Os Seis Milhões de Kedoshim

Os Seis Milhões de Kedoshim

Rabino Ahron Lopiansky

Por que nos referimos àqueles que pereceram no Holocausto como"kedoshim."
O paradoxo de “Kadosh”

Nenhuma passagem escrita sobre o Holocausto pesa tão fortemente no coração de um judeu religioso como essa: "sem motivo, nenhuma fé e nem inspiração Divina..." na morte dos Seis Milhões. Admiramos aqueles que preservaram sua fé mesmo nas piores circunstâncias. Realmente, observamos a pessoa que é um moser nefesh, ou seja, que arrisca sua vida como um mekadesh shem shamayim(santificando o nome de D’us), alguém cujo conceito de vida transcende a natureza humana de existência no mundo.

Portanto, honramos os judeus da Idade Média, gigantes espirituais e simples judeus,  que escolheram a morte ao invés da cruz, em sua morte temos um vislumbre da vida eterna. Indiferentemente da natureza de sua vida anterior, sua escolha no momento da verdade o marcou como um kadosh, uma pessoa que morreu santificando o Nome de D’us e eternamente seu ato é uma fonte de inspiração.


Mas... e o Holocausto? As vítimas tiveram escolha? Que mérito podiam ganhar com a morte? Por que chamar a todos de kedoshimquando muitos deles foram fervorosamente anti-religiosos e ajudaram a destruir os fundamentos da Torá na Europa?
Considere, por exemplo, a situação mais irônica possível: um jovem judeu, nascido de mãe judia e pai católico, criado como um católico, imagine-o ajoelhado numa igreja, rezando seu padre-nosso, talvez até oferecendo uma oração para o bem-estar dos valentes soldados alemães. De repente aparecem dois soldados e o arrastam ao campo para morrer, enquanto este protesta desde o princípio que é um bom católico e não um judeu. Ele também faz parte dos seis milhões dekedoshim?
Sem trazer explicações definitivas para uma tragédia inexplicável, este ensaio trabalha com o uso do termo "kedoshim" em respeito àqueles que perderam suas vidas no Holocausto.

As vantagens do Kidush Hashem

D’us é imutável. Ele não muda, não importando quaisquer ações iniciadas pelo homem, santificadas ou não. Por outro lado, o homem pode afetar o grau de revelação Divina em nosso mundo, ou seja, o grau de gilui panim e hester panim , que permite que o homem perceba a Divindade, ou A oculte da percepção humana. Num nível mais simples, isto pode ser entendido em termos de impacto psicológico: se uma pessoa comete um pecado descaradamente e com impunidade, enfraquece a fé em D’us em larga escala, e deve fazer uma mitzvá, para que seja alcançado o mesmo efeito, porém positivo e de inspiração Divina.
Já num nível mais profundo, isto é entendido como Nefesh Hachayaim comenta: é concedido a todos o poder de trazer a luz da Divindade ou bloqueá-la , se assim preferir. Deste modo, a descrição de mechalel Hashem (profanador do Nome de D’us) se aplica a uma pessoa cujas ações servem para escurecer os raios de h'orat panim, Sua presença iluminadora; e mekadesh (santificadora) se refire a pessoa cuja ação provoca gilui haShechina, a revelação.
Kidush Hashem pode ser alcançado de duas formas: ativamente e passivamente. A abordagem ativa é simples: uma pessoa faz mitzvot com grande dedicação, envolvimento e abnegação, ou dá sua vida em honra a D’us. O rabino Yerucham Levovitz explica que o Kiddush Hashem descreve qualquer ação que serve como um veículo para conduzir a Shechiná, a Presença Divina, em nosso domínio. Em outras palavras, qualquer ação que faça com que a verdade de D’us esteja mais aparente é um ato de Kidush Hashem.

