29 de mar. de 2007

A soprano judia que sobreviveu em Auschwitz graças a sua voz

A soprano judia que sobreviveu em Auschwitz graças a sua voz

 

Acordes da vida

Soprano, a judia Fania Fénelon teve sua vida poupada por sua voz. Durante dois anos em Auschwitz ela cantou para oficiais nazistas e presos que caminhavam para as câmaras de gás


 

 
Raquel Grisotto


 
Fania foi reconhecida no campo de concentração graças a seu trabalho em Madame Butterfly
 
Em Auschwitz, Fania Fénelon tinha lá suas regalias. Tomava banho todos os dias, ia ao banheiro sempre que tivesse vontade e não precisava dividir o colchão. Tinha roupas quentes, sapatos, escova e pasta de dentes.

Magra, pouco mais de 1,5 metro de altura, ela pertencia à elite das prisioneiras dos campos de concentração da Polônia. Ao lado de outras 80 mulheres, vivia no alojamento especial da orquestra feminina do complexo de Auschwitz e estava protegida da selvageria que vitimou mais de 1 milhão de pessoas entre 1940 e 1945 na maior fábrica da morte do império nazista.

Diplomada pelo Conservatório de Paris - foi aluna de Germaine Martinelli, famosa soprano francesa -, Fania era pianista e cantora talentosa. Como a gueixa Cio-Cio-San, de Madame Butterfly , da ópera de Giacommo Puccini, conseguiu agradar até os oficiais de Hitler.

Artista dos cabarés em Paris e com passe livre para circular durante a noite numa cidade dominada por tropas alemãs (a capital francesa foi tomada em junho de 1940), Fania (de batismo, Goldstein) atuava com amigos na Resistência francesa. Filha de judeus, foi denunciada e, em 1943, capturada pela SS, a polícia nazista. Passou nove meses numa prisão francesa antes de ser enviada a Oswiecim, a pequena cidade que abrigava o complexo.
Chegou a Auschwitz em 23 de janeiro de 1944. Logo reconhecida pela violoncelista da orquestra, foi resgatada do terror do bloco de quarentena, um barracão imundo, abarrotado de gente. "Quando uma guarda entrou chamando por Madame Butterfly, não acreditei. Será que aquilo estava mesmo acontecendo, ou os poucos momentos naquele horror já haviam tirado minha sanidade?", conta em sua biografia Playing for Time ("Tocando por um tempo", inédito no Brasil). Escrito em parceria com a jornalista Marcelle Routier, o livro, apesar de narrar as atrocidades do Holocausto, é um relato de coragem e fé.
Fania e suas companheiras serviam de atração para os oficiais da SS e prisioneiros. Tocavam todos os dias diante dos que marchavam em direção aos campos de trabalho forçado das indústrias químicas e de borracha sintética da I.G. Farben, em Auschwitz III.

Etambém se apresentavam nos momentos em que presos com menos sorte eram levados para a morte, nas câmaras de gás. Segundo a teoria dos nazistas, a música dava ares de normalidade ao genocídio e facilitava o trabalho. Os oficiais gostavam, além disso, de ouvir música para relaxar.
 
 
Cinderela de botas
Foi Rudolf Höss, o comandante de Auschwitz entre 1940 e 1943, quem instituiu a formação de uma orquestra. O grupo de músicas era responsabilidade de Maria Mandel, primeira entre as mulheres na hierarquia da polícia nazista dentro do complexo até 1942.

A orquestra 100% feminina era motivo de orgulho para a SS. Os oficiais prezavam pelo grupo e não admitiam interferência no trabalho de suas protegidas. Entre os muitos privilégios, as garotas só não tinham direito a mais comida - embora fizessem as refeições num alojamento exclusivo, distante das demais prisioneiras.

A preferência de Mandel por Butterfly era evidente e, por isso, Fania foi beneficiada pelos nazistas. Satisfeitos com uma performance, os oficiais davam às garotas direito de ir ao "Canadá" - espécie de mercado negro dentro do complexo.
 
 
 

 

26 de mar. de 2007

Seder de Pessach

Seder de Pessach



B"H
 
Revista Morashá - Edição 56 - abril de 2007
 
 

 
Seder de Pessach

Foto Ilustrativa

Este ano, o 1º Seder de Pessach, em 15 de Nissan, será na segunda-feira à noite, 2 de abril. Os preparativos para Pessach têm início na noite anterior, após o pôr-do-sol de domingo, 1 de abril.
Edição 56 - abril de 2007
 
Bedicat Chametz
busca do chametz - Busca do chamets domingo, 1 de abril, após as 18:25 hs
A vistoria do chamets deverá ser realizada em todos os locais onde, durante o ano, porventura tenha sido introduzido algum tipo de alimento considerado chamets - pão ou qualquer outro produto que contenha algum cereal das cinco espécies - trigo, cevada, centeio, aveia e trigo sarraceno, ou seus derivados. É costume colocar, de antemão, nas várias dependências da casa, dez pequenos pedacinhos de pão embrulhados. Antes de realizar a vistoria à luz de uma vela, recitamos o Bedicat Chamets, a bênção sobre a eliminação do chamets:

Baruch Atá Ad'nai Elohênu Mélech Haolam, Asher Kideshánu Bemitsvotáv Vetsivánu Al Biúr Chamets.
 
Bendito sejas Tu, ó Eterno, Rei do Universo, que nos santificaste com Teus mandamentos e nos ordenaste a queima do chamets.

 
Todo chamets encontrado nessa vistoria é guardado até a manhã seguinte, devendo ser queimado no mais tardar até às 10:30h da manhã do dia 2 de abril.
 
Imediatamente após a busca, devemos desconsiderar e anular o chamets recitando o trecho Kal Chamirá:
 
Kal Chamirá Deiká Birshutí Delá Chazitê Udelá Biartê Libtil Velehevê Keafrá Deará. (É costume sefardita recitar três vezes esta frase).
 
Todo o chamets que esteja em meu poder e existente em minhas propriedades, quer o tenha visto quer não o tenha visto, quer o tenha exterminado quer não o tenha exterminado, que seja anulado e considerado como o pó da terra.
 
Jejum dos primogênitos

segunda-feira, 2de abril
Em gratidão a D'us, que poupou os primogênitos dos filhos de Israel da décima praga, todos os primogênitos devem jejuar durante o dia de Erev Pessach. Para se isentar do jejum, o primogênito deve comparecer na sinagoga e participar de um siyum (término do estudo de um tratado do Talmud), imediatamente após a prece da manhã, Shacharit.
 
