30 de set. de 2006

TSE nega pedido de mesário de religião judaica de dispensa do trabalho no próximo domingo

TSE nega pedido de mesário de religião judaica de dispensa do trabalho no próximo domingo


30 de Setembro de 2006 - 16h53                                       

O ministro Gerardo Grossi, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), negou liminar requerida por Renato Kluger, de religião judaica, que buscava obter dispensa do trabalho de mesário nessas eleições, marcadas para o próximo domingo (1°). O requerente argumenta que a data do pleito coincide com o dia do  Yom Kipur, data máxima do calendário judaico.

Na decisão, o ministro do TSE afirmou que o tema é "relevante e mereceria longa reflexão para ser equacionado e solucionado". Considerou, no entanto, que a inexistência da interposição de Recurso Especial tornou impossível "pelo menos neste juízo de cognição sumária, dar-lhe efeito suspensivo e atender, por antecipação, o pedido do autor". Em outras palavras, sem a comprovação do protocolo do recurso especial - instrumento específico para recorrer da decisão do TRE-SP - o ministro Gerardo Grossi observou que haveria barreira processual para analisar o pedido.

Na Medida Cautelar (MC 2078), em que recorria ao TSE da decisão do juiz da 5ª Zona Eleitoral de São Paulo, confirmada pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP), o requerente alegou que o Yom Kipur tem início precisamente às 17h45 do dia 1° de outubro.

Veja a seguir a íntegra da decisão do ministro:

"MEDIDA CAUTELAR Nº 2.078 - SÃO PAULO (São Paulo). Relator: Ministro Cezar Peluso. Requerente: Renato Kluguer. Advogado: Hugo Chusyd e Outro. Requerido: Cláudio Hamilton Barbosa, Juiz da 5ª Zona Eleitoral de São Paulo.

Trata-se de medida cautelar proposta por Joseph Meyer Nigri "[...] contra o MM. Juiz da 5ª Zona Eleitoral de São Paulo, Dr. Cláudio Hamilton Barbosa [...]" (fl. 02).

Busca a cautelar, ao que se percebe da inicial, emprestar efeito suspensivo a recurso especial que o autor da medida "[...] está na iminência de interpor [...]" (fl. 03).

O tema versado na cautelar é relevante e mereceria longa reflexão para ser equacionado e solucionado. Cogita-se de dispensa de serviço eleitoral imposto ao autor, que é judeu e pretende se eximir de prestar o serviço eleitoral que lhe foi imposto porque "[...] o Dia do Perdão - Yom Kipur, terá início precisamente às 17:45 hs do dia 01 de outubro de 2006" (fl. 08), que, como se sabe, é o dia das eleições.

O juiz eleitoral apontado na cautelar, negou-lhe o pedido e o Tribunal Regional Eleitoral do Estado de São Paulo manteve a decisão monocrática.

Ocorre que, conforme dito na inicial, não há recurso especial interposto. Impossível, assim, pelo menos neste juízo de cognição sumária, dar-lhe efeito suspensivo e atender, por antecipação, o pedido do autor.

Por este motivo, estou indeferindo a liminar.

Cite-se o réu da cautelar, como pedido.
Brasília, 30 de setembro de 2006.
Ministro Gerardo Grossi"



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Magal
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28 de set. de 2006

 Israel entre as economias mais competitivas do mundo

Israel entre as economias mais competitivas do mundo





ISRAEL CONQUISTA SEU LUGAR ENTRE AS ECONOMIAS MAIS COMPETITIVAS DO MUNDO

Este ano, Israel passou da 23ª posição no ranking de competitividade global para a 15ª, o que colocou o país entre as economias mais competitivas do mundo, segundo a edição 2006-2007 do Relatório de Competitividade Global do Fórum Econômico Mundial. Israel superou países como Canadá, França, Espanha, Itália e Austrália.

As conquistas mais significativas de Israel concentram-se nas áreas de prontidão tecnológica, technological readiness - categoria na qual subiu da 20ª para a 3ª posição - aperfeiçoamento da administração macroeconômica, eficiência de mercado e diversas áreas de infra-estrutura. Alavancada por fatores externos, incluindo o aumento da atividade econômica global e do comércio mundial, e pela recuperação do setor high-tech, a competitividade de Israel também cresceu devido a reformas significativas de regras aliadas à disciplina fiscal, o que resultou no maior grau de competititivade.

"A área que apresentou avanços mais impressionantes foi o mercado financeiro, altamente desenvolvido para os padrões regionais e internacionais. Isso se explica pelos efeitos da revolucionária reforma do mercado de capitais, entre outras coisas. Mais importante, Israel beneficiou-se do desenvolvimento de uma cultura de inovação, apoiada por instituições de educação de primeira classe e pela pesquisa científica. Israel se tornou um gerador mundial de tecnologia e está começando a colher efeitos favoráveis na economia, uma excelente promessa para o futuro", avalia o Economista Chefe e Chefe da Rede de Competitividade Global do Fórum Econômico Mundial, Augusto Lopez Claros.

Para o relatório do Fórum Econômico Mundial na íntegra, acesse www.weforum.org

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Israel suspende retirada do Líbano

Israel suspende retirada do Líbano


Chefe de Estado Maior ameaça uso da força se a ONU não desarmar o Hizbollah
JERUSALÉM - Israel suspendeu ontem a saída das suas últimas tropas do Sul do Líbano e ameaçou recorrer ao uso da força se a ONU não neutralizar as armas e os combatentes do grupo xiita Hizbollah. "Adiamos a retirada até que cheguemos a um acordo (sobre o Hizbollah)", disse o chefe do Estado Maior israelense, Dan Haloutz.

Em resposta, o Líbano anunciou que convocará o Conselho de Segurança da ONU se a saída dos israelenses for de fato adiada. Cerca de 90% dos soldados israelenses que participaram da guerra dos 34 dias, em julho e agosto, já retornaram para o seu país, mas ainda há algumas tropas posicionadas próximas à fronteira, no Sul do Líbano.

Na terça-feira, o ministro de Defesa israelense, Amir Peretz havia dito, em um discurso para o Parlamento, que as tropas de seu país deixariam o Líbano até amanhã, ou no início da próxima semana. Porém, no mesmo dia, militares israelenses e libaneses reunidos em Naqura, em uma base da ONU, não conseguiram chegar a um acordo sobre como seria a etapa final da retirada.

25 de set. de 2006

Corte de Israel volta atrás e mantém autoridades do Hamas presas

Corte de Israel volta atrás e mantém autoridades do Hamas presas

Por Jonathan Saul

BASE MILITAR DE OFER (Reuters) - Um tribunal de apelações militar israelense reverteu nesta segunda-feira a decisão de liberar um grupo de parlamentares do Hamas sob fiança, determinando que eles permaneçam presos até a conclusão dos processos judiciais movidos contra eles.

Os 21 parlamentares e ministros foram presos depois que militantes sequestraram um soldado israelense numa operação em Gaza, em junho. Houve fortes especulações de que eles pudessem ser usados numa possível troca de prisioneiros.

Este mês, um tribunal militar determinou a libertação dos detentos sob fiança, para a promotoria militar logo recorreu da decisão.

"O Estado de Israel tem o direito de se defender contra o terror. Não permitiremos que o terror continue", disse o tribunal de apelações em sua decisão.

Os advogados de defesa disseram que os presos não têm mais como recorrer. "É uma decisão política", disse a repórteres um dos presos, Aziz Dweik, presidente do Parlamento palestino.

Mushir al-Masri, parlamentar do Hamas em Gaza, disse que o grupo militante não reconhece a legitimidade dos tribunais israelenses.

A promotoria militar acusou os 21 integrantes do Hamas de pertencer a um grupo terrorista e de representar uma ameaça contra a segurança de Israel.

O Hamas chegou ao poder em março, depois de vencer as eleições nos territórios palestinos em janeiro.

A defesa alegou que o Hamas adotou a trégua desde 2005 e interrompeu os ataques suicidas contra Israel.

Dweik e outros cerca de 30 parlamentares e ministros foram presos logo depois do sequestro do soldado israelense, mas vários já foram libertados.

Os palestinos da Cisjordânia são julgados em tribunais militares porque o território está sob ocupação militar desde que foi capturado por Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967.

"O Hamas continua sendo uma organização terrorista e não há nada que impeça membros de organizações de terror de ser julgados", disse o major Maurice Hirsch, vice-promotor-chefe do Exército na Cisjordânia.

Segundo ele, os procedimentos legais contra os detentos devem durar "meses". "Assumindo que a promotoria consiga provar o indiciamento e que o tribunal esteja disposto a condenar os réus, eles devem receber penas de prisão", disse ele.

(Reportagem adicional de Nidal al-Mughrabi em Gaza)



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Magal
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24 de set. de 2006

Significado de Yom Kipur

Significado de Yom Kipur

Após o pecado do bezerro de ouro, Moshê (Moisés) rezou e, no dia dez do mês hebraico de Tishrei, D'us concedeu pleno perdão ao povo judeu.