Mas o que é um "Kidush Hashem passivo? Para entendê-lo, aludimos a declaração de D’us de "bikrovei hakodesh" ("estarei santificado através de meus próximos") que diz respeito às mortes dos filhos de Aharon, Nadav e Avihu, que foram consumidos pelo fogo santo durante a consagração do Tabernáculo. Suas transgressões foram tão leves que os comentaristas tem dificuldade em definí-las. Seu nível de santidade era tão grande que ultrapassava o de Moshé e Aharon (veja Rashi em Vaikra 10:3), e eles, não seus anciões, foram escolhidos para serem kedoshim.

O Talmud explica que em nossa concepção das coisas, D’us fica elevado e santificado quando castiga os tzaddikim, indivíduos íntegros, embora estes não tenham feito nenhum ato de Kidush Hashem por si só; por terem sofrido retribuição Divina, se tornaram instrumentos do "ekodeish" : "Serei santificado através deles”.
Encontramos muitos exemplos deste tipo de Kidush Hashem:
  • Uma pessoa que é mechallel Hashem, profanadora do Nome de D’us, é perdoada somente com sua morte, pois ergueu sua mão audaciosamente, desafiando a existência da Deidade. Esta atinge uma perspectiva adequada restabelecida a partir do momento em que se desintegrar em nada.
  • O Talmud explica: "Todo joelho se curvará perante Você", ou seja, o dia da morte. Nossos Sábios viram na morte a última reverência perante o Todo-poderoso. O orgulhoso, poderoso e as divindades sagradas curvam-se diante de seu inevitável fim. Então sua mortalidade é a eterna imutabilidade de D’us, em contraste com o estado transitório e passageiro do homem.
  • Dizemos Kadish após a morte de um parente próximo, pois um encontro íntimo com a morte traz a pessoa mais perto da percepção de que este mundo foi criado pelo Todo-poderoso e é governado conforme Sua vontade. Os parentes vivos expressam verbalmente sua humildade diante da santidade eterna de D’us. Se esta morte pode ajudar outros a compreenderem a onipotência de D’us, então seguramente é um grande mérito para o falecido.
O Kidush Hashem corretivo da nação
Este é o Kidush Hashem passivo de um individuo. O que o Kiddush Hashem passivo alcançou coletivamente pela nação judaica?
Kiddush Hashem da nação judaica é a realização da:
"O Eterno fará que sejas ferido diante de teus inimigos; por um caminho sairás a ele, e por sete caminhos fugirás diante dele; e servirás de exemplo horrendo para todos os reinos da terra. "(Devarim 28:25)
Ou:
" E  virás a ser pasmo, provérbio e o objeto  de conversa entre todos os povos aos quais te guiará o Eterno.” (Ibid., V. 37) ."
Ou:
 “’Por que fez o Eterno assim a esta terra? Qual foi a causa do furor desta grande ira?’ E responderão: ‘Porquanto deixaram a aliança do Eterno, Deus de seus pais, que com eles tinha feito, quando os fez sair da terra do Egito". (Ibid., 29:23-24) ."
Quando a nação judaica é castigada em grande escala a ponto de quase ver a Mão de D’us manipulando sua fé, somos forçados a dizer: “Porque D’us fez isso?”.
Justamente por isso, o Holocausto não é atribuído a nenhuma outra causa que não esta "Por que D’us fez isto?" A confrontação entre judeus e alemães não foi um caso de duas nacionalidades que competiam, como os palestinos e os judeus. Nem sequer podemos descrever a campanha nazista contra os judeus pela loucura de um psicopata agressor, pois num nível mais profundo, todo uso de instinto agressivo que poderia ser usado nas frentes de batalha tinha uma ênfase maior: estava no planejamento meticuloso para executar a Solução Final.
Considerando os eventos daquela época com as passagens em Deuteronômio, a pergunta não é “Onde estava D’us em Auschwitz?", e sim "Por que D’us estava em Auschwitz?"

