31 de jul. de 2011

Os famosos e a Cabala

Os famosos e a Cabala

Eles estão à frente da ascensão, no Brasil, desta filosofia milenar judaica, que prega a humildade e o cuidado com o outro

João Loes e Francisco Alves Filho
Reprodução : IstoÉ
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ADEPTOS
Ronaldo, Bia Antony, Wanessa Camargo e
Jesus Luz: fisgados pelos ensinamentos da cabala
Foi-se o tempo em que a cabala (pronuncia-se cabalá) era conhecida pelos brasileiros apenas como a filosofia de vida de superestrelas como Madonna, Demi Moore e Naomi Campbell. Nos últimos anos a prática tem ganhado cada vez mais adeptos brasileiros. A procura por cursos, por exemplo, dobrou entre 2010 e 2011 em todos os cinco grandes centros de estudo de cabala ouvidos por ISTOÉ. Multiplicam-se as correntes do ensino milenar judaico e, com elas, ampliam-se as opções para quem quer segui-la. “Não estamos dando conta da demanda”, diz Yonatan Shani, representante do Kabbalah Centre no Brasil, um dos maiores do País. “Não temos professores para atender à quantidade de alunos que querem se inscrever.” Espelhando um movimento que se viu em torno da cabala em países como os Estados Unidos e a Inglaterra, os famosos, em especial, têm mostrado cada vez mais interesse pela prática por aqui.

“Independentemente da profissão, quem é famoso tem o ego estimulado constantemente”, diz o cantor e compositor Paulo Ricardo, 48 anos, que estudou com o mestre Shmuel Lemle, da Casa da Kabbalah, no Rio de Janeiro, e hoje pratica a disciplina sozinho. “E o ego, para a cabala, é uma espécie de Satã, a origem de todos os males”, explica. Aprender a administrar o ego para que a luz da vida se manifeste com toda força é um dos principais objetivos da cabala (leia quadro na página 70). Essa característica, de vilanizar o ego e propor uma espécie de controle dele, explica o crescente interesse pela disciplina entre as celebridades, mesmo as que não são chegadas aos holofotes. É o caso da discreta Bia Antony, mulher de Ronaldo Nazário, o Fenômeno, praticante da vertente mais popular da cabala, ensinada no Kabbalah Centre. Ronaldo também tem dado sinais de que aderiu. Ele já foi visto, em diversas ocasiões, com a tradicional pulseirinha vermelha, símbolo de compromisso com a causa e amuleto contra o olho gordo. Não se sabe, porém, se ele é tão dedicado quanto Bia, que diz ler a “Torá”, o livro sagrado dos judeus, diariamente e, sempre que pode, cumprir o shabat, dia reservado exclusivamente à fé – começa no pôr do sol da sexta-feira e vai até o pôr do sol do sábado.

No ano passado, Bia foi com as filhas e com a mãe para Israel, onde visitou vários lugares sagrados em uma espécie de “imersão espiritual”. Essa mesma viagem já foi feita inúmeras vezes pelo ator Ashton Kutcher, amigo do casal fenomenal. Quando ele e sua mulher, Demi Moore, ambos adeptos da cabala, vieram ao Brasil no início do ano, Bia Antony abriu sua casa para a dupla. “Se não fossem da cabala, não receberia”, disse, numa rara entrevista à revista “Vogue”. A vinda deles aproximou da cabala outro casal famoso, Luciano Huck e Angélica, que recebeu as estrelas hollywoodianas, na casa deles em Angra dos Reis (RJ). Eles chegaram a convocar Yonatan Shani, do Kabbalah Centre, em São Paulo, para dar uma palestra sobre o assunto no Rio de Janeiro. “Estudei várias religiões e filosofias, como budismo, catolicismo, cabala, judaísmo e peguei o melhor de cada uma para me fortalecer. No fim, Deus é quem manda”, resumiu, recentemente, Angélica.
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ESTUDO
Com salas lotadas e procura dobrando a cada ano, o
Kabbalah Centre não tem professores para dar tantas aulas
Esta abertura da cabala para conviver com outros dogmas é um dos seus atrativos. “É interessante porque ela não é bem uma religião que fica te doutrinando, é mais uma filosofia de vida”, explica a atriz e modelo Ellen Jabour. Ela se encantou pela prática há oito anos, quando cruzou, em uma livraria de aeroporto, com o livro “O Poder da Cabala”, de Yehuda Berg, fundador do Kabbalah Centre. Foi amor, e uma certa obsessão, à primeira vista, segundo ela. Ellen logo fez três módulos do curso oferecido no centro e leu seis livros sobre o assunto. Em seu site incluiu uma seção inteira dedicada à cabala, na qual explica as origens da prática, conta um pouco da experiência dela e lista as chamadas sintonias diárias, que são temas específicos para meditação e estudo. “A cabala melhora a qualidade de vida de quem a pratica porque a pessoa passa a se conhecer melhor e entender o que ela realmente quer”, diz Shmuel Lemle, da Casa da Kabbalah. Lemle só vê vantagens no crescente interesse das celebridades brasileiras pela disciplina. “Elas despertam a curiosidade pela filosofia”, diz.

Para a jornalista Glória Maria, seguidora desde 2003, não são só os relatos de famosos que trazem novos praticantes. “Hoje vivemos soterrados em informação, as coisas acontecem cada vez mais rápido e todos estão em busca de equilíbrio”, diz. A cabala, segundo Glória, ajuda a lidar, de maneira objetiva, com as agonias da vida contemporânea, além de dar ferramentas para que cheguemos ao equilíbrio. “Na nossa vida, há momentos de agir e momentos em que se deve esperar”, exemplifica. “O problema é identificar quando devemos tomar uma ou outra posição e a cabala dá o código para ajudar a desvendar esse enigma”, diz. Ela mesma admite que era mais intuitiva em suas decisões antes de se tornar cabalista. Os rumos eram definidos por impulso, subjetivamente. Hoje ela já pesa as opções, avalia os prós e os contras e só então decide, seguindo os preceitos de causa e consequência que norteiam a disciplina. Os resultados têm sido ótimos, e ela não vê a hora de voltar para as reuniões do centro que frequentava. “Quando as minhas filhas crescerem um pouco mais, retomo”, diz Glória, que adotou duas meninas em meados de 2009.
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"Na vida, há momentos de agir e momentos de esperar.
O problema é saber quando devemos tomar uma ou outra
posição e a cabala dá o código para desvendar esse enigma"
 
Glória Maria, jornalista

A prática da cabala é bem flexível. Cabe a cada um estabelecer o próprio regime de atividades espirituais, mas em geral elas se organizam em ciclos diários. A principal é a leitura de trechos da “Tora” e do “Zohar”, considerado o texto seminal da cabala. Os trechos não são aleatórios e costumam ser escolhidos por um mestre, que posteriormente ajudará no entendimento e na absorção dos vários significados dos textos. Ter aulas é a melhor alternativa para ter acesso a eles. No Kabbalah Centre, por exemplo, o curso introdutório custa R$ 500 (presencial) ou R$ 350 (online), inclui o livro “O Poder da Kabbalah” e os links para acessar as aulas gravadas online. Bolsas estão disponíveis, principalmente para universitários.

