30 de abr. de 2012

Jogos Olímpicos de Londres: Jerusalém Capital da "Palestina", não de Israel

Jogos Olímpicos de Londres: Jerusalém Capital da "Palestina", não de Israel

Até segunda de manhã, o site oficial dos Jogos Olímpicos Londres 2012 retratava Israel como um país sem capital, enquantoJerusalém foi listada como a capital da "Palestina". O site parece ter sido consertado para mostrar Jerusalém como a capital de Israel também. 

 A correção pode ter sido o resultado de uma solicitação feita pelo grupo de defesa online "My Israel" aos seus membros, a fim de que exigissem que Jerusalém fosse listada como capital de Israel. 

 Na semana passada, o Comitê Olímpico Internacional (COI) rejeitou um pedido das famílias dos atletas israelenses que foram assassinados por terroristas árabes em 1972, nas Olimpíadas de Munique para organizar uma comemoração oficial em seu nome. Ankie Spitzer, cujo marido, André, foi um dos 11 mortos israelenses, disse que o COI não queria enfurecer os países árabes, ao mencionar a tragédia em eventos de grande importância. 

 "Eles nos disseram que as delegações árabes irão se levantar e sair, ao que eu respondi: 'Está tudo bem, se eles não entendem o que as Olimpíadas representam, deixe-os sair", disse Spitzer.

Israel inicia construção de muro na fronteira com o Líbano

Israel inicia construção de muro na fronteira com o Líbano


Segundo Israel, a barreira era necessária para melhorar a segurança em uma cidade israelense situada em frente a um vilarejo libanês
Foto: AFP

Israel começou a construção de um muro com extensão de 1 km ao longo da fronteira com o Líbano nesta segunda-feira afirmando que a barreira era necessária para melhorar a segurança em uma cidade israelense situada em frente a um vilarejo libanês.

Uma cerca de segurança israelense percorre toda a extensão da fronteira, mas o Exército disse que as defesas precisaram ser reforçadas com um muro de cimento com cerca de 5 m a 7 m entre a cidade israelense de Metulla e o vilarejo libanês de Kila.

"(O muro)é planejado para evitar tiros do lado libanês para o lado israelense. No último ano e meio, houve um número considerável de incidentes", afirmou o coronel Amit Fisher, um comandante veterano na fronteira, à Israel Radio.

Um cessar-fogo tem sido amplamente mantido ao longo da fronteira desde que Israel entrou em guerra com o grupo libanês Hezbollah em 2006. Tropas de manutenção de paz da ONU estão posicionadas na área da fronteira no sul do Líbano.

O Exército israelense disse que o projeto da fronteira havia sido coordenado com as forças da ONU e o Exército libanês.

Israel também está construindo uma cerca de segurança no sul do país, ao longo da fronteira com o Deserto do Sinal, do Egito, alegando preocupações com atividade de militantes e contrabando.
Morre aos 102 anos o pai de Binyamin Netanyahu

Morre aos 102 anos o pai de Binyamin Netanyahu


Benzion Netanyahu, historiador e pai do primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, morreu nesta segunda-feira aos 102 anos de idade em sua casa em Jerusalém.
O primeiro-ministro conseguiu visitá-lo ontem pela última vez.
Benzion nasceu em 1910 em Varsóvia e dez anos depois sua família emigrou à então Palestina sob protetorado britânico no marco do projeto sionista.
Governo de Israel/EFE
Binyamin Netanyahu (à dir.) ao lado do pai, que morreu aos 102 anos em Jerusalém
Binyamin Netanyahu (à dir.) ao lado do pai, que morreu aos 102 anos em Jerusalém
Em seguida tornou-se ativo nos círculos revisionistas, a corrente sionista criada por Ze'ev Yabotinsky e fonte ideológica do partido Likud, liderado por Binyamin Netanyahu.
O pai do atual primeiro-ministro israelense se mudou para Nova York, onde foi secretário pessoal de Yabotinsky e, nos anos 1940, diretor-executivo da organização revisionista da cidade.
Em linha com seu movimento, rejeitou em 1947 o plano de partilha da ONU da Palestina entre um Estado judeu e um Estado árabe porque representava uma renúncia a todo o território.
Em seus estudos especializou-se em história e teve como mentor Josef Klausner, um dos grandes acadêmicos e intelectuais revisionistas e tio-avô do escritor Amos Oz.
Após lecionar em várias universidades no exterior, Benzion retornou a Israel após a morte em 1976 de um de seus três filhos, Yonatan, na operação de resgate de reféns em um aeroporto.
Durante toda sua vida manteve fortes posturas de direita nacionalista, que o levavam a criticar todo acordo territorial com os palestinos e qualificar de ameaça a esquerda do país.
Seu filho não duvidou em reconhecer em diferentes discursos a influência que seu pai exerceu sobre sua visão do mundo.

29 de abr. de 2012

O Testemunho em é isto um homem? De Primo Levi

O Testemunho em é isto um homem? De Primo Levi


Joselaine Brondani Medeiros (PUCRS)

As discussões a respeito das conexões entre Literatura e História norteiam muitas pesquisas na área das Letras. Ambas se complementam e possibilitam um maior entendimento das mudanças sociais e políticas ocorridas na sociedade. Porém não se pode esquecer que tanto a História, como a Literatura não são neutras, pois o historiador e o escritor apresentam a sua versão dos fatos, estando embutido um caráter ideológico. Há autores que apresentam um posicionamento conservador, e há outros que mostram um pensamento inovador. Cabe ao leitor discernir esses posicionamentos apresentados e questioná-los para, assim, construir o seu conhecimento.

Com a acepção de que a História não é linear, mas marcada por ruínas, pretende-se entender o contexto da década de 30 e 40 européia. Para isso, é necessário se reportar para o início do século XX, no qual as disputas por territórios, por mercados consumidores e, sobretudo, por poder trouxeram como conseqüência a Primeira Guerra Mundial. A Europa viveu um período de turbulência não só política, como também social e econômica. Muitas cidades ficaram destruídas, mas dos escombros se reergueram com forte sentimento nacionalista. Desse nacionalismo exacerbado, nasceu a vontade de dominar e de vencer a qualquer custo. O poder e a ganância novamente levaram a mais outra guerra. Essa ainda mais sangrenta e violenta.

No período que antecede a Segunda Guerra Mundial, vários ditadores despontaram e conseguiram um grande número de adeptos, dentre eles, Adolf Hitler, que adotava posturas autoritárias, pregando a supremacia da raça ariana e condenando milhares de judeus ao exílio e aos campos de concentração. O combate contra os judeus era justificado pelos nazistas como uma necessidade biológica. Para os alemães nazistas, a raça superior ariana venceria os parasitas judeus e impediria qualquer forma de miscigenação, que era um sinônimo de decadência da civilização. A concepção alemã primava, então, pela purificação e hegemonia da raça ariana. Essas idéias podem ser observadas, através da fala de Himmler, membro da cúpula de Hitler: "a luta anti-semita é só uma luta contra parasitas. Livrar-se dos piolhos não é uma questão ideológica. É simplesmente uma questão de limpeza" (apud: Cytrynowicz, 1990 p. 25).

