Indecisão de Israel diante da crise síriapor Nir Boms e Asaf Hazani

Há mais de três anos a Síria mergulha em um banho de sangue e se desintegra. Um terço da população está no exílio e metade da infraestrutura foi destruída. Essas dificuldades reforçam os temores securitários do vizinho israelense, dividido entre sua hostilidade ao regime de Damasco e o medo de grupos jihadistas

Não faltam palavras no repertório israelense para designar os acontecimentos que agitam o mundo árabe nos últimos anos. Elas refletem a maneira como os diferentes atores percebem essas mudanças. Assim, a “Primavera Árabe” dos primeiros dias tornou-se, com o passar dos meses, um perigoso “Inverno Islâmico Radical”, depois, diante da persistente incapacidade dos dirigentes do país de definir a própria natureza das transformações em curso, “Distúrbios no Oriente Médio”. No fim, a propensão a oscilar entre otimismo e pessimismo transformou-se em profunda perplexidade.

Impressionado com o efeito dominó provocado pela imolação de Mohamed Bouazizi na Tunísia, inicialmente Israel viu nos protestos “lá fora”, longe de suas fronteiras, uma experiência sociológica fascinante. O país estava verdadeiramente convencido de constituir uma entidade distinta, um caso à parte no Oriente Médio. O ex-ministro da Defesa Ehud Barak (2007-2013) considerava-o uma “casa de campo no meio da selva”. Para o establishment, o “movimento das tendas” israelense de 2011,1 uma aventura de verão inspirada fundamentalmente em movimentos europeus e norte-americanos (os “indignados”, Occupy Wall Street), refletia mais o descontentamento social do que um contágio das turbulências regionais.

Um inimigo íntimo

No começo, Israel, prudente, preferiu manter-se de fora. Embora a Primavera Árabe estampasse regularmente as manchetes, as mudanças na Arábia Saudita, no Iêmen e no Bahrein foram totalmente ignoradas, pois não diziam respeito diretamente à segurança do Estado hebreu.

Mas os efeitos diretos das perturbações regionais começaram a ser sentidos, forçando os dirigentes do país a admitir que as revoltas árabes poderiam afetar os interesses nacionais. Eles ficaram preocupados quando viram as armas detidas antes de 2011 por Muamar Kadafi, na Líbia, passarem às mãos de elementos terroristas operando sem controle perto de suas fronteiras. Atentados foram perpetrados no Sinai desde a queda de Hosni Mubarak, no início de 2011, e intensificaram-se com a deposição de Mohamed Morsi, no verão egípcio de 2013. Lutando para manter uma aparência de estabilidade na península, os sucessivos presidentes do Egito esforçaram-se para impor sua autoridade. Signatário de um acordo de paz com o país africano em 1979, Israel viu-se diante de um dilema: devia responder aos atos terroristas? Advertir o governo egípcio pela incapacidade de restabelecer a ordem? Nenhuma das opções era isenta de risco. Outra possibilidade: concordar em rever os aspectos militares dos acordos de paz e permitir que o Egito reforçasse suas tropas no Sinai. Uma decisão crucial, que deveria garantir a segurança no futuro, em detrimento do presente.

No entanto, o Sinai estava longe de ser o único desafio. A desestabilização da Jordânia, amplamente negligenciada, também despertava uma preocupação crescente. Da mesma forma, na Síria, os combates atraíam as organizações jihadistas internacionais, cujo controle sobre o país, dominado pelo caos, crescia. Israel observava esses eventos com apreensão, mantendo o controle sobre os territórios palestinos na esperança de que o contágio do Oriente Médio não o atingisse. Uma pergunta o assombrava: diante da ascensão dos grupos armados, os Estados seriam ainda atores pertinentes? Em 2006, o Estado libanês não tinha sido incapaz de impedir o conflito entre o Hezbollah e Israel?

