Judaísmo, vegetarianismo e a alimentação

Judaísmo,  vegetarianismo e a alimentação

A linha mais básica de demarcação no reino da Halachá (código de leis judaicas) é aquela entre o permitido e o proibido. No entanto, no âmbito do permitido, encontramos também uma outra linha entre o aceitável e o ideal. Neste ponto, não basta perguntar o que é que D-us permitiu, mas o que é que D-us prefere.
Dentro deste contexto, é essencial que não só perguntemos quais os alimentos que D-us permite, mas que também consideremos a dieta que D-us prefere para nós. Os seguintes argumentos são apresentados em prol da minha visão de que a preferência de D-us para as pessoas é o vegetarianismo. Vou apresentar a minha opinião e espero que o amigo leitor possa entender que não estou querendo transformar o mundo em vegetarianos (até porque no judaísmo a crença de que na era messiânica o mundo será vegetariano), quero apenas mostrar um lado que muitos judeus desconhecem e até mesmo os nossos amigos não judeus.

As pessoas eram originalmente vegetarianas

A primeira lei dietética de D-us era estritamente vegetariana: "E disse D-us: Eis que vos tenho dado toda erva que dá semente, que está sobre a face da terra, e toda árvore em que há fruto que dê semente a árvore - para você, servirá de alimento" (Gênesis 1:29). Essa primeira intenção de D-us era que as pessoas fossem vegetarianas e isso foi afirmado por comentaristas da Torá tais como como Rashi, Abraham Ibn Ezra, Maimônides e Nachmânides, e por estudiosos posteriores como o Rabino Samson Raphael Hirsch, Moisés Cassuto e Nehama Leibowitz. É significativo que, depois de dar essas leis dietéticas, D-us viu tudo o que tinha feito e "eis que era muito bom" (Gênesis 1:31).

O subsídio de D-us para comer carne era apenas uma concessão

Vamos analisar agora, leitor, a permissão de D-us dada a Noach (Noé) e seus descendentes para comer carne. Segundo o rabino Abraham Isaac HaKohen Kook, primeiro Rabino-Chefe do pré-estado de Israel e um dos proeminentes pensadores judeus do século XX, essa permissão era apenas uma concessão temporária à fraqueza humana. Ele pensou que D-us, que é misericordioso com todas as suas criaturas, não iria instituir uma lei eterna que permitisse a matança de animais para a alimentação humana muitas vezes de forma cruel. Vale dizer que o Rav Kook inspirou muitos jovens judeus a formar o movimento juvenil Bnei Akiva, que hoje conta com mais de 75 mil jovens em todo o mundo, grupo que também existe no Brasil (cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre).

Voltando ao nosso assunto, quero dizer que a Torá conecta ainda mais o consumo de carne à luxúria descontrolada e ao desejo desenfreado do ser humano (Deuteronômio 12:20), enquanto os alimentos vegetarianos são vistos com bons olhos: “Porque o Senhor teu Deus te põe numa boa terra, terra de ribeiros de águas, de fontes, e de mananciais, que saem dos vales e das montanhas; terra de trigo e cevada, e de vides e figueiras, e romeiras; terra de oliveiras, de azeite e mel. Terra em que comerás o pão sem escassez, e nada te faltará nela; terra cujas pedras são ferro, e de cujos montes tu cavarás o cobre. Quando, pois, tiveres comido, e fores farto, louvarás ao Eterno teu D-us pela boa terra que te deu.” (Deuteronômio 8:7-10)
O rabino Kook, além disso, acreditava que as muitas leis e restrições relacionadas com a preparação e o consumo de carne (as leis de kashrut) apoiou esta perspectiva. Para o rabino Kook, estes regulamentos implicou uma reprimenda e serviu como um aparelho elaborado projetado para manter vivo um sentimento de reverência pela vida, com o objetivo de, eventualmente, conduzir as pessoas longe de seu hábito de comer carne. Esta idéia é ecoada por toda a Torá.

Qual era a necessidade de todo o processo de abate ritual, então? Por uma questão de lógica, é muito mais apropriado para o homem não comer carne, só se ele tem um forte desejo pela carne que a Torá permite tal consumo, e até mesmo isso só após os transtornos e inconvenientes necessários para satisfazer o seu desejo. Talvez por causa desse incômodo e aborrecimento temos todo o procedimento no abate. Na verdade, o judaísmo deseja que a pessoa controle o desejo que é tão forte e incontrolável para o consumo da carne. Este argumento é ainda apoiado pela explicação de diversos rabinos e sábios da Torá que afirmam que nos dias messiânicos as pessoas vão voltar a ser vegetarianas. Eles se baseiam na profecia de Yeshaiahu (Isaías) que diz:
“E o lobo habitará com o cordeiro,.
E o leão comerá palha como o boi,.
E não haverá mal nem dano algum em todo o meu santo
monte (referencia ao Templo de Jerusalém onde ocorria as ofertas de animais).”
(Isaías 11:6-9)
É bom registrar, caro leitor, que D-us estabeleceu uma outra dieta sem carne na saída do povo israelita do Egito, que era o maná. Quando os israelitas deixaram o Egito, isto parece indicar ainda a preferência de D-us para este tipo de dieta, pois o maná está claramente descrito na Torá como uma comida vegetariana, “como semente de coentro" (Números 11:07). A dieta, além disso, manteve os israelitas em bom estado de saúde durante 40 anos no deserto. Temos também o relato do sábio Daniel que ao viver na Babilônia seguia uma dieta vegetariana e não consumia proteína animal, basta uma análise de Daniel 1:10-16. E, para finalizar, aqui temos também a seguinte afirmação da Torá que em tempos de guerra é proibida a destruição de árvores frutíferas (Deuteronômio 20:19/20).

Só para esclarecer outro ponto, amigos, todas as ofertas feitas no Templo, onde o consumo da proteína animal era permitido, tinha um motivo de existir, que era a prática de justiça social, mas irei falar dessas ofertas numa outra oportunidade. O que desejo falar aqui nesse espaço é que o modo de vida judaico pauta por uma vida sem extremos. O consumo de proteína animal é permitido sim, mas o ideal desejado das Escrituras é uma alimentação com menos proteína animal e mais frutas e verduras, e assim controlarmos o desejo que é forte dentro de cada um de nós seres humanos. Controlando esses desejos iremos ao longo da nossa existência aprimorando nossa alma (intelecto) e chegaremos àquilo que D-us deseja e que nossos profetas afirmaram muitas vezes que é o desejo de uma paz que reinará na terra. Que possamos com bons atos ajudar a chegada dessa era de respeito e paz. Judaísmo é ação, como afima o Rav Moré Ventura de São Paulo, e que cada um de nós, judeus e não judeus, possamos agir de forma consciente para um mundo melhor.

* Hai Mendel, economista, da comunidade judaica de São Paulo

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