A política anti-semita do nazismo visou especialmente os judeus, mas não poupou também ciganos, negros, homossexuais, comunistas e doentes mentais. Os doentes mentais, por exemplo, eram condenados à morte por serem uma raça inferior e extirpá-los, como se faz a um câncer maligno, só elevaria a saúde do povo alemão. Dentre as práticas, usadas pelos doutores nazistas, estavam a esterilização e a eutanásia.

O nacionalismo nazista estava ligado umbilicalmente a um exacerbado racismo e, mesmo em um país visto como o berço da intelectualidade, Hitler conseguiu exercer um fascínio muito grande e dominar a nação. Isso aconteceu porque, na Alemanha, houve cooptação de intelectuais e uso intensivo da mídia, corroborando para a formação dessa figura endeusada. O ponto chave foi, então, ideologia pregada por Hitler para conseguir o domínio e a subordinação de uma nação inteira.

Houve três fases na política anti-semita nazista. A primeira, entre 1933 a 1939, caracterizada pela discriminação jurídica, espoliação econômica e ameaça física ao povo judeu. A segunda, entre o início da guerra e a Batalha de Stalingrado, marcada pela solução final territorial dos judeus. A terceira, de Stalingrado até o final da guerra, que é a fase do extermínio mais acentuado, com as execuções nas câmaras de gás.

Em todas as fases, nota-se que os judeus foram alvos das mais variadas violências: os seus bens foram confiscados, perderam as suas casas, não podiam andar nas ruas, ir trabalhar, ir à escola ou à universidade, pegar ônibus, freqüentar teatros e cinemas, tinham que usar uma braçadeira branca com a estrela de David, o que possibilitava o reconhecimento de um judeu a qualquer hora. Depois começaram os trabalhos forçados e, por último, as deportações para os campos de concentração a partir de 1940.

No transporte para os campos, muitos já foram mortos, pois os caminhões estavam adaptados para lançar o monóxido de carbono, asfixiando os ocupantes. "A asfixia demorava aproximadamente quinze minutos. Ao abrir as portas do caminhão, os mortos tinham a face desfigurada e os corpos cobertos de fezes" (Cytrynowicz, 1990 p. 65). Nos vagões, não havia recipientes que serviam de latrina, provocando aflição muito pior do que a sede e o frio. Assim, nas palavras de Primo Levi: "evacuar em público era angustioso ou impossível: um trauma para qual nossa civilização não nos prepara, uma ferida profunda infligida à dignidade humana" (Levi, 2004 p. 96).

Todos os campos de extermínio possuíam linhas ferroviárias, e a viagem começou a ser feita de trem. Nos trens, os vagões iam sempre superlotados. Muitos prisioneiros morriam por falta de água e de ventilação. O destino da maioria deles era Auschwitz, que foi construído em 1940. Chegando lá, uma parte era selecionada para a morte, e outra, para os trabalhos forçados. Assim, apontar para a direita era trabalho e apontar para a esquerda era morte. Esse clima de destruição, em Auschwitz, é vivenciado pelo escritor italiano Primo Levi.

Primo Levi era judeu, pertencente a uma família com boas condições financeiras. Nasceu em Turim, em 1919, formou-se em Química pela Universidade de Turim, um ano depois da Itália ter entrado na guerra ao lado de Hitler. Em 1943, Levi juntou-se a um grupo de resistentes à invasão alemã do norte da Itália. Foi preso em 1943 e, no início de 1944, estava em um comboio que o conduziria para Auschwitz. Lá permaneceu 11 meses e sobreviveu ao campo de extermínio, devido aos seus conhecimentos de química, à necessidade de mão-de-obra e à generosidade de um trabalhador italiano, que lhe conseguia um suplemento de sopa.

Na obra É isto um Homem? há a representação da fase histórica que se estende da Segunda Guerra Mundial até o seu término em 1945. Primo Levi sofreu as conseqüências do nazismo, foi perseguido e levado aos campos de concentração por ser judeu. Ele permaneceu no campo de Monowitz, no complexo de Auschwitz, durante o ano de 1944, conseguindo sobreviver porque os alemães precisavam de mão de obra especializada.
No complexo de Auschwitz, no sul da Polônia, foram exterminadas cerca de 1,5 milhão de pessoas nas câmaras de gás. Este foi o maior entre os dois mil campos de concentração e trabalhos forçados construídos pelos nazistas. Em vista disso, tornou-se o símbolo da barbárie nazista. Poucos são os sobreviventes de Auschwitz, e Primo Levi foi um deles. Testemunhou a barbárie, que dizimou muitas famílias e sentiu necessidade de narrar essa experiência - sabendo não ser esta somente sua, mas de todo o povo judeu.

A partir da entrada no campo, os prisioneiros encontraram somente hostilidade, eram separados dos seus familiares: as mulheres, as crianças e os velhos partiam rumo à incerteza e à escuridão. Os homens mais fortes e saudáveis do comboio de Levi juntavam-se a outros no campo de trabalho, cujo objetivo era a instalação de uma fábrica de borracha de nome Buna. Assim, a vida no campo se resumia a trabalhar, passar fome (a comida era escassa; a sopa, aguada, e o pão, minguado), sede (a água não era potável e fermentava no estômago, deixando-os inchados e doentes) e frio (a neve cobria os campos, e eles, muitas vezes, tinham que ficar nus para inspeções. As cobertas também eram escassas, muito sujas e esfarrapadas).
Aqui estou no fundo do poço (...). Empurro vagões, trabalho com a pá, desfaleço na chuva, tremo no vento; membros ressequidos, meu rosto túmido de manhã e chupado à noite; alguns de nós têm a pele amarela, outros cinzenta; quando não nos vemos durante três ou quatro dias, custamos a reconhecer-nos" (Levi, 1988 p. 35).
A única imagem refletida no espelho era a de fantasmas tosquiados e disformes. No momento em que chegavam ao campo, eram enviados para uma grande sala, onde tiravam as roupas, raspavam a cabeça e deixavam os seus sapatos. Ganhavam outros, às vezes grandes, às vezes pequenos, que não podiam ser trocados, tornando-se um forte instrumento de tortura. A aniquilação do homem é total, realmente não há como se imaginar a tamanha degradação e o quanto foram demolidos.