Yom Kipur é o Dia da Expiação, sobre o qual declara a Torá: "No décimo dia do sétimo mês afligirás tua alma e não trabalharás, pois neste dia, a expiação será feita para te purificar; perante D'us serás purificado de todos teus pecados."

Esclarecendo a natureza de Yom Kipur, o Rambam escreve: "É o dia de arrependimento para todos, para o indivíduo e para a comunidade; é o tempo do perdão para Israel. Por isso todos são obrigados a se arrepender e a confessar os erros em Yom Kipur."

A expiação obtida através de Yom Kipur é muito mais elevada que aquela conseguida através do arrependimento, pois neste dia os judeus e D'us são apenas um. O judeu une-se com D'us para revelar um vínculo intocável pelo pecado, sem obstáculos.

Teshuvá, o retorno do judeu ao bom caminho, não está restrito apenas a Yom Kipur. Há muitas outras épocas que são propícias para que isto ocorra, e na verdade, um judeu pode, e deve, ficar em estado de reflexão, alerta e arrependimento todos os dias do ano.

A obtenção do perdão

Os Rabis afirmam que a pessoa deve primeiro arrepender-se, e então obterá a expiação especial de Yom Kipur (que é infinitamente mais elevada que aquela conseguida apenas pela teshuvá).

Mas como Yom Kipur consegue isto? A expiação não é meramente a remissão da punição pelo pecado; significa também que a alma de um judeu é purificada das máculas causadas pelo pecado. Além disso, não apenas nenhuma impressão das transgressões permanece, como as transgressões são transformadas em méritos.

Que isto possa ser atingido através de teshuvá é compreensível; um judeu sente genuíno remorso pelas falhas cometidas erradicando o prazer que extraiu dos pecados.

Sua alma é então purificada. O próprio pecado deve ser visualizado como uma contribuição ao processo de teshuvá.

Uma transgressão separa a pessoa de D'us. O sentimento de ser afastado de D'us age como um lembrete para o retorno, para estabelecer um vínculo mais intenso com o Criador.
O que é a expiação obtida através de Yom Kipur? Se a expiação significa apenas a remissão da punição, seria compreensível que "o próprio dia" pudesse abolir a punição que de outra forma seria devida pelos pecados de alguém através do ano.

Mas a expiação, como dizemos, significa também a purificação das manchas da alma. Como pode "o próprio dia," sem a força transformadora de teshuvá, atingir este ponto?

Três níveis no vínculo de um judeu com D'us

O pecado afeta o vínculo de um judeu com D'us, e há três diferentes níveis neste vínculo:

1 – O relacionamento estabelecido por um judeu através do cumprimento das mitsvot: a aceitação do jugo celestial por parte do judeu e sua prontidão em seguir as diretivas de D'us estabelecem um vínculo entre ele próprio e D'us.

2 – Uma conexão íntima, mais profunda que a primeira. Como este vínculo transcende aquele forjado pela aquiescência com a vontade de D'us, permanece válido mesmo quando alguém transgride aquela vontade e por causa disso prejudica o primeiro nível do relacionamento, que a teshuvá tem o poder de purificar as manchas na alma, causadas pelo pecado – o que enfraqueceu o nível inferior da conexão.

3 – O vínculo unindo a essência de um judeu com a Essência de D'us. Isto não é restrito a nenhum vínculo, e transcende toda a expressão humana. Ao contrário dos dois anteriores, este relacionamento não pode ser produzido pelo serviço do homem a D'us, mesmo o serviço de teshuvá, pois as ações do homem, não importa quão elevadas, são inerentemente limitadas. Pelo contrário, este é um vínculo intrínseco à alma judaica, que é "uma parte do D'us acima" – e neste nível, o judeu e D'us são completamente um só.

Como este vínculo transcende todos os limites, não pode ser afetado pelas ações do homem. Assim como não pode ser produzido pelo serviço do homem a D'us, da mesma forma não pode ser prejudicado pela omissão do serviço ou através do pecado. Pecados e máculas não podem tocar este nível.

A unidade entre o judeu e D'us

Em Yom Kipur, este vínculo entre a essência de um judeu e a Essência de D'us revela-se em cada judeu – e por isso todas as manchas em sua alma causadas pelos pecados são automaticamente removidas.

Esta é a diferença entre a expiação de Yom Kipur e aquela de qualquer outra época. Na última, o pecado causa manchas na alma, e por isso a pessoa deve trabalhar ativamente para conseguir a expiação – arrependendo-se, o que produz um relacionamento mais profundo entre o homem e D'us. A maior expiação de Yom Kipur, entretanto, vem com a revelação de um vínculo tão elevado que, em primeiro lugar, nenhuma mancha pode ocorrer.

Este conceito é expresso no serviço de Yom Kipur do Cohen gadol, o Sumo Sacerdote, que representava todo o judaísmo. Um dos momentos mais importantes daquele serviço era sua entrada no Santo dos Santos, sobre o qual a Torá diz: "Nenhum homem deve estar no Ohel Moed quando ele entra para fazer expiação." O Talmud comenta que isto se refere até mesmo aos anjos. Ninguém, homem ou anjo, poderia ficar no Santo dos Santos naquela hora, pois o serviço de Yom Kipur é a revelação da unidade essencial entre os judeus e seu Criador. Apenas o judeu e D'us estão lá – sozinhos.

Revelação da essência do judeu

Tal revelação é possível não apenas no Templo Sagrado, através do Cohen Gadol, mas para todo judeu em suas preces de Yom Kipur. Este é o único dia do ano que tem cinco serviços de prece, correspondendo aos cinco níveis da alma.

Na última prece do serviço, Ne'ilah, o quinto e mais elevado nível da alma é revelado, um nível que é a quintessência da alma. "Ne'ilah" significa "trancar", indicando que naquela hora os judeus estão trancados sozinhos com D'us. A essência de um judeu é mesclada e unida à essência de D'us.

Yom Kipur, então, é um dia no qual não existem fatores externos, quando apenas a essência do judeu espalha seu brilho.

Teshuvá pode erradicar o pecado e as manchas na alma; Yom Kipur transcende inteiramente o conceito de pecado e arrependimento – e por isso traz uma expiação mais elevada que em qualquer outra época.

23 de set. de 2006

O que há com o islã?

O que há com o islã?

Revista Época - Edição 436 - 25/09/2006

Mundo


O que há com o islã?
A declaração do papa Bento XVI e o apoio da União Européia mostram que o Ocidente não está mais disposto a acalmar os radicais muçulmanos. E já discute se dentro do próprio islamismo os extremistas não teriam derrotado os moderados

Marcelo Musa Cavallari


O Papa Bento XVI estava de volta ao tipo de lugar em que se sente mais à vontade: uma sala de aula. Durante a visita que fez a sua Alemanha natal, o papa deu uma Aula Magna na Universidade de Regensburg. Relembrando os tempos em que lecionava na Universidade de Bonn, onde era professor de Teologia Católica e onde também havia um curso de Teologia Protestante, Bento XVI escolheu falar da relação entre fé e razão. Para ilustrar seu ponto, citou um velho livro medieval que narra os debates entre o imperador bizantino Manuel II Paleólogo e um persa sobre cristianismo e islã. "Mostre-me o que Maomé trouxe de novo e só se encontrarão coisas más e desumanas, como a ordem de espalhar pela espada a fé que ele pregava", disse o imperador na citação lembrada pelo papa. Para Bento XVI, o importante na citação não era sua condenação ao islamismo.
O ponto a ser ressaltado era o argumento do imperador contra a violência. Agir contra a razão - convencer alguém a aderir a uma idéia à força, por exemplo - era contrário à natureza de Deus.