Prazo máximo para o consumo de chametz

segunda-feira, 2 de abril, até 9:30hs
 
Pode-se ingerir pão ou outro alimento considerado chamets até 9:30h, sendo proibido após esse horário. Tampouco se pode comer matsá antes do Seder. (Só é permitido comer-se matsá ashirá, que contém ovos).

Biyur chametz (queima do chametz)

segunda-feira, 2 de abril, até 10:30hs
Queimar o chamets que tenha sobrado do café da manhã, juntamente com o chamets encontrado na busca da noite anterior, até, no máximo, 10:30h da manhã.
 
Após queimá-lo, renuncia-se mentalmente ao chamets que se possa ter esquecido de eliminar, mediante a recitação do trecho Kal Chamirá. Os sefaradim repetem-no três vezes e os ashkenazim, uma única vez:

 
Kal Chamirá Deiká Birshutí Dechazite Udela Chazite Debiarte Udela Biarte, Libtil Veleheve Keafrá Deará.
 
Todo o chamets que esteja em meu poder e existente em minhas propriedades, quer o tenha visto quer não o tenha visto, quer o tenha exterminado quer não o tenha exterminado, que seja anulado e considerado como o pó da terra.

 
Shetar harshaá (venda do chametz)
 
Tradicionalmente, após guardar o chamets em um quarto fechado ou congelador trancado, cada família dá uma procuração a um rabino para vender seu chamets a um não-judeu. A procuração para a venda do chamets deverá ser entregue, no máximo, até às 19:00h da domingo, 1 de abril.
 
A venda on-line do chamets estará disponível no site da Revista Morashá: www.morasha.com.br ou pelo Fax (11) 3662-2154.
 
Preparação da mesa do Seder
 
Deve-se preparar com antecedência tudo o que é necessário para o Seder.
 
Numa bandeja (também chamada de Keará) colocam-se: três matsot, maror, charósset, carpás, chazéret, zeroá e betsá.
Cada um desses alimentos tem sua simbologia, tendo um lugar específico na bandeja.
 
Matsá
Três matsot, que representam: Cohanim, Leviim e Israel, são colocadas em cima da parte superior desta bandeja. Os ashquenazim costumam colocá-las na parte inferior da mesma.

Zeroá
Zeroá, que significa "braço" em hebraico, simboliza o poder com que D'us nos tirou do Egito. Representando o Corban Pessach - isto é, o cordeiro que se oferecia no Templo na véspera de Pessach, é colocado na parte superior, à direita. Costuma-se usar um braço de cordeiro ou vitela, mas pode-se usar qualquer osso tostado com carne.

Betsá
Betsá - Ovo cozido, colocado na parte superior da bandeja, à esquerda, lembra o Corban Chaguigá, o segundo sacrifício oferecido em Erev Pessach. Usamos o ovo, tradicionalmente símbolo de luto, como sinal de tristeza pela destruição do Templo.

Marór
Marór - Erva amarga, colocada no centro da bandeja, para simbolizar a amargura e o sofrimento impostos aos judeus, enquanto escravos no Egito. Costuma-se usar uma verdura amarga, como escarola ou alface romana. Pode-se usar também outro tipo de alface ou endívia. Os ashquenazim usam a raiz forte (chrein).

Charósset
Charosset - Mistura de nozes, amêndoas, tâmaras, canela e vinho. Cada família deve preparar segundo seu costume. Coloca-se à direita. Representa a argamassa usada pelos judeus na construção das edificações do Faraó e o trabalho pesado que eram obrigados a fazer.

Karpás
Karpás - Salsão, colocado à esquerda, na parte inferior da bandeja. Lembra o hissopo (Ezov), com o qual os israelitas aspergiram um pouco de sangue nos batentes das suas casas, antes da praga dos primogênitos. Os ashquenazim usam salsinha, cebola ou batata. Essa verdura introduz o tema principal do Êxodo - a liberdade. Molha-se a verdura em vinagre ou água salgada, como lembrança das lágrimas derramadas e do suor incessante e calor causticante durante o trabalho escravo.

Chazéret
Chazeret - Costuma-se usar alface romana colocada na bandeja abaixo do Maror.

Além disso, fora da Keará, colocam-se na mesa:
Um recipiente com água salgada, na qual se mergulham as verduras, para lembrar o mar.
Uma taça de vinho para cada um dos presentes. O conteúdo mínimo de cada taça é de 86ml (valor numérico de Kós, copo em hebraico).
 
O Seder - Ordem
Durante o Seder, quem conduz a ceimônia deve obedecer a seguinte ordem:

Kadesh - fazer o kidush

O Seder começa com o kidush feito sobre um copo de vinho cheio. Cada um dos presentes tem obrigação de beber, no decorrer do Seder, quatro copos de vinho, contendo cada um pelo menos 86 mililitros. Estes quatro copos lembram as quatro expressões de salvação mencionadas na Torá:
 
"...E vos tirarei do Egito... e vos salvarei da escravidão... e vos redimirei com braço estendido... e vos tomarei para mim como povo..."

Ao terminar de recitar o kidush, cada um dos presentes bebe o primeiro dos quatro copos, reclinando-se sobre o lado esquerdo, como expressão de liberdade.
 
Kidush - segunda-feira, 2 de abril, 1ª noite

Ele moadei Ad-onai mikraê kodesh, asher tikreú otam bemoadam. Vaidaber Moshe et moadei Ad-onai el benei Israel.
 

Sabri maranan!
 

Respondem: Lechaim.


Baruch Atá Ad-onai El-oheinu melech haolam borê peri haguefen.
 

Baruch Atá Ad-onai El-oheinu melech haolam, asher bachar banu mikol am, veromemanu mikol lashon, vekideshanu bemitsvotav, vatiten lanu Ad-onai El-ohenu beahavá moadim lesimchá, chaguim uzmanim lessasson. Et yom chag hamatsot hazé, veet yom tov mikra kodesh hazé, zeman cherutenu. Beahavá mikra kodesh, zecher litsiat mitzraim, ki banu bacharta veotanu kidashta mikol haamim, umoadei kôdshecha besimchá uvssasson hinchaltánu. Baruch Atá Ad-onai, mekadesh Yisrael vehazemanim.
 