O regime extremamente desumano desgastava o físico e o psicológico. As vítimas eram aniquiladas, devido à crueldade. As mulheres que conseguiam sobreviver eram mandadas para Birkenau e tinham somente uma gamela que servia tanto para tomar a sopa cotidiana, como para evacuar durante a noite e se lavar quando havia água nos lavabos. Além disso, todos constantemente tinham que ficar nus, devido ao controle dos piolhos e sarnas, a buscas nas roupas, à lavação matinal, às seleções periódicas, que serviam para enfraquecer mais o ser humano, que se sentia como um verme: "nu, lento, ignóbil, vergado ao chão" (Levi, 2004 p. 98).

Em Turim, Levi começou a contar a sua experiência de sobrevivente do massacre nazista. Em meio à dor, precisou enfrentá-la para fazer justiça às vítimas, contando o processo de desumanização e degradação que sofreram e todas as injustiças cometidas nos campos de aniquilamento nazistas. Em uma entrevista para Ferdinando Camon (1997), Levi comentou a sua necessidade de falar:
Depois do retorno de Auschwitz, eu tinha uma necessidade enorme de falar, encontrava aqui os meus velhos amigos e os enchia de histórias (...). Acredito ter sofrido um amadurecimento, tendo tido a sorte de sobreviver. Porque não se trata de força, mas de sorte: não se pode vencer com as próprias forças um campo de concentração. Fui afortunado: por ter sido químico, por ter encontrado um pedreiro que me dava de comer, por haver superado a dificuldade da língua; nunca adoeci, caí doente somente uma vez, já no final, e também isto foi uma grande sorte, porque evitei a evacuação do campo de concentração: os outros, os que estavam saudáveis, foram todos mortos, porque foram deportados para Buchenwald e Mauthausen, em pleno inverno.
Levi tinha a necessidade de falar porque teve a sorte de sobreviver, mas, muitas vezes, o seu relato era pontuado de silêncios, decorrentes da impossibilidade de verbalizar o ocorrido. O silêncio, o vazio e a solidão estavam entranhados no seu corpo e na sua memória. Pensa-se em como o sobrevivente poderia retomar a vida, sabendo que passou por uma experiência tão intensa e dolorosa, ou seja, depois do genocídio, os seus vínculos e os seus laços com o mundo real estavam dilacerados.
A solidão do sobrevivente é a dor de descobrir-se em um mundo em que tudo tem a mesma aparência, homens, carros, médicos, caminhões, chuveiros, e não poder entender como tudo isso transfigurou-se em uma gigantesca máquina de morte. É dor pela sensação de absoluto isolamento em um mundo no qual seres humanos - máxima semelhança - tornaram-se assassinos de um povo (Cytrynowicz, 1999 p. 54).
Diante disso, a correlação narrar versus a impossibilidade de narrar aflora, pois como articular a necessidade de narrar uma experiência marcada pela barbárie, tendo consciência da percepção da insuficiência de linguagem para expressá-la?
Adorno questionava se havia possibilidade de se fazer poesia depois de Auschwitz. E o próprio Levi em depoimentos afirmava que a poesia era resultado de duas mãos esquerdas. Com relação à imagem "duas mãos esquerdas", pode-se pensar na impossibilidade de verbalizar a catástrofe. A escrita é quase morta. Só há mãos esquerdas, porque reflete a situação-limite em que se encontrava o escritor ao produzir poesia.

O que resta de um homem quando todas as condições da existência humana lhe são subtraídas? Será que há um discurso capaz de expressar essa realidade, sem distorcê-la ou banalizá-la? Seligmann-Silva (2000 p. 75) argumenta que "com a nova definição da realidade como catástrofe, a representação, vista na sua forma tradicional, passou, ela mesma, a ser tratada como impossível; o elemento universal da linguagem é posto em questão tanto quanto a possibilidade de uma intuição imediata da realidade". Então, como expressar algo que vai além da nossa capacidade de imaginar e representar?
A Shoah escapa à representação justamente devido à sua grandiosidade: não foram dezenas de pessoas que perderam a vida no campo de concentração; foram, sim, milhares. A visão de um campo de concentração não corresponde a nada na nossa experiência, tornando quase impossível de se crer. Daí a existência e, até mesmo, aceitação de teorias de que o extermínio dos judeus não tivesse acontecido.

Nesse ponto, vale pensar em o porquê do livro É isto um homem? ter caído no silêncio e no esquecimento quando foi publicado em 1947. Parece que houve, por parte da sociedade em geral e, sobretudo, dos Governos, uma vontade de negar a ocorrência da catástrofe. Isso mostra que a construção da memória do passado e do conhecimento histórico está intrinsecamente ligada aos interesses ideológicos e às lutas políticas que pertencem ao presente. A construção da memória coletiva deveria manter um elo com a envergadura ética, que se inscreve numa luta política e histórica precisa.