Recitar também é comum. O nome de Deus, sempre que invocado, abre novos canais para a entrada da Luz. Já os 72 nomes, criados pelo “Zohar” a partir de três versos seguidos do livro do Êxodo, presente na “Torá” e no Velho Testamento católico, servem como uma espécie de oração para intenções específicas como saúde, paciência, amor e serenidade. No mais, a cabala é exercida na prática, seguindo os cinco preceitos da filosofia. A maior parte do significado e da aplicação da cabala, portanto, está nas diferentes situações que encaramos no dia a dia – conversas com amigos, discussões com desafetos e decisões no trabalho, entre outras – e não concentrada em episódios esporádicos de reflexão, oração e invocação.
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"Independentemente da profissão, quem é famoso tem o ego estimulado
constantemente. E o ego, para a cabala, é a origem de todos os males"

Paulo Ricardo, vocalista e compositor da banda R.P.M.
Foram esse pragmatismo e a lógica simples dos preceitos cabalísticos que atraíram a atriz Fernanda Souza. Um amigo apresentou a disciplina a ela, que já tinha um livro sobre o assunto, mas estava esquecido em casa, sem nunca ter sido aberto. Com o estímulo, ela se empolgou e começou a ler. Era uma edição de “O Poder da Cabala”, o mesmo livro que despertou o interesse de Ellen Jabour. Logo que terminou a obra, recomeçou a leitura, tamanho o impacto dos ensinamentos do texto. “O que antes parecia complicado me pareceu muito claro naquele momento”, conta. Ela logo se matriculou no curso do Kabbalah Centre e hoje está no terceiro módulo dos ensinamentos. “Aprendemos coisas que, no fundo, já sabemos, mas não conseguíamos tornar claras para nós mesmos.” As mudanças, ela diz, foram notáveis. Mais calma e centrada, hoje ela garante que encara os problemas com mais serenidade. “Aprendi que tudo tem causa e efeito e que, se plantamos uma semente lá atrás, mais cedo ou mais tarde vamos colher”, diz. Em suma, ela aprendeu a ser bem mais cuidadosa com o que planta.

Os livros costumam ser a porta de entrada para a cabala. Os mais populares são “O Poder da Cabala”, de Yehuda Berg, disponível em mais de 40 idiomas (e com milhões de exemplares vendidos, segundo o próprio Kabbalah Centre, que o edita), e “A Cabala e a Arte de Ser Feliz”, de Ian Mecler, com 20 mil cópias comercializadas no Brasil. Mas o tema é um filão em si no ramo editorial. Uma breve visita a qualquer livraria dá a dimensão desse mercado. Um levantamento feito por ISTOÉ apontou pelo menos 76 títulos à disposição dos que buscam a disciplina milenar. Tem cabala com numerologia, astrologia, maçonaria e alquimia. Cabala dos anjos, da saúde, da psicologia e do trabalho. Há abordagens específicas para os adolescentes e para as mulheres e até o mundo corporativo foi contemplado em títulos como “A Cabala e as Empresas”, de Sandra Ayyad. O rabino carioca Nilton Bonder lançou três livros nos quais aborda três campos de interesse com olhar cabalístico: a comida, o dinheiro e a inveja. Um quarto, intitulado “Exercícios d’Alma – Cabala Como Sabedoria em Movimento”, arrematou a série.
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AFINIDADE
Luciano Huck e Angélica: visita do mestre cabalista
Yonatan Shani. Marina Lima é praticante há oito anos
Há ainda CDs e DVDs, com material introdutório em áudio e vídeo e, é claro, a internet, fonte praticamente infinita, com milhões de sites tratando das mais variadas vertentes e interpretações da cabala. “Alguns são mais tradicionais e conservadores e outros menos graves, ou mais light”, explica Ian Mecler, autor e mestre à frente do Portal da Cabala, que tem turmas de estudantes no Rio de Janeiro, em São Paulo, Brasília e Manaus. “Gosto de pensar na cabala como uma disciplina para ser estudada em camadas”, diz. “Cada um escolhe quão fundo quer ir.”

O modelo Jesus Luz, por exemplo, garante que tem interesse pelo que há de mais profundo na cabala. O primeiro contato dele com a filosofia foi em 2006, por meio da mãe de uma ex-namorada. Mal sabia ele que essa experiência acabaria servindo para aumentar a afinidade com sua namorada seguinte, a cantora Madonna, superestrela tanto da música quanto da cabala. Os dois mantiveram um relacionamento por mais de dois anos e foram vistos, em diversas ocasiões, visitando centros de cabala em Los Angeles, Nova York e Londres. Para ele, são tantos os benefícios de se aprofundar nos textos da disciplina que fica difícil listá-los. Um, porém, de grande valia para quem vive em meio à vaidade desnorteante da fama, está sempre na ponta da língua. “A cabala me ajuda muito a lidar com meu ego”, destaca, fazendo eco ao também famoso Paulo Ricardo.
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LIGHT
Yonatan Shani, do Kabbalah Centre: eles ensinam a vertente mais popular
Ciente do valor do conhecimento cabalístico para os que são sempre o foco das atenções, Jesus Luz costuma apresentar a doutrina aos colegas de holofotes, como Geovanna Tominaga, apresentadora do “Videoshow”, da Rede Globo. “No começo do ano comecei a frequentar o Kabbalah Centre com a (atriz) Cléo Pires”, conta Geovanna. Católica, ela diz que sentia dificuldades para colocar em prática os mandamentos e as orientações da religião. Acolhida no centro, absorveu a mensagem objetiva da cabala. “Encontrei um passo a passo, um guia, para colocar os ensinamentos católicos em prática”, diz. Hoje,ela pensa mais antes de tomar qualquer decisão e já não reage tão intensamente às frustrações. Um dos objetivos da cabala é esse: tornar mais tranquilas pessoas muito reativas. “Quebro menos a cara”, afirma.
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"Achei a cabala interessante porque não é bem uma
religião que fica doutrinando, mas uma filosofia de vida"

Ellen Jabour, modelo e apresentadora
A impressão que fica dos relatos de quem aderiu à prática milenar e de quem hoje guia interessados pelos caminhos da filosofia é a de que existe uma cabala para todo mundo. Flexíveis, os ensinamentos se moldariam para atender aos objetivos de cada um dos que desejam estudá-los. Mas, para algumas pessoas, esse processo pode ser perigoso. Há quem tema pela descaracterização da cabala, que, ao se diluir em milhares de vertentes, pode perder sua essência. “O que é reservado e santo está sendo popularizado e profanado”, argumenta o rabino Avraham Chachamovits, professor da cabala kasher – que segue à risca as leis judaicas – e responsável pelo site Portais da Cabala. Para ele, a cabala é o nível interpretativo mais profundo dos ensinamentos judaicos e não é possível atingi-lo sem compreensão de toda a lei judaica. “O que se vê por aí hoje surgiu há 30 anos, é uma moda”, afirma. “O que eu ensino tem mais de 3.300 anos.” Ele não cobra pelo material que usa, não mistura cabala com misticismo e não dá aulas para mulheres. “A mulher é naturalmente mais sensível que o homem, não precisa estudar”, justifica. Não judeus são bem-vindos, contanto que se convertam.
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"Aprendemos coisas que no fundo já sabemos, mas
que não conseguíamos tornar claras para nós mesmos"