DOMÍNIO DA FÉ
Refugiado afegão reza sob a lua crescente, símbolo do islã. A religião rege todos os aspectos da vida dos muçulmanos
REAÇÃO
Papa Bento XVI. Ele não pediu perdão após citação considerada ofensiva pelos muçulmanos
Mas foi como uma ofensa que a fala de Bento XVI foi tomada por boa parte do mundo muçulmano. Governos de países islâmicos protestaram formalmente contra as declarações do papa. Organizações islâmicas pacíficas exigiram pedidos de desculpas. Nas ruas, protestos davam vazão à ira gerada pelo comentário. Grupos radicais muçulmanos ameaçaram atacar igrejas, o Vaticano e o próprio papa. Bento XVI lamentou que sua aula tivesse sido interpretada de maneira a ser tomada como ofensa pelos muçulmanos. Mas não se retratou. "A aula era, e é, um convite ao diálogo", disse o papa.
Ao longo de toda a sua carreira na Igreja, Joseph Ratzinger, o atual papa Bento XVI, mostrou ser um teólogo de primeira linha e um intelectual sofisticado. É uma ingenuidade imaginar que ele não tenha previsto que a escolha da citação fosse gerar polêmica. Deve-se entender o que o papa disse no contexto de sua abordagem do problema islâmico. Bento XVI fazia em Regensburg uma defesa da razão. Defendia-a contra o relativismo intelectual do mundo moderno e contra as tendências anti-racionais dentro da Igreja Católica. Ao estender o debate ao islã, Bento XVI retomou uma linha de pensamento que tem marcado sua ação: a crença em que o islã é incompatível com a Europa. A tradição cristã da Europa, herdeira do pensamento filosófico grego, é que dá fundamento às mais importantes características européias. O islã, com sua idéia de que Deus é tão transcendente que sua liberdade não pode ser limitada por nada, nem pela razão que ele próprio deu ao homem, é incompatível com a visão ocidental sobre Deus e o homem, diz o papa.
Desde que assumiu o cargo, Ratzinger vem dizendo que a expansão do islã e a violência do radicalismo islâmico são um problema sério para a Europa e para o Ocidente. O papa é talvez o mais preeminente defensor dessa tese, mas está longe de ser o único. Pouco depois que começaram os protestos pela aula de Regensburg, a União Européia (UE) divulgou uma nota oficial. Nela, reconhecia o direito do papa de usar sua liberdade de expressão. Principalmente dentro de uma universidade, um preceito defendido unanimemente em países democráticos.
O documento da UE marca uma mudança de comportamento. Desde o 11 de setembro, todas as manifestações ocidentais oficiais têm sido no sentido de separar o islã do radicalismo islâmico e de defender as suscetibilidades das populações muçulmanas. O caso das caricaturas de Maomé publicadas em um jornal dinamarquês no ano passado ilustra isso. Boa parte dos países, mas principalmente os Estados Unidos, condenou a decisão do jornal de desenhar o profeta do islã. Só isso já era uma blasfêmia, pois o islã proíbe imagens de Maomé. Ainda mais, de maneira irônica. Diante das violentas manifestações, considerou-se a publicação das charges uma ofensa aos sentimentos religiosos dos muçulmanos e uma provocação gratuita. Mesmo depois que o jornal lembrou que imagens cristãs e judaicas já haviam sido alvo de caricatura inúmeras vezes no Ocidente e ninguém destruiu embaixadas ou queimou bandeiras nas ruas.
Desta vez, a mensagem da UE para os muçulmanos é bem diferente. A Europa democrática convive com a liberdade de expressão e não está disposta a abrir mão dela, diz a nota. E os muçulmanos vão ter de se acostumar com isso. Depois de anos propondo o diálogo e vendo o radicalismo islâmico florescer, o Ocidente parece ter perdido a paciência. Faz sentido? O islã é, por si só, uma ameaça ao Ocidente e aos valores ocidentais de democracia, liberdade de expressão e direitos individuais? Ou são os radicais que deturpam o verdadeiro islã?
continuação (pág.2)
RADICAL
Osama Bin Laden e seu fuzil AK-47, no Afeganistão, em 1998: seu objetivo final é derrubar regimes "infiéis" nos países árabes
Na Europa, a opinião de que o problema é o próprio islã não se restringe mais às figuras da extrema direita. Aderiram a ela algumas pessoas que ocupam o s centro da cena cultural européia. O escritor britânico Martin Amis, por exemplo. Num longo artigo publicado no jornal britânico Observer na véspera do quinto aniversário do 11 de setembro, ele se dedica, com especial virulência, a afirmar que existe uma incompatibilidade do islã com o que considera louvável no mundo ocidental. E traça um cenário especialmente pessimista. Segundo ele, a análise mais corrente, em que se baseia até mesmo a política americana para o Oriente Médio, é que o mundo muçulmano está em crise de identidade. O aumento da violência religiosa dos últimos anos seria, segundo essa análise, provocado pela disputa entre os que querem modernizar as sociedades islâmicas e os radicais muçulmanos. Por isso, o que estaria em curso não seria um choque de civilizações entre islã e Ocidente, mas sim uma guerra civil dentro do próprio islã. "Bem, a guerra civil parece ter acabado", escreve Amis. "E o radicalismo islâmico venceu." O perdedor, o islã moderado, é enganosamente bem representado nas páginas de opinião dos grandes jornais do mundo, diz Amis. "Em todos os outros lugares ele parece estar calado."
Para gente como Amis, não se trata de saber se Maomé pregava a violência ou se o Corão incita os jovens muçulmanos a se tornar terroristas suicidas. Citar exemplos de versículos do Corão em que o profeta fala da paz e condena a violência não basta, diz Amis. Porque, de alguma maneira, "o radicalismo islâmico, em termos de força capaz de moldar o mundo, é basicamente tudo o que se vê". De que a violência perpetrada pelo radicalismo islâmico assusta o mundo pós-11 de setembro não há mais dúvida. Também é fato que a quase totalidade dos ataques terroristas na última década está ligada ao radicalismo islâmico. Mas, para algumas vozes que começam a se erguer na Europa, a suposta incompatibilidade entre islã e Ocidente teria raízes mais profundas.
"Os muçulmanos não querem nossa liberdade. Eles não sabem o que é isso. São escravos de Deus. Não compreendem conceitos como liberdade de escolha e independência", diz a jornalista Oriana Fallaci, morta na sexta-feira 15 de câncer, em sua última entrevista internacional (leia a íntegra na sequencia da matéria). Polêmica ao longo de toda sua carreira, Fallaci vendeu milhões de cópias dos três livros que escreveu sobre a ameaça que enxergava na crescente comunidade islâmica européia. Em menos de três décadas, relata Fallaci, a Europa se tornou o lar de 20 milhões de muçulmanos. Com uma taxa de natalidade consideravelmente maior que a européia, essa enorme comunidade tende a se tornar maioria num futuro tão próximo quanto, ao menos para Fallaci, assustador. A Europa caminha para se tornar uma Eurábia, diz Fallaci. E, conseqüentemente, perder sua identidade.
Há, porém, estudiosos ocidentais que enxergam no Corão outras coisas além do incentivo ao radicalismo ou a preconceitos machistas. "Um estudo sério do islã", diz a escritora britânica Karen Armstrong, "mostra que por 1.400 anos os ideais do Corão contribuíram para o bem-estar espiritual dos muçulmanos". Armstrong foi, durante sete anos, uma freira católica. Hoje é escritora e professora e se considera uma freelance espiritual. Desde seu livro Uma História de Deus, Armstrong se dedica a tentar entender, e divulgar, os elementos que poderiam unir, em vez de dividir, as três grandes religiões monoteístas do mundo: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo.
Ao longo de sua vida, narra Armstrong em Maomé, uma Biografia do Profeta, Maomé "transformou inteiramente as condições de vida de seu povo, resgatando-o da violência estéril e da desintegração e dando-lhe nova e orgulhosa identidade. Agora estavam preparados para fundar a própria cultura, e os ensinamentos de Maomé liberaram tamanha energia que, num prazo de cem anos, o império árabe se estenderia de Gibraltar ao Himalaia ". Maomé foi civilizador, chefe político, comandante militar e fundador de uma religião. Tudo ao mesmo tempo. Ele nasceu numa Península Arábica ainda politeísta e dividida em tribos. Em 622, durante um mês de retiro espiritual que já fazia parte da religião politeísta dos árabes, Maomé recebeu de um anjo, segundo a tradição muçulmana, a ordem de recitar. Aquilo que recitou eram os ensinamentos da nova religião. Corão, nome que significa recitação, seria o título do livro que, depois da morte de Maomé, compilaria seus ensinamentos. E sob esse título se tornaria o livro sagrado dos muçulmanos.
O Corão não narra uma história. Ele apenas compila os ditos de Maomé. Mas ao longo do livro fica-se conhecendo parte da história de sua vida. Depois de ter recebido a mensagem de Deus, Maomé tinha por missão transmitir o estrito monoteísmo aos árabes. Para livrar a Península Arábica do paganismo, teve de unificar todas as tribos. Foi perseguido e teve de fugir de Meca para Medina. É esse episódio, conhecido como Hégira, que marca o início da contagem do tempo no calendário muçulmano. De Medina, Maomé dá início à série de campanhas militares que culminará com a tomada de Meca. Finalmente, todos os líderes tribais se submetem a Maomé. Ele purifica de todos os resquícios pagãos o santuário da Caaba, hoje o local mais sagrado do islã, na Arábia Saudita.
Continuação (pág.3)
Depois de sua morte, Maomé foi sucedido por Abu Bakr, seu amigo e sogro. Estava já impregnado da mentalidade islâmica de que o conjunto dos fiéis deveria estar todo unido sob o mesmo chefe. Aquilo que foi a marca da ação temporal de Maomé seria depois a dos califas, nome que se deu aos sucessores de Maomé na liderança da comunidade muçulmana. Assim como Maomé submetera toda a Península Arábica a sua versão do monoteísmo, os califas submeteriam o resto do mundo. A expansão árabe ganhou terreno sobre o território dos impérios Persa e Bizantino.
As disputas sucessórias dariam origem à grande divisão entre os muçulmanos. Parte deles considerou que o herdeiro de Maomé tinha de ser um membro de sua família. Ali, genro do profeta, seria o escolhido. Em meio à disputa, o filho de Ali, Hussein, foi morto no Iraque. Essa morte marca a origem dos xiitas, partidários de Ali, grupo que representa cerca de 14% dos muçulmanos no mundo e só é majoritário no Irã, no Iraque e no Líbano. O restante são os sunitas. A unidade política do mundo muçulmano foi rompida. O território conquistado era grande demais para que fosse diferente. Mas a idéia de unidade de todos os fiéis sempre permaneceu como ideal. A última encarnação dessa idéia foi o Império Otomano, cuja queda, depois da Primeira Guerra Mundial, está na raiz da conturbada história do mundo islâmico no século XX.
FANATISMO
Homens-bomba do grupo Hezbollah no Líbano (à esq.) e protestos de muçulmanos na Índia: para alguns analistas, a origem da intolerância islâmica com o Ocidente está no próprio Corão
Os turcos otomanos chegaram a dominar um império que se estendia do Marrocos ao Iraque e incluía parte considerável da Europa. Ao começar a Primeira Guerra Mundial, em 1914, eles haviam perdido terras importantes, como o Egito, além de praticamente todas as possessões européias. Antes invencíveis, foram surpreendidos pelo avanço dos impérios europeus - primeiro a França de Napoleão, depois a Inglaterra, depois a Áustria-Hungria. A defasagem entre o poderio ocidental e o otomano levou um grupo de militares turcos, no início do século XX, a um programa radical de modernização. A idéia era aprender as técnicas ocidentais e colocá-las a serviço de um país secularizado. O islã ficaria relegado à esfera privada. Só depois da derrota turca na Primeira Guerra Mundial o programa foi posto em prática, por Kemal Ataturk. Ele acabou com a monarquia e criou a república da Turquia. O resto do território otomano foi dividido entre as potências européias vencedoras. Os países se tornaram independentes ao longo do século XX. Inspirado pelo modelo turco, e especialmente pelo fascismo e pelo nazismo europeus, surgiu o nacionalismo árabe. A idéia era implantar a nacionalidade como fator de integração e formar uma república árabe laica. O modelo foi vitorioso no Egito, com Gamal Abdel Nasser, na Síria, com Hafez Assad, e no Iraque, com uma série de ditadores militares, até chegar a Saddam Hussein.

