Da expulsão ao interesse próprio: Espanha, judeus e Israel

No momento em que o anti-semitismo na Europa tem aumentado, é revigorante ver alguns países europeus fazerem esforços para acolher os judeus tão abertamente.

Em algum lugar, nas entranhas do inferno, os monarcas espanhóis Fernando e Isabel estão queimando, com raiva. Cinco séculos depois de os monarcas expulsaram, cruelmente, os judeus expulsos de seu país em 1492, a Espanha encontra-se agora, pedindo o seu retorno.

Em uma ironia tão doce como não havia muito tempo, o governo de Madrid aprovou, em 7 de fevereiro, um projeto de lei, oferecendo cidadania aos descendentes de judeus sefaraditas, facilitando a emissão de residência e outros requisitos.

Falando ao New York Times a menos de uma semana, um porta-voz do Ministério da Justiça espanhola disse que eles já registraram cerca de 3000 aplicações. Muitas mais são esperadas, embora ainda não seja claro a quem e quão liberalmente será aplicada a lei.

Além disso, o vizinho Portugal, que converteu e expulsou os judeus pela força em 1947, disse que também está preparando um projeto de lei com o mesmo fundamento.

Não é necessário dizer que, esta não é a primeira vez na história que uma nação europeia baniu sua comunidade judaica para logo após readmiti-los.

Sob liderança do rei Edward I, os judeus da Inglaterra foram expulsos do país em 18 de julho de 1290 (Tisha B’Av no calendário hebraico) e, foi oficialmente permitido a eles retornar, em 1656 com Oliver Cromwell.

No início do século XIV, no período de menos de duas décadas, a França expulsou os judeus do país, em seguida, os readmitiu e pouco tempo depois, voltou a expulsá-los.

A Espanha levou um pouco mais de tempo para anular o Édito de Expulsão, que foi formalmente encerrado em 16 de dezembro de 1968, 476 anos mais tarde. Mas, apesar disso, a Espanha vinha fazendo muito pouco, para chegar em um acordo com seu passado judaico.

A idade de ouro dos judeus espanhóis, sua contribuição para a arte, civilização e a cultura espanhola, são todos levemente ignorados no sistema educacional espanhol, bem como a própria expulsão de 1492 e os esforços brutais da Inquisição em caçar os cripto-judeus. Sinagogas e estruturas judaicas, bem como artefatos religiosos que foram confiscados depois que os judeus foram forçados a sair, ainda precisam ser devolvidos aos seus proprietários judeus.

No entanto, nos últimos anos, a Espanha tem concentrado seus esforços em prol do turismo e do comércio, promovendo redes de “juderías”, ou bairros judeus, em todo o país, com o objetivo de promover o turismo judaico.

E, sem dúvida, existe um racional econômico por trás da nova lei de cidadania.

A Espanha tem sofrido muito com a crise financeira global de 2008. Sua taxa de desemprego é, atualmente, de 25%. Um número crescente de pessoas estão emigrando e o país sofreu uma recaída na recessão, em que apenas agora está começando a se recuperar.

A perspectiva de forjar, novamente, um vínculo com potencialmente milhões de pessoas de origem sefardita, e possíveis lucros extraordinários que surgiriam como resultado do aumento do investimento e do turismo, é claramente tida em conta pelos decisores em Madrid quando se considera o projeto de lei de cidadania.

E isso, é claro, é o que faz este planejamento tão irônico: a expulsão aconteceu, em parte, porque a Espanha queria as propriedades dos judeus e, agora, os querem de volta, pelo mesmo motivo.

No entanto, além de suas motivações, o governo de Madrid e Lisboa estão sendo bastante elogiados pelo gesto. Estes são movimentos históricos, o que significa que medidas tangíveis estão sendo tomadas para corrigir os erros que foram feitos para a comunidade judaica ibérica no século XV.

No momento em que o anti-semitismo na Europa tem aumentado, é revigorante ver alguns países europeus fazerem esforços para acolher os judeus tão abertamente.

Desta maneira é enviado um forte sinal a outros países do continente, destacando, assim, como a ligação histórica do povo judeu na Europa continua ao longo dos séculos.

Cabe a Israel tomar nota e considerar fazer seus próprios gestos históricos, especialmente em relação aos Bnei Anussim, descendentes de judeus espanhóis e portugueses que foram forçados a se converter ao catolicismo, nos séculos XIV e XV.

Tendo que enfrentar um grande risco para si e suas famílias, muitos dos Bnei Anussim continuaram a praticar o judaísmo em segredo, apesar da Inquisição, transmitindo sua identidade cuidadosamente escondida de uma geração para a seguinte. Os seus descendentes podem ser encontrados em todos os cantos do mundo em que se fala o Espanhol ou o Português, e seu número é estimado em milhões.

Na Shavei Israel, a organização que presido, temos visto um grande aumento, nos últimos anos, no número de Bnei Anussim buscando reafirmar ou recuperar sua identidade judaica, em lugares tão distantes como o norte de Portugal, Chile, El Salvador, Sicília e na Colômbia.

O presidente da Agência Judaica, Natan Sharansky, em um recente discurso em Ashdod, observou este fenômeno argumentando, corretamente que, é hora do Estado de Israel “abrir o caminho para o retorno destes”.

Eu não poderia concordar mais.

Os Bnei Anussim são nossos irmãos, e não por culpa própria, seus antepassados foram arrancadas de nós, sob coação. Devemos isso a eles e a nós mesmos, fortalecendo nossos vínculos com eles e os trazendo de volta ao povo judeu, quanto mais pessoas seja possível.

Medidas devem ser tomadas para resolver os muitos problemas burocráticos e religiosos que oferecem barreiras e desafios, de modo que a porta para o retorno dos Bnei Anussim possa, finalmente, ser aberta.

Afinal de contas, se a Espanha, que expulsou seus antepassados , estão à procura de maneiras de se conciliar com os descendentes de judeus ibéricos, não seria o momento de Israel fazer o mesmo?

Postar um comentário

0 Comentários