O Ventre Fecundo: Um Depoimento

O Ventre Fecundo: Um Depoimento



""E vós, aprendei que é necessário ver e não olhar para o céu; é necessário agir e não falar. Esse monstro chegou quase a governar o mundo! Mas não sejamos afoitos em cantar vitória: o ventre que o gerou ainda é fecundo" BERTOLT BRECHT



Os leitores do De Olho na Mídia não precisam, certamente, ser alertados sobre a continuada ameaça representada por ideologias extremistas e anti-semitas – neonazismo em primeiro lugar - e por movimentos pretensamente apolíticos, como o negacionismo, que buscam legitimá-las. Reconhecer o perigo, porém, não implica necessariamente conhecer suas características e suas causas específicas, nem muito menos as várias formas pelas quais ele pode se manifestar.

Eu "estive lá": como contarei abaixo, fui do negacionismo ao extremismo, e depois de volta (ainda bem!). Mas antes de começar, cabem algumas advertências. Com este depoimento, espero contribuir, não tanto para "explicar" o fenômeno (o que é tarefa de cientistas sociais), mas sim contar "o que passou na cabeça" de uma pessoa específica enquanto seguiu esse caminho. Não afirmo que minha experiência seja representativa do que quer que seja, mas apenas uma ilustração de uma das possibilidades. Por óbvio, refleti muito sobre a minha própria experiência, de maneira que o relato que se segue é muito mais ordenado, racional e claro do que foi a experiência em si. Assim, muitas coisas que, olhando para trás, sei que foram marcos importantes, passaram desapercebidas em seu momento.

O REVISIONISMO/NEGACIONISMO COMO PONTO DE PARTIDA

O começo da jornada foi quando, adolescente, encontrei em uma livraria uma cópia do livro Holocausto: Judeu ou Alemão?, de S. E. Castan . Como já faz tempo, não vou garantir de que me lembre com exatidão, mas creio que o que me chamou a atenção não foi o título, pois não tinha idade para compreendê-lo muito bem, mas sim o subtítulo: Nos Bastidores da Mentira do Século. Lendo-o sem base alguma, tanto pela idade imatura quanto pela ausência de conhecimento, saí evidentemente convencido da veracidade de sua tese: o Holocausto de seis milhões de judeus jamais acontecera. Sim, era verdade que o Partido Nazista era anti-semita, que existiram campos de concentração e que muita gente morreu lá, mas isso não era uma política deliberada de extermínio, e havia muitas, digamos assim, "circunstâncias atenuadoras" para a Alemanha. As testemunhas do genocídio mentiam. As confissões dos SS foram forjadas ou obtidas sob tortura. Com o interesse despertado, passei a ler grande quantidade de material sobre a II Guerra Mundial e o nazismo.

A INTERNET EXTREMISTA

Nesse ínterim, passei a ter acesso a computador e à Internet, então em seus começos aqui no Brasil. Pesquisando sobre assuntos relacionados à Segunda Guerra, encontrei montes de sites negacionistas "apolíticos", bem como sites da rede "extremista mesmo", em especial a norte-americana. Não fui em busca deles, eles vieram até mim: simplesmente apareciam no "google" da época ao se colocar palavras-chaves simples, como "segunda guerra" ou coisas do tipo. Aí, pela primeira vez cheguei a escritos de neonazistas "mesmo", que li em grande quantidade. Incrivelmente, nunca cheguei a me considerar, mesmo naquele período, um neonazista; aceitaria apenas que me chamassem de "simpatizante". (Com argumentos do tipo, "Hitler não era de todo ruim, vejam, em plena Grande Depressão ele terminou com o desemprego na Alemanha"). Deixo claro, porém, que não era por dúvidas de ordem moral, já que, pela influência negacionista, eu negava os crimes do nazismo. Não tendo o nazismo cometido crimes, não era condenável em si.

UMA REFLEXÃO

Olhando para trás, me parece fundamental o fato de eu ter tido contato primeiro com o negacionismo e depois com o neonazismo "mesmo". Para alguns leitores, talvez pareça que a própria distinção entre os dois não deve ser feita, já que o negacionismo bem pode ser considerado uma forma de neonazismo. Concordo que em teoria sim, ele pode, mas que na prática, os dois devem ser distinguidos, e creio que essa distinção ajuda à compreensão do caminho, ou de um dos caminhos, que leva ao extremismo.

