16/08/2013

Qual é a comunidade do futuro?

Jovem judia-Coisas Judaicas


Sebastian Watenberg, vice-presidente da
Federação Israelita do Rio Grande do Sul (FIRS)

O futuro da comunidade judaica tem se tornado agenda permanente nas suas entidades e nas conversas de judeus das mais variadas faixas etárias. O questionamento acerca do engajamento dos jovens, do desenvolvimento de novas lideranças e da sustentabilidade das instituições são os temas mais recorrentes. Muitas são as opiniões e diversas as conclusões, em sua quase totalidade baseadas em avaliações pouco científicas.

Na medida em que o tempo passa e a tradicional “reserva de mercado” com as quais as entidades comunitárias sempre contaram vai se esgotando, uma vez que a cada geração o engajamento comunitário decresce, mais importante do que a conclusão em si é a reflexão profunda acerca do tema. Afinal, qual a comunidade do futuro? Que perfil ela terá? Em quais valores ela estará alicerçada? Quem serão os líderes dessa comunidade? Se por um lado é verdadeira a afirmação de que o ser humano tem a necessidade de inclusão, de fazer parte de algo maior, de se filiar a outras pessoas, por outro lado, será preciso identificar se, como comunidade, ofereceremos alternativas adequadas de filiação.

Um dos bordões que são repetidos aqui e acolá é que “nunca a humanidade presenciou tempos de mudança como nos dias atuais”. Mas será que essa afirmação é verdadeira, ou ela apenas reflete a nossa ausência de prontidão estratégica? Afinal, há quem afirme que as rupturas só acontecem para aqueles que estão despreparados. Segundo o especialista em estratégia empresarial Henry Mintzberg, é certo que estamos vivendo profundas mudanças nos campos econômico e tecnológico, mas ainda utilizamos veículos movidos por motores de quatro ciclos de combustão interna, já existentes no famoso “Ford Bigode” e usamos roupas de algodão. Assim, a mudança teria um viés mais midiático do que propriamente um impacto profundo na sociedade. Não seriam os tempos atuais, então, aqueles em que a humanidade está mais preparada para a mudança? Ou deveria estar?

Parece que a discussão acerca da constante mudança, destarte, encontra-se superada. A mudança é permanente e inevitável, e é saudável que assim seja. Os tempos mudam, e os valores da sociedade e dos seus indivíduos mudam, ainda que muitos resistam a isso. Se aceitarmos essa transitoriedade, resta-nos então refletir acerca da forma de lidar com as mudanças, identificar tendências e agir prontamente e de maneira estratégica. E isso significa aprender, e para isto é preciso estar com a mente aberta.

Mas... E os jovens? Como engajá-los? Como comprometê-los com a vida comunitária? A resposta não é tão complexa quanto parece ser, desde que tenhamos a compreensão de quem é esse jovem de que falamos (gerações Y e Z), que não é igual ao jovem da geração X, que tampouco é igual ao jovem "baby boomer", e desde que aceitemos que as motivações e valores dos jovens mudam de geração para geração. O que permanece a cada geração, entretanto, é o perfil contestador e impetuoso dos jovens, mas isso diz respeito ao processo de amadurecimento, e não aos valores propriamente ditos.

Quem são, então, esses jovens das gerações Y e Z? São esses jovens que, numa definição bastante limitada e simplificada, mas ilustrativa, já nasceram conectados, que não se motivam pelo “ter”, e sim pelo “ser”, e que não podem ser compelidos a se identificar com um grupo apenas, uma vez que apresentam identidades e valores múltiplos, não aceitando ser rotulados. Ainda, sua filiação a marcas ou entidades depende, essencialmente, do compartilhamento de valores.

É bom que se destaque que o problema da compreensão das identidades e valores múltiplos não é exclusivo das entidades comunitárias. As próprias marcas, depois de muito dispêndio de recursos, ainda não lograram lidar com clareza e assertividade a respeito do tema.

O que podemos afirmar com relativa certeza, porém, é que não são as pessoas que devem se adaptar às instituições; são estas que devem se adaptar àquelas, sob pena de perder sua relevância e perecer, uma vez que o compartilhamento de valores se apresenta como elo essencial dessa relação indivíduo-instituição. E perecer não é necessariamente ruim, na medida em que faz parte do processo de consolidação de uma comunidade (ou de um mercado). Surgem aqui, mais uma vez, as noções de transitoriedade e permanente mudança.

Aceitar a premissa até aqui proposta pode nos fazer constatar que, quem sabe, a forma de organização comunitária atual não seja atrativa para as novas gerações e, ainda, que eventualmente as entidades hoje existentes não sejam representativas dos anseios da juventude... Qual o modelo adequado, então? Como já referido, mais importante do que a conclusão em si é a reflexão profunda acerca do tema. Esta sim é urgente e necessária!

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