Para os sobreviventes, a rememoração foi pontuada de tensões. Nos seus depoimentos e mesmo nos seus escritos, há fragmentações, descontinuidades, lapsos, silêncios. Mas esse silêncio era necessário, ele talvez pudesse traduzir a dimensão do mal. O silêncio se tornava uma espécie de prece aos mortos e uma demonstração de que os sobreviventes passaram por uma situação-limite. Em suma, não havia palavras a "a altura" desse evento.
Além do silêncio, na escrita deles, há a alegoria e a presença constante devaneios. Os sonhos e as alucinações atormentavam as noites cinzentas de Levi: realidade e sonho se misturavam:
O meu sono é leve, leve como um véu; posso rasgá-lo quando quero. Quero, sim, sair de cima dos trilhos. Pronto: estou acordado. Não bem acordado; só um pouco, entre a insensibilidade e a consciência. Tenho os olhos fechados; não quero abri-los, não, para que o sono não fuja de mim, mas ouço ruídos: este apito ao longe sei que é verdade, não é da locomotiva do sonho (Levi, 1988 p. 59)
A locomotiva sempre trazia más noticias: mais companheiros chegando, mais famílias a caminho da destruição, mais corpos apodrecendo, após serem retirados da câmara de gás. Os próprios judeus tinham a difícil tarefa de retirar os corpos dos mortos da câmara de gás, porém não venciam transportá-los e enterrá-los nas valas, devido à grande quantidade de mortes por dia. Os corpos chagavam a ficar até semanas decompondo-se, cobertos de sangue, vermes e excrementos. Enfim, no campo, os dias, as vidas, a fábrica, as esperanças eram cinzentas. Era o inferno e, diante disso, "como é possível pensar? Não é mais possível; é como se estivéssemos mortos" (Levi, 1988 p. 20).
Mesmo após a chegada em Turim, depois de trinta e cinco dias de viagem, os sonhos não cessaram de atormentar Levi, angustiando-o:
Estou à mesa com a família, ou com amigos, ou no trabalho (...), mas, mesmo assim, sinto uma angustia sutil e profunda, a sensação definida de uma ameaça que domina. E, de fato, continuando o sonho, pouco a pouco ou brutalmente, todas às vezes de forma diferente, tudo desmorona e se desfaz ao meu redor, o cenário, as paredes, as pessoas, e a angústia se torna mais intensa mais precisa. Tudo agora tornou-se caos: estou no centro de um nada turvo e cinzento (..). Estou de novo no Lager (...) ouço ressoar uma voz, bastante conhecida; uma única palavra, não imperiosa, aliás breve e obediente. É o comando do amanhecer em Auschwitz, um apalavra estrangeira, temida e esperada: levantem, "Wstavach" (Levi, 1997 p. 359).
Os pesadelos e os fantasmas da morte sempre rodeariam Levi. A luta para se tentar vencer a morte e a dor não tinha trégua. A imagem do transporte nos trens imundos, da seleção na descida do trem, da tatuagem no braço e da câmara de gás ficaria para sempre calcada na memória.
Daí a necessidade da rememoração, enquanto gesto que destrói e rompe com essas fantasmagorias, esbofeteando a sociedade a fim de que a desperte. A sociedade precisa acordar e rever o passado, cavar em meio aos escombros para descobrir os mortos e daí sepultá-los. Nesse gesto de voltar para o passado, os cidadãos terão contato com uma História esquecida, mas que precisa ser resgatada.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ADORNO, T. Educação após Auschwitz. In: _____. Sociologia. São Paulo: Ática, 1986.
CAMON, F. Conversazione con Primo Levi. Parma: Ugo Guanda Editore, 1997. 
CYTRYNOWICZ, R. Memória da barbárie. A história do genocídio dos judeus na Segunda Guerra Mundial. 2. ed. São Paulo: Nova Stella, 1991. 
LEVI, P. A trégua. Trad. Marco Lucchesi. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. 
____. É isto um homem? . Trad. Luigi Del Re. Rio de Janeiro: Rocco, 1988. Janeiro: Paz e Terra, 1990. 
____. Os afogados e os sobreviventes. Trad. Luiz S. Henriques; Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990. 
SELIGMANN-SILVA, M. A história como trauma. In: NETROVSKI. A & SELIGMANN-SILVA, M. (orgs.). Catástrofe e representação. São Paulo: Escuta, 2000. p. 73 - 98. 
______. A literatura do trauma. CULT - Revista de Literatura Brasileira: São Paulo, 1999. Ano II n. 23 p. 40 - 47. 
______. Auschwitz: história e memória. Pro-Posição: São Paulo, 2000 v. 11 n. 2. p. 78 - 87. 
Lei quer obrigar árabes israelenses a prestarem serviços comunitários

Lei quer obrigar árabes israelenses a prestarem serviços comunitários


Photo: Amos Ben Gershom / GPO

Os jovens árabe-israelenses terão que realizar algum tipo de trabalho comunitário ao invés de cumprirem serviço militar como faz a maioria judaica, segundo uma nova lei que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, apresentará ao Parlamento.

Os debates sobre a lei estão previstos para começar em 9 de maio. O objetivo é dividir de maneira mais equitativa o serviço militar no país. Atualmente, os judeus ultra-ortodoxos e a minoria palestina são dispensados da obrigação.

"A divisão desta obrigação deve ser alterada. A lei atual será modificada para se tornar mais equitativa e justa", reconheceu neste domingo o primeiro-ministro num encontro com militares reservistas.

Os homens judeus devem servir obrigatoriamente o exército por 36 meses, e as mulheres, por 24.

"A nova lei incluirá também a prestação de serviços comunitários por parte dos árabes", afirmou Netanyahu, segundo um comunicado de seu gabinete.
Os árabes-israelenses nunca serviram pois o exército sempre duvidou da lealdade desse segmento da população. Além disso, os próprios palestinos se negam a ingressar na corporação de um estado que não julgam como seu e que ocupa a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.

O governo ainda precisa elaborar os detalhes da medida, mas propostas anteriores sugeriam que os árabes-israelenses prestem serviços para sua própria comunidade, composta por mais de um milhão de pessoas em Israel.

A mudança na lei sobre o serviço militar foi exigida pela Suprema Corte, que em fevereiro negou o direito dos judeus ultra-ortodoxos a não servirem no exército. O juízes determinaram que o governo israelense crie uma lei mais equitativa antes de agosto.
Em sua reunião de hoje com os reservistas, o primeiro-ministro não mencionou a questão dos jovens ultra-ortodoxos, que são isentos do serviço obrigatório para estudar em instituições religiosas.

Ontem, o ministra das Relações Exteriores, Avigdor Lieberman, do partido Israel Beitenu, disse que a data das próximas eleições no país depende da nova lei e afirmou que sua formação apoia o alistamento para todos.

Já os dois partidos ultra-ortodoxos da coalizão governamental ameaçaram abandonar o governo caso a lei obrige os jovens religiosos a servirem.

Netanyahu admite antecipar eleições em Israel

Netanyahu admite antecipar eleições em Israel


O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, assumiu que deverá antecipar as eleições gerais seis meses antes do previsto, para que seu governo não seja deposto por outros partidos da coalizão, segundo a imprensa israelense.
Fontes políticas disseram que o primeiro-ministro já realizou vários encontros com assessores políticos e que "seus conselheiros estão pressionando para adiantá-las".
"De qualquer forma, este governo não chegará ao final do ano", declarou ao jornal um alto membro do Likud, partido conservador de Israel.
Outra fonte do partido assegurou que "Netanyahu não quer ser o responsável por antecipar o pleito, mas também não quer convocá-las por um fracasso na aprovação do orçamento (geral do Estado)", e por isso sua convocação depende que todas as partes se ponham de acordo com a data.
O Orçamento de 2013, que segundo a lei israelense deve ser aprovado antes do próximo dia 31 de dezembro, se transformou em um empecilho pelas crescentes reivindicações dos partidos minoritários na coalizão do governo para que se destinem verbas a seus eleitores, algo que Netanyahu rejeita por medo de exceder o déficit previsto.
Em caso de nova eleição, os israelenses devem ser convocados às urnas entre setembro e novembro de 2012.
Homem que postou foto de Scarlett Johansson nua diz como entrou no e-mail dela

Homem que postou foto de Scarlett Johansson nua diz como entrou no e-mail dela

O hacker Christopher Chaney, 35, que revelou ao mundo fotos de Scarlett Johansson nua, contou como conseguiu entrar no e-mail da atriz e de outros famosos.
Segundo afirmou em entrevista à "GQ", a ideia surgiu quando fotos íntimas de Miley Cyrus surgiram na internet e ele começou a se perguntar se invadir e-mails de celebridades seria difícil.
Ele passou a testar nomes e sobrenomes de celebridades no Gmail até achar alguns endereços que realmente pertenciam a elas.
A partir daí, passou a trabalhar para conseguir as senhas usando as perguntas de segurança, como qual é a sua cor favorita ou o nome da escola em que você estudou.
Para isso, bastou pesquisar as respostas em serviços de busca como o Google.
Assim, ele conseguiu acessar os e-mails de mais de 50 pessoas da indústria do entretenimento.
Ele diz que além das fotos, viu trocas de e-mails "depressivos" entre Scarlett e o ex-marido Ryan Reynolds durante o divórcio.
Também viu outras estrelas, inclusive na faixa dos 40 anos, peladas, mas não quis revelar os nomes.
Segundo ele, no entanto, o que ele mais gostava de ver não eram as fotos íntimas, mas as fotos dos produtores que escolhiam locações para filmes.
"Achei um dos melhores trabalhos do mundo", contou. "Eles viajam por aí, acham lugares, tiram fotos e mandam para os diretores."