Nesse mesmo ambiente em que cresceu o nacionalismo árabe surgiu a opção que acabaria se transformando no radicalismo islâmico. Em 1928, no Egito, o professor de escola primária Hassan al-Banna fundou a Sociedade dos Irmãos Muçulmanos, ou Irmandade Muçulmana. O diagnóstico de Banna era que a decadência do mundo islâmico não se devia à falta de progresso técnico ou modernidade, mas à decadência da religião. A solução era retornar ao islã primordial, descrito no Corão. Não era uma idéia nova. Periodicamente movimentos de retorno a uma pureza original geraram renovações no islã. Uma delas é o wahabismo do século XVIII, que, pregando uma obediência estrita ao Corão, levou à formação da Arábia Saudita depois da Primeira Guerra Mundial.
Projeto de reforma moral e pessoal antes de mais nada, a Irmandade Muçulmana foi radicalmente modificada pela obra do egípcio Sayyd Qutb. O fundador da Irmandade Muçulmana, Banna, havia sido assassinado quando Qutb escreveu os livros Justiça Social no Islã e Marcos. Neles, descrevia como deveria ser organizada uma sociedade islâmica, em que os preceitos do Corão, a sharia, teriam de regular toda a vida humana. Surgia a base ideológica do radicalismo islâmico. O conceito de jihad, ou guerra santa, ganhava as cores radicais com que é hoje conhecido. Por ironia, Qutb desenvolveu suas teorias durante um período de estudos nos Estados Unidos. Em 1954, de volta ao Egito, ele foi preso, implicado numa tentativa de matar o presidente secular Nasser. Foi executado em 1966. Suas idéias são a base intelectual de quase todos os grupos radicais islâmicos atuais, como o Hamas e a Al Qaeda.
Continuação (pág.4)
O CAMINHO DO FUTURO?
O rei Mohammed VI, do Marrocos, tenta criar uma alternativa ao secularismo árabe e aos regimes fundamentalistas islâmicos
Dois fatos históricos criaram as condições para que essas idéias radicais se propagassem. O primeiro foi a fundação do Estado de Israel, em 1948. Combatido primeiramente pelos nacionalistas árabes, o Estado judaico passou a ser visto, ao longo das décadas e das guerras regionais, como um representante da cultura ocidental no Oriente Médio, apoiado e financiado pelos EUA. E como um ocupante infiel de Jerusalém, a terceira cidade mais sagrada para o mundo islâmico.
O segundo foi a Revolução Iraniana, liderada pelo aiatolá Ruholah Khomeini, em 1979. Ele derrubou a ditadura do xá Reza Pahlevi com o apoio de socialistas e comunistas. Sua revolução, no princípio, era vista com simpatia pela Europa. Mas, em 1982, o regime endureceu. Criou-se um Estado xiita "puro", que patrocinava grupos radicais na região e enfrentou o então poderoso Iraque (sunita e socialista) numa guerra que matou 1 milhão de pessoas.
Mais que o Ocidente, a ideologia radical islâmica tem como principais alvos os governos laicos ou pouco religiosos. Mesmo o arquiterrorista Osama Bin Laden, escolhido pelo presidente americano George W. Bush como inimigo número um dos EUA, não tem o Ocidente como seu inimigo prioritário. Seu principal objetivo político é a derrubada da família real saudita. Para Bin Laden, os governantes sauditas traíram o islã com sua política de aproximar-se do Ocidente e enriquecer-se com o petróleo. Os EUA só se tornaram inimigos de Bin Laden por seu envolvimento no Oriente Médio, derivado do interesse estratégico ligado ao petróleo, e pela ligação com Israel.
A violência do terrorismo suicida faz com que o mundo islâmico pareça sem saída. Aos Estados autoritários, como a monarquia saudita ou a república iraniana, parece opor-se apenas uma violenta militância islâmica. Há uma solução turca, que tenta impor o modelo ocidental e reservar a prática do islã à esfera privada. Mas ela obriga a uma mudança no coração do islã que as fontes da religião não autorizam. Não se pode ser islâmico sem uma dimensão política e social da religião. O Corão prevê que toda a ordem da vida seja determinada pelos ensinamentos de Maomé.
Há, porém, outras leituras do Corão. Segundo o místico ortodoxo sudanês Mahmoud Muhammad Taha, o Corão foi revelado a Maomé em duas fases. A primeira foi em Meca, onde o profeta e seus seguidores viveram 13 anos como minoria religiosa. Essa mensagem seria de paz e liberdade, coexistência e igualdade de direitos, independentemente de sexo, classe social, raça ou religião. Seria o islã original. A segunda fase foi em Medina, que Maomé governou. Ali, os versos de compulsão da fé pela espada teriam prevalecido. Seria um islã adaptado às necessidade do século VII. No século XX, dizia Taha, os muçulmanos deveriam voltar sua atenção à mensagem de Meca. Mas Taha foi perseguido e enforcado pelo governo sudanês em 1985. Sua visão de islã ficou restrita a poucos fiéis.
É por isso que a figura do rei do Marrocos, Mohammed VI, tem tanta importância. Mais novo representante de uma dinastia que está no poder há 350 anos e que reivindica uma descendência direta de Maomé, Mohammed VI está provocando uma tranqüila revolução em seu país. "Como Comandante dos Fiéis, não há a menor possibilidade de que combata a religião", diz Mohammed, aludindo a um dos títulos a que sua condição de rei do Marrocos lhe garante. "Eu combato a ignorância e a violência." Ele afirma que está tudo no Corão. No poder desde 1999, o jovem rei busca o sentido mais profundo das ordens de Maomé. E se preocupa mais em obedecer ao que seria a intenção do profeta que com as interpretações que se cristalizaram ao longo dos séculos. Assim, interpreta os ditos do profeta que descrevem a submissão da mulher ao marido não como indicação de que a mulher deve valer menos que homem.
A intenção do profeta, diz o rei, era defender a família organizada e estável. Dessa visão decorreu uma reforma na legislação de família que, entre outros avanços impensáveis para o resto do mundo árabe, tirou do marido o direito de se divorciar da mulher apenas com uma declaração unilateral. Além disso, a mulher também pode entrar na Justiça pedindo divórcio. As mudanças implantadas por Mohammed VI têm agradado tanto à porção mais laica da sociedade quanto aos partidos islâmicos. Mas são muito recentes. Ainda não dá para dizer se terão futuro no Marrocos. Muito menos se esse descendente de Maomé vai conseguir um dia reinventar o islã.
Continuação (pág.5)
14 séculos de História
Desde a morte de Maomé, quando os mulçulmanos iniciam um movimento de expansão territorial, até a invasão do Iraque pelas tropas americanas, o Ocidente e o islã tiveram uma longa série de conflitos
610