Parece-me que o negacionismo pode ser bastante sedutor, especialmente para um jovem curioso e ignorante como eu era. Primeiro, ele tem argumentos longos e detalhados mostrando que "tudo o que todo mundo acha a respeito de" Hitler e do nazismo não era bem assim. Para quem não é especialista na matéria – isto é, para a grande maioria das pessoas – esses argumentos são aparentemente convincentes . Segundo, esses argumentos estão formulados de uma forma que parece imparcial e objetiva ( isso dependente, evidentemente, do autor negacionista específico em questão, mas muitos, pelo menos, buscam esse efeito). Terceiro, ele diz apelar à razão e não à emoção: "sim, muitos judeus sofreram, mas esse sofrimento não é motivo para não buscarmos o que realmente aconteceu, doa a quem doer" . Quarto, ele geralmente se apresenta como apolítico: se trataria de um movimento histórico, preocupado com o que aconteceu em 1933-1945 e não com o mundo de hoje. Buscaria a "verdade dos fatos", não a reabilitação do nazismo. Se ele enfatiza o sofrimento dos alemães e nega o dos judeus, seria apenas porque "foi assim".

O negacionismo me fez pensar duas coisas que, creio, muitos jovens ( idiotas) gostam de pensar: que ele sabe "algo" que pouca gente mais sabe, e que ele está do lado dos fracos (alemães) contra os fortes (judeus, ou como dizia Castan e eu segui, "sionistas"). Olhando em retrospectiva parece ridículo, mas eu achei que defendia a verdade. Eu tinha uma causa que considerava nobre e justa.

Esse caráter técnico e apolítico que o negacionismo busca para si, ao mesmo tempo que lhe dá credibilidade, diminui por assim dizer as resistências imunológicas dos afetados. Em parte, o efeito é direto: se você já aceitou que o nazismo não era tão ruim assim, já que os piores crimes que lhe são atribuídos não teriam acontecido, você já está mais propenso a ouvir um argumento de que ele tinha "lados bons", como o fim do desemprego, etc. E em parte, o efeito é indireto, e assim mais insidioso. Da forma como ele se apresenta, o negacionismo – pelo menos o que eu li nesse tempo - não inclui uma teoria explícita da conspiração judaica. Ele se preocupa com o que aconteceu em 1939-1945, e não com o que veio depois. Agora, ele precisa de alguma forma de explicar como, se os crimes do nazismo não aconteceram ou não foram bem assim, a "versão atual" apareceu e se tornou dominante. Implicitamente, a única explicação possível é uma conspiração, que envolve pelo menos alguns judeus. Aceitando essa tese, você vai dar mais atenção a argumentos que afirmam que essa conspiração continua atuando hoje, agora em busca dos objetivos x, y, z. E é isso que permite a transição do "negacionismo apolítico" para o "extremismo político" .

Pelo menos, e olhando retrospectivamente, me parece ter sido o que permitiu no meu caso. Não tenho como saber, mas não creio que eu tivesse me dado ao trabalho de ler um escrito neonazista, muito menos de levá-lo a sério e ainda menos de vir a concordar com ele, se não tivesse passado primeiro pelo negacionismo.

Um corolário dessa trajetória é que ela permite que a consciência do indivíduo continue limpa aos seus próprios olhos. Como eu disse acima, eu aceitava a conspiração judaica mas negava ser anti-semita. Como conseguia esse milagre? Ora, o ponto central seria o que realmente aconteceu em 1939-1945. Como essa verdade factual teria sido distorcida, era necessário recolocá-la em seu lugar. Nisso, não haveria nada de anti-semitismo, pois a verdade não é inimiga de ninguém. Deve-se notar que a maioria dos negacionistas espertamente não critica "os judeus", o que arruinaria suas chances iniciais de prender a audiência. Critica "sionistas", critica "algumas lideranças judaicas", ou algo do estilo. Mostrar "a verdade" prejudicaria apenas esses pequenos grupos, que por suas ações prejudicam os próprios judeus. A tese da conspiração faz o mesmo, pois a conspiração judaica seria ruim para os judeus, e expô-la os ajudaria! Dessa forma, o anti-semitismo se disfarça de filo-semitismo ou de puro e abnegado "amor à verdade", não para o mundo, mas para o próprio anti-semita. É o triunfo de Orwell, tanto factual quanto moralmente!

