser a fonte de uma das 613 mitsvot é a honra mais elevada possível.

    Embora a Torá Escrita seja fixa e definitiva, a Torá Oral está constantemente evoluindo. Cada geração tem novas tecnologias e fenômenos culturais com implicações haláchicas que ainda não foram exploradas. O processo de formular questões e gerar discurso haláchico é a força do povo judeu. As filhas de Zelophehad são modelos para esse trabalho de aplicar a lei do Sinai a situações contemporâneas. Todo judeu em toda geração tem um papel a desempenhar nesse processo de evolução da Tradição Oral.

    O Midrash registra o seguinte diálogo entre as filhas de Zelophehad e Moshê:

    Filhas: Dê-nos uma porção da terra junto com os irmãos de nosso pai.
    Moshê: É impossível uma filha herdar.
    Filhas: Por quê?
    Moshê: Vocês são mulheres.
    Filhas: Então deixe nossa mãe entrar em yibbum (casamento levirato – como a lei de a esposa de alguém que morreu “sem semente”) e concebe um herdeiro dessa maneira.
    Moshê: Impossível. Quando há filhos, yibbum não é possível.
    Filhas: Você está se contradizendo, Moshê. Ou não somos “semente” e a obrigação de yibbum se aplica à nossa mãe, ou somos “sementes” e podemos herdar a terra nós mesmas.

    Naquele momento elas convenceram Moshê. Quando ele ouviu a justiça da reclamação delas, imediatamente apresentou o caso a D'us (Yalkut Shimoni, Pinchas 27).

    As filhas de Zelophehad não desistiram quando encontraram resistência. Moshê disse “não” pelo menos três vezes antes de concordar com a lógica da posição delas.

    Similarmente, um convertido é recusado três vezes. Somente candidatos que são impulsionados pela verdade não-negociável de sua alma encontrarão a motivação para superar os obstáculos e reclamar seu lugar entre o povo judeu.

    Quanto mais alguém renuncia à sua agenda pessoal, mais ajuda Divina recebe. Todo conceito novo ou decisão haláchica de tornar-se parte da Torá é uma espécie de “convertido”. Uma nova centelha está procurando entrar na comunidade de Israel. Este, também, será recusado pelo menos três vezes, mas por fim encontrará seu caminho para entrar, pois nenhuma centelha é permanentemente exilada. Toda verdade encontrará seu caminho de volta à Torá.

    “As filhas de Zelophehad falaram corretamente…” Rashi explica que D'us estava dizendo: “[Assim como as filhas de Zelophehad falaram,] assim é esta seção da Torá escrita perante Mim no alto.” Isso nos informa que os olhos delas viram aquilo que os olhos de Moshê não viram (Rashi sobre Bamidbar 27:7; Targum Yonatan ibid.; Yalkut Shimoni,; Sifri ibid.).

    Moshê é o maior profeta que já viveu, e mesmo assim as filhas de Zelophehad viram algo que ele não viu. Cada alma vem ao mundo com seu próprio aspecto único da verdade. O mestre chassídico rabi Tzadok HaKohen escreve que todo judeu tem uma parte na Torá Oral – seja uma lei real, seja uma aplicação específica da lei – que se torna revelada somente através das circunstâncias singulares de sua vida (Likutei Maamarim, págs. 80-81; Yisrael Kedoshim, pág. 152).

    Há uma tensão criativa entre o povo e seus líderes. Por um lado, respeitamos a sabedoria de nossos idosos; porém, pelo outro, podemos saber algo que eles não sabem, porque é nosso pedaço da Torá. Quando isso acontece, não temos opção exceto nos engajar em diálogo respeitoso, seguindo o modelo das filhas de Zelophehad, que encontraram a maneira de transformar a sabedoria pessoal em Torá Oral.

    As filhas de Zelophehad era mulheres justas. Não se casaram até completar 40 anos. Esperaram por pretendentes que as merecessem (Talmud, Bava Batra 119 b; Bamidbar Rabbah 21:11; Yalkut Shimoni ibid.). Toda escolha tem consequências, e às vezes, embora os custos superem os lucros, a integridade exige que tomemos aquele caminho.

    D'us criou cada alma com talentos específicos, pois Ele deseja certas revelações que vêm por intermédio delas.

    As filhas de Zelophehad se desenvolveram em maneiras que diminuiriam suas opções de encontrar parceiros apropriados para o casamento. Seu intelecto e integridade excepcionais as colocavam numa categoria que não era facilmente igualada. E mesmo assim, nossos Sábios as chamam de justas porque se recusaram a desperdiçar os preciosos dons que D'us lhes tinha concedido.