28 de abr. de 2012

Ex-chefe de segurança ridiculariza premiê de Israel e questiona plano de atacar Irã

Ex-chefe de segurança ridiculariza premiê de Israel e questiona plano de atacar Irã

Guila Flint - para a BBC Brasil


Em um pronunciamento sem precedentes, o ex-chefe do Shin Bet (serviço de segurança do governo israelense) ridicularizou a figura do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu e advertiu que um ataque israelense ao Irã pode "acelerar dramaticamente" o projeto nuclear iraniano.
Em um encontro com algumas dezenas de pessoas, na sexta-feira, Yuval Diskin, que foi chefe do Shin Bet entre 2005 e 2011, disse que não confia em Netanyahu nem no ministro da Defesa, Ehud Barak, e que não gostaria que "essas pessoas" conduzissem Israel para uma ação "da dimensão de uma guerra com o Irã".
Ainda não está claro se Diskin sabia que o encontro estava sendo gravado, mas rapidamente o vídeo com seu pronunciamento começou a ser divulgado por redes sociais na internet e, algumas horas depois, as duras criticas que fez aos lideres do país se tornaram manchete dos principais veículos de comunicação.
Diskin ridicularizou Netanyahu e Barak, chamando-os de "messias de Akirov e Keisaria", em referência aos bairros luxuosos onde o premiê e o ministro da Defesa possuem propriedades.
"Eu os vi de perto, e posso dizer a vocês que eles não são messias", afirmou, questionando a imagem que tanto Netanyahu como Barak tentam criar de si mesmos como "salvadores do povo de Israel".
LATIDOS
Em termos duros, Diskin fez ataques pessoais aos principais lideres do país.
"Sabemos que cachorros que latem não mordem. Infelizmente tenho ouvido latidos demais ultimamente", disse o ex-chefe do Shin Bet.
Diskin afirmou que os lideres do país apresentam ao público um "quadro incorreto sobre a questão iraniana, tentando criar a impressão de que se Israel não agir, o Irã terá uma bomba atômica".
"Eles se dirigem a um publico tolo ou ignorante, dizendo que, se Israel agir, o Irã não terá a bomba, mas isso é incorreto", afirmou Diskin. "Muitos analistas dizem que uma das consequências de um ataque israelense pode ser uma aceleração dramática do projeto nuclear iraniano", disse.
"O que os iranianos fazem hoje devagar e silenciosamente, (depois de um ataque) terão legitimidade para fazer muito mais rápido", afirmou.
ESCÂNDALO
As declarações de Diskin, um dos mais respeitados militares israelenses, criaram um escândalo no país.
O vice-primeiro ministro, Silvan Shalom, declarou que tem "muito respeito por Yuval Diskin, que foi um ótimo chefe do Shin Bet". "Porém seu pronunciamento foi um erro, coisas assim não precisam ser ditas", acrescentou Shalom.
O ministro dos Transportes, Israel Katz, qualificou as palavras de Diskin como "grosseiras e inadequadas".
Diskin não é o primeiro militar importante em Israel que critica o plano, atribuído a Netanyahu e Barak, de atacar as instalações nucleares do Irã.
No ano passado, o ex-chefe do Mossad, Meir Dagan, qualificou o plano como "estúpido".
Na semana passada o chefe do Estado-Maior do Exército israelense, general Benny Gantz, também fez um pronunciamento que foi interpretado como discordância ao plano de ataque ao Irã.
Gantz afirmou que não acredita que o Irã vá produzir armas nucleares. Segundo o general, o governo iraniano é "racional e sabe que seria um erro enorme produzir armas nucleares".
Gantz também afirmou que as sanções econômicas contra o Irã "começam a dar resultados".

27 de abr. de 2012

Casas de refugiados africanos são alvo de bombas incendiárias em Israel

Casas de refugiados africanos são alvo de bombas incendiárias em Israel

Guila Flint - para a BBC Brasil

Quatro casas e uma creche de refugiados africanos em Tel Aviv foram alvo de ataques com bombas incendiárias durante a madrugada desta sexta-feira, em ataques que estão sendo atribuídos a um grupo de extrema-direita de Israel.

O ataque coordenado visou casas de africanos do Sudão e da Eritreia atualmente sob status de refugiados em Israel que moram ao sul da cidade de Tel Aviv.

Por volta das 2h de sexta-feira um coquetel molotov foi lançado contra um grupo de refugiados que dormia no quintal de um prédio, três bombas foram atiradas contra casas e a quinta atingiu uma creche frequentada pelos filhos dos africanos.

Não houve feridos porém todos os locais ficaram totalmente destruídos pelo fogo.

O fotógrafo Oren Ziv, que mora ao lado de um dos prédios atacados, disse à BBC Brasil que acordou com o barulho no quintal.

"Vi o sofá, no qual um dos refugiados costuma dormir, pegando fogo e imediatamente peguei minha camera e saí de casa para registrar o que estava acontecendo", relatou Ziv.

"Logo chegaram pessoas contando que outros locais também estavam pegando fogo, inclusive a creche".

Uma das bombas foi lançada contra o quarto de duas refugiadas da Eritreia, que estavam dormindo no momento do ataque.

"Os atacantes quebraram a janela e jogaram o coquetel molotov dentro do quarto, sabendo que havia pessoas dormindo lá, foi uma tentativa de assassinato", acusa Ziv.

As refugiadas da Eritreia conseguiram fugir do quarto a tempo e não ficaram feridas.

EXTREMISMO

Os moradores do bairro atribuem os ataques a um grupo de extrema-direita que é contra a presença dos refugiados africanos na região.

O grupo, denominado "Comitê contra os infiltrados", alega que a presença dos refugiados africanos "afeta o valor dos imóveis no bairro e prejudica a qualidade de vida dos moradores".

"Tenho certeza que esse foi um crime de racismo", afirmou Ziv, "pois todas as bombas foram lançadas ao mesmo tempo e só contra alvos ligados aos refugiados africanos".

O fotógrafo disse que os responsáveis prepararam, de antemão, mais de 15 coqueteis molotov, parte dos quais não explodiu.