Baruch Atá Ado-nai El-ohenu melech haolam shehecheianu vekiyemanu vehiguianu lazeman haze.
 
Kidush - terça-feira, 3 de abril, 2ª noite

Ele moadei Ad-onai mikraê kodesh, asher tikreú otam bemoadam. Vaidaber Moshe et moadei Ad-onai el benei Israel.
 

Sabri maranan!
 

Respondem: Lechaim.


Baruch Atá Ad-onai El-oheinu melech haolam borê peri haguefen.
 

Baruch Atá Ad-onai El-oheinu melech haolam, asher bachar banu mikol am, veromemanu mikol lashon, vekideshanu bemitsvotav, vatiten lanu Ad-onai El-ohenu beahavá moadim lesimchá, chaguim uzmanim lessasson. Et yom chag hamatsot hazé, veet yom tov mikra kodesh hazé, zeman cherutenu. Beahavá mikra kodesh, zecher litsiat mitzraim, ki banu bacharta veotanu kidashta mikol haamim, umoadei kôdshecha besimchá uvssasson hinchaltánu. Baruch Atá Ad-onai, mekadesh Yisrael vehazemanim.
 

Baruch Atá Ado-nai El-ohenu melech haolam shehecheianu vekiyemanu vehiguianu lazeman haze.
 
Ordem a seguir nas duas noites de Pessach
 
Urchatz - lavar as mãos

Lavam-se as mãos como normalmente se faz antes de comer o pão, porém não se fala a berachá. Isto porque o karpás é mergulhado na água salgada, o que exige lavar as mãos antes.

Karpás - Salsão

Mergulha-se um pedacinho de salsão (com menos de 18g) na água salgada e, antes de comê-lo, recita-se a seguinte bênção (pensando no marór, pois a berachá também é válida para este):


Baruch Atá Ad-onai El-ohenu melech haolam borê peri haadamá.

Yachats - partir a matzá
Na bandeja do Seder há três matzot. Toma-se a matsá do meio, quebrando-a em duas partes para lembrar o pão da pobreza, que sempre é repartido. O pedaço menor é recolocado entre as duas matzot inteiras, na bandeja. O pedaço maior é guardado dentro de um guardanapo, sendo escondido pelo condutor do Seder. É o Aficoman, que será comido no final. As crianças costumam procurar o Aficoman, ganhando brindes se o encontrarem, como pretexto para deixá-los acordados.

Maguid - Recitação da Hagadá
Descobre-se a matsá e começa-se a leitura da Hagadá.
Ha lachmá aniá. Este é o pão da pobreza - recita-se até o final do primeiro trecho. Enche-se novamente o copo de vinho e o mais jovem da casa recita, então, as quatro perguntas.

Ma Nishtaná
 
Por que esta noite é diferente de todas as outras noites?
- Em todas as noites não temos obrigação de mergulhar os alimentos em líquido algum, enquanto que esta noite o fazemos duas vezes.
- Em todas as noites comemos pão com levedura ou matsá, ao passo que esta noite, só matsá.
- Em todas as noites comemos todo tipo de verduras, enquanto que esta noite comemos marór - ervas amargas.
- Em todas as noites comemos sentados, enquanto que esta noite, todos nos reclinamos.
 
A resposta começa com Avadim hainu - escravos fomos - e faz-se uma narrativa histórica, falando sobre a escravidão e os sofrimentos dos judeus no Egito. Conta-se sobre as pragas e os milagres realizados por D'us para a redenção de Seu povo. Ao terminar o texto da Hagadá, com a bênção:
Asher guealanu, bebe-se o segundo copo de vinho, reclinando para o lado esquerdo.
 
Rochtsá - Lavagem das mãos
 
Antes do Hamotsi lavam-se as mãos para a refeição, recitando a seguinte bênção:



Baruch Atá Ad-onai El-ohenu melech haolam asher kideshanu bemitsvotav vetsivanu al netilat yadaim.

Motsi Matzá - Bênção da matzá

Segurando as três matzot (as duas inteiras e a quebrada), recita-se a bênção do pão (Hamotsi):



Baruch Atá Ad-onai El-ohenu melech haolam hamotsi lechem min haaretz.

Imediatamente solta-se a matsá inferior e, segurando a matsá superior e a do meio (quebrada), diz-se:



Baruch Atá Ad-onai El-ohenu melech haolam asher kideshanu bemitsvotav vetsivanu al achilat matsá.
Se deve comer uma matsá inteira em 4 a 7 minutos, reclinando à esquerda.

Marór - Erva amarga

Pega-se a folha de escarola ou alface e mergulha-se no charosset. Não se reclina o corpo ao comer o marór, pois este nos lembra a servidão e a amargura. Antes de comer, recita-se a seguinte bênção:



Baruch Atá Ad-onai El-ohenu melech haolam asher kideshanu bemitsvotav vetsivanu al achilat marór.
Se deve comer 20 gramas de folhas ou caules da escarola ou alface.

Korech - Sanduíche de matzá e maror
Pega-se a matsá inferior e distribui-se parte da mesma entre os presentes. Esta parte da matsá é colocada entre outros 2 pedaços de matsá (equivalentes ambos a um kazait, 2/3 de uma matsá) e um outro kazait de alface romana (pesando cerca de 29g). Mergulha-se tudo no charosset e se diz:
 
Zecher lamikdash kehilel hazaken shehaya korchan veochlam bebat achat lekayem ma sheneemar al matzot umerorim yocheluhu.
 
Come-se, então, reclinando para o lado esquerdo.
 
Shulchan Orech - Refeição festiva
Serve-se a refeição, que se inicia com o ovo cozido. E se diz:
Zecher Lekorban Chaguigá.
Depois, seguem-se os pratos especialmente preparados para a ceia. Deve-se acabar antes da meia-noite, para poder comer o aficoman antes desse horário.

Tsafun - Aficoman
Após a refeição come-se um kazait (29g) de matsá, (2/3 de uma matsá) que é o aficoman, recitando-se a seguinte frase:
 
"Zecher lekorbarn Pessach haneechal al hassabá".
 
Após esta citação, é proibido comer ou beber até o final da noite, com exceção dos copos de vinho restante. Água e café são permitidos.

Barech - Benção após a refeição
Enche-se o copo de vinho pela terceira vez, recitando-se, então, o Bircat Hamazon. Logo se diz a bênção do vinho e se toma o terceiro copo, reclinado sobre o lado esquerdo.