Maomé teria recebido as primeiras revelações que constam do Corão
622

Aos 52 anos, Maomé foge com seus seguidores de Meca para Medina. Começa o calendário muçulmano
630

Os muçulmanos tomam Meca e tiram o caráter politeísta do culto à Caaba, uma construção de pedra sagrada. Os chefes tribais da Península Arábica prometem submissão a Maomé
632

Morre Maomé e o poder passa para Abu Bakr, escolhido como califa. No ano seguinte, começa a expansão do islã. Egito, Síria, Palestina, Mesopotâmia, partes da África e dos impérios Persa e Bizantino são tomados
680

A morte de Hussein, em meio à disputa pela sucessão dos califas, dá origem aos seguidores de Ali, ou xiitas. Até hoje, a divisão dos xiitas é a mais tensa dentro da comunidade muçulmana
710

Árabes muçulmanos invadem a Espanha. A expansão de seu domínio na Península Ibérica vai até 732, quando são vencidos na Batalha de Tours
1099

Os cruzados tomam Jerusalém quatro anos depois de o papa Urbano V conclamar os cristãos a organizar uma expedição militar para tirar os lugares santos do cristianismo do domínio muçulmano
1193

Morre Saladino, o curdo que venceu os cruzados e se proclamou sultão do Egito e da Síria
1281

Começa o reinado de Osman, fundador do Império Turco- Otomano, que vai dominar a maior parte do mundo islâmico e durar até o século XX
1453

Cai a cidade de Constantinopla. O imperador otomano toma o controle do agora extinto império bizantino
1492

Isabel e Fernando, reis da Espanha, conquistam os últimos bastiões árabes da Espanha. Os muçulmanos e os judeus são forçados a se converter ao cristianismo ou deixar o país
1520

Tropas francesas sob o comando de Napoleão Bonaparte invadem o Egito. São expulsas pouco tempo depois pela Marinha britânica. Os otomanos apenas assistiram impotentes às duas invasões
1798

Tropas francesas sob o comando de Napoleão Bonaparte invadem o Egito. São expulsas pouco tempo depois pela Marinha Britânica. Os otamanos apenas assistiram impotentes às suas invasões
1918

Depois de entrar na Primeira Guerra Mundial ao lado da Alemanha, o Império Otomano cai. A Turquia se torna uma república. O antigo território do Império se fragmenta e dá origem aos atuais países árabes
1928

Hassan Al Banna funda no Egito a Sociedade dos Irmãos Muçulmanos, ou Irmandade Muçulmana. Defendendo um retorno à pureza islâmica como saída política, a organização está na origem do radicalismo islâmico
1948

A ONU decide que o protetorado britânico da Palestina seja dividido em dois países, um judeu e um árabe. Israel declara sua independência e tem início a série de guerras entre o país e seus vizinhos árabes
1954

Sayyid Qutb, responsável pela radicalização dos Irmãos Muçulmanos e por fundar a moderna noção de Jihad, ou guerra santa, é preso por envolvimento numa tentativa de assassinato do presidente egípcio Gamal Abdel Nasser
1967

Na Guerra dos Seis Dias Israel vence seus vizinhos, pondo em xeque a eficácia dos governos nacionalistas, então a ideologia dominante no mundo árabe, e ocupa os territórios palestinos
1975

Começa a Guerra Civil no Líbano. O conflito, que se estendeu até 1990, rompeu o delicado equilíbrio que existia no país entre as comunidades muçulmanas e cristãs
1979

O aiatolá Ruhollah Khomeini assume o poder no Irã depois da derrubada do xá Reza Pahlevi. O Irã se torna uma república islâmica e começa a exportar sua versão de radicalismo islâmico para outros países
1980

A União Soviética invade o Afeganistão. Milícias muçulmanas, com apoio dos EUA, combatem os russos. Militantes muçulmanos de todo o mundo árabe se oferecem para lutar. É a origem da Al Qaeda, nome que significa "A Base"
1987

Começa a Intifada, revolta palestina nos territórios ocupados por Israel. Inicia-se a atividade do Hamas, principal grupo terrorista islâmico palestino.
1993

Falha a primeira tentativa de terroristas islâmicos de derrubar o World Trade Center, em Nova York
1998

A Al Qaeda ataca duas embaixadas americanas na África, matando mais de 200 pessoas
2001

O maior atentado terrorista da História mata quase 3 mil pessoas no ataque conjunto com aviões seqüestrados ao World Trade Center, em Nova York, e ao Pentágono, em Washington
2001

O presidente George W. Bush declara guerra ao terrorismo. Os EUA invadem o Afeganistão para derrubar o regime dos talebans, que davam guarida à Al Qaeda
2003

Os EUA invadem o Iraque e derrubam o ditador Saddam Hussein
Continuação (pág.6)
A reação no Brasil
O discurso do papa Bento XVI incomodou também os muçulmanos do país

LÍDER
O xeque Abdune, principal autoridade islâmica no Brasil
As palavras do papa Bento XVI também irritaram a comunidade islâmica no Brasil. "Uma pessoa como ele deveria ter mais cautela, e mais informações, sobre essas questões. A frase citada foi dita num período de guerra. Espero que ele peça desculpas", disse o xeque Ali Abdune, de 42 anos, presidente do Conselho Superior dos Teólogos e Assuntos Islâmicos no Brasil e principal representante da comunidade muçulmana no país.
O xeque Abdune representa também o mufti do Líbano. O mufti é a maior autoridade religiosa de um país islâmico. O xeque Abdune é a única pessoa no Brasil autorizada a emitir fatwas, os decretos islâmicos sobre questões cotidianas. Abaixo dele estão cerca de 40 xeques, quase todos estrangeiros. Os brasileiros estudaram em universidades islâmicas em países como a Arábia Saudita, a Síria e o Egito.
Nascido em Mato Grosso do Sul, criado no Líbano e formado em Medina, na Arábia, o xeque Abdune fala com sotaque e voz pausada. Por meio de gestos suaves, expressa posições firmes. Ele não atribui os atentados em Nova York, Madri e Londres à ação de islâmicos. Acredita num complô ocidental. "Nada foi confirmado. A cada ano as coisas vão clareando e se vê que os próprios Estados Unidos têm uma mão nessa questão", afirma.
O xeque Salah Sleiman, de 42 anos, responsável pela Mesquita Brasil, em São Paulo, tem a mesma opinião. "O Corão condena atos contra inocentes. Mas ainda existem dúvidas. Mesmo nos Estados Unidos há uma divisão sobre essa questão e não existe certeza absoluta de que o responsável pelo atentado ao World Trade Center tenha sido Bin Laden", diz.
Se o discurso político dos líderes parece defender os radicais, os costumes da maioria dos muçulmanos brasileiros são bastante liberais. É raro ver alguma mulher com o xador, o véu sobre a cabeça, e nem todos fazem as cinco orações diárias. De acordo com as lideranças, aproximadamente 1,5 milhão de brasileiros professam o islamismo. O último censo, porém, aponta um número bem menor - 27.233. Eles se reúnem em cerca de cem mesquitas, concentradas em São Paulo. São, na maioria, descendentes de sírios e libaneses.


Ivan Padilla
Continuação (pág.7)
Entrevista - "Conversas sobre a mesquita"
Uma das maiores críticas do islã, a jornalista italiana Oriana Fallaci concedeu entrevista ao editor que lançou o polêmico concurso de caricaturas de Maomé

A jornalista Oriana Fallaci morreu aos 77 anos, no dia 15 de setembro, de câncer. Destemida e inflexível, foi uma correspondente de guerra e entrevistadora extraordinariamente corajosa, tornando-se uma das mais conhecidas repórteres do mundo. Embora tenha ficado reclusa nos últimos anos, concedeu uma entrevista poucos meses antes de morrer ao jornalista dinamarquês Flemming Rose. Rose era o editor de cultura do jornal Jyllands-Posten. E lançou um concurso de caricaturas do profeta Maomé. As vencedoras foram publicadas em 2005 e geraram, alguns meses depois, violentas reações em comunidades muçulmanas do mundo todo. Rose lançou o concurso como um desafio. Percebia uma autocensura entre os profissionais europeus, que concediam aos símbolos religiosos islâmicos um respeito que não achavam obrigatório em relação a símbolos cristãos ou judaicos. Assustado com a reação ao desafio, Rose fez uma série de entrevistas com personalidades que pensaram sobre o islã, que ÉPOCA publicará nas próximas edições. A de Oriana Fallaci inaugura a série.