TEL AVIV

Milhares de refugiados africanos moram no sul de Tel Aviv, nos bairros mais pobres da cidade.

Vários moradores israelenses na região se revoltam contra a presença dos imigrantes e atribuem a eles a responsabilidade pelas duras condições de moradia.

"Trata-se de um problema social que tem que ser solucionado pela prefeitura, os africanos não têm culpa", diz Ziv, "mas politicos de direita lideram o incitamento contra os refugiados e conseguem o apoio de parte dos moradores".

De acordo com o fotógrafo, os grupos de extrema-direita têm distribuido panfletos nos bairros do sul de Tel Aviv acusando os refugiados africanos de "estuprar as mulheres e roubar os empregos dos israelenses".

A policia de Tel Aviv iniciou uma investigação dos ataques.

26 de abr. de 2012

Hitler e os “bons leitores” de Nietzsche

Hitler e os “bons leitores” de Nietzsche




por Sheila Sacks

Se as regras não mudarem, em pouco tempo as vitrines das livrarias da Alemanha voltarão a exibir um best-seller da década de 1930 (12 milhões de livros editados até 1945), banido desde o final da 2ª Grande Guerra por força da derrocada nazista.

Previsto, inicialmente, para entrar em domínio público em 2015, 70 anos após o suicídio de seu autor, o tresloucado e pernicioso livro Mein Kampf (“Minha Luta”), de Adolf Hitler, vai estar à solta, de volta à luz do dia em um arremedo de situação que jamais deveria se repetir se houvesse um mínimo de prudência a capitanear as ações das autoridades competentes. Afinal, ressuscitar oficialmente um espectro macabro que o sentido comum já ajuizou que melhor seria permanecer socado em sua tumba é como dar de ombros a um passado medonho ou mesmo cutucar a fera com vara curta.

Por conta dessa escandalosa liberação, intelectuais germânicos já se movimentam para elaborar uma edição comentada do livro de Hitler, com um tipo de enfoque que classificam de abordagem crítica, ou seja, a de procurar explicações que “desmistifiquem” a ideologia antissemita da matança hedionda e seletiva instituída por um estado civilizado. A provável publicação imediatamente distinguida com a terminologia de acadêmica (uma espécie de palavra mágica que funciona como salvo-conduto) ganhou o aval do secretário geral do Conselho Central dos Judeus da Alemanha, Stephan Kramer, que julgou menos danoso colocar na praça esse arrazoado infame acrescido de análises psicossociológicas e políticas à publicação de uma edição normal do texto, sem comentários.

No entanto, considerando que o livro também será distribuído nas escolas, talvez o bom senso recomendasse questionar um pouco mais essa resolução administrativa que pode se constituir em uma bomba relógio prestes a explodir mais adiante. Comodidades à parte, a luz vermelha está acesa e é preciso estar atento e mobilizado para manter essa obra no limbo, tratando-a como uma exceção às normas vigentes devido ao seu excepcional caráter sórdido e nocivo. E nesse caso específico, a liberdade de expressão, mesmo sob suspeita, não deveria servir de pretexto para a circulação, sob carimbo oficial, de surradas apologias discriminatórias que achincalhem povos e raças.

Um Nietzsche edulcorado para as multidões


No rastro dessas novidades pouco alvissareiras para um futuro próximo, a terra das fábulas e dos contos de fada dos irmãos Grimm também lançou, no início de 2010, uma coletânea de textos que procura recriar as ideias filosóficas de Friedrich Nietzsche (1844-1900), enxergando pacifismo, tolerância, admiração aos judeus e até uma suposta guinada ao pensamento social de esquerda daquele que foi o filósofo inspirador da política sanguinária de Hitler. O organizador da obra Nietzsche-Lexikon, o alemão Cristian Niemeyer, selecionou mais de 400 artigos de uma centena de autores identificados por ele como “bons leitores” do filósofo, aqueles que em sua opinião buscam entender a sutileza das ideias de Nietzsche, “sem falseá-las com interpretações pessoais”.

Fazendo coro com outras pesquisas similares, Niemeyer exime Nietzsche de apadrinhar o nazismo e imputa a má fama à irmã do filósofo que segundo ele se apoderou do acervo literário do irmão, adulterando textos, cartas, a autobiografia, enfim, confundindo os seus pensamentos e a sua obra.

Acometido por uma doença mental que o tirou de circulação - a partir de 1889 e até a sua morte, onze anos depois -, Nietzsche tornou-se conhecido e celebrado justamente por seus conceitos de supremacia de raça (super-homem), aniquilamento dos fracos, desprezo às massas e rejeição ao Estado social, à democracia e à religião. Conceitos firmados, explicados e desenvolvidos por Nietzsche muito antes de seu colapso mental e da alegada intromissão da irmã. Segundo ainda Niemeyer, uma das vantagens de se entender o filósofo é que essa compreensão “pode ajudar as pessoas a viver de uma maneira aberta num mundo sem deus”. Trocado em miúdos, a filosofia de Nietzsche funcionaria como um excitante elixir para todos que se julgam “para além do bem e do mal”, título, aliás, de um dos livros mais ilustrativos de Nietzsche publicado em 1886.

Filósofo queria os judeus fora da Alemanha


No livro em questão, Nietzsche doutrinava: ”Não se permita o ingresso de outros judeus na Alemanha! E que lhes sejam fechados principalmente o império do Oriente e também a Áustria, eis o que diz claramente a voz do instinto universal, da qual preciso ouvir o aviso.”

No entender do filósofo, a Alemanha no século 19 já tinha judeus em número suficiente para causar indigestão. “O alemão vai demorar muito para digerir a quantidade de judeus que atualmente está provido, como já o fizeram os italianos, os franceses, os ingleses, graças a sua digestão mais robusta.” E prosseguia, explicativo, dissertando sobre os dois tipos de moral que percebia serem bem característicos em diferentes indivíduos. Para ele existia a moral dos senhores e a moral dos escravos, sendo que essa última seria essencialmente utilitária. Nietzsche imputava aos judeus, “povo nascido da escravidão”, a iniciativa de levaram a cabo uma miraculosa inversão de valores, como a de transformar o pobre em santo e o forte em mau.

Nietzsche se insurgia contra o que ele denominava de “virtudes passivas” (humildade, resignação, prudência, paciência, segurança) e acusava os judeus pelo que chamava de “insurreição dos escravos” no campo da moralidade. Em oposição à moral dos fortes (a dos senhores nobres e aristocratas), o Judaísmo havia criado, por um ato de vingança espiritual, uma moral servil, de culpabilidade, ressentimento e pecado. Um “antimundo” para justificar o sofrimento dos fracos, doentes e oprimidos.

Dizia Nietzsche que “a religião tem a inestimável vantagem de tornar os homens vulgares satisfeitos da sua própria posição, proporcionar-lhes paz ao coração, enobrecer a sua obediência, confortá-los e contribuir para transfigurar a sua monótona existência”. E concluía que “o que pode ser desfrutado em comum, é sempre coisa de baixo valor”.

