Na seu aniversário, Clarice Lispector é celebrada com recitais e palestras


Clarice Lispector nunca fez concessões para se comunicar com os leitores e era tida por muitos na condição de esfinge literária só decifrável por iniciados. Mas, surpreendentemente, ela se tornou uma das mais populares escritoras do Brasil, em plena era virtual. O dia de hoje é especial para Clarice pelo seu aniversário de 91 anos e por uma série de eventos, palestras, recitais e lançamentos de livros em sua memória, espalhados por vários pontos do país. Sob a inspiração do Dia D, organizado pelo Instituto Moreira Salles (IMS) para celebrar Carlos Drummond de Andrade, hoje é o dia da Hora de Clarice, programação coordenada pela Editora Rocco e pelo IMS.

Teresa Montero contesta o mito de Clarice como uma autora para seitas de privilegiados. Ela é autora da biografia Eu sou uma pergunta e organizadora dos livros Clarice na cabeceira — contos e Clarice na cabeceira — crônicas, em que leitores ilustres da escritora declaram o seu amor à musa e apresentam os textos. “De certa forma, a imprensa construiu um mito em torno de Clarice porque o que ela escrevia era diferente da literatura da época. Mas, mesmo em vida, quando publicava crônicas no Jornal do Brasil, ela já era uma autora muito popular. E, hoje, com os blogs e o Facebook, as pessoas começaram a falar de suas paixões literárias.”

No dia do aniversário da escritora, Teresa promoverá um passeio de 90 minutos por lugares percorridos por Clarice, no bairro do Leme, no Rio de Janeiro. A popularidade da autora colocou em questão o receio de que os meios eletrônicos seriam inimigos da literatura. Teresa realizou uma pesquisa e constatou que Clarice Lispector é uma das escritoras que tem mais comunidades de admiradores no Orkut e é “seguida” com paixão no Facebook. “Clarice tinha horror a livro caro. Quantas pessoas podem comprar um livro no Brasil? O fato de os textos dela se espalharem por todos os cantos é algo revolucionário. Isso democratiza a cultura e, com certeza, Clarice ficaria feliz se estivesse viva."

Benjamim Moser, autor da elogiada biografia Clarice, (Cosac e Naif), observa que ela falava diretamente ao público, mas nunca escreveu algo para vender nem para ficar popular. E é por isso que ficou popular, pois isso é muito raro, e é por isso que o público gosta tanto dela. “Agora, acho ótimo ver que aumenta o número de pessoas que têm acesso à obra dela, mesmo que seja uma frase.”

Para Eucanaã Ferraz, poeta e consultor de literatura do Instituto Moreira Salles, a situação é contraditória, pois muitos procuram em Clarice um texto de autoajuda e se frustram: “Não me sinto ajudado por Clarice, me sinto jogado no chão. Ela não fala do lado bom da vida ou do otimismo. Mas, ao mesmo tempo, encontra a frase de efeito e a profundidade metafísica. Ela é complexa e contém inclusive a possibilidade de ser popular”.

Dos prosadores brasileiros, Clarice é, ao lado de Guimarães Rosa, a que mais se aproxima da poesia.

Cada palavra tem peso, ritmo e respiração, comenta Eucanaã. Não importa aonde se vai chegar; o essencial são os passos: “Clarice está na prosa por acaso. Ela pode ser lida pelas frases carregadas de musicalidade. Não há dúvida de que Clarice é poeta”.

Novo leitores
Os romances são o tema do último livro da série Clarice na cabeceira, com organização e introdução do jornalista e escritor José Castello. Ela tem o objetivo didático de atrair novos leitores e realizar uma introdução para um primeiro contato com a obra de Clarice. As edições anteriores contemplaram os contos e a crônica da escritora e tiveram a coordenação de Teresa Montero e a participação, entre outros, de Luis Fernando Veríssimo, Caetano Veloso e Maria Bethânia. No caso dos romances, José Castello escreveu todos os textos de contextualização e introdução.

"Eu serei forte como alma de um animal e quando falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade de humanidade, não o passado correndo o futuro! O que eu disser soará falta e inteiro!”

"Oh Deus, que faço desta felicidade ao meu redor que é eterna, eterna, eterna, e que passará daqui a um instante porque o corpo só nos ensina a ser mortal?”

"Você há de me perguntar
por que tomo conta do mundo.
É que nasci incumbida”

"E eu não aguento a resignação. Ah,
como devoro com fome e prazer a revolta”

"Sim, minha força está na solidão”

"Brasília é uma estrela espatifada”
Clarice Lispector, escritora

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