    Lições para os “Guardiões”
    A história das filhas de Zelophehad também tem lições para os rabinos, que são os guardadores dos portões, aqueles responsáveis por selecionar quais mudanças entram e quais não. Alguns desses ensinamentos são discutidos em Midrashim e comentários, ao passo que outros são presumidos pela ausência de comentários negativos.

    Visivelmente ausente está qualquer crítica feita por Moshê, ou outros comentários, sobre a propriedade de gênero da ação delas. Ninguém sequer insinua que as filhas de Zelophehad ultrapassaram os limites quando ficaram perante toda a congregação e apresentaram publicamente sua petição a Moshê e aos anciãos.

    A fé e a força intelectual das mulheres é um recurso que não podemos desperdiçar Também flagrantemente ausente está qualquer indicação de que os rabinos foram pessoalmente ameaçados pela firmeza da ousadia intelectual das filhas de Zelophehad.

    O contraste é pungente. Enquanto os homens estavam convocando para um motim, abandonando Israel e se preparando para voltar ao Egito (Bamidbar 14:4), as filhas de Zelophehad olharam para a frente e pediram sua própria porção da Terra.

    O Midrash nos diz que quando Moshê questionou a força de fé das mulheres, elas disseram (parafraseando Salmos 119:126): “Quando as pessoas estão abandonando Tua Torá (i.e., os homens estão voltando ao Egito), está na hora de intensificar o compromisso com o serviço de D'us.”

    O Midrash então dá um exemplo que apoia os princípios que foram citados pelas filhas de Zelophehad. A história é sobre uma jovem judia cativa que se tornou criada de um general sírio. O conhecimento dela sobre as leis detalhadas da lepra se tornou um meio para santificar o Nome de D'us. O Midrash pergunta como essa mulher se tornou tão educada numa questão tão esotérica da lei, especialmente numa época em que até os homens tinham abandonado os estudos. E responde que ela aprendeu na casa de seu pai que “quando as pessoas estão abandonando a Torá [faz uso de todo recurso à disposição – incluindo a capacidade das mulheres – para fortalecer o restante], que se apega ao serviço de D'us.” (Sifri Zuta 27:1); Yalkut Shimoni ibid.).

    Pode-se encontrar um paralelo no nosso tempo. Como estamos agora numa época de crise nacional, com judeus assimilando-se numa velocidade assustadora, a fé e a força intelectual das mulheres é um recurso que não podemos desperdiçar. Há mulheres nesta geração que estão profundamente imersas em amor e temor a D'us. e que possuem força de mente e amor à Torá que podem ser de grande utilidade ao povo judeu. Este Midrash sugere que nessas circunstâncias, “é um tempo de fazer para D'us” e habilita mulheres sempre que a Halachá permitir. Se uma lei é clara e firme, que seja assim. Porém se a lei tem espaço para se expandir, então o Midrash diz para habilitar mulheres para servir ao seu povo com todos os dons concedidos por D'us.

    Como Moshê enfatizou tanto com o dilema delas e respeitou seu amor pela Terra, ele rezou por um veredicto favorável. Isso sugere que foi a prece de Moshê que na verdade provocou a decisão favorável. Por mais que ele desejasse a verdade, queria partilhar com elas aquilo que era objetivamente bom, algo pelo qual ele próprio ansiava (i.e., a terra) que não estava, sob circunstâncias normais. acessível às mulheres.

    A Torá está ensinando uma lição poderosa aos rabinos de hoje. Se eles pretendem imitar Moshê, então devem sentir compaixão pelas mulheres que os abordam com petições haláchicas. Sua empatia deveria ser tão forte que os levaria à prece. Que seja Tua vontade que Tua halachá permita um julgamento favorável, um julgamento que permitirá a completa expressão do serviço para todos os envolvidos.

    Somente após atingir genuína empatia com os solicitantes o rabino deveria começar sua pesquisa haláchica.

    Os mestres chassídicos nos dizem que as histórias da Torá fazem uma espiral através da história, portanto cada geração revive algum estágio específico da jornada de quarenta anos dos israelitas do Egito à Terra Santa. O incidente das filhas de Zelophehad ocorre nas estepes de Moab, a última parada da jornada. Assim, sua repetição na escalada de seis milênios da história será um dos últimos desenvolvimentos antes da Era Messiânica. Portanto não é surpresa que um crescente número de mulheres nesta geração se identifique com as filhas de Zelophehad e encontrem os próprios anseios espelhados na história delas.

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