Halel - Louvores

Enche-se o quarto copo de vinho e recitam-se os louvores a D'us desde Shefoch Chamatchá, seguido do Halel até a conclusão do Nishmat.
Bebe-se o quarto copo de vinho com o corpo reclinado para o lado esquerdo e depois recita-se a bênção para quem bebeu vinho em quantidade de 86 centímetros cúbicos, ou mais.

Nirtsá - Aceitação

Tendo conduzido o Seder da maneira certa, conforme indicado acima, a pessoa pode estar segura de que o mesmo foi bem aceito. Então, termina-se com a seguinte proclamação:
 
Leshaná habaá b'Yerushalaim
"No próximo ano em Jerusalém".
 
 
DAYENU*
JÁ NOS TERIA BASTADO!

Quantos atos de bondade D-us fez por nós!
Se D-us apenas nos tivesse tirado do Egito, mas não tivesse castigado os egípcios
Dayenu!

Se D-us apenas tivesse castigado os egípcios, mas não tivesse destruído seus ídolos
Dayenu!

Se D-us apenas tivesse destruído seus ídolos, mas não tivesse dividido o mar para nós
Dayenu!

Se D-us apenas tivesse dividido o mar para nós, mas não nos tivesse feito passar por ele no seco
Dayenu!

Se D-us apenas nos tivesse feito passar por ele no seco, mas não tivesse providenciado tudo o que precisávamos no deserto durante quarenta nos
Dayenu!

Se D-us apenas tivesse providenciado tudo o que precisávamos no deserto durante quarenta anos, mas não tivesse
nos alimentado com maná
Dayenu!

Se D-us apenas nos tivesse alimentado com maná, mas não nos tivesse dado o Shabat

Dayenu!

* Trecho do Dayenu
 
 
 
 
NOSSAS FESTAS:
Costumes e Tradições de Pessach


Foto Ilustrativa

Os preparativos de Pessach começam bem antes da noite do Seder. Enquanto suas leis são mandamentos bíblicos e, portanto, permanecem inalterados desde a saída dos judeus do Egito, as várias comunidades judaicas espalhadas pelo mundo desenvolveram, no decorrer dos séculos, diferentes hábitos e costumes para preparar a celebração. Hoje, mesmo vivendo em outros países, muitas dessas tradições continuam a ser seguidas.
Edição 56 - abril de 2007
Polônia
Na noite anterior ao primeiro Seder, como parte da tradição chassídica a Busca do Chamêts era feita com uma pena de galinha, utilizada para "varrer" as migalhas de Chamêts, para dentro de um saco especial, que era queimado no dia seguinte. Antes da busca, a dona da casa costumava espalhar, nos diferentes cantos do lar, dez pedacinhos de pão embrulhados em papel, para que fossem encontrados com maior facilidade.
 
Hungria
Os Rebes chassídicos ficavam na porta de suas casas, na tarde anterior ao Seder, distribuindo Matsá Shmurá redonda e feita à mão para cada um de seus chassidim e, ao entregá-la, desejavam-lhes um Pessach casher e feliz. Os chassidim consideravam essa Matsá abençoada.
 
Rússia
Em inúmeras comunidades era costume, na véspera de Pessach, assar durante uma cerimônia especial as Matsot Mitsvot. Todos os líderes comunitários e os rabinos chassídicos participavam do ato e, enquanto recitavam o Halel, os Salmos de Louvor, cantavam e dançavam.
Já a Busca do Chamêts era feita com a ajuda de um pedaço de tecido, uma colher de madeira e uma pena de galinha. Em cada lar, o Chamêts encontrado era embrulhado em um tecido e pendurado em um local bem alto da casa - por exemplo, no lustre - até o dia seguinte, quando era, então, queimado. A participação das crianças na Bedicat Chamêts era fundamental, pois, além de cumprir a mitsvá, divertiam-se.
 
Etiópia
Os judeus etíopes chamavam a Festa de Pessach de "Fasika" e, em sua homenagem, todo o Chamêts, principalmente a cerveja, era queimado ou jogado fora. Era costume também quebrar a louça de barro utilizada ao longo do ano e fazer uma nova em honra de Pessach.
 
Era hábito entre os judeus etíopes jejuar parcialmente, alimentando-se apenas de pão torrado, em 11, 12 e 13 de Nissan, os três dias que antecediam Pessach. Comemoravam desta forma os três dias que os Filhos de Israel andaram pelo deserto até D'us lhes enviar o maná. E, no dia 14, jejuavam completamente para se lembrar dos dias da amarga escravidão no Egito.
 
Índia
Em Cochin não se comia pão o ano inteiro e o arroz era o alimento básico da população. Porém, os judeus assavam pão no Shabat e nos dias de festas, em honra destes dias sagrados. Em Pessach, assavam-se Matsot em fornos especiais. Como combustível, nos fornos, queimavam os galhos usados para cobrir as Sucás e as palmeiras do Lulav, da última festa de Sucot. Isto era feito para ligar uma mitsvá à outra.
 
Iêmen
Na noite do 13º dia de Nissan, as crianças de cada família competiam entre si para ver quem teria o privilégio de tirar de poços ou de riachos mayim shelanu, ou seja, "a água que repousou", usada para assar as Matsot. Na véspera do dia 14 de Nissan, logo após as preces, os homens faziam a Busca do Chamêts e o queimavam no dia seguinte. Assavam-se Matsot antes de cada refeição, à exceção do Shabat e Yom Tov. Em alguns lares judaicos, havia o costume de que oito mulheres participassem da produção de Matsot: a primeira despejava água na tigela da farinha; a segunda amassava a massa; a terceira a dividia em três porções; a quarta abria a massa até que ficasse bem fina; a quinta acendia o forno; a sexta colocava as Matsot no forno; a sétima as retirava; e a oitava contava os minutos, pois freqüentemente não havia relógio.Todo o processo era muito rápido, não havendo perigo de que a massa fermentasse.
 
Afeganistão
A preparação para Pessach começava logo depois de Purim. As mulheres ficavam sentadas durante horas a fio, com bandejas enormes sobre os joelhos, selecionando e limpando com muito cuidado o arroz a ser consumido durante Pessach. Para os judeus afegãos, Pessach sem arroz não seria Pessach!
 