Fernanda Souza, atriz
Embora essa corrente tenha menos entusiastas, as palavras do rabino Chachamovits encontram eco. Há outros grupos que têm se mostrado arredios aos modismos da nova cabala, embora com menos veemência. O Instituto Bnei Baruch, por exemplo, presente em mais de 30 países, condena abertamente o comércio de amuletos e o culto às personalidades. No Brasil eles têm cerca de 45 alunos fixos que organizam encontros e acompanham aulas diariamente pela internet. “Não nos envolvemos com esoterismos, estudamos a ciência da cabala”, sentencia Maurício Guiana, aluno do Bnei Baruch. Independentemente da corrente, o fato é que a cabala está no centro das atenções e cresce de maneira veloz, principalmente no Brasil. Puxada pela adesão das celebridades e por um discurso de união e humildade que tem apelo universal, ela segue arrebanhando entusiastas e críticos. Por enquanto, o discurso dos entusiastas tem sobressaído. Mas, tudo indica, com o aumento dos adeptos, as disputas pelo que é a verdadeira cabala aumentarão significativamente.
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"Penso na cabala como uma disciplina para ser estudada
em camadas: cada um escolhe quão fundo quer ir"
 Ian Mecler, mestre do Portal da Cabala
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Colaborou Juliana Dal Piva
Não subestime a deslegitimação de Israel

Não subestime a deslegitimação de Israel




Por Michael Herzog*

Tradução de Victor Grinbaum

Os 63 anos de existência de Israel tem sido permeados de desafios militares e pontuados por inúmeros ataques terroristas. Até agora Israel tem prevalecido. Mas seus inimigos voltaram-se para um novo front: os ataques à sua legitimidade como Estado independente. Esta é uma batalha complexa e perigosa. Iniciativas de boicote a Israel ou aos israelenses, processos jurídicos internacionais contra empresas e cidadãos por "crimes de guerra" etc são cada vez mais constantes. A internet está inundada de páginas que atacam Israel e milhões de pessoas acessam este material diariamente.

Mas onde fica o limite entre a deslegitimação e a crítica legítima? Essencialmente, a fronteira está na rejeição de Israel como a nação legítima do povo judeu. No entanto, mesmo essa definição não é exata, já que uma parcela significativa da campanha internacional de deslegitimação não se expressa na rejeição pura e simples, mas faz isso de maneiras mais sutis e sofisticadas. Normalmente a coisa começa com uma crítica legítima, que é então expandida para retratar Israel como uma entidade intrinsecamente imoral desde seu nascimento e em sua essência e caráter.

O desafio para aqueles que tentam lidar com esta questão é tentar limpar a "zona cinzenta" em que a crítica legítima e a deslegitimação se fundem. Este não é um desafio simples, tendo em conta a enorme massa de críticos. Analistas discordam sobre o peso dos antissemitismo, as razões culturais, ideológicas e políticas derivadas do conflito israelense-palestino. Os reflexos negativos do conflito, mesmo quando não utilizados para a deslegitimação, servem para alimentar o fogo.

A campanha de deslegitimação atual está se espalhando pelo Ocidente e já se encontra no cerne das preocupações internacionais, servindo de ponte entre os radicais árabes e a esquerda mundial. O pensamento ocidental caracteriza-se por, entre outras coisas, uma ênfase nos direitos humanos. Graças a estas campanhas, cresce a identificação com a causa palestina à custa da legitimidade de Israel. 

Esta tendência não deve ser subestimada. Israel é realmente forte, mas trata-se um país pequeno e em grande medida dependente da sua legitimidade internacional. A rejeição internacional pode isolá-lo, corroendo seu poder de dissuasão, prejudicando a economia e a sua liberdade de movimentação de auto-defesa. Os agentes de delegitimação têm diante de si o recente exemplo da África do Sul, que apesar de sua força militar e econômica, acabou cedendo às pressões acumuladas em anos de sanções econômicas e deslegitimação internacional.

Em 2001, a Conferência de Durban reuniu 1500 organizações não-governamentais internacionais, onde Israel foi qualificado como um "Estado de Apartheid" e solicitou seu "total isolamento". Só então Israel e os judeus da Diáspora acordaram (tardiamente) para esta ameaça, e somente nos últimos dois anos é que temos visto algum tipo de estudo e articulação com vistas à reagir contra este quadro. No entanto, ainda há um longo caminho a percorrer.

Não há uma solução para cada ameaça em cada arena. Devemos concentrar-se na principal das arenas – a Europa Ocidental e os Estados Unidos. E mesmo assim, deve-se fazer uma distinção entre diferentes tipos de atores: as organizações e pessoas que geram a deslegitimação, para quem esta é a essência de suas ações e que devem ser expostas como tal; elementos que contribuem para a deslegitimação sem perceber e para quem o real significado de suas ações deve ser esclarecido (como no caso do juiz Goldstone e Jimmy Carter, que se retrataram de algumas de suas críticas a Israel) e a grande massa da opinião pública a quem, na maioria das vezes, falta conhecimento e está aberta à influência. Por fim, os potenciais parceiros na luta contra a deslegitimação – não apenas judeus – e que devem ser guarnecidos com ferramentas de debate e com os quais devemos formar alianças.

Este não é apenas um problema de diplomacia. Na verdade, é importante nos perguntarmos como devemos reagir à realidade. Mas não é menos importante que também possamos nos perguntar como podemos moldá-la, usando as ferramentas de política. Esta batalha também pode ser vencida, mas requer consciência e uma estratégia global de gestão, recrutamento de forças e recursos para a construção de coalizões junto à Diáspora. Em suma: educação, proatividade e criatividade. É tempo de questionamento e de confronto com aqueles que desejam nos deslegitimar!

*Michael Herzog é Brigadeiro-General (aposentado) das Forças de Defesa de Israel e Senior Fellow do Jewish People Policy Institute.
Parlamento israelense avalia suspender férias por protestos

Parlamento israelense avalia suspender férias por protestos


O Parlamento israelense, o Knesset, estudará esta semana a suspensão do recesso do período de sessões de verão por causa dos protestos populares maciços que levaram às ruas 150 mil pessoas, um número recorde no país.
A chefe da oposição e ex-ministra de Relações Exteriores, Tzipi Livni, pediu ao presidente da Câmara, Reuven Rivlin, que prolongue o período de sessões neste momento de crise para que o Parlamento possa debater a legislação que atenda às reivindicações da população, informa neste domingo o jornal "Haaretz".
Espera-se que Rivlin convoque uma sessão extraordinária esta semana para que os deputados votem a prorrogação do período de sessões, que devia finalizar na quinta-feira e reiniciar no final do próximo mês de outubro.
"O Knesset não pode iniciar o recesso. Deve continuar trabalhando. As reformas que respondam ao que está acontecendo nas ruas devem vir do Knesset, por isso que não é momento para que a Câmara tire férias", disse Livni, segundo o jornal "Yedioth Ahronoth".
O movimento de indignados em Israel começou há duas semanas com acampamentos de rua em Tel Aviv de jovens que protestavam contra as dificuldades para ter acesso a uma casa e se estendeu pouco a pouco ao resto do país.
Manifestantes em dez cidades de Israel exigem justiça social

Manifestantes em dez cidades de Israel exigem justiça social

Manifestantes realizam uma passeata até a residência do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, durante protesto contra o alto custo de vida e por justiça social, em Jerusalém.