DESAFIO
Flemming Rose, que lançou o concurso de charges,
entrevistou intelectuais sobre o islã
Na conversa, Rose e Fallaci discutiram as visões controversas que ela expressou em três livros sobre o islã e a cultura ocidental: A Raiva e o Orgulho, A Força da Razão, e, mais recentemente, O Apocalipse . A seguir, o texto que Rose produziu a partir da conversa com Oriana Fallaci:
Fallaci demonstrou uma coragem incomum pela primeira vez aos 14 anos, na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial. Ela se juntou à resistência em sua cidade natal, Florença, onde seu pai havia sido capturado e torturado. Nas décadas seguintes, fez seu nome como a mais importante correspondente de guerra, cobrindo conflitos no Camboja, Vietnã, Oriente Médio e América Latina. Ficou gravemente ferida em 1968, quando estava cobrindo o massacre, pelo Exército mexicano, de estudantes em protesto.
Ao longo de sua carreira, Fallaci entrevistou, como ela mesma chamou, "os f... da p... estúpidos que mandam em nossas vidas". Conhecida por suas perguntas incansáveis e pelo estilo confrontador, suas entrevistas eram uma espécie de teatro em que os entrevistados eram provocados de forma a fazer declarações imprudentes.
Após os atentados do 11 de setembro, ela voltou-se contra o que chamou de "Eurábia", um conceito emprestado do historiador Bat Ye'or, que descreve uma tentativa do mundo muçulmano de "colonizar" a Europa. Os novos livros de Fallaci sobre o islã levaram a censuras por parte dos intelectuais mais importantes, que antes aclamavam o que ela escrevia.
Encontrei-me com ela, magra e enfraquecida pelo câncer, em seu apartamento em Nova York no dia 19 de abril.


Flemming Rose - A esquerda européia não é mais, digamos assim, uma admiradora sua, mas houve um tempo em que você era praticamente um ícone e liderava a crítica contra a Guerra do Vietnã.
Oriana Fallaci - Não. Isso não é verdade. Uma anarquista como eu não poderia jamais ser um ícone para essas pessoas, que lá no fundo são bolcheviques. Eu não pertenço a ninguém. Vou contar uma história. Em 1967, fui para Saigon, no sul do Vietnã, e escrevi do front algumas reportagens muito críticas. Os comunistas ficaram tão felizes com elas que me convidaram para ir a Hanói, no Vietnã do Norte, porque acharam que eu estava do lado deles. Enquanto estava com eles, experimentei o regime mais stalinista, fascista, que eu já vi, e escrevi uma reportagem ainda mais crítica sobre o Vietnã do Norte. Eles ficaram bravos e tentaram me desacreditar. O lado maravilhoso da liberdade do indivíduo é que ele não pode ser controlado. Pessoas como eu proclamam a verdade quando a encontram. Algumas vezes ela favorece a esquerda, outras vezes a direita. Ambos começam a detestar você quando percebem que não podem colar suas etiquetas.

Rose - Você se encontrou com o papa Bento XVI no ano passado. Sobre o que vocês conversaram?
Fallaci - Foi um encontro entre espíritos livres. Eu, uma atéia declarada, fui sua primeira convidada particular depois de sua posse. Respeito isso. Eles percorreram um longo caminho. Tornaram-se mais liberais, ao contrário do islã. Confio em Ratzinger. É um grande pensador e é um homem que acredita na razão. Ele está defendendo os valores ocidentais quando diz que a Europa não gosta mais de si mesma. Isso é muito importante. Eu também me preocupo com o crescente ódio a si mesma que atormenta a Europa. Essa foi a premissa de nosso encontro. Ele chora pela Europa, repreende a Europa. Sob esse aspecto somos aliados. Ele faz isso de uma forma delicada e educada, enquanto eu o faço de forma selvagem.

''Estamos enfrentando
um novo fascismo
na Europa,
o fascismo islâmico''
Oriana Fallaci, jornalista

Rose - Seu embate com o islã afastou muitos dos que a apoiavam. Qual a conexão que você vê entre seus escritos iniciais e esses livros recentes sobre o islã?
Fallaci - Em primeiro lugar, eu nunca vendi tantos livros como nos últimos quatro anos. Os três livros sobre o islã venderam mais de 5 milhões de exemplares na Itália. Segundo, estou fazendo agora exatamente o que eu fazia antes. Estamos enfrentando um novo fascismo na Europa, o fascismo islâmico. Eu não quero o profeta deles, seu Corão, sua burca, seu xador e suas cinco preces diárias. Eles podem ir para casa e praticar sua religião, obrigada, mas não a tragam para dentro da minha. Não quero abrir mão da minha liberdade. Os muçulmanos não querem a nossa liberdade. Eles não sabem o que é. São escravos de Deus. Não compreendem conceitos como liberdade de escolha e independência. Graças a meus pais e a uma longa tradição familiar, tive a sorte de ser criada na religião da liberdade. Quando você está lidando com fascistas, é preciso lutar contra eles. Ponto. Não sinto nada em especial em relação a essa situação. Em princípio, não é novidade, ela se liga a experiências anteriores da minha vida. Você não viu as coisas que eu vi quando era criança. Coisas como aquelas você jamais esquece. Viram uma cicatriz na alma.

Rose - O que você viu?
Fallaci - Vi o que é o fascismo, o nazismo, a tirania, a violência, a destruição, a tortura, o ataque a uma cultura. Liberdade, como ensinou Platão, é disciplina. Não é a liberdade para fazer qualquer coisa que você queira, ser descomedido. A liberdade requer sacrifício - é um dever, antes de tornar-se um direito. Não se deve confundir liberdade e licenciosidade. Se o fizermos, a perderemos. Sou anticlerical, e em nosso tempo isso quer dizer antiislâmica, porque o cristianismo tornou-se tão liberal que não exige nada de nós, mas o islã quer nos punir por não sermos islâmicos. Querem conquistar o mundo todo, é isso o que diz seu Mein Kampf (livro de Adolf Hitler que estabeleceu as bases da ideologia nazista), o Corão, e é estúpido não levar isso a sério. É o que querem. Toda essa conversa sobre islã moderado e radical, islã bom e mau, não faz sentido. Há somente um islã, e ele está no Corão.
Rose - O que no Corão preocupa você?
Fallaci - Que você deverá ser punido e morto se não for mulçumano. Que mulheres não podem liderar, podem ser discriminadas. Não podemos coexistir com esse tipo de gente. Não é possível um diálogo. É sobre isso que eu escrevi.

Rose - Você sofreu ameaças de morte e, nos últimos quatro anos, viveu sob a proteção do FBI. É pior que ser correspondente de guerra?
Fallaci - Sim. A guerra é um jogo justo. Você atira em mim, eu atiro em você. Mas isso é traição. Acontece pelas costas. Fui uma ótima correspondente de guerra. Provavelmente porque já havia estado em uma guerra de verdade antes, então eu não tinha medo - ou melhor, aprendi a controlar o medo, porque é claro que você tem medo, só um idiota não fica com medo, mas nunca entrei em pânico.


Fotos: Adress Latif/Reuter, Alessandra Benedetti/Stock Photos, Karin Sahib/AFP, Arq. Ed Globo, AP, AFP, Joseph Barrak/AFP, Sajjad Hussain/AFP, AFP, Claudio Rossi/ÉPOCA, Marty Lederhander/AP, AP, Fracesco Scauullo, AFP e reprodução

 O Mundo do Islamismo

O Mundo do Islamismo


PERSPECTIVAS
O Islã no centro do mundo
A religião que mais cresce vive uma hora decisiva

CADA VEZ MAIOR: peregrinação anual a Meca, um dos pilares do Islã

O mundo islâmico vem sendo rotineiramente devassado nos meios acadêmicos há muito tempo. Contudo, até 11 de setembro de 2001, quando dezenove muçulmanos praticaram o maior atentado terrorista da História, as multidões nos países ocidentais não sabiam que o universo dos turbantes era muito mais complexo do que parecia. Depois do fim do comunismo, os Estados Unidos e seus aliados - os países industrializados da Ásia e da Europa - convenceram-se de que a modernidade, a democracia e a economia de mercado são desejadas em todo o mundo. Devido a outra escala de valores, porém, tais novidades não são bem-vindas para um número significativo de muçulmanos. Foi a descoberta de que o Islã era um dos limites da globalização, até então despercebido.
Após o choque resultante da carnificina cometida em nome de Alá, o mundo islâmico foi repentinamente iluminado por um holofote. Nunca, até onde a memória alcança, uma civilização foi tão escrutinada como a muçulmana está sendo nos dias atuais. Uma cultura e uma fé que viviam relegadas à periferia do mundo dito civilizado despertam agora um interesse voraz em pessoas que até outro dia dispunham de pouquíssimas referências sobre o universo islâmico. Os governos das nações poderosas também estão ávidos por entender e agir de forma a evitar uma explosão nas sociedades dos turbantes que elegeram como seu herói o terrorista Osama bin Laden e como bandeira a guerra santa aos valores ocidentais. E, no decorrer desse processo de exploração, a opinião pública mundial descobriu que esse universo era menos administrável do que se imaginava.