Era costume toda a família participar do preparo da farinha utilizada para as Matsot. Todos ajudavam a encher louças novas de barro com água retirada dos poços ou rios. Esta água era filtrada com uma espécie de gaze branca e colocada num jarro. Utilizava-se um pano limpo para tampá-lo, colocando-se uma faca de ferro sobre o tecido para prevenir espíritos impuros de contaminar a água. O saco de farinha e o jarro de água eram, então, entregues pelos membros da família aos padeiros, que preparavam rapidamente as Matsot, assando-as em fornos que só eram utilizados em Pessach e pertenciam às famílias mais abastadas da comunidade.
 
Bukhara
Os judeus de Bukhara costumam comer Matsá Shmurá durante todos os dias de Pessach. Havia antigamente também o costume de abater um carneiro, às vésperas da festividade. As melhores partes eram distribuídas entre os mais necessitados e o rabino da comunidade. As famílias que não tinham recursos para comprar um carneiro uniam suas economias e compravam um animal, em conjunto.
 
Iraque
Habitualmente cada família assava suas próprias Matsot. Assavam dois tipos diferentes de Matsá - as do Seder, chamadas de sedarim, eram feitas na própria véspera, enquanto as dos demais dias da festa eram preparadas alguns dias antes do início de Pessach.
 
Em Bagdá costumava-se usar, na Busca do Chamêts, um prato com um pedaço de pão, uma faca e sal. Enquanto a faca era usada para verificar todas frestas e buracos da casa para que não sobrasse sequer uma migalha de Chamêts, o sal servia para proteger contra espíritos impuros.
 
Turquia
Manter os restos da velas na chanuquiá desde o final de Chanucá até Pessach era um dos costumes na Turquia. As velas eram usadas na véspera de Pessach para queimar o Chamêts, fazendo-se, assim, a ligação entre as mitsvot.
 
Tunísia
Era costume cada família trazer no dia 13 de Nissan um shochet para abater um carneiro e, em seguida, como símbolo de proteção, colocar a palma da mão no sangue e imprimi-la na parede externa. O costume tem sua origem no fato de que, no Egito, D'us ordenara aos judeus que abatessem um cordeiro como Sacrifício e aspergissem o sangue nas portas de suas casas. Assim o Anjo da Morte "passaria por cima" de suas casas e os pouparia da décima e última praga que provocou a morte dos primogênitos egípcios.
 
Marrocos
Os preparativos para Pessach começavam logo após Purim. Em várias comunidades as mulheres pintavam as casas, os móveis, as portas e as janelas de branco. O vinho casher le-Pessach já estava pronto desde Chanucá. Além do vinho, era preparado o arak, chamado de machya, em árabe marroquino, feito de anis, uma das bebidas favoritas da população.
 
Em cada bairro havia um forno público para assar as Matsot, chamado al fran, e cada família reservava com antecedência uma data específica para preparar as suas. No dia marcado, vizinhos e parentes iam ajudar a família e o preparo da Matsá tornava-se uma grande festa. Um prato especial, chamado "Sechiná", era servido aos convidados.
 
No Marrocos, os judeus confeccionavam as Matsot redondas, porque na Torá está escrito que "os judeus faziam Ugot Matsot", ou seja, "bolos de Matsá". Durante a Busca do Chamêts havia os que colocavam nos cantos da casa, além dos pedaços de pão embrulhados em papel, também pedaços de fígado assado na brasa. O dono da casa, com uma tigela na mão, coordenava a busca. No dia seguinte, fazia-se uma fogueira onde o Chamêts era queimado. As crianças dançavam e cantavam em volta desta fogueira.
 
Argélia
Além de se assar a Matsá Shmurá e as Matsot para o consumo durante os dias de Pessach, era costume também fazer uma Matsá Shmurá na forma de yad chamsa (mão) e pendurá-la no quintal durante o ano inteiro, como proteção contra o mau-olhado.
 
Na cidade de Tlemcen, o 14º dia de Nissan era chamado leil a-ross, que significa "noite das cabeças". Todos os moradores da região deveriam comer o mesmo prato - cuscuz e sopa feita da cabeça do gado.
 
Síria-Libano
Os preparativos para Pessach, na Síria e no Líbano, se iniciavam logo no dia seguinte a Purim. Começavam pelo arroz que seria consumido durante os 8 dias da festa. A seleção e limpeza do arroz para ver se havia algum grão de trigo era um trabalho que requeria grande cuidado. Antigamente era comum ver as donas-de-casa sentadas com imensas bacias, escolhendo duas vezes e limpando quilos e quilos de arroz, que depois eram armazenados em vidros hermeticamente fechados.
 
Na semana que antecede Pessach, a casa era revirada ao avesso, todos os cantos eram cuidadosamente examinados e limpos de qualquer traço de Chamêts. A conversa das mulheres só girava em torno desta limpeza.
 
Geralmente os quartos eram limpos de um em um. O drama era quando os filhos esqueciam e, por descuido, levavam algum alimento Chamêts para um quarto que já havia sido limpo! Então, tudo devia ser refeito. Nas cozinhas casherizadas para Pessach, deliciosos doces de amêndoas, damascos e pistaches eram confeccionados para serem consumidos durante toda a festividade. E em todas as casas sentia-se, de longe, o doce perfume da água de rosas. Na véspera de Pessach, na manhã que antecede o Seder, todos os primogênitos iam à sinagoga para as orações e, em seguida, participavam da leitura de um tratado do Talmud para se isentar do Jejum dos Primogênitos.
 
Eles tomavam o vinho do Kidush. Muitos pais levam para casa um copo de vinho para dar ao primogênito que ainda fosse muito pequeno para ir à sinagoga. Quando o primogênito ainda era bebê, o pai costumava molhar seu dedo no vinho e colocá-lo na boca do filho.
 