Ideias delirantes e degeneração psicológica


Para o cofundador do movimento sionista (retorno a Sion), o médico e escritor húngaro Max Nordau (1849-1923), a originalidade de Nietzsche consistia na inversão tola e pueril da maneira racional de pensar. Em sua obra “Degeneração” (Entartung), publicada em 1892, ele dedica um capítulo ao filósofo alemão, afirmando que seu escritos exibem uma série de ideias delirantes provenientes de ilusões da razão e de processos orgânicos patológicos, comparáveis aos manuscritos dos doentes mentais que os psiquiatras devem ler, não por prazer, mas para prescreverem a internação do autor em um hospício.

Segundo Nordau, que exerceu a psiquiatria em Paris, degenerados psicológicos combinam relativismo moral com egoísmo, carecendo de sentido moral para distinguir o bem do mal e não apresentando sentido de indignação diante do sofrimento das pessoas.

Outro respeitado escritor, filósofo, matemático e pacifista, o inglês Bertrand Russel (1872-1970), também questionava a sanidade de Nietzsche, classificando os seus escritos de “meras fantasias de poder de um homem doente”. Prêmio Nobel de Literatura em 1950, Russel justificou essa aversão no épico História da Filosofia Ocidental: “Eu não aprecio Nietzsche porque os homens a quem ele admira são os conquistadores, cuja glória está na habilidade de motivar os homens a matar.”

Nesse sentido Hitler foi um aluno aplicado de Nietzsche que fazia troça do sofrimento alheio. Em um de seus aforismos, o filósofo chegou a afirmar que “é preciso ter grande força de imaginação para poder sentir compaixão”. Quanto aos grandes vilões da história, na visão de Nietzsche estão todos alforriados porque não se deve julgar o passado. “A injustiça da escravidão, a crueldade na sujeição de pessoas e povos não devem ser medidas pelos nossos critérios(...) Do mesmo modo a Inquisição tinha as suas razões.” 

 

Hitler distribuía livros de Nietzsche para os soldados


Idolatrado pelo líder nazista, que se considerava a própria encarnação do super-homem (Übermench) do livro “Assim falou Zaratustra” (escrito entre 1883 e 1885), Nietzsche também era oferecido como leitura educativa aos soldados alemães. O veterano jornalista alemão Peter Scholl-Latour, de 88 anos, conta que os militares nazistas liam Zaratustra nas frentes de batalha para se sentirem mais motivados. Imbuídos da ideia de que eram seres superiores, posicionados muito além da moral vulgar das multidões, da gente comum, dos inferiores e débeis, julgavam-se senhores do mundo, uma nova raça de gigantes que imporia a sua vontade de poder sobre uma massa impotente e submissa.

Situação semelhante já ocorrera na Primeira Grande Guerra (1914-1918) e de acordo com outro grande admirador de Nietzsche e membro oficial do partido nazista, o filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), “na Alemanha ou se era contra ou a favor de Nietzsche”. Aliás, esse envolvimento declarado de Heidegger com o nazismo ( escrevia discursos para Hitler e colaborou para a expulsão de professores judeus da Universidade de Freiburg, em 1933 ) motivou o filósofo francês Emmanuel Faye, 56 anos, a propor a remoção das obras de Heidegger das bibliotecas de filosofia. Em seu livro Heidegger, l'introduction du nazisme dans la philosophie (2005), Faye afirma que a obra do alemão está seriamente comprometida com a doutrina nazista.

Fotos mostram culto do ditador nazista a Nietzsche


A admiração de Hitler por Nietzsche também foi destacada pelo jornalista e escritor norte-americano William Shirer (1904-1993) em sua majestosa obra Ascenção e Queda do III Reich. “Frequentemente Hitler visitava o museu de Nietzsche em Weimar e demonstrava publicamente a sua veneração ao filósofo posando para fotos em que aparece fitando com admiração a imagem daquele que considerava um grande homem", escreveu Shirer.

Em seu livro “Hitler as nobody knows him”, publicado em 1933 (meio milhão de exemplares vendidos até 1938), o fotógrafo pessoal de Hitler, o alemão Heinrich Hoffman, incluiu uma foto do ditador ao lado da escultura de Nietzsche com a seguinte legenda: “O führer em frente ao busto do filósofo alemão, cujas ideias fomentaram dois grandes movimentos populares: o Nacional Socialismo na Alemanha e o Fascismo na Itália.”
 
Falecido em 1957, Hoffman detinha os direitos autorais sobre os retratos oficiais de Hitler usados em selos postais e escritórios do governo e foi em sua loja de material fotográfico que o líder nazista conheceu Eva Braun, ajudante de Hoffman. Amante de Hitler por quatorze anos, eles casaram-se algumas horas antes do suicídio de ambos, em 30 de abril de 1945. 
 

Judaísmo é o oposto de tudo que Nietzsche propagou


Recentemente, o rabino-chefe da comunidade judaica britânica, Sir Jonathan Sacks, de 64 anos, foi bastante incisivo em sua condenação aos conceitos do filósofo alemão. ”Particularmente considero Nietzsche uma total antítese dos valores judaicos. Eu não vejo relevância no fato de que, vez ou outra, ele encontrou coisas agradáveis para dizer sobre os judeus. Um homem que expressou desprezo pela compaixão e pela ajuda ao próximo; desprezo pela bondade, tolerância, perseverança, humildade e amizade, demonstrou isso sim, o tempo todo, o que o Judaísmo não é.” 

Liderando desde 1990 as Congregações Hebraicas Unidas da Commonwealth e autor de duas dezenas de livros de temática judaica traduzidos em vários idiomas (Teremos Netos Judeus?, A Dignidade da Diferença, Uma Letra da Torá), o rabino Sacks – alçado à categoria de lord em 2009 - radicaliza em se tratando de Nietzsche. “Li seus escritos para saber que o Judaísmo é oposição nessa batalha, agora e para sempre.”

Citando a odisséia do Êxodo, o religioso lembra que há 33 séculos o Judaísmo se mostrou como uma voz revolucionária ao enfrentar o poder supremo do faraó para resgatar os indefesos. “As religiões do mundo antigo eram justificativas do status quo. Explicavam por que os ricos e poderosos tinham de ser ricos e poderosos. O Judaísmo mudou essa concepção. A liberdade começa quando partilhamos nosso pão com os outros. Em Pessach (a Páscoa Judaica) lemos: Este é o pão da aflição que nossos ancestrais comeram no Egito. Deixe que todos os famintos venham e comam.”