20% do mundo - Para elevar ainda mais o grau de importância dessa revelação, pesquisas realizadas ao redor do globo mostraram que o islamismo é a religião que mais cresceu nas últimas décadas, e que essa tendência não mudou depois do 11 de setembro. Em 1973, havia 36 países com maioria muçulmana no planeta; exatos trinta anos depois, eles já eram 47. Também no início dos anos 70, o islamismo reunia cerca de 370 milhões de fiéis. Três décadas depois, eles chegaram a 1,3 bilhão. Hoje, quase 20% da população do mundo é muçulmana, e estima-se que, em 2020, de cada quatro habitantes do planeta um seguirá o islamismo. Essa explosão demográfica - em parte provocada pela proibição religiosa do uso de métodos contraceptivos - está devolvendo ao islamismo uma força considerável.

E não é só no Oriente: com o liberalismo religioso da maior parte do Ocidente, os muçulmanos também se espalham com alguma facilidade. Só na Europa, berço da civilização cristã, existem 20 milhões de muçulmanos, e quase metade deles está instalada na Europa Ocidental. Há mesquitas até na Roma dos papas. Outro fator que emprestou maior visibilidade aos países islâmicos está em sua imensa riqueza estratégica: são donos das mais generosas reservas de petróleo do mundo. Entre os cinco maiores produtores de óleo do Oriente Médio, o PIB conjunto quadruplicou nos últimos trinta anos, enquanto o PIB mundial apenas dobrou de tamanho. O crescimento do rebanho e a fartura do petróleo, no entanto, produziram um barril de pólvora.

Bomba-relógio - Em geral, os regimes dos países islâmicos são ditaduras teocráticas e a riqueza não é distribuída, deixando a maior parte da população relegada à miséria. É dentro desse caldeirão paradoxal que ressurgiu a força da religião, em especial depois da Revolução Islâmica no Irã, em 1979. O Islã é multifacetado por várias nações, mas tem uma característica curiosa: não produziu um só país democrático e desenvolvido. O contraste entre a pobreza dos fiéis e a riqueza do Ocidente fomentou rancor. A resposta às dificuldades materiais e à falta de liberdade, levantada nas mesquitas, é a de que a identidade religiosa supera todos os valores políticos. A questão tornou-se urgente depois do 11 de setembro, mas até agora não se encontrou uma resposta: como desarmar a bomba-relógio do radicalismo islâmico? Enquanto os nós não forem desfeitos, é possível que o extremismo e o fanatismo, embora restritos a grupos minoritários, sigam achando espaço para ensangüentar a história humana.


ANTECEDENTES
As raízes de uma religião pacífica
A mensagem do profeta Maomé era de tolerância

FANATISMO É MINORIA: muçulmanas oram pela paz depois do 11/9



A ligação entre a carnificina provocada pelos terroristas muçulmanos e as raízes verdadeiras da fé islâmica é o maior problema enfrentado nos dias atuais pela religião mais praticada do planeta. Dezenas de milhões de pessoas, em especial no Ocidente, confundem o islamismo com uma prática religiosa radical e raivosa, que convoca seus seguidores a matar inocentes, permite (e recompensa) o suicídio em nome de Deus e não tolera crenças diferentes. De acordo com a esmagadora maioria dos especialistas, religiosos e fiéis, contudo, a verdadeira face do Islã é exatamente oposta: a de uma fé que estimula o entendimento e desencoraja o conflito.

A própria origem do termo Islã - ou "rendição", em árabe - está ligada à palavra salam, que significa "paz". O fundador do islamismo, o profeta Maomé, dedicou sua vida à tentativa de promover a paz em sua terra, a Arábia. Antes do Islã, as tribos árabes estavam presas num círculo vicioso de ataques, revides e vinganças. O próprio Maomé e seus primeiros seguidores escaparam de dezenas de tentativas de assassinato e de uma grande ofensiva para exterminá-los em Meca. O profeta teve de lutar, mas em nome da própria sobrevivência - quando acreditou estar a salvo, passou a dedicar-se exclusivamente à reconciliação das tribos, através de uma grande campanha ideológica de não-violência. Quando morreu, no ano de 632, a meta havia sido cumprida - e justamente em função de seus ensinamentos sobre paz e tolerância.

Espírito de caridade - Quando revelou a base da crença islâmica pelos versos do Corão, Maomé convivia com uma guerra em larga escala em sua terra. Assim, muitas passagens das escrituras sagradas dos muçulmanos tratam de conflitos armados, da execução de inimigos, da guerra em nome de sua crença. Os terroristas e radicais de hoje, contudo, gostam de citar o Corão apenas nos trechos em que se convoca a luta, e não nos versos em que se prega a paz e o entendimento. Pouco depois do ataque de 11 de setembro de 2001, a escritora americana Karen Armstrong, autora de vários livros sobre a religião islâmica, compilou alguns desses versos. A seguir, alguns deles:

No Corão, os muçulmanos recebem a ordem de Deus para "eliminar os inimigos onde quer que eles estejam". A frase é uma das preferidas de Osama bin Laden e seus discípulos do terror. No verso seguinte, contudo, a mensagem é a segunte: "Se eles deixarem-no em paz e não fomentarem guerra, e oferecerem a paz, Deus não permite que sejam machucados".

O texto sagrado dos muçulmanos diz que a única forma aceitável de guerra é aquela conduzida em auto-defesa. Os muçulmanos jamais devem iniciar as hostilidades. A guerra é sempre manifestação do mal, indica o Corão, mas às vezes é preciso lutar para preservar seus valores - ou, como fez o profeta Maomé em Meca, para combater perseguições e se livrar dos opressores.

Em certo trecho, o Corão cita a Torá, escritura sagrada dos judeus, ao dizer que é permitido ao muçulmano retribuir uma agressão - olho por olho, dente por dente. O texto ressalta, porém, que perdoar e deixar de lado as vinganças em nome de um espírito de caridade é uma atitude digna de mérito e admiração.

Quando a guerra é necessária e justificada, as hostilidades contra o inimigo devem acabar logo que for possível. A guerra termina quando o inimigo acena com um gesto de paz. O Corão também diz que os outros povos, mesmo quando forem inimigos, jamais devem ser forçados a seguir a crença dos muçulmanos: "Não deve haver coerção nos assuntos da fé!"

Na mais famosa distorção a respeito da doutrina muçulmana, a palavra "jihad" é traduzida no Ocidente como "guerra santa" - quando, na verdade, equivale a "luta", "esforço", "empenho". O termo se refere ao esforço que deve ser empregado para que a vontade de Deus seja colocada em prática em todos os aspectos da vida - não só na política, como também na vida pessoal e social. Há relatos de que Maomé disse certa vez, ao retornar de uma batalha: "Estamos voltando da jihad menos importante para a jihad maior", que seria a tentativa de curar os males da sociedade.

O Corão diz que os "Povos das Escrituras", os cristãos e judeus - principais alvos dos extremistas islâmicos hoje, - devem ser respeitados. Em um de seus últimos discursos, o profeta Maomé teria dito: "Formamos nações e tribos para que conhecessem uns aos outros" - ou seja, não para que os povos conquistassem outros povos e tentassem oprimir suas crenças.

Reação à modernidade - Se a brutalidade contra outros povos e religiões é proibida, se a guerra é uma manifestação do mal, se o inimigo só pode ser atacado se agredir primeiro, por que os radicais muçulmanos continuam usando a religião para justificar seus atos de terrorismo? Para quase todos os especialistas, essa pergunta não tem uma resposta sensata - o que significa que a luta dos extremistas é, de fato, ilegítima e injustificada. Na avaliação de Karen Armstrong, a forma militante de culto religioso surgida no século XX sob a classificação de fundamentalismo é uma reação à modernidade. Seus seguidores estão convencidos de que a sociedade liberal e secular visa acabar com a religião - assim, os princípios de sua fé acabam desvirtuados e distorcidos em nome de uma luta irracional. Desta forma, enxergar em Osama bin Laden e em seus seguidores terroristas uma representação legítima da tradição e da fé islâmica é um erro gravíssimo. Resta à maioria dos muçulmanos, que condenam os atos terroristas e as interpretações radicais das escrituras, a árdua missão de reverter essa imagem e reforçar as raízes pacíficas de sua crença.

ANÁLISEA minoria que agride e assusta
O que está por trás do extremismo no mundo islâmico?