Bibliografia
Shkalim, Esther, A Mosaic of Israel's Traditions, Unity Through Diversity, Devorah Publishing Company
 
 
 
NOSSAS FESTAS:
As Dez Pragas do Egito


Foto Ilustrativa

Dez calamidades castigaram o Egito antes da saída dos filhos de Israel desta terra. Através delas, D'us demonstrou a toda humanidade o seu infinito poder.
Edição 56 - abril de 2007
O episódio das Dez Pragas, chamadas em hebraico de Makot Mitzrayim, literalmente Pragas do Egito, relatado e elucidado na Hagadá de Pessach, consta no Livro do Êxodo. Numa primeira leitura, a aparente razão para tais calamidades foi a obstinada recusa do Faraó em obedecer a ordem do Eterno de libertar Israel. No entanto, se este fosse o único propósito, um único golpe devastador teria sido suficiente. Por que, então, D'us optou por dez calamidades? Porque, através das Dez Pragas, o Eterno demonstrou não apenas ser O Criador do Universo, mas Senhor Único e Absoluto dos Céus e da Terra, Juiz Supremo e Força Regente da Natureza. No Egito, a contundente revelação da Onipotência Divina fez com que mesmo os mais incrédulos entre os Filhos de Israel fossem obrigados a reconhecer o ilimitado Poder Divino. O principal objetivo das múltiplas pragas foi, portanto, demonstrar a Israel que D'us de seus ancestrais, D'us de Avraham, Yitzhak e Yaacov, é D'us Único, Senhor sobre a natureza e sobre as outras nações, e que não há outro além Dele.
 
As pragas serviram também como o grande castigo pela escravidão, tortura e campanha de genocídio perpetrada pelos egípcios contra o Povo Judeu. Mas a Torá não é um simples compêndio de história judaica e o judaísmo não permite celebrar o sofrimento alheio, ainda que seja o dos inimigos de Israel. As Dez Pragas são relatadas na Torá e na Hagadá não como celebração da Justiça Divina, mas como fonte de lições espirituais.
 
A Criação e as Dez Pragas
O primeiro dos Dez Mandamentos afirma: "Eu sou o Eterno, teu D'us, que te tirou do Egito da casa da escravidão", e não, "Eu sou o Eterno, teu D'us, que criou o universo". Explicam nossos Sábios que, através deste primeiro mandamento, D'us alerta os homens de que Ele não é apenas o Criador, mas está presente e profundamente envolvido em cada detalhe da vida de cada uma de suas criaturas.
 
O conceito do Criador do Universo é extremamente abstrato e a Criação é um dos grandes segredos do universo. O pouco que se sabe a respeito faz parte da Cabalá e vem sendo transmitido, de geração em geração, para uns poucos escolhidos entre os líderes espirituais do Povo Judeu. Em geral, o assunto é inacessível, mesmo aos mais eruditos. Já o episódio das Dez Pragas pode e deve ser aprendido por todos, inclusive as crianças. A razão é que, ainda mais do que a Criação, as Dez Pragas demonstram a Onipotência Divina em Suas diferentes manifestações.
 
E, se durante a Criação, somente o próprio Criador estava presente, quando dos acontecimentos no Egito, milhões de judeus e egípcios testemunharam e vivenciaram os milagres realizados por D'us. E para os mais céticos que não aceitam a Torá como a Palavra de D'us, há documentos egípcios e evidências históricas e arqueológicas que atestam as terríveis catástrofes que se abateram sobre o Egito, na época em que ocorreu o Êxodo.
 
No decorrer das Dez Pragas, o Eterno revelou Seu controle absoluto sobre a natureza. Utilizando-se de pragas naturais, manifestas, no entanto, de forma sobrenatural, demonstrou, que está simultaneamente na natureza e acima desta, pois Ele não é limitado por qualquer elemento de Sua criação. E, não foi simples coincidência o fato de ter optado por castigar o Egito com pragas relacionadas à natureza, pois, para os egípcios, o rio Nilo, os animais e o próprio Faraó eram considerados divindades. O Eterno quis demonstrar que nenhuma suposta divindade poderia deter Sua vontade, pois que cada elemento da natureza era Seu servo. D'us queria tirar dos judeus qualquer vestígio de paganismo porventura assimilado em sua longa permanência naquela terra. Além do mais, no Egito, idolatrava-se a matéria - a abundância e a fartura - e, ao transformar o Nilo em sangue, ao destruir as colheitas e os bens egípcios, D'us provou que a Terra inteira Lhe pertence e que tudo que o homem possui advém Daquele que a tudo criou.
 
Os castigos que se abateram sobre todo o Egito não atingiram os judeus que lá viviam ou a terra de Goshem onde habitavam. Ao fazer esta distinção entre o opressor e o oprimido, manifestou-se no mundo terreno a Justiça Divina. Foi revelado ao homem que todos seus atos têm conseqüências, sejam bons ou ruins. As pragas revelaram, também, o poder e eficácia da oração e da ligação com D'us, pois foram as orações de Moshê que puseram fim a cada uma das pestilências.
 
Por que dez?
As Dez Pragas castigaram o Egito durante praticamente um ano, iniciando-se no fim do mês de Iyar e terminando apenas no dia 15 de Nissan. As primeiras sete pragas constam no Livro do Êxodo, na porção Va'eirá (7:19-9:35), e as últimas três na porção Bô (10:1-12:33).
 
A seqüência de eventos que antecedem as pragas tem início quando o Faraó se recusa a obedecer à ordem Divina transmitida por Moshê e Aharon: "Envia Meu povo para que festejem para Mim no deserto" (5:2). O rei do Egito responde com insolência: "Quem é o Eterno para que eu escute Sua voz e deixe partir o Povo de Israel? Não conheço o Eterno e também não despacharei Israel" (5:2). E, num gesto desafiador, decide afligir ainda mais os Filhos de Israel. Ordena a seu povo que não mais entreguem aos judeus a palha necessária para a confecção dos tijolos; a partir de então lhes caberia o esforço adicional de buscar a matéria-prima para cumprir suas cotas diárias. O não-cumprimento era punido com tortura física. Seu sofrimento tornara-se ainda mais insuportável e, ao ser questionado por Moshê, D'us responde: "Agora verás o que farei ao Faraó". Nosso profeta e toda a humanidade iriam testemunhar como o Eterno redimiria o Seu povo.
A pergunta, porém, permanece: Por que, ao invés de atingir os egípcios com um único golpe, D'us optou por um processo gradual e crescente? Por que foram necessárias Dez Pragas? Segundo nossos Sábios, são inúmeros os motivos. O Midrash revela que cada praga foi conseqüência direta de uma ação específica e equivalente mau-trato, tortura ou crueldade perpetrados pelos egípcios contra os Filhos de Israel. A Justiça Divina determinara que os egípcios deveriam ser punidos "medida por medida" pelas crueldades cometidas contra Seu Povo. Além do mais, a sucessão de pragas e os avisos que as precederam eram necessários para dar ao Faraó a oportunidade e o tempo de reconsiderar suas ações, arrependendo-se da crueldade perpetrada contra os judeus. Somente após o rei do Egito ter "endurecido seu coração" e, repetidamente, se recusado a libertar o povo judeu, as portas do arrependimento finalmente se fecharam. Maimônides explica que, às vezes, o castigo que D'us impõe a quem cometeu um grave pecado é privá-lo da possibilidade de se arrepender. Este é o significado da expressão usada na Torá, "Endurecerei o coração do Faraó".
 
