Aristides de Sousa Mendes

Antonio Gonçalves Filho
Aristides de Sousa Mendes (1885-1954) é um nome pouco familiar aos brasileiros, mas há 50 anos os israelenses plantaram 20 árvores em sua memória no terreno do Yad Vashem, o Memorial do Holocausto em Jerusalém, atribuindo ao diplomata o título de "Justo entre as Nações" - o equivalente a uma canonização entre os católicos.
Cônsul português em Bordeaux quando a França foi invadida pelos nazistas, em 1940, Sousa Mendes ousou desafiar o ditador português Antonio Salazar (1889-1970) e concedeu nada menos do que 30 mil vistos para refugiados que fugiam das tropas de Hitler, entre eles 10 mil judeus que cruzaram Portugal para chegar a outros países.
Punido por Salazar, que o afastou do cargo e ainda cortou seu salário pela metade, Sousa Mendes, de origem aristocrática e pai de 14 filhos, viveu seus últimos dias dependente da bondade alheia. Dizem que, ao morrer, no hospital dos franciscanos de Lisboa, foi enterrado com um hábito da ordem. Nem um terno havia restado do outrora elegante guarda-roupa do diplomata.
A história que o escritor português Rui Afonso conta na biografia Um Homem Bom, que será lançada hoje com debate, na Casa de Portugal, faz pela reabilitação da memória de Sousa Mendes o mesmo que os israelenses ao homenagear o herói.
A despeito de ser pouco lembrado no estrangeiro, quatro anos atrás ele foi eleito, numa enquete promovida pela Rádio e Televisão de Portugal (RTP1), o terceiro português entre os dez mais importantes de todos os tempos.
O primeiro - ironia macabra - foi Salazar, justo o homem que apoiou Franco, em 1936, e mandou publicar uma circular dando ordens expressas aos seus embaixadores para não conceder vistos a pessoas que planejavam fugir da França no verão de 1940 - isso quando milhares de judeus suplicavam a diplomatas um visto para salvar suas vidas.
"Há outro ‘justo’ português que merece ser lembrado ao lado de Sousa Mendes, Sampaio Garrido (Carlos de Almeida Fonseca Sampaio Garrido, embaixador de Portugal em Budapeste entre 1939 e 1944), que também arriscou a vida para ajudar os judeus", lembra o biógrafo Rui Afonso, de 60 anos.
Ele se interessou pela vida do primeiro ao escrever um artigo para um jornal no Canadá, onde mora com a mulher francesa, professora de alemão que o ajudou na tarefa de examinar documentos pesquisados para o livro. Afonso fez um primeiro esboço em 1987, publicando-o sob o título Injustiça. Cinco anos depois saiu uma edição ampliada e mais próxima da lançada no Brasil, que inclui entrevistas com parentes do biografado.

Divulgação

Sousa Mendes: status comparado ao de um santo em Israel

"Sentido da história"
O livro mostra "como o sentido da história pode ter pesado na decisão que Sousa Mendes tomou", ao corrigir um erro que maculou a imagem de Portugal no século 15, o episódio da expulsão dos judeus, em 1497.
Por coincidência - ou destino -, alguns descendentes desses perseguidos foram parar em Bordeaux. Cinco séculos depois seriam salvos graças a um português com senso de honra.
"O diplomata era descendente de homens da lei, filho de um juiz", observa Rui Afonso, para explicar a atitude de um diplomata que estava jogando fora 30 anos de carreira e caminhando rumo à ruína financeira por desafiar um ditador, cuja tática era permanecer neutro para obter vantagens se outro ditador, Hitler, vencesse a guerra.
A perspectiva de insolvência do diplomata era real. Além dos 14 filhos com a mulher Angelina, Sousa Mendes teve de assumir mais uma filha ao casar com sua amante Andrée, após a morte da esposa, todos eles dependentes do herói.

Para ler"Um Homem Bom"Autor: Rui Afonso.
Editora: Casa da Palavra (400 págs., R$ 48).

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1 Comentários

Anônimo disse…
Aristides de Sousa Mendes foi um homem extraordinário. Mais de 30.000 pessoas de todas as etnias e nacionalidades sobreviveram graças a ele e o facto de ter sido injustamente punido por isso ainda torna o seu gesto mais nobre, mais exemplar. Que Deus devolva a Sousa Mendes o descanso e a paz que lhe foram roubados em vida.

Flávio Sousa
www.emma49.blogspot.com