O protesto contra o alto custo de vida e por justiça social ampliou-se neste sábado à tarde a dez localidades israelenses, onde dezenas de milhares de manifestantes realizaram passeatas.
Em Tel Aviv, epicentro dos protestos, mais de 30 mil manifestantes protestaram no centro da cidade, levantando bandeiras vermelhas e israelenses.

Em Jerusalém, milhares de manifestantes --5.000, segundo os organizadores-- realizaram uma passeata até a residência do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, com cartazes nos quais se lia: "toda uma geração quer um futuro".

O movimento de protesto, que começou há um mês e a princípio esteve dirigido contra a inflação dos aluguéis, ampliou-se contra o agravamento das desigualdades sociais e a degradação dos serviços públicos, particularmente na saúde e na educação.

Os manifestantes exigem um retorno ao "Estado de bem-estar social", como era nos primeiros anos do Estado judaico.

Um dos slogans mais correntes era "o povo quer justiça social e não caridade".

Os manifestantes acusam o poder de estar a serviço dos magnatas das finanças e protestam contra a força dos monopólios e dos cartéis de Israel.

Pela primeira vez desde que o movimento foi iniciado há um mês, a minoria árabe que sofre fortes discriminações associou-se a ele, nas manifestações em Nazareth, ao norte de Israel e na localidade de Baka Al Garbyeh, ao norte de Tel Aviv.

O protesto ocorre principalmente entre as classes médias, afetadas com o aumento constante do custo de vida, resultado de uma economia de mercado controlada por algumas famílias.

30 de jul. de 2011

O Marranismo em Portugal

O Marranismo em Portugal


O Patrimonio Historico, Cultural e Religioso dos Anoussitas 

Por Maria Antonieta Garcia

O interesse pelo marranismo nasceu em Belmonte, onde sobreviveu uma comunidade cujos membros eram/são identificados como judeus.

Em 1972, fui encarregada pelo Ministério da Educação para proceder à abertura de uma escola oficial do Ciclo Preparatório nesta vila da Beira Baixa. Foi uma surpresa a linguagem que então ouvimos, porque a julgávamos desaparecida. ``Há muitos judeus matriculados? Alugou uma casa a um judeu?'', eram frases cuja mensagem ultrapassava a mera interrogação. Não descodificávamos os matizes das significações, mas apercebíamo-nos do aviso/censura que as envolvia, quando mais tarde, não judeus afirmavam explicitamente: ``Cuidado! Quando os conhecer, verá que não prestam para nada!''. Estranhámos ainda mais ao ouvir comentar a qualificados democratas da vila: ``Não tenho nada contra eles, mas não gosto deles!''. Era uma opinião alargada, partilhada por elementos exteriores à comunidade, que aos judeus belmontenses aconselhavam, de acordo com o contexto, ora a assunção da diferença, ora a assimilação. Ouvíamos:

- Sejam judeus verdadeiros!

- Deixem de ser judeus!

Quem eram estes judeus?

Na Escola, não notávamos quaisquer atitudes que os diferenciassem da maioria dos alunos. Reconhecíamo-los pelos sobrenomes que nos haviam indicado: Nunes, Morão, Caetano, Henriques, Rodrigues, Vaz, Diogo... cruzavam-se em combinações múltiplas, confirmando uma opção duradoura pela endogamia. Mas eram sempre elementos da sociedade envolvente que se pronunciavam. As pessoas a quem identificavam como judias fechavam-se ou, inteligente e ambiguamente, respondiam: ``Somos pessoas como as outras''.

Porém, dia a dia, íamos registando indícios reveladores da Diferença. Por exemplo: decidimos pagar o aluguer da casa, ``Sexta-feira, depois do pôr do sol''. A proprietária, judia, como dissemos, recusou receber o dinheiro, apesar da insistência. A limpeza meticulosa de Sabat era outro sinal; depois, aqui e ali, começámos a ouvi-los lamentar-se sobre discriminações de que eram alvo, a verificá-las1, mas a ocultação e o secretismo eram a prática corrente.

Só após Abril de 1974, foi possível estabelecer uma relação mais próxima com elementos da comunidade. O convívio que tínhamos mantido até então, favorecera a ideia de que havia uma cumplicidade de crenças. Argumentava o proprietário da casa onde vivíamos: ``A Senhora ``acareou'' o meu filho, quando íamos para os mercados. Eu sempre disse à minha: a Senhora é das nossas! É da família!''. Pudemos, então, verificar que, cinco séculos após a criação da Inquisição, em Belmonte sobreviviam festas, rituais, orações preservadas por uma comunidade herdeira de uma religião que vingou apesar das perseguições, do potro, dos tratos de polé, dos autos da fé.

Lemos em ``Libération'', (1990): ``Mais à Belmonte, peut-on expliquer pourquoi le marranisme s'est maintenu?''; respondeu Frédéric Brenner, autor de ``Les Marranes'': ``Je n'ai pas cessé de me poser la question, ça tient du miracle''2.

E outras razões, por certo.

Judeus em Belmonte : O documento mais antigo que conhecemos é uma lápide com uma inscrição3 em hebraico, datada de 1297 (segundo leitura de Samuel Schwarz), e que pertencia à Sinagoga. Portanto, antes da expulsão dos judeus de Espanha, em 1492, vivia em Belmonte uma comunidade organizada. É plausível que o número de elementos tenha aumentado com a decisão dos Reis Católicos. Em Dezembro de 1496, D. Manuel I publica o Édito de Expulsão dos Judeus; em 1497, o monarca obriga ao baptismo forçado, à conversão os que permaneceram, voluntária ou involuntariamente, em Portugal. Serão os cristãos-novos, os marranos.

Para Elias Lipiner, trata-se de uma designação ``(...) dada aos judeus que foram tornados cristãos à força, mas continuavam a seguir ocultamente os ritos da lei velha''4. O vocábulo teria raiz hebraica ou aramaica: mar-anús, ou seja, baptizado à força. Afeiçoado à fonologia das línguas ibéricas tornar-se-ia marrano. Foi, porém, a conotação pejorativa, registada por Frei Francisco de Torrejoncillo, que fez escola. Marrano ``(...) que en Hespanhol quer dizer, porcos, e assim por infâmia lhe davão este nome com grande propriedade: porque entre os marranos, ou marroens, quando grunhia e se queixa algum deles, todos os mais acodem a seu grunhido, como assim são os judeus.''5. Era este o significado que ainda sobrevivia em Belmonte, associado ao foetur judaicus e a outros estereótipos. Mantinham-se superando, afinal, o tempo marcado pela Inquisição.