A ação corretiva de D’US

Num notável ensaio previdente, o Rabino Meir Simcha Hacohen de Dvinsk (o Ohr Somayach) escreveu no meio do século 19 (emMeshech Chochma em Bechukotai) sobre uma destruição iminente devido à "Haskala,"  a assimilação total da cultura das Nações Ocidentais. O Rabino Avrohom Grodzenski (que foi morto no Gueto de Grodno) fez uma lista de pecados específicos que, em sua opinião, trouxe a ira de D’us; mas tudo isso é de importância secundária. O ponto principal foi que de uma forma ou de outra a destruição foi um corretivo Divino pela acumulação de faltas (fraquezas) por parte da nação judaica através dos séculos:
Meu pai, que estava no Gueto de Kovno com o Rabino Mottel Pogremanski (também conhecido como o "Tavriger Illuy" [Gênio de Tavriger], me dizia que o Rabino Mottel fazia discursos durante os momentos finais do Shabat. Um silêncio profundo reinava no quarto lotado ...  Rabino  Motel fechou seus olhos e começou a falar, : "Não vejo nenhum alemão desfilando ... não ouço o barulho de seus rifles... O que eu sim vejo são as  passagens da Escritura ... ouço a Voz de D’us que ecoa de um gueto para o outro: " Tão certo como eu vivo, diz o Eterno, com mão poderosa, com braço estendido hei de reinar sobre vós; tirarei-vos dentre os povos, e vos congregarei das terras nas quais andais espalhados, com mão forte, com braço estendido e derramado furor. Levar-vos-ei ao deserto dos povos, e ali entrarei em juízo convosco, face a face.... " (Ezequiel 20:33-36). Se fôssemos merecedores, teríamos aceitado as leis de D’us sozinhos; mas não fizemos isso, e agora Ele impõe violentamente seu domínio sobre nós.
As palavras de Rabino Motttel, que pareciam reafirmar as predições do Rabino Meir Simchá, ecoou o grito angustiado do Profeta:
"O que vos ocorre à mente de maneira nenhuma sucederá; isto que dizeis: Seremos como as nações, como as outras gerações da terra, servindo ao pau e à pedra. Tão certo como eu vivo, diz o Eterno, com mão poderosa, com braço estendido e derramado furor, reinarei sobre vós” (Ibid., 32-33).
A profecia, advertência e o lamento a beira da destruição parecem sugerir que a nação judaica escolheu distorcer sua imagem coletiva tentando se igualar às nações, no lugar de procurar seu próprio destino sagrado. Com objetivo de ser um reino de sacerdotes, uma nação santa, habitando no solo sagrado da Terra Santa, traiu suas perspectivas. A "ação corretiva" para isto foi uma rejeição brutal e pesada dos judeus pelas nações Ocidentais mais poderosas, o epítome de cultura européia, Alemanha. Este sofrimento terrível foi o"bikrovei ekodeish" diante dos olhos da humanidade como um todo: D’us é nosso Rei, nos governa por Sua determinação, se não por nossa vontade como um todo. E os mais puros, santos e sábios e inocentes foram incluídos nesta assustadora representação de"bikrovei ekodeish."
A resposta adequada? Talvez a frase mais sucinta de Sforno em seu comentário sobre "E Aharon ficou em silêncio":  “Ele achou conforto no Kiddush Hashem que resultou de sua morte."
O dever que descansa em nossos ombros, as gerações depois do Holocausto, não é o dever de autodefesa; nem é o de se vingar dos alemães. É a obrigação do conhecimento por uma geração que testemunhou o "bikrovei ekodeish". Se nós pecarmos, é o pecado de um que viu a fúria da retribuição Divina. É cometido com a insensibilidade de alguém que observou atentamente as profundidades do Inferno, viu o fogo e ouviu os gritos, e mesmo assim continua a sua vida como se nada tivesse acontecido.

Como Rashi comenta sobre o impacto do testemunho da morte dos filhos de Aharon:  ninguém deveria pecar da mesma maneira depois de sua morte, seria comparável a ter testemunhado um homem beber veneno e morrer, e depois beber mais da mesma poção. Como testemunhas sobreviventes, temos uma grande responsabilidade.



Postar um comentário

0 Comentários