Honra a todos aqueles que salvaram judeus


Eva Weisel é aposentada e vive em Los Angeles

Sobrevivente de ocupação alemã na Tunísia reivindica o reconhecimento oficial do salvador de sua família – um árabe muçulmano – como um ‘justo entre as nações’

Em dezembro de 1942, quando eu tinha 13 anos, soldados alemães ocuparam a cidade onde eu morava. Em dias, nossa casa foi requisitada como refeitório de oficiais. Logo recebi uma estrela amarela para usar presa ao vestido, separando-me de muitas amigas de infância. Os homens da família foram enviados aos trabalhos forçados. Minha vida alegre desaparecera.

Por sorte, um influente homem da cidade sabia da situação difícil que enfrentávamos e, com grande generosidade, ofereceu-nos proteção. Certa noite, ele transportou mulheres, crianças e velhos de nossa família para uma fazenda de sua propriedade, a 35 km da cidade. Ele disse que lá estaríamos a salvo. Embora os estábulos onde fomos instalados oferecessem um conforto modesto, dispondo apenas de uma cortina estendida pela porta para manter afastados os elementos naturais, ficamos aliviados por estarmos atrás dos altos e espessos muros da propriedade. Ficamos profundamente agradecidos.

Por um capricho da sorte, uma unidade alemã chegou àquela área pouco depois. Nosso anfitrião nos pediu que déssemos um fim às estrelas amarelas e ficássemos dentro dos muros da fazenda e nos mantivéssemos afastados da casa principal. Ele tinha sua própria estratégia para lidar com os alemães. Bon vivant afeito às viagens pelo mundo, convidou os oficiais alemães para noites cheias de comida e bebida. Enquanto quase uma dúzia de nós estávamos escondidos numa parte da fazenda, ele se protegia dos olhares alemães ao entretê-los no outro extremo da fazenda. A estratégia funcionou bem, até que um dia dois soldados bêbados se afastaram da casa principal.

No pátio diante dos estábulos, eles começaram a bater na porta e berrar, “sabemos que são judeus e estamos vindo pegá-los”. Naquele momento de terror indescritível, enquanto nossos corações pulavam e as lágrimas escorriam de nossos olhos, um anjo da guarda veio nos salvar. Saído do nada, nosso anfitrião apareceu. Homem forte e poderoso que projetava autoridade e inspirava respeito, ele deteve os alemães e levou-os para longe.

No dia seguinte, nosso anfitrião veio aos estábulos. Corremos para demonstrar nossa gratidão, mas ele estava ainda mais ansioso para se desculpar. Disse que sentia muito por termos enfrentado as terríveis ameaças dos alemães, mostrou-se aliviado por ter intercedido a tempo de evitar uma horrível tragédia, e prometeu que aquilo jamais se repetiria. Nunca descobrimos como ele conseguiu manter a promessa – talvez tenha subornado os alemães -, mas o fato é que ele a manteve.

Passamos o restante da ocupação alemã na fazenda do nosso anfitrião, sem nenhum outro incidente. Durante os horrores do Holocausto, muitos milhares de judeus foram salvos por não judeus da morte e da depravação nas mãos dos alemães e seus aliados. O Memorial Yad Vashem, museu israelense oficial do Holocausto, já reconheceu mais de 23 mil desses corajosos homens e mulheres com o título de “justos entre as nações”. O salvador da nossa família merece estar entre aqueles que foram reconhecidos com essa honra. Nesse caso específico, o impacto do seu reconhecimento teria consequências consideráveis, desferindo um golpe contra a negação do Holocausto em partes do mundo em que esse tipo de discurso encontra eco.

Isso porque a cidade em que eu morava era Mahdia, na costa leste da Tunísia, e nosso salvador, Khaled Abdul Wahab, era um árabe muçulmano. Ele morreu em 1997. Até o momento, Abdul Wahab teve negado o reconhecimento que lhe é devido. Há quase cinco anos, em janeiro de 2007, o departamento dos justos do Yad Vashem o indicou como candidato a “justo” – o primeiro árabe a ser formalmente avaliado para receber a honraria.

A indicação teve como base o depoimento de testemunhas como minha irmã, Anny Boukris, já morta. Mas, em março daquele ano, a comissão oficial para a designação dos justos, corpo presidido por um juiz israelense aposentado e criado pela lei israelense para decidir quem são os merecedores da distinção de “justo”, votou pela rejeição da indicação.

Essa decisão foi mantida em segredo por dois anos. Em 2010, aquele mesmo jurista, o juiz Jacob Tuerkel, enviou o dossiê de Abdul Wahab de volta à comissão para uma segunda avaliação. Desta vez, o caso foi reforçado por dois novos depoimentos – uma entrevista registrada em vídeo com minha prima Edmee Masliah, que estava comigo na fazenda e hoje vive nos arredores de Paris, e uma carta autenticada escrita por mim, recontando minha própria vivência. O Yad Vashem tinha agora três depoimentos relatando a história em primeira mão. Para minha completa surpresa, a comissão para a designação dos justos votou pela rejeição da indicação. O Vad Yashem disse-me que Abdul Wahab era um homem nobre, mas seus atos não chegavam ao patamar considerado merecedor do status de “justo” – ou seja, ele não teria “arriscado a vida” para salvar as vidas de judeus.

Embora esses possam ser os termos exatos da lei, especialistas me dizem que Abdul Wahab não seria o primeiro salvador de judeus a não ter sido submetido a ameaças físicas, para não falar em ameaças à sua vida.

Na França, muitos receberam essa distinção por terem agido para salvar judeus sem saber ao certo o destino que os aguardava se fossem apanhados. Além disso, alguns dos famosos diplomatas honrados como justos nunca foram detidos, feridos, nem ameaçados com a morte por terem ajudado judeus.

Recuso-me a acreditar que o Vad Yashem tenha um critério duplo para a definição do “justo” na Europa e do “justo” que desempenhou seu dever sagrado do outro lado do Mediterrâneo, num país árabe.

Sessenta e nove anos depois de ter afixado uma estrela amarela ao peito na minha terra natal, sei que pude desfrutar de uma vida longa e plena porque Abdul Wahab enfrentou o mal e me salvou, assim como salvou outros membros afortunados da minha família. Espero que o Vad Yashem reconsidere o caso dele antes que não haja mais ninguém para cotar esta história. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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