As leituras de quem queimava livros



Em A Biblioteca Esquecida de Hitler, o historiador Timothy W. Ryback diz que Henry Ford foi a inspiração suprema do ditador

Antonio Gonçalves Filho

É quase impossível interromper a leitura de A Biblioteca Esquecida de Hitler, do historiador inglês Timothy W. Ryback. Envolvente, o livro, que será lançado dia 28 pela Companhia das Letras (tradução de Ivo Korytowski, 328 págs., R$ 46) não é uma história do nazismo alemão, mas quase. Ryback conta como Adolf Hitler, um homem mais conhecido por queimar que por ler livros, reuniu 16 mil volumes numa coleção com todos os clássicos da literatura, da filosofia e, infelizmente, ensaios racistas que o influenciaram e conduziram à direção da Alemanha, entre eles um do industrial norte-americano Henry Ford, O Judeu Internacional, fonte de inspiração para o autobiográfico Mein Kampf do ditador nazista.

Ryback passou oito anos pesquisando a vida de Hitler e entrevistando amigos íntimos, como a cineasta Leni Riefenstahl (1902-2003) e a secretária do Führer, Traudl Junge (1920-2002), além de seus parentes, até descobrir que a Biblioteca do Congresso em Washington havia herdado parte do que restou da sua coleção de livros. Sobre as leituras do ditador, Ryback falou com exclusividade ao Estado, por telefone, de Paris, onde reside.

Considerando o que diz em seu livro, é possível fazer uma leitura de Hitler por meio de sua biblioteca. Qual deles o senhor considera o mais representativo de sua personalidade, excluindo, naturalmente, o autobiográfico Mein Kampf?

A biblioteca de Hitler tinha desde primeiras edições de obras de filósofos a grandes clássicos como Dom Quixote. Creio que o livro de Cervantes pode dar uma ideia aproximada de sua personalidade, não pelo lado positivo, é claro, mas por tratar de um homem perseguido por uma obsessão. O historiador Ian Kershaw o descreve como uma personalidade enigmática. Concordo. Sei que é difícil ver traços de Quixote em alguém como ele, uma vez que o personagem de Cervantes é nobre, enquanto Hitler é a encarnação do Mal. Em todo o caso, Quixote provocou grande impacto sobre o jovem Hitler, que via seu idealismo como um possível modelo para conquistar o mundo. Dos personagens reais, aquele que invocou com mais frequência foi Henry Ford, autor do livro que marcaria a vida de Hitler para sempre, O Judeu Internacional, manifesto racista inspirador de Mein Kampf (Minha Luta, a autobiografia de Hitler). Ford foi o norte de Hitler, que conservava um retrato do industrial americano na parede de seu escritório e o venerava como o ideal do self-made man - reconhecendo-se nele pelo mesmo motivo.

O Judeu Internacional (The International Jew: The World?s Foremost Problem, diatribe que culpa os judeus por tudo o que há de ruim no mundo) pode ser considerado a fonte de Mein Kampf ao lado de Um Perfil Racial do Povo Alemão, de Hans F. K. Günter, como o senhor mesmo observa em seu livro. Esse parentesco é só ideológico, uma vez que se trata de um trio de fanáticos antissemitas, ou também formal?

O livro de Henry Ford é, efetivamente, o inspirador de Mein Kampf, descontados os lances autobiográficos do último. Hitler acreditava no que dizia Ford a respeito dos EUA, para ele um país ameaçado por uma "conspiração judaico-comunista" para dominar o mundo. Vale lembrar que o livro de Ford, antissemita ultraconservador, é uma compilação de artigos publicados originalmente num periódico da Ford Motor Co. (The Dearborn Independent) e que o próprio Ford é citado por Hitler como um modelo a ser seguido. Ele gostou tanto do que Ford disse a respeito da Alemanha, de que era o país mais ameaçado pela "conspiração" judaica, que o citava a todo momento, embora seja difícil identificar seu estilo em Mein Kampf, especialmente porque a autobiografia de Hitler é um atestado de ignorância ortográfica. Identifiquei vários erros de alemão no manuscrito que pesquisei.

Quantos livros o senhor pesquisou na divisão de raridades da Biblioteca do Congresso em Washington?