As Dez Pragas formam um sistema coerente, de intensidade crescente. A cada recusa do Faraó em atender a ordem Divina de deixar Israel partir, uma nova calamidade se abate sobre o Egito. As primeiras nove são divididas em três séries, de três pragas cada, que se sucedem de acordo com um plano. Cada série aumenta em progressão em direção a um clímax, sendo que a última serve de prelúdio para a décima praga - a Morte dos Primogênitos. Em cada série D'us manifesta Seu poder, mudando o curso das leis da natureza em uma das três esferas da Criação - a terra, a atmosfera e os céus.
 
Segundo Rabi D. Isaac Abravanel, um dos objetivos das pragas era convencer o Faraó, seu povo e, conseqüentemente, toda a humanidade de três verdades fundamentais sobre D'us: Sua Existência, Sua Divina Providência - ou seja, que a Mão de D'us está presente em tudo o que acontece na vida dos homens e das nações - e Sua Onipotência. Por isto, a primeira praga de cada grupo é precedida por uma declaração que caracteriza um desses princípios.
 
A primeira série: sangue, rãs e piolhos
"Assim falou D'us: 'Nisto saberás que sou o Eterno'" (7:17). A afirmação indica que o objetivo da primeira série é estabelecer a inegável existência de um D'us Único, Criador Absoluto e Senhor do Universo.
 
A primeira praga atinge o Nilo - considerado pelos egípcios uma divindade. Rashi, o comentarista clássico da Torá, explica que, como havia escassez de chuvas no Egito, a principal fonte de água era este rio que, ao extravasar, irrigava a terra. Por isso os egípcios o consideravam a divindade responsável pelo seu sustento. Quando, seguindo a ordem Divina, Aharon golpeia o Nilo com seu cajado, não só suas águas, mas as de todo o Egito, transformam-se em sangue. A primeira praga veio para demonstrar aos egípcios que sua "divindade, o rio", não era capaz de deter a Vontade do Criador. O Midrash explica que, para os judeus, a transformação das águas do Nilo em sangue foi muito significativa, pois compreenderam que D'us estava punindo os egípcios por terem jogado nas águas daquele rio o sangue de seus filhos.
 
Pela segunda vez o Faraó se recusa a libertar Israel. D'us, então, ordena a Aharon que estenda novamente a mão sobre o Nilo. Rãs, cujo coaxar enchia os ares, emergem do rio e se multiplicam incessantemente, invadindo as casas egípcias. A segunda praga era a prova de que não só o Nilo não conseguira deter a Vontade do Criador, mas que, ao produzir as rãs, o próprio rio estava a Seu serviço.
 
Uma terceira praga castiga o Egito, após nova recusa do Faraó em se dobrar perante D'us. Após Aharon ter golpeado o pó com o cajado, seguindo a ordem Divina, a terra de todo o Egito se transforma em piolhos e pequenos insetos, que picam mortalmente os egípcios e seus animais. Foi no decorrer desta terceira praga que os feiticeiros egípcios alertam seu rei que Moisés e Aharon não eram magos nem tampouco eram "as ocorrências" fruto de algum tipo de feitiçaria. Eram enviados de D'us. Segundo o Midrash, foi no final dessa praga que os judeus pararam de trabalhar para os egípcios.
 
Esta primeira série de pragas foi lançada por Aharon e não por Moshê, porque este tinha um débito de gratidão com as águas do Nilo e com a terra do Egito. Quando Moisés nasceu, sua mãe, para salvá-lo do édito infanticida egípcio, colocou-o numa cesta sobre o rio e as águas o mantiveram vivo, conduzindo-o até Batia, filha do Faraó, que o resgatou. A terra também o ajudou, pois encobriu o corpo de um algoz egípcio, que Moshê matara para salvar a vida de um judeu. D'us, portanto, incumbiu Aharon de lançar as primeiras três pragas, porque, como Ele próprio afirma, "as águas que cuidaram de ti quando foste lançado ao Nilo...e a terra que veio em teu auxílio quando mataste o egípcio...não é justo que por ti sejam amaldiçoadas".
 
A segunda série: animais selvagens, peste e sarna
Iniciando o segundo grupo, a quarta praga é precedida pela declaração Divina: "Para que saibas que sou o Eterno no meio da terra" ( 8:18). Por todo o Egito, bandos de animais selvagens, cobras e escorpiões atacam os egípcios, mesmo dentro de seus lares, e destroem tudo que encontram pelo caminho.
 
Mas, como D'us afirmara, "Separarei nesse dia a terra de Goshem", nenhum destes animais adentrou na terra onde habitavam os judeus. Segundo Rashi, numa clara demonstração de Seu Poder, mesmo os judeus que estavam em outros lugares não foram atacados.
 
A quinta praga é uma peste fatal que mata os animais domésticos dos egípcios que pastavam nos campos, inclusive os carneiros, que eram considerados um de seus deuses. No entanto, nenhum animal de qualquer judeu foi atingido. Segundo Rabi Alkabetz, a partir daquele momento o sofrimento egípcio se tornou tão intenso, que até o Faraó já estava disposto a ceder. D'us, no entanto, endureceu-lhe o coração, pois queria que os Filhos de Israel vissem a totalidade e abrangência de Sua Força e aprendessem a Nele ter fé.
 
A sexta praga que atinge os egípcios e seus animais, geralmente chamada de sarna, era na realidade, bolhas que se transformavam em úlceras, causando grande sofrimento físico. Mesmo os feiticeiros egípcios foram atingidos pela doença.
 
Esta segunda série de pragas foi uma clara demonstração de que a Providência Divina, a Mão de D'us, está presente em tudo o que acontece. O fato de nenhum judeu ter sido atingido era mais uma prova de que D'us controla tudo que ocorre no mundo, inclusive o comportamento dos animais e as aflições físicas.
 