Ser marrano : A instalação do tribunal da Inquisição, em Portugal, obrigou todos os judeus ao baptismo; também o casamento, os rituais funerários, os cultos no exterior dos lares seguiam a doutrina católica. A herança cultural judaica era transmitida oralmente, de geração em geração; mas aprendiam, como forma de sobrevivência6, os rudimentos do catolicismo. A ``contaminação'' de fés era inevitável e com o decorrer dos tempos, a maioria dos que permaneceram no país adopta práticas sincréticas. Todavia, os anussim (convertidos à força) diziam-se e sentiam-se voluntariamente judeus.... e a vontade individual é uma dimensão que participa na construção da identidade. Não responderam de forma homogénea ao contexto inquisitorial: a) uns aderiram convictamente à nova fé; b) outros exilaram-se para continuar a praticar a lei de Moisés; c) houve quem se tornasse céptico, desiludido; d) muitos continuaram a judaizar clandestinamente, com graus de adesão e de conhecimento diversos, mostrando-se católicos no exterior. São os marranos que perpetuaram tradições sagradas, mitos e memórias comuns, produziram e reproduziram laços identitários.

Sabemos que António José Saraiva afirmara que os cristãos-novos tinham desaparecido ``... como uma miragem ao toque dos decretos de Pombal (...)''7. Mas a religião, as culturas não se apagam, proíbem ou fazem desaparecer, por decreto. De resto, o próprio Marquês de Pombal, após a publicação da ``... saudável Lei de vinte e sinco de Maio do anno de 1773'' que abolia a ``... sediosa distinção de Christãos Novos e Christãos Velhos...'', se vê obrigado, em Dezembro de 1774, a desterrar dois absurdos que qualifica de ``... notórios e tão intoleráveis, que são contrários a todos os Direitos''.

Na verdade, passado mais de um ano da abolição da distinção, a jurisprudência mantinha-se. Lemos: ``... os verdadeiros confitentes reconciliados com a Igreja, e por Ella recebidos no seu benigno gremio, podem ficar ainda assim infames e inhabeis nas suas pessoas, e nas dos seus filhos, e netos pela via Paterna (...)''; além disso, ``(...) ficão incursos na perda de seus bens para o Meu Fisco, e Camara Real''8. São estes ``absurdos'' que persistiam, revelando resistência ao cumprimento da Lei, tecendo práticas que garantiam o status quo. Venceu o poder real e, por esta época, regressaram muitos judeus ao país.

No que respeita a Belmonte, tem-se repetido que os judeus que residem na vila ali se fixaram, vindos de Marrocos, após a decisão pombalina. A afirmação mais recente que envolve este domínio, encontrámo-la no livro ``Beira Baixa'': ``Nos finais do século XVIII estabeleceu-se em Belmonte uma grande colónia de judeus. Ocuparam um bairro designado por Marrocos que se transformou em judiaria fechada''9. Trata-se duma legenda obviamente sucinta que sugere mais do que garante. Mas será possível falar duma ``judiaria fechada'' no século XVIII? A ``grande colónia de judeus'' estabeleceu-se em Belmonte porquê? Vinda de onde? Se eram judeus exilados que regressavam, quando e por que perderam sobrenomes hebraicos?

Na verdade, sabemos que encontrámos dezenas de processos no A.N.T.T. e que nos séculos XVI, XVII e XVIII, naturais e residentes do concelho de Belmonte conheceram os cárceres da Inquisição. O último processo que recolhemos é de ``Gracia Nunes, Gracia de Matos, cristã-nova, casada com Diogo Mendes Loução, lavrador, natural de Maçal do Chão, termo da vila de Celorico, e moradora na de Belmonte, Bispado da Guarda''; é condenada a ``cárcere e hábito a arbítrio''10. O processo tem a data de 1750.

Verificámos também que a designação do Bairro, Marrocos11, (cuja toponímia teria origem na ocupação de judeus regressados do país com o mesmo nome) é anterior às leis pombalinas.

Nos Livros de Décima, Contribuição Predial Rústica, Contribuição Predial Urbana, de Agências, nos registos de nascimentos, casamentos e óbitos, bem como nos Livros de Actas da Câmara Municipal, figuram nomes de ascendentes de membros que integram a comunidade actual.

Eram judeus secretos, transmitiram uma tradição que se habituaram a ocultar, alternando períodos de maior clandestinidade, com outros de maior abertura.

É Samuel Schwarz que, em 1925, com a publicação do livro ``Os cristãos novos em Portugal no séc. XX'', inicia a desocultação da existência dos judeus belmontenses, para o mundo. Vindo para o concelho, em 1917, para dirigir a exploração do couto mineiro da Gaia, um dos mais ricos jazigos de cassiterite da Europa, ouve qualificar Belmonte como ``terra de judeus''. Afirma que ``Só depois de muitos meses de continuados esforços e ainda graças a um concurso de curiosissimas circunstâncias, conseguimos ser admitidos no seu grémio e assistir e tomar parte nas suas orações e cerimónias judaicas''12. O encontro ocasional, em Lisboa, com o belmontense Baltazar Pereira de Sousa, homem de negócios, que ouvira apelidar de judeu e que levou à Sinagoga de Lisboa, foi a chave que abriu todas as portas. Regressado à vila, submete-se ainda a um teste: pedem-lhe que reze uma oração. Fê-lo em hebraico, mas entre os vocábulos que pronuncia, identificam Adonai. Estava aceite: ``É um dos nossos.''.

O tempo era favorável. A implantação da I República permitia confiança. Nos Livros de Actas da Câmara Municipal é notória a influência de membros da comunidade durante este período. José Henriques Pereira de Sousa e José Caetano Vaz, por alvará do Governador Civil de Castelo Branco de 13 de Outubro de 191013, integram a Comissão Municipal Electiva, o primeiro como Presidente e o último como vereador do pelouro de Caria, a segunda povoação mais populosa do concelho. O trabalho que desenvolvem, surpreende se o confrontarmos com o de Executivos camarários anteriores e posteriores. A criação de escolas, as medidas sanitárias, as obras de remodelação e restauro de imóveis, a elaboração de planos para a construção de estradas... contrastam com a habitual gestão rotineira que Actas das sessões camarárias doutros períodos registam.

O anticlericalismo, um dos traços da época, beneficiaria um grupo de pessoas que mantinha com a Igreja Católica uma relação de distanciamento. É neste clima que Samuel Schwarz trava conhecimento com a comunidade.