Durante os primeiros meses da revolta que eclodiu em março de 2011, Bashar al-Assad preferiu acreditar em uma tempestade passageira, um fenômeno sem ligação com as turbulências regionais. Circunscritas no espaço e no tempo, as manifestações realizadas às sextas-feiras não tinham, segundo ele, nada a ver com uma revolta geral contra seu poder. Muito rapidamente, no entanto, a Síria entrou em um banho de sangue e a violência que a atingiu afetou toda a região. Com o tráfico de armas que se estabeleceu em todo o Oriente Médio a partir da queda do regime líbio, um grande número de jihadistas estrangeiros afluiu para a Síria.

As hostilidades causaram uma onda de sofrimento terrível e um deslocamento maciço de populações em toda a região, provocando preocupação internacional. As centenas de milhares de refugiados instalados na Turquia, Líbano e Jordânia abalaram a estabilidade de seu país de acolhimento; mas Israel, sempre inimigo, foi dispensado de qualquer participação na gestão do problema. Os palestinos também se recusaram a coordenar com Israel sua ação em favor dos refugiados sírios. Uma posição bastante confortável para um Estado que já enfrentava uma significativa imigração de trabalhadores africanos.

Outros aspectos dos acontecimentos revelaram-se benéficos para a paz dos dirigentes de Israel. Em primeiro lugar, com a Primavera Árabe, a busca por uma solução para o problema palestino passou ao segundo plano nos assuntos internacionais. Antes do início das hostilidades na Síria, apenas os palestinos se beneficiavam do estatuto de refugiados no Oriente Médio. Agora, eles foram ultrapassados pelos sírios: na região, estes se tornaram a maior comunidade vivendo no exílio ou deslocada no território nacional.

Além disso, o medo da dissolução da Síria teve um impacto direto sobre as relações entre os parceiros do eixo Irã-Síria-Hezbollah. Anteriormente, Irã e Síria estavam focados no apoio ao Hezbollah. Agora, ainda que Israel continue preocupado com o fato de que armas não convencionais sejam entregues por Damasco à organização de Hassan Nasrallah, é a Síria quem mais conta com a ajuda dos outros dois. Não é uma mudança insignificante, especialmente se lembrarmos que, historicamente, o establishmentisraelense sempre tendeu a compreender os eventos geopolíticos pelo viés securitário, ignorando pura e completamente as mudanças que não tivessem nenhum impacto nesse sentido.

Considerando o regime de Al-Assad inexoravelmente condenado, Israel contentou-se com o estatuto de observador externo. E ficou igualmente satisfeito em ver a Síria romper sua relação com o Hamas palestino em 2012. Entretanto, com a escalada do conflito, muitos altos dirigentes recorreram à frase utilizada em um contexto completamente diferente pelo ex-primeiro-ministro Menachem Begin: “Desejo boa sorte para ambas as partes”.

A queda do regime de Al-Assad serviria aos interesses israelenses por desestabilizar o eixo iraniano-xiita. Em compensação, dada a fragilidade da oposição laica, uma vitória dos insurgentes poderia conduzir à instauração, no quintal do Estado hebreu, de um regime islâmico hostil. Al-Assad é um inimigo oficial e declarado, que está sentado em seu palácio e com o qual já se sabe como se comunicar; já os insurgentes não têm caixa postal. Ou elas são tantas que fica impossível combater ou negociar com eles como se faz com um adversário estatal: bombardeio de locais estratégicos, mensagens transmitidas por uma terceira parte etc.

Israel quase conseguiu não tomar partido abertamente. Os esforços diplomáticos que culminaram na programação da destruição do arsenal químico sírio livraram-no de uma série de preocupações. O comando da frente interna das Forças Armadas, responsável pela defesa civil, suspendeu a produção de máscaras de gás. No que diz respeito à transferência de armas estratégicas (especialmente da Síria para o Hezbollah) e à extensão dos combates em Golã – o planalto sírio ocupado desde 1967 e anexado em 1981 – ou em seu próprio território, Israel traçou linhas vermelhas: sua aviação não hesitou em realizar incursões contra alvos militares sírios, as mais recentes em fevereiro e março de 2014.