O terceiro grupo: granizo, gafanhotos e escuridão
O objetivo desta última série de pragas, anunciado pela declaração "Para que saibas que não há ninguém como Eu, em toda a Terra" (9:14), foi demonstrar o infinito poder de D'us. Um outro propósito para a ação Divina é revelado por Moisés, quando informa ao Faraó que, apesar de merecer morrer, sua vida fora poupada para que ele reconhecesse a grandeza de D'us Único e Verdadeiro. "Para que Meu Nome seja anunciado em toda a terra" (9:16), afirma D'us. E para que fosse transmitido, de geração em geração, o relato do que estava ocorrendo no Egito, ou seja, a manifestação explícita de Sua Vontade.
 
Na sétima, uma violenta tempestade de granizo assola o país. O mundo nunca vira algo igual. Muito menos o Egito, onde, devido à escassez de chuva, este fenômeno meteorológico era desconhecido. Havia um aspecto sobrenatural nesta praga: o granizo vinha acompanhado de fogo. Dois elementos opostos - o fogo e a água - conciliados a fim de mostrar a Onipotência Divina. Antes da sétima praga, D'us alertou os egípcios para procurarem abrigo durante a chuva de granizo, pois, nenhum ser vivo e nenhum vegetal escapariam incólumes. E os que acreditaram nas palavras de Moisés procuraram abrigo, tanto para si como para seu gado.
 
Na oitava praga, um vento do leste trouxe em seu bojo nuvens de gafanhotos, que escureceram os céus. Os insetos devoraram cada folha verde que, porventura, sobrevivera ao granizo e às pragas anteriores. Invadiram os lares e os campos egípcios e trouxeram ruína total ao país, já praticamente destruído pelas catástrofes anteriores. Pela primeira vez, o Faraó reconhece seus erros, mas ainda permaneceu firme na determinação de não deixar partirem os judeus.
 
Quando a nona praga se abateu sobre o Egito, uma "escuridão tangível", impenetrável, tão densa que apagava qualquer luz, envolveu o país por seis dias. Mais uma vez, um fenômeno natural - a escuridão - se manifestou de forma sobrenatural, pois enquanto nos lares egípcios não era possível acender uma luz, nos lares judaicos, havia luz abundante. Os egípcios, tomados de pavor, permaneceram imóveis onde se encontravam. Ao descrever a praga, a Torá menciona "escuridão e trevas": escuridão no sentido físico e trevas no sentido espiritual. A Torá nos ensina que esta praga refletia o egoísmo prevalente no Egito: "Não via nenhum homem a seu irmão", pois cada egípcio via somente a si próprio; assim aconteceu durante a praga da escuridão, ninguém se mexeu para socorrer o outro, pois a ajuda mútua não fazia parte de sua visão de mundo.
 
A décima praga: a morte dos primogênitos egípcios
A décima e última praga é amplamente anunciada por Moshê, que alerta o Faraó que, por volta da meia-noite, D'us, Ele Próprio, passaria sobre o Egito e golpearia todos os primogênitos - filhos de homens ou de animais.
 
Era o clímax de todas as anteriores. Seu aspecto de punição é imensamente mais severo do que o das outras, cujo principal objetivo era incutir nos egípcios a fé em D'us. Durante esta praga, D'us, Juiz Supremo, executou o castigo, "medida por medida", pelo decreto de extermínio que o Egito lançara contra o Povo Judeu. O Faraó, que emitira a ordem de que todo menino judeu fosse afogado no Nilo, e os egípcios, que a haviam executado, presenciaram a morte de seus primogênitos na noite que antecedeu o Êxodo. À meia-noite, todos os primogênitos egípcios, inclusive o filho do Faraó, faleceram a um só tempo. A única exceção foi o Faraó, ele próprio um primogênito. D'us poupou-lhe a vida porque, às margens do Mar de Juncos, no episódio da abertura do mar, ele ainda iria testemunhar, uma vez mais, o ilimitado poder de D'us. (V. Morashá - edição 48 - abril de 2005).
 
Naquela fatídica noite nenhum judeu faleceu; D'us postergou até mesmo a morte dos que haviam terminado seu tempo na Terra. Demonstrava assim, mais uma vez, a clara distinção entre os oprimidos e os opressores. Naquela noite, os Filhos de Israel vivenciaram uma nova dimensão da Justiça Divina e tiveram a certeza que D'us Misericordioso os libertara da escravidão.
 
Uma dimensão mística das Dez Pragas
A Cabalá revela que a alma humana é composta de dez pontos de energia - dez características - que correspondem aos dez fluxos de Energia Divina, denominados de Sefirot, na Cabalá. Ao ser humano foi dado o livre arbítrio, a opção de utilizar estas características tanto para o bem quanto para o mal.
 
O antigo Egito - sociedade baseada na idolatria, imoralidade e total falta de respeito pela vida e dignidade humana - representa a corrupção de cada uma das Dez Sefirot. Por este motivo, foram dez as pragas que atingiram o país. As calamidades foram fruto inevitável da crueldade egípcia, conseqüências espirituais que se manifestaram fisicamente. Por outro lado, ensina a Cabalá, os Dez Mandamentos, outorgados 50 dias após o Êxodo do Egito, no Monte Sinai, são o "antídoto" das Dez Pragas. Pois se as Pragas refletiram a perversão dos dez atributos da alma humana, os Dez Mandamentos refletem sua retificação espiritual.
 
O relato das Dez Pragas é fonte de inúmeras lições espirituais. A principal é que a corrupção espiritual, a maldade e a injustiça criam entidades espirituais negativas que acabam voltando-se contra seu próprio criador. Em contraponto, os Dez Mandamentos nos revelam que a ligação com D'us, a bondade e a justiça são o caminho para que a alma humana se manifeste em toda a sua harmonia e esplendor, canalizando bênçãos naturais e sobrenaturais para este nosso mundo físico.
 
Bibliografia
 
· Hagadá de Pessach, com comentários do Talmud e literatura rabínica, Fundação J. Safra, 2007
 
· The Call of the Torah - Shemot, Rabbi Elie Munk, Artscroll Mesorah Series.
 
· The Sepharadic Heritage Haggadah, The Sutton Edition, Rabinos Elie Mansur, David Sutton e Hillel Yarmove, Art Scroll Sepharadic Mesorah Series, 2006
 
 
http://www.chabad.org.br/datas/pessach/index.htm
 
 
 
   
 
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