No Porto crescia o movimento liderado por Barros Basto. Era o renascer do Judaísmo nas Beiras e Trás-os-Montes. O jornal Ha-Lapid vai noticiando a renovação de um saber e de um fazer cultivado durante gerações. O conhecimento da perseverança dos marranos portugueses através de A Obra do Resgate de Barros Basto, do livro de Samuel Schwarz, despertou o interesse do mundo judaico. Em Janeiro de 1926, Lucien Wolf vem a Portugal a pedido da Anglo Jewish Association, da Alliance Israélite Universelle e da Spanish Portuguese Jew's Congregation. Visitou Lisboa, Guarda, Belmonte, Caria, Covilhã, Coimbra e Porto. ``Constatou directamente que tais marranos não eram um mito, pois não só travou relações com eles mas também assistiu as suas reuniões culturais''

O relatório que elaborou esteve na origem da criação de ``... um comité para ajudar os marranos portugueses''.

A 7 de Setembro de 1926, Paul Goodman, secretário do Portuguese Marranos Committee,informa Barros Basto sobre a constituição do referido comité16. Entretanto, o jornal Ha-Lapid divulga a história, cultura e preceitos judaicos, noticia os acontecimentos relevantes da vida das comunidades (vida comunal) e de A Obra do Resgate. É perceptível o interesse em motivar os descendentes de judeus para assumirem a identidade religiosa e exorcizar o medo. Escreve: ``Nós que temos opiniões religiosas bem definidas inspiramos simpatia aos nossos adversários, entre os quais, apesar da diferença de credos, temos sinceras amizades''. Afirma mais Ben Rosh: ``Um adversário nobre e leal tem direito sempre ao respeito do seu antagonista (...). Todo aquele que, para não ser perturbado na sua digestão, se entrega a uma doblez de carácter, só merece dos combatentes das várias crenças o desprezo (...)''17. Diga-se que este comportamento proselitista, de alguma forma, valer-lhe-ia desconfiança e incompreensão...

Mas a Obra do Resgate continuava. E sabemos assim que ``Em Janeiro (1927), seguiram para Belmonte, fazer uma visita aos anussim daquela vila, alguns jovens excursionistas da Associação de Juventude Israelita ``Hehaber'', que tiveram o prazer de ser recebidos em diversas casas criptojudias de Belmonte. Demoraram-se dois dias, e ficaram encantados com as amabilidades daquelas famílias, especialmente com as Sr.as e Srs. Pereira de Sousa (...). O Ex.mo Senhor Engenheiro Samuel Schwarz que se encontrava, na ocasião nesta visita em Belmonte, acompanhou os jovens do ``Hehaber'' (...)18. O Yom Kippur é celebrado, em 1928, na mesma localidade. Está presente, de novo, Samuel Schwarz que distribui exemplares do livro Kether Malkhuth,19 editado pela Comunidade do Porto.

No mesmo ano Barros Basto ``... leva a mensagem do Resgate a várias ``povoações de marranos'': Vila Real, Chaves, Rebordelo, Vinhais, Macedo de Cavaleiros, Mogadouro, Vilarinho, Lagoaça, Moncorvo, Cedovim, Covilhã, Belmonte, Fundão e Aveiro''20.

Em Maio de 1929 ``... visita em Castelo Branco alguns criptojudeus a quem deu várias explicações sobre o judaísmo e distribuiu vários livros, jornais e estampas judaicas''21.

É, porém, a Covilhã que merece maior atenção. No dia 4 de Maio de 1929, numa reunião de várias famílias ``... em casa da Ex-ma Sr.ª D. Amélia Fernandes, bondosa e caritativa senhora cripto-judia, fiel observante dos ritos judaicos que lhe ensinaram seus pais foi decidida a fundação duma ``Comunidade legal judaica, de acordo com as leis da República Portuguesa''22. Deliberam ainda que os estatutos seriam iguais aos da Comunidade do Porto. Dia 6 de Maio, em casa de José Henriques Pereira de Sousa, em Belmonte, decidem que o núcleo cripto-judeu da vila ficaria ``adstrito à Comunidade da Covilhã''. Em Caria, o líder do Movimento do Resgate é Francisco Mendes Morão.

Samuel Schwarz é, então, considerado como ``... o mensageiro do Resgate do distrito de Castelo Branco''; Ben Rosh di-lo-o ``... um amigo da nossa causa'' que, com Lucien Wolf e Paul Goodman ``... em todos os lares criptojudaicos devem ser memoriados e abençoados''.

Com a queda da primeira República, em 1926,o medo cresce , ``... está arreigado no espírito de muita gente'' Ainda assim, as reuniões de criptojudeus continuam. A 29 de Julho de 1929 é legalizada no Governo Civil de Castelo Branco, a Comunidade Israelita da Covilhã. Elegem corpos gerentes; Francisco Henriques Gabinete será o Presidente da Junta Directora; Samuel Schwarz manter-se-à Presidente da Assembleia Geral. A Sinagoga da Comunidade, Shaaré Kaballah (Porta da Tradição) é inaugurada em Setembro de 1929. O jornal refere a presença da M.me Oulman e de M.me Gradis que, na ocasião, oferecem 300 escudos ``para serem distribuídos por pobres criptojudeus''23.

No mesmo ano, em Outubro, noticia o Ha-Lapid que ``... uma quarentena de fiéis reuniu-se em oração em Kippur, na Sinagoga da Covilhã''; em 1930, inscrevem-se como membros da comunidade ``... declarando desejarem professar abertamente o Judaísmo 36 criptojudeus''24.

As visitas à cidade tornam-se frequentes. A vinda de ``... Abraham Brozinski, importante negociante e escritor hebraico da Polónia...'' acompanhado por Samuel Schwarz, foi motivo para a realização duma: ``reunião com assistência de criptojudeus da melhor sociedade covilhanense.25''

No Fundão, efectuam-se também encontros, são distribuídos livros de orações e ``... estampas com a figura de Moisés''.

Na Yeshivá Rosh Pinah, do Porto, inscrevem-se jovens que deveriam ser os futuros guias espirituais das comunidades. Frequentada, entre outros, por 5 belmontenses, 4 fundanenses, 4 covilhanenses, aprendiam práticas e rituais da Lei de Moisés.

Apesar de todo o dinamismo, o movimento de Barros Basto não vingou. Os processos militar e da P.I.D.E. arrastam à queda do projecto da Obra do Resgate. O nazismo, o estabelecimento do Estado Novo, as lutas de liderança entre judeus portugueses e os que no país se refugiavam, geram afastamentos, conflitos, a queda. Era o tempo das verdades indiscutíveis - Deus, Pátria, Família, Autoridade -; foi o tempo duma nova clausura religiosa por parte dos marranos.

Barros Basto e Samuel Schwarz verificaram que foram mulheres que memorizaram e transmitiram rituais e textos ou os escreviam26. O medo reinstalara-se e das comunidades que, então, se organizaram na Beira e tiveram local de culto, em vários locais da região mantinha-se o acender das candeias com torcidas de linho; a Páscoa marcada pela Haggadah judaica (a limpeza meticulosa das casas, por exemplo); muitas orações27; hábitos alimentares (o sangrar os animais, certos enchidos (alheiras) e, quem sabe?, doces conventuais que, não tendo leite na confecção, podem acompanhar pratos de peixe e carne); influências culturais (a ideia de Portugal como nação escolhida, o messianismo...).