O que restou da biblioteca particular de Hitler são 1.200 livros de suas três bibliotecas particulares de Berlim, Munique e Obersalzberg. Eles estão agora num depósito mal iluminado, mas climatizado. Comecei a pesquisa em 2001 e descobri que nem a metade desses volumes estava catalogada, sendo que apenas duas centenas estão disponíveis online. Selecionei os que me pareceram mais representativos ou os que pareciam ter marcado definitivamente Hitler, como Cartas Alemãs, de Paul Lagarde, publicado em 1934, ensaios que defendem a remoção da população judaica da Europa. Nele, Hitler faz anotações a lápis, sublinhando trechos com os quais se identificava. Tive o cuidado de evitar especulações sobre ele e selecionei títulos que explicassem o contexto em que esses livros foram lidos. Walter Benjamin dizia que os livros preservam o colecionador e, no caso de Hitler, é perfeitamente visível a influência de alguns autores em ações políticas desenvolvidas pelo Führer. Um dos mais surpreendentes exemplos é o livro de Sven Hedin, Amerika im Kampf der Kontinente (Os Estados Unidos na Luta dos Continentes), cujo exemplar desapareceu, mas que é citado numa carta ao autor em 1942. Hitler o leu como o livro que ficaria para a posteridade sobre a genealogia da guerra que deflagrou. Naquele mesmo ano, seu império começou a desabar.

Até mesmo um dos mais respeitados biógrafos de Hitler, Ian Kershaw, reconheceu que sabemos ainda pouco sobre esse homem. O senhor, que entrevistou a secretária do ditador, Traudl Junge, sua cineasta favorita, Leni Riefenstahl, e parentes de Hitler, o que diria deles? Lembro que a impressão deixada pelos familiares sobreviventes foi a pior possível. O senhor diria que a falta de sentimento de culpa é um traço genético da família de Adolf Hitler?

É uma boa pergunta. Não sei. Os seres humanos têm às vezes personalidades tão semelhantes que fica difícil distinguir um do outro. Devo dizer que me senti bastante desconfortável quando fui bater numa casa de subúrbio de Long Island à procura de seus parentes - e ainda mais desconfortável quando notei a semelhança física de alguns deles com Hitler. Foi por causa de um artigo para a New Yorker, para o qual entrevistei uma parente sua austríaca, que cheguei a esta conclusão: seus familiares não nutrem o mínimo sentimento de culpa pelo que aconteceu na Europa durante a guerra. Hitler, por sua vez, dizia estar cercado por idiotas na família e é certo que um irmão seu administrava um pequeno café em Berlim enquanto o Führer conquistava a Europa. Ou seja, ele não parecia ter consideração pelo irmão nem se mostrou disposto a ajudá-lo. Uma fonte muito útil na elaboração do livro foi a secretária particular de Hitler, Traudl Junge (de 1942 a 1945). Conheci-a há sete anos e ela me contou como ele lia obsessivamente e se preocupava com sua vida espiritual, a ponto de acreditar na existência de um ser superior. Ela foi uma das últimas pessoas a ver o ditador vivo. Almoçou com ele e Eva Braun antes do suicídio de Hitler. Evitei reforçar essas histórias para não alimentar certo voyeurismo que arruína a credibilidade de muitos livros.

Como o senhor explica que, sendo Hitler um bibliófilo, tenha patrocinado bárbaras investidas contra livros, a ponto de queimá-los? Afinal, acreditamos que nos tornamos melhores porque lemos, e esse não parece ter sido o caso do ditador.

É uma grande ironia que Hitler tenha subvertido essa máxima. Voltando um pouco a Walter Benjamin, que defendia sermos o resultado dos livros que lemos e também dos que não lemos, devo dizer que Hitler deve ter lido sem ter compreendido alguns filósofos que dizem ter feito sua cabeça, como Schopenhauer, Fichte ou Nietzsche. Posso seguramente afirmar que ele fez uma leitura superficial de tais pensadores . Ele entendia mais as diatribes de Henry Ford e Madison Grant. O que choca justamente é que ele se interessava apenas pela instrumentalização da filosofia, aproveitando as ideias nacionalistas de Fichte, cujos livros, encadernados com letras em folha de ouro, foram apresentados a Hitler por Leni Riefenstahl. Isso sempre me intrigou. Por que Leni Riefenstahl teria escolhido um filósofo do século 19? Nem ela mesma se lembrou quando a entrevistei. Sabia apenas que foi um presente ao Führer em 1933. De qualquer modo, encontrei um único volume de Schopenhauer e outro de Nietzsche entre os livros que restaram de sua biblioteca. Ela lembra de ter ouvido de Hitler que ele não conseguia aproveitar muito do que Nietzsche escrevera.

Entre as biografias de Hitler, de Ian Kershaw a Joachim Fest, qual o senhor destacaria?

É uma pergunta difícil, mas creio que os dois volumes escritos por Ian Kershaw foram fundamentais para historiadores desta geração. Não é mais reveladora que a de Joachim Fest, quero dizer, com relação à vida íntima do ditador, mas é menos conservadora do que a dele.

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