(do blog da autora, em 25 de março de 2010)


25 de abr. de 2012

Bênçãos no Lugar de Maldições

Bênçãos no Lugar de Maldições


Todos nós ouvimos a história - relatada na leitura da Torá desta semana - de como o Rei Balac encarregou Bilam de amaldiçoar os Filhos de Israel, e de como D'us transformou as maldições da boca do profeta em bênçãos. Lemos os versos saindo dos lábios de Bilam, o que inclui adjetivos primorosos jamais ditas sobre o povo judeu. Linda história. Mas o Talmud pergunta: O que Bilam queria dizer? Quais eram as suas maldições que foram transformadas em bênçãos?

Bem, sigamos a lógica do Talmud. Se as maldições foram transformadas em bênçãos, então deveriam ser diametralmente opostas às bênçãos. Se quisermos saber o que Bilam queria dizer, devemos examinar mais detidamente as palavras que ele realmente proferiu.

O que Bilam abençoou?
Que grandes reis surgirão em Israel, estabelecendo uma dinastia que durará por gerações e jamais será quebrada; que Israel será soberana na sua terra para sempre, a maior e mais poderosa na família das nações, a Presença Divina habitando em seu meio, liderando a humanidade em sua busca para conhecer e servir a seu Criador.

Então, o que Bilam queria dizer?
Exatamente o contrário, obviamente: que os reis de Israel cairiam, sua dinastia real seria interrompida, sua soberania teria um fim, a Presença Divina em seu Templo Sagrado partiria, seu poder terminaria, sua liderança empalideceria.

Mas o Talmud não deixa isso assim. Enfatizando este ponto, insiste: então o que aconteceu no final? O Talmud relata que, todos os dias, há um momento em que D'us fica irado. Isto significa que é justamente nesta hora que Ele julga os pecadores. Evidentemente, aquele que é culpado de transgressão, fica mais vulnerável nesta hora. Bilam tinha o dom de saber exatamente quando ocorriam estes momentos. Uma maldição proferida nestes instantes poderia expor sua vítima ao julgamento Divino. Mas durante todos aqueles dias em que Bilam tentou maldizer os judeus, D'us conteve sua ira agindo com muita bondade com o povo judeu.

A Torá não diz "vayicrá" - D'us chamou Bilam. A Torá emprega a palavra "vayicar", significa que D'us "encontrou por casualidade" com Bilam. Também significa que D'us ficou aborrecido por ter de falar com alguém tão impuro como Bilam.

D'us perguntou a Bilam: "Perverso, o que você está fazendo aqui?" "Preparei sete altares com sacrifícios," replicou Bilam, "como presentes a Ti." Bilam esperava o favorecimento de D'us subornando-O com sacrifícios. D'us respondeu: "Prefiro uma colher cheia de farinha oferecida pelos judeus, descendentes de Meu amado Avraham, aos suntuosos sacrifícios daqueles que Eu odeio. Não quero as oferendas de um perverso. Volte para o rei Balac e fale com ele."

Bilam implorou a D'us para que o deixasse amaldiçoar o povo judeu; mas enquanto no seu íntimo formulara uma maldição, D'us enrolou sua língua, forçando-o a pronunciar o oposto do que pensava. Foi como se D'us tivesse posto um freio em sua boca, obrigando-o a dizer apenas o que D'us queria que ele dissesse. Bilam já não podia escolher suas próprias palavras. Balac furioso dirige-se a Bilam: "O que você fez comigo?" - censurou-o. "Eu lhe convoquei para amaldiçoar meus inimigos, e você os abençoa!"

"Não posso fazer nada a esse respeito," replicou Bilam, "pois sou forçado a falar o que D'us coloca em minha boca.”

Em uma nova tentativa, Bilam tenta apelar para seus poderes tentando expor os pecados do povo judeu. Virou sua face em direção ao deserto a fim de lembrar D'us do pecado do bezerro de ouro. Não obstante, ao erguer os olhos, percebeu que a Shechiná pairava sobre as tendas dos israelitas. Soube então que D'us perdoara seu pecado. Bilam desejava lançar um mau olhado sobre os judeus, porém foi forçado a afirmar que esta nação era tão sagrada que seu mau olhado não tinha poder contra eles.

Em honra ao povo judeu, o espírito de profecia penetrou Bilam. D'us forçou-o a pronunciar novas bênçãos.
"[Os judeus são] como os riachos que fluem, como jardins às margens do rio, tão fragrantes quanto os aloés que D'us plantou, como as árvores de cedro à beira da água."

Bilam descreveu poeticamente a grandeza dos judeus, um povo que estuda Torá e cumpre as mitsvot. Os judeus que entram nas Casas de Estudos são comparados aos riachos dos quais a água (Torá) flui, e às plantas nas margens do rio, uma vez que o estudo da Torá purifica como a água. São comparados às belas e fragrantes plantas que produzem frutos, como as que D'us plantou originalmente no Paraíso. Seu estudo eleva-os, do mesmo modo que as árvores de cedro são muito mais altas que outras árvores.
"Os que te abençoarem serão abençoados, e os que te amaldiçoarem serão amaldiçoados."

Balac dirige-se furioso a Bilam após ouvir somente bênçãos, em uma delas enaltecendo as tendas de Israel. "Você já abençoou meus inimigos três vezes," vituperou. " Vejo que D'us não quer que você seja honrado." Bilam respondeu: "Mesmo se me der todo seu dinheiro, devo abençoar os judeus, pois D'us colocou essas bênçãos na minha boca."

Balac convidara Bilam para amaldiçoar os judeus, pois acreditava que estes estavam sujeitos às forças naturais (mazal), como todas as outras nações. Balac era instruído em assuntos práticos; por exemplo, podia determinar exatamente onde alguém deveria postar-se para amaldiçoar enquanto Bilam possuía as chaves interiores, as palavras apropriadas para amaldiçoar. De fato, a perícia de um completava a do outro.Podem ser comparados a um cirurgião e um anatomista, Bilam, podia manejar o bisturi, mas não estava familiarizado com as partes do corpo. 

O outro (Balac) era como um anatomista que consegue identificar o órgão doente, porém não pode realizar a cirurgia. No entanto, juntos poderiam empreender uma operação. Bilam sabia a hora exata em que uma maldição pode ser efetiva, e Balac sabia o local de onde deveria ser pronunciada. No entanto, nenhuma destas habilidades, mesmo associadas surtiu qualquer efeito, pois o povo judeu está acima de magia e maldições. Ditas pela boca de Bilam: “Como posso amaldiçoar um povo cujo D'us está constantemente em seu meio, e os guarda e protege? ‘O Guardião de Israel não dorme nem dormita’”

Ao terminar de abençoar o povo judeu repetidamente, Bilam terminou essas profundas declarações proféticas levantando-se, pois estava deitado, prostrado, enquanto D'us comunicava-se com ele. O espírito de D'us que imbuiu-Se nele em honra aos judeus partia dele para sempre. Passou o resto de sua vida como um mágico comum.


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