Usos e costumes a que afeiçoaram novas significações. Mas em Idanha-a-Nova, na década de 70, contava-nos uma avó que não colhia as partes laterais dos campos que cultivava. O pobre, assim, podia fazer o pão e colher a fruta. E não ensinavam rabinos que os homem não devia cortar o cabelo dos lados (peot) para lembrar este preceito? Que origem tem, também, o ``fumo'', o pedaço de pano preto rasgado, que beirões colocam no braço, em sinal de luto? E o pão distribuído durante os funerais, em certas aldeias? E a ablução dos cadáveres?

A ausência de chefes religiosos, o distanciamento relativamente aos textos sagrados, redundou maioritariamente na assimilação dos judeus. Nos anos 90, nas comunidades beirãs da Covilhã, do Fundão, de Penamacor, de Pinhel sobrevive a memória duma ascendência judaica. Em alguns casos, independentemente da adesão à religião mosaica (podem ser mesmo católicos praticantes), repetem a afirmação identitária judaica, ou seja, assumem um judaísmo que se situa numa penumbra epistemológica. Afinal, também na Beira, como escreve Edgar Morin, judeu tornou-se um adjectivo que admite graus e tonalidades diversas.

Só Belmonte preservou um núcleo duro, construiu uma matriz cultural que abriu o caminho para o ``retorno'' ao Judaísmo ortodoxo. Apesar do medo. Por exemplo, durante a Segunda Guerra Mundial, belmontenses retiveram a existência duma ``lista'' elaborada por pessoas que eram manifestamente anti-semitas. Dizem, referindo-se ao suposto lider: ``... era um germanófilo. Ameaçava a comunidade com a divulgação e a denúncia na Alemanha, de pessoas da vila seguidoras da nossa Lei''.

Era um homem de poder e estas ameaças, a deslocação à Alemanha, garantiam obediência, conformismo e desencadearam muitos receios. Explicam: ``Às vezes fugiam e dormiam nas ``palheiras'' com o medo de serem apanhados''.

Durante o Estado Novo, também foram as mulheres as iniciadoras, as mestras do Judaísmo. É o tempo do prestígio das H'azzanot, das rezadeiras. A tradição que seguiam, fundamentada na memória, traíra conhecimentos e práticas. Mas a opção endogâmica favorecia a continuidade cúltica, o segredo face ao Outro.

O anti-judaísmo e o anti-semitismo desenharam solidariedades entre os judeus, alimentavam a cadeia de transmissão de fazeres e saberes.

Com Samuel Schwarz soubemos que, desde a Inquisição, as candeias de Sabat nunca se apagaram, que o jejum de 24 horas de Yom Kippur se cumpria rigorosamente, que o Purim da Santa Rainha Ester não fora esquecido, que a Pessah era vivida com ``pão asmo'' ou ``dismos'', com ``ervas amargosas'', com a purificação das casas, reafirmando a esperança: ``Para o ano que vem, em Jerusalém''. Soubemos que os casamentos se realizavam primeiro, segundo a Lei de Moisés; percebemos a génese das histórias dos abafadores28, quando conhecemos os rituais funerários que as mulheres realizavam antes de chamarem sacerdotes católicos e médicos, reiterando uma afirmação identitária judaica.

Na década de 80, quando foi possível o convívio com a comunidade, estes preceitos mantinham-se. Transmitidos oralmente, no feminino, contavam também alguns lares judaicos com o livro de Samuel Schwarz que guardavam ciosamente. Era o recurso certo, quando a memória traía. Judeus belmontenses, desde 1925, tinham à mão o manual do perfeito criptojudeu.

Assim preservaram rituais e textos de orações, tecendo uma coesão securizante que a partilha religiosa sustentava. Perpetuavam discursos de fé e invocavam a identidade de povo escolhido: ``... Adonai, nosso Rei e Rei de todo o mundo que escolheste em nós mais que todos, e nos deste a Tua Santa Lei (...)''. Louvavam ``... o Deus de Abraão, a constrição de David, a ciência de Salomão, a vitória de Gedeão, e o aviso que teve Lot, a felicidade de Jacob, o espírito de Elias, a caridade de Tobias e a paciência de Job''. Suplicavam: ``... que não sejamos presos, nem feridos, nem mortos, nem nas mãos dos nossos inimigos postos''. Manifestavam o desejo de ``... gozar a felicidade de Jerusalém...'', de aceder à Terra da Promissão.

Surpreendemo-nos ainda com textos ouvidos em Belmonte, que repetiam as palavras que os Inquisidores tinham registado nos processos de cristãos-novos. Entre outras, verificámos que a oração que acompanha o acender das candeias de Sábado, um momento sagrado, não se alterara, durante cinco séculos.

Escrevia F. Brenner: ``Concrétement (...) dans leur quotidien, on ne peut décéler aucun signe apparent de judaïsme...''29. Não eram circuncidados, não possuíam livros sagrados, não falavam hebraico, não havia Sinagoga, nem rabinos. Mundo indecifrável para judeus que se habituaram a atribuir a pertença judaica a partir de critérios de que a prática marrânica se desvia.

Todavia, sempre guardaram tempos históricos com marca de sagrado. Guardar o Sábado é repetir o gesto divino; jejuar em Yom Kippur é lembrar as transgressões aos mandamentos judaicos, penitenciar-se; o Purimde Ester não fora esquecido porque a fraternidade de destinos, valorizou uma rainha que escondeu a identidade, mas foi salvadora do povo judeu; a Pessah é um elixir da esperança.

A prática da endogamia, a fidelidade a uma filosofia, à Lei de Moisés, o anti-judaísmo e o anti-semitismo, a presença de Samuel Schwarz na vila, o querer ser judeu, a crença na pertença ao povo escolhido, na errância redentora e a espera messiânica garantiram a manutenção duma mundivivência, de um património cultural específico.

Os judeus de Belmonte são herdeiros do marranismo: homens desenraizados fruíram a sua religião, com carta de alforria; confrontados hoje com práticas rabínicas ortodoxas alguns aceitam-nas; para outros o peso da re-educação, da conversão foi insustentável.

Mantiveram a sua autarcia judaica, renunciando à religião oficial; são os neo-marranos a construir a riqueza polimorfa do Judaísmo.


ARTUR CARLOS DE BARROS BASTO

Artur Carlos de Barros Basto (Amarante, 18 de Dezembro de 1887 — 1961) foi um militar português.

O capitão Artur Carlos de Barros Basto faleceu em 1961, sem ter sido reabilitado pelo Exército Português da decisão de 1943 do Ministro da Guerra que o exenorou das suas funções de oficial, pelo simples facto de ser judeu e um activo defensor da tolerância religiosa, e dos Marranos em particular. A sua reabilitação, apesar de vários pedidos, continua por acontecer.

Nascido no Porto em 1887, foi educado dentro do cristianismo, apesar de mas na juventude ao tomar conhecimento da sua ascendencia judaica (era de uma família de marranos de Amarante, e o seu avô era ainda um membro praticante da comunidade) inicia uma aproximação, primeiro teórica, e com a vinda para Lisboa, prática.