Finalmente, considero que existe uma atração específica da extrema direita aos "intelectuais" ou "aspirantes a tais", como eu era. Dito em uma frase: é a facilidade com a qual alguém se torna uma autoridade . Vou exemplificar com o grupo oposto, a extrema esquerda. Se você quer ser um intelectual da extrema esquerda respeitado, prepare-se para estudar mesmo. Tem que ler Marx, Lenin, Stalin, Mao, Trotsky, Kautsky, Plekhanov, Rosa Luxemburgo, etc, etc., etc., etc., etc . De preferência, os principais em seus próprios idiomas (coisas fáceis: alemão, russo, pra não falar em chinês...). E mais: como essas figuras geralmente não enfrentam ainda hoje o nível de desaprovação moral que recebem Hitler e Mussolini, há uma quantidade infindável de trabalhos de comentaristas e mais comentaristas sobre eles. É um trabalho de anos. Na extrema direita, o quadro é o oposto. Não há sequer um cânone, como seriam as obras de Marx e Engels; tanto em termos de tamanho quanto de complexidade e mesmo de importância "prática", Mein Kampf não serve nem de rodapé a Marx... E como a extrema direita não tem a mínima respeitabilidade, inexistem comentaristas ou qualquer tradição exegética. Portanto, qualquer um pode se sentir um "intelectual de vanguarda" sem o mínimo trabalho propriamente intelectual. O extremismo de direita é a solução perfeita para os intelectuais vagabundos.

O CAMINHO DE VOLTA

Eu gostaria muito de poder dizer que, um belo dia, acordei, olhei para o sol e tive aquele insight que me revelou que tudo aquilo era besteira, tanto errado quanto malvado. Infelizmente, não foi assim. Da mesma forma que a ida foi gradual, a volta também o foi.

Meu período revisionista-extremista durou cerca de três anos. Grosso modo, no primeiro estudei "os fatos" do nazismo e da II Guerra sob a ótica do negacionismo, no segundo mergulhei fundo no neonazismo, e no terceiro fui preparando o caminho da saída.

Evidentemente, essa leitura é teleológica, porque eu não sabia disso na época, e bem poderia ter continuado a crer em tudo aquilo. Tenho enfatizado também o desenvolvimento por que passei desde um ponto de vista intelectual, pois que entrei e saí do extremismo por motivos abstratos. ( Já disseram que "é mais fácil ser anti-semita que odiar um judeu específico". É uma grande verdade.). Nesse ponto, porém, um fator da vida real foi importantíssimo. No "terceiro ano" , comecei a trabalhar além de estudar, e o tempo de que dispunha tanto para "estudar" extremismo praticamente deixou de existir. A saída compulsória dessa atmosfera auto-confirmatória na qual eu mesmo me havia posto também ajudou. E, obviamente, eu estava amadurecendo ( ao menos um pouco...).

Diferentemente do caminho da ida, que seguiu a ordem cronológica na qual o expus, o da volta não, exatamente porque foi um caminho mais fragmentado. Não tenho como contá-lo a não ser dividindo em compartimentos estanques evoluções que foram em grande medida contemporâneas.

1. Abandonando o racismo. Se o negacionismo consegue parecer ser técnico, desapaixonado, lógico e baseado num frio amor à verdade dos fatos com alguma facilidade, o racismo não. Até alguém tão dentro da barriga do monstro como eu estava o percebeu, e deixei de ser racista antes sequer de deixar de ser simpatizante do nazismo ( no sentido do "lado bom" dele). A peripécia lógica não é tão difícil como parece: "OK, o nazismo tinha certos erros/desvios/equívocos etc..., como por exemplo aquelas antiquadas doutrinas raciais. Mas também tinha . . ." .

2. Revisando o negacionismo. Esse ponto me veio como um estalo, tanto que até hoje me lembro vividamente do evento: um dia, simplesmente me veio à mente que eu sabia recitar cinco ou seis refutações negacionistas standard contra o livro de Raul Hilberg, Destruction of the European Jews. Não tinha, porém, jamais visto o livro. (De fato, até hoje não o encontrei) . Para quem se gabava de buscar apenas a verdade doesse a quem doesse, me pareceu uma postura sumamente dogmática. OK, eu sei, isso apenas quer dizer que eu levei dois anos para ver o óbvio, mas eu finalmente vi. Esse insight não fez com que eu imediatamente deixasse o negacionismo, mas me deixou com um pé atrás, e me inspirou a buscar ativamente respostas a ele. Em suma, me deixou mais aberto ao contraditório. E buscando-o, encontrei o caminho da saída.