Golã, que era uma zona tampão desde a guerra de 1973, já não o é mais. As forças da ONU não são mais eficazes, e ocorreram combates muito perto das fronteiras. Tiros de morteiro e obuses de artilharia, rajadas de metralhadora e bombas à beira das estradas voltam-se para Israel, intencionalmente ou não. Como responder a isso? Deve-se permitir que a ONU reforce suas tropas na região, como foi permitido ao Egito no Sinai? Deve-se responder abrindo fogo, sob o risco de uma perigosa escalada?

De maneira mais ampla, deve-se ajudar uma das partes em conflito? Deve-se escolher um lado, abster-se de ajudar ambos ou fornecer diversos níveis de assistência aos dois ao mesmo tempo? E, na hipótese de Israel prestar assistência, deve prestá-la direta ou indiretamente? Abertamente ou em segredo? Deve entregar armas – uma forma de assistência que muitas vezes o país praticou – ou dedicar-se à ajuda humanitária?

Oitocentos sírios já foram atendidos

Uma das raras operações em que o Estado hebreu implicou-se ativamente, sem debate público, foi a significativa assistência médica aos feridos sírios em Golã desde fevereiro de 2013. Pessoal militar paramédico ocupa-se dos feridos sírios na região de fronteira; um hospital de campanha foi criado para acomodar o crescente número de feridos, alguns dos quais são transferidos para o hospital israelense de Safed. Aproximadamente oitocentos sírios já receberam tratamento. Outras operações humanitárias são realizadas com a ajuda de ONGs.

Mas, enquanto o sul de Golã se torna um refúgio estratégico para as organizações islâmicas radicais, Israel é forçado a escolher: remodelar ativamente a região e ali exercer sua influência ou esperar e ver o que o futuro lhe reserva. Mas a análise das operações realizadas até o momento não oferece nenhuma conclusão decisiva. A recusa em conceder ajuda aos rebeldes dentro e fora da Síria mostrou que Israel certamente prefere preservar o regime de Al-Assad, optando por um inimigo que já conhece. Mas o apoio à ideia de uma intervenção militar norte-americana em setembro de 2013, como extensão da ajuda humanitária, poderia indicar uma inflexão em sua política.

Até agora, Israel fez de tudo para ficar longe do Oriente Médio em geral e do conflito sírio em particular. Essa escolha, que tem o apoio da opinião pública, junta-se à dos Estados Unidos. No início de 2013, alegando que a utilização de armas químicas representava uma “linha vermelha”, os norte-americanos ameaçaram a Síria de intervenção militar, mas desistiram, preferindo “comandar dos bastidores” (lead from behind). Outros, como Turquia, Catar, Irã e os Estados-membros do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), optaram por uma postura mais ativa, apoiando diversas facções da oposição islâmica.

ONGs israelenses, como Flying Aid e Hand in Hand with Syrian Refugees, deram uma resposta diferente. Elas foram as primeiras a reconhecer tanto a necessidade como a possibilidade de criar uma nova relação com os sírios e realizaram operações de assistência humanitária na Jordânia, Turquia e Síria, sobretudo entregando alimentos e suprimentos médicos. No total, até agora, mais de 1,3 mil toneladas de material foram distribuídas. Essas iniciativas permitiram pela primeira vez a colaboração entre grupos israelenses e sírios, às vezes abertamente. Mas elas estão limitadas à esfera civil.

Prisioneira de uma visão militarista e securitária, a diplomacia israelense nunca foi um instrumento muito eficaz – menos ainda nos últimos meses, com os funcionários do Ministério das Relações Exteriores em greve. No entanto, a ação diplomática, ao lado da ajuda humanitária, poderia permitir ao país desempenhar um papel positivo e garantir aliados para o futuro. Os oitocentos sírios tratados no ano passado poderiam ser seus melhores embaixadores. 

Nir Boms e Asaf Hazani

Nir Boms é pesquisador associado do Moshe Dayan Center, da Universidade de Tel-Aviv, e Asaf Hazani é membro do Forum for Regional Thought

Ilustração: Tulipa Ruiz

1 Ler Yael Lerer, “Indignação (seletiva) em Tel-Aviv”, Le Monde Diplomatique Brasil, set. 2011