Ao mesmo tempo que iniciava a sua vida castrense, o então jovem Barros Basto apresentou-se um dia na sinagoga sefardita de Lisboa e declarou-se judeu. Apesar do seu empenho, a Congregação negou-lhe inicialmente a integração na congregação.

Por forma a ser aceite como membro de pleno direito, aprendeu o hebraico e deslocou-se a Marrocos para receber instrução religiosa. Em Tânger foi circuncidado e oficialmente aceite dentro da religião judaica, adoptando o nome de Abraham Israel Ben-Rosh.

Depois de cursar na Escola de Guerra, Barros Basto participou na Implantação da República. Foi ele que hasteou a bandeira da República, no Porto.

Posteriormente comandou um batalhão do Corpo Expedicionário Português, na Primeira Guerra Mundial, como tenente na Frente da Flandres, pelo que que foi condecorado.

Barros Basto ficou conhecido como o “Apóstolo dos Marranos”, denominação que lhe foi dada pelo historiador Cecil Roth, e que descreveu o empenho com que se dedicou à sua “Obra do Resgate”.

“Adonai li velo irá” (Tenho Deus comigo, por isso não temerei”), era a sua divisa, e de facto não temeu percorrer o interior de Portugal a fazer o levantamentos, e os contactos, para salvaguardar a identidade única dos Marranos ao mesmo tempo que ambicionava traze-los para o judaísmo moderno.

De regresso ao Porto, fundou a comunidade israelita em 1923, e foi um dos impulsionadores da construção da Sinagoga do Porto, em 1938.

Dadas as dificuldades que encontrava em Portugal, sobretudo financeiras, partiu para o estrangeiro. Em Londres foi criado o Portuguese Marranos Commitee, que disponibilizou dez mil libras para a construção de um centro com sinagoga e sala de leitura e a admissão de um rabino residente.


COMO CONSTRUIR A ÁRVORE GENEALÓGICA

Fonte : http://antt.dgarq.gov.pt/pesquisar-na-torre-do-tombo/genealogia/

A Genealogia é o ramo da História que se dedica ao estudo das famílias, à sua origem e evolução, descrevendo as gerações em cadeia (em sentido ascendente ou descendente) e traçando, sempre que possível, as biografias dos seus membros.

Se pretende conhecer as suas raízes familiares e estudar a sua ascendência, tenha em conta as seguintes indicações:

Qualquer trabalho de pesquisa genealógica deverá iniciar-se tendo por base os assentos de baptismo, de casamento e de óbito, registados nos livros paroquiais (livros de baptismos, de casamentos e de óbitos). Por vezes, os livros paroquiais são mistos, isto é, concentram no mesmo livro registos de baptismos e de casamentos ou de óbitos. Esta situação é sobretudo frequente nos livros mais antigos. Estes registos estavam a cargo dos párocos, motivo porque cada livro só inclui assentos de uma paróquia ou freguesia.

Sobretudo através dos assentos de baptismo e de casamento obtêm-se informações essenciais para o estudo de qualquer família, como sejam: duas ou até três gerações com os nomes das pessoas, datas, naturalidades, moradas, profissões, relações de parentesco com os padrinhos e testemunhas, etc.

O registo dos baptismos e dos casamentos “em livro próprio” só passou a ser obrigatório a partir de 1563 (por força de uma norma da 24ª sessão do Concílio de Trento), muito embora numerosas paróquias já o praticassem anteriormente. A obrigatoriedade do registo dos óbitos data de 1614.

Os livros paroquiais com menos de 100 anos encontram-se ainda nas Conservatórias do Registo Civil, enquanto que os mais antigos acham-se por norma depositados nos Arquivos Distritais.

Se apenas tem conhecimento dos nomes dos seus avós, deverá iniciar a sua pesquisa procurando obter uma certidão do registo de nascimento dos seus pais, dirigindo-se para o efeito à respectiva Conservatória do Registo Civil. Através deste documento fica a conhecer os nomes dos seus bisavós, bem como outros elementos biográficos. O mesmo deverá depois fazer para os registos de nascimento dos seus avós, através dos quais ficará também a conhecer os seus trisavós. No caso dos seus avós terem nascido há mais de 100 anos, deverá procurar os respectivos assentos de baptismo nos Arquivos Distritais.

Sempre que procurar um assento de baptismo ou de casamento no tempo, tenha presente que normalmente as gerações têm intervalos médios de 25 anos. Porém, há sempre excepções.

À medida que vai conhecendo os seus antepassados e construindo a sua árvore genealógica, com base nos registos paroquiais, poderá simultaneamente consultar outras fontes documentais manuscritas que se encontram à sua disposição nos Arquivos Distritais e sobretudo na Torre do Tombo, as quais lhe permitirão enriquecer as biografias das pessoas que são objecto do seu estudo.

Nos Arquivos Distritais pode encontrar os seguintes fundos:

Fundos paroquiais.

Cartórios notariais.

São sobretudo de grande interesse para a genealogia os seguintes fundos e colecções da Torre do Tombo:

Câmara Eclesiástica de Lisboa

Dispensas Matrimoniais (ID: C330A-1 a 150)

Habilitações de genere para ordens menores e sacras (ID: L 619/3)

Tribunal do Santo Ofício

Diligências de habilitação (ID: L449 a 471A; C1078-1 a 25; C974 a 989 habilitações incompletas; C990, habilitações de mulheres);

Processos da Inquisição de Lisboa

Processos da Inquisição de Coimbra

Processos da Inquisição de Évora (base de dados; para a Inquisição de Évora ver também ID C990A-1 a 113)

Mesa da Consciência e Ordens

Habilitações para a Ordem de Cristo (ID: C661 a 729)

Habilitações para a Ordem de São Bento de Avis (ID: C644 a 653)

Habilitações para a Ordem de Santiago (ID: C734 a 741)

Habilitações para a Ordem de de Malta (ID: C731);

Registo Geral de Mercês

Chancelaria Régia (ID: L20 a 206, por reinados;

Chancelarias de D. Duarte e D. João II (em base de dados)

Desembargo do Paço (ID: Inventário publicado)

Habilitações de Bacharéis (ID: L259 e 260)

Repartição da Corte, Estremadura e Ilhas (ID: L246 a 255)

Repartição do Minho e Trás-os-Montes (ID: L238 a 242, F)

Repartição das Beiras (ID: L245, F)

Repartição do Alentejo e Algarve (ID: L257 a 258A, F)

Casa Real

Cartório da Nobreza - Processos de justificação de nobreza (ID: L17)

Mordomia-mor da Casa Real (ID: C9/1 a 9/162)

Livros de matrícula dos moradores da Casa Real (ID: L370 e 371)

Livros das Ementas (ID: L261 e 262)

Casa da Suplicação

Processos de justificação de nobreza para obtenção de cartas de brasão (ID: L263)

Genealogias manuscritas (ID: L484, publicado)

Morgados e Capelas

Vínculos ou Registos vinculares (ID: C1063 a 1066)

Gavetas (ID: L267 a 270)

Corpo Cronológico (ID: L230 a 234)

E ainda os diversos Arquivos de Famílias (Guia Geral dos Fundos da Torre do Tombo, vol. VI) 
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