3. E a conspiração? Já descrevi acima o caminho que, acredito, leva do negacionismo ao extremismo político. Um dia, revendo minha trajetória, me dei conta dela, em linhas gerais, obviamente. Mais uma vez, não fiz o lógico e não abandonei de imediato a teoria da conspiração, tão acostumado que já estava a enxergar o mundo através dela. Mas a semente estava lá, pois havia conseguido ver que o "raciocínio" que seguia era tautológico. Passei a frequentar fontes de informação que antes considerava não-confiáveis porque judaicas e portanto parte da grande conspiração, como por exemplo a Anti-Defamation League e o Simon Wiesenthal Center. Não demorei a encontrar longas fichas criminais junto a vários nomes cujos artigos eu havia lido...

4. O fim do "lado bom" do nazismo. Tendo começado a estudar o nazismo e sua época sob uma ótica negacionista desde o princípio, é evidente que estava longe de ter uma visão minimamente coerente com a realidade. Não haveria saída daí enquanto eu não tivesse alguma abertura para o contraditório. É um ponto importante, que por isso repito: Sim, um dos pontos principais da saída foi, realmente, compreender a realidade do nazismo. Não é que, antes, eu pegasse o que as pessoas em geral associam com "nazismo" e invertesse o sinal (de "mau" para "bom"). Eu tinha uma visão totalmente enviesada, e ainda por cima com "fatos" para argumentar, e desconsiderava todo contra-argumento como prova da ignorância da verdade ou da adesão à grande conspiração por parte de seu autor. O reconhecimento do caráter dogmático da minha adesão ao negacionismo permitiu que eu saísse do círculo vicioso, e daí em diante foi bastante rápido. Com isso, já estava pronto para sair da barriga do monstro, o que era dificultado apenas pelo hábito.

UM PONTO FUNDAMENTAL

Certamente não escapou à atenção do bravo leitor que me seguiu até aqui a ausência, até agora, de uma crítica moral. Parece uma coisa asséptica e inofensiva: eu acreditava em algo, comecei a ter dúvidas, e deixei de acreditar. Mais um pouco e pareceria que estou falando de astrologia ou vodu, e não de neonazismo.

Por que isso? Olhando retrospectivamente, me parece conseqüência de eu ter mantido a consciência limpa, através de uma visão totalmente enviesada, até esse momento. Em minha mente, jamais odiara judeus, nem negros, nem quem quer que seja; apenas buscara a verdade. Se havia buscado no lugar errado, agora era hora de procurar em outro lugar. Não havia me aproximado do nazismo, por exemplo, porque queria matar judeus; pelo contrário, eu defendia exatamente que o nazismo não havia feito isso .

O fato de eu ter abandonado as velhas crenças gradualmente impediu que eu visse, de forma súbita, o abismo moral em que tinha caído. Por isso demorou um pouco, até que os quatro pontos em que dividi o processo de saída, enumerados acima, estivessem sincronizados, para que finalmente me perguntasse o que é afinal a pergunta mais importante: Mas como foi que eu fui fazer isso... Mas como qualquer um chega a fazer isso...

CONCLUSÃO


Todo este texto é uma tentativa de dar uma resposta a essa questão. Não julgo ter chegado à "verdade" pois, como parte interessada no caso, estou em uma posição singularmente ruim para consegui-lo. Mas a inquietação central – "mas como. . . .?" – sempre continua. Eu posso ter piamente acreditado que não era anti-semita, mas era. Que não era racista, mas era. Que não defendia regimes abomináveis, mas defendia. Sei que isso não me isenta de culpa. Queria pedir desculpas a alguém, mas não havia quem: alguém de carne e osso. Com o tempo, tentei me perdoar e esquecer .

Este depoimento surgiu a partir de uma troca de e-mails com o editor do De Olho na Midia, que afinal me convenceu de que tornar essa história pública seria útil. Espero que ela ajude a evitar que alguém caia nas armadilhas por onde caí, e que sirva de alerta sobre a exatidão factual do famoso alerta de Brecht: o ventre ainda está fecundo. E mesmo os que não são monstros podem tornar-se tais, e, ainda por cima, acreditando que são anjos...

Por isso, aproveito o espaço que me foi concedido para fazer o que até agora não havia feito. Pedir desculpas a todos os que ofendi. Peço não só a judeus e negros, grupos a que ofendi mais diretamente. Peço perdão à humanidade. O anti-semitismo e o racismo não são apenas ofensas a judeus e negros, são ofensas contra o ser humano. Disseminando ódio e mentiras sobre uns e outros, diminuí apenas a mim mesmo . Ao invés de contribuir com o pouquinho que cada um de nós pode dar para construir o bem comum, eu tentei colocar abaixo a obra. Peço perdão.



Escrito por: Ex-Nazista Arrependido Conta Sua História. Exclusivo Para O De Olho Na Mídia
Publicado no site em: 24/01/2007



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