CONTRA O OCIDENTE: protesto anti-EUA na tensa Karachi, Paquistão


Com o surgimento dos primeiros indícios de que a onda de terror de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos foi obra de radicais islâmicos, uma questão tornou-se inevitável: quem é essa gente que se suicida jogando aviões contra edifícios? Que se veste de bombas e se explode em supermercados e pizzarias de Israel? Que estoura carros recheados de explosivos contra muros de quartéis? Quem é, enfim, essa gente que se mata em nome de Alá? Atualmente, calcula-se que exista em torno de 1,3 bilhão de muçulmanos no mundo, divididos em diversas correntes religiosas - e apenas uma parcela pequena está disposta a entregar a vida pela causa. São muçulmanos que integram ramificações extremistas da religião, como os sunitas do Afeganistão e os xiitas do Líbano, para os quais o suicídio em nome de Alá, normalmente cometido aos gritos de "Deus é grande", é uma forma suprema de entrega ao amor divino. A maioria dos muçulmanos, no entanto, repudia os ataques suicidas e os considera pecado extremo, uma ofensa contra Alá, na medida em que atenta contra o dom da vida - um dom divino. "O primeiro equívoco comum entre ocidentais e cristãos é considerar todo islâmico um extremista suicida e, por extensão, um terrorista em potencial", adverte a historiadora Maria Aparecida de Aquino, da Universidade de São Paulo.

O islamismo é a religião que mais cresce no planeta, e ganhou visibilidade nas últimas décadas em função de sua imensa riqueza estratégica: eles são donos das mais generosas reservas de petróleo do mundo. O crescimento do rebanho e a fartura do petróleo, no entanto, produziram um barril de pólvora. Em geral, os regimes dos países islâmicos são ditaduras teocráticas e a riqueza não é distribuída, deixando a maior parte da população relegada à miséria. É dentro desse caldeirão paradoxal que ressurgiu a força da religião, em especial depois da Revolução Islâmica no Irã, em 1979. "Num ambiente de carência social e autoritarismo político, a religião funciona como uma poderosíssima válvula de escape", define a historiadora Maria Aparecida de Aquino, da USP. Mas isso não é tudo. Até pouco tempo atrás, a América Latina também convivia simultaneamente com miséria e ditadura - e, no entanto, nunca se viram grupos extremistas de latino-americanos promovendo atos de terrorismo pelo mundo afora em nome de sua libertação econômica e política. Por que então alguns grupos de fanáticos islâmicos chocam o mundo com espetáculos inimagináveis de terror? A explicação sobre o que move esses extremistas, segundo alguns especialistas, talvez esteja num dado mais sutil: o choque de civilizações.

Cimitarra no coração - "Os Estados nacionais permanecerão como os atores mais poderosos no cenário mundial, mas os principais conflitos globais ocorrerão entre nações e grupos de diferentes civilizações", aposta o professor Samuel P. Huntington, especialista em estudos internacionais da Universidade Harvard e autor de um livro dedicado ao assunto. "O choque de civilizações será a linha divisória das batalhas do futuro." Nem todos os estudiosos do assunto concordam com a tese de Huntington, mas não há como negar que, num mundo cada vez menor, cada vez mais próximo, a religião também funciona como um instrumento de afirmação da identidade nacional. E a globalização crescente é um processo que se desenrola sob o comando inequ ívoco do mundo ocidental - em especial, do império americano.

As potências ocidentais não trilham sua trajetória segundo parâmetros da Bíblia, da fé cristã, dos ensinamentos de Jesus, mas, mesmo assim, elas acabam por se contrapor, culturalmente, aos países muçulmanos, muitos dos quais se pautam pelo Corão, pela fé islâmica, pelos ensinamentos de Maomé. Hoje, as potências ocidentais encontram-se no auge do poder. Os Estados Unidos, com sua incomparável pujança econômica, seu formidável poderio militar e sua vigorosa influência política e cultural sobre os destinos do mundo, representam o triunfo dos valores ocidentais - pelo menos aos olhos de fundamentalistas islâmicos, que, é sempre bom lembrar, são uma minoria entre os muçulmanos. Daí por que o terror de 11 de setembro não se esgotou na destruição de arranha-céus e na morte de inocentes. Pretendeu, sobretudo, cravar uma cimitarra no coração e no orgulho da maior potência ocidental.

McDonalds no Líbano - Os extremistas, que enxergam o mundo pela oposição entre Jesus e Maomé, se ressentem da avassaladora influência ocidental sobre o planeta - nos costumes, nos hábitos de consumo, no modo de vida. Tanto que, em países dominados por radicais islâmicos, especialmente os talibãs do Afeganistão, tudo o que lembra a cultura ocidental é proibido e severamente punido. Mas, de novo, isso não é uma regra. No Irã, há grandes anúncios de produtos ocidentais pelas ruas de Teerã, existem mulheres procurando cirurgiões plásticos, num sinal de vaidade antes inadmissível, e é muito expressivo o contingente feminino que freqüenta a universidade - uma raridade em algumas nações islâmicas que confinam a mulher aos limites do lar. "Há aspectos do capitalismo ocidental que são plenamente aceitos pelas populações muçulmanas", diz um diplomata brasileiro que serviu por oito anos no Líbano. "As cadeias de fast food, como o McDonald's, fazem sucesso do Marrocos ao Líbano," diz ele.

"Sem dúvida, o extremismo religioso está ligado às frustrações, principalmente entre os mais jovens, pois os países árabes têm economia fraca, analfabetismo e desemprego crescente", afirma Sharif Shuja, professor de relações internacionais da Universidade Bond, na Austrália. "Mas, além disso, o massacre de muçulmanos na Bósnia, na Chechênia, na Palestina e na Caxemira faz o mundo árabe imaginar que o Ocidente está contra ele", completa o especialista. A melhor maneira de reduzir o crescimento do extremismo talvez esteja na expansão democrática dos países islâmicos - tema ao qual as potências ocidentais vinham dedicando pouca atenção até 11 de setembro. A riqueza econômica do petróleo, por si só, não foi capaz de melhorar esse cenário. "Na verdade, ocorreu o contrário", analisa o professor Michael Hudson, da Universidade Georgetown. "Jordânia, Líbano, Marrocos e Palestina, que não têm reservas petrolíferas, hoje são países muito mais abertos que os ricos em petróleo, como Arábia Saudita, Iraque e Líbia." A exceção é o Irã, único islâmico rico que vive um acelerado processo de democratização.

'Todas as armas' - Osama bin Laden e sua corte de fanáticos vivem na clandestinidade, enfurnados em cavernas do Afeganistão, envoltos numa aura de mistério, mas seus objetivos são bem claros. Basta consultar os escritos do milionário que virou o mais exaltado dos radicais islâmicos. Primeiro, ele pretende expulsar os militares americanos das bases que eles mantêm na Arábia Saudita, onde a mera presença de não-muçulmanos é vista pelos fanáticos como uma profanação do solo santo onde nasceu o Islã. "Todos os esforços devem ser concentrados em combater, destruir e matar o inimigo até que, pela graça de Alá, esteja completamente aniquilado", esclarece Laden, em documento datado de 1996. Realizada a primeira missão divina, ele pretende partir para a segunda, de alcance mais amplo: unir todos os muçulmanos numa mesma comunidade, governada de acordo com a interpretação mais literal e estrita dos preceitos do Corão.

Para isso, os governos dos países muçulmanos considerados corrompidos pela influência ocidental - ou seja, todos - devem ser varridos do mapa. Sem fronteiras nacionais, unificados sob esse governo ideal, chamado califado, os verdadeiros crentes se lançariam então rumo à etapa final - arrebatar o resto do planeta. "Chegará o tempo em que vocês desempenharão papel decisivo no mundo, de forma que a palavra de Alá seja suprema e as palavras dos infiéis sejam subjugadas", prometeu ele a seus seguidores. Em qualquer uma dessas etapas, o dever dos muçulmanos é empregar todas as armas possíveis para atacar os inimigos de Alá. O título do documento em que faz essa afirmação diz tudo: "A Bomba Nuclear do Islã". Parece coisa de uma mente delirante, dos gênios do mal caricaturados no cinema ou nas histórias em quadrinhos. A forma aberrante de fanatismo religioso pregada por Laden, porém, tem raízes bem fincadas na história da religião muçulmana, constantemente marcada por esse desejo de mergulhar na fonte original, de beber da palavra mais pura do Corão, de reviver um passado mítico.

Período de decadência - Uma comparação que ajuda a entender a mentalidade fundamentalista é com a Igreja Católica na fase em que se encontrava quando tinha a mesma "idade" do Islã hoje. Naquela época, os padres da Santa Inquisição queimavam pessoas que não acreditassem em dogmas católicos. Torturavam e matavam suspeitos de crimes como bruxaria. Qualquer idéia inovadora era condenada, mesmo que fosse uma idéia científica defendida por pesquisadores de talento, como Galileu Galilei, que sofreu perseguição no século XVII por ter afirmado que a Terra girava em torno do Sol. Os historiadores também coincidem ao apontar as razões desse movimento de refluxo: em comparação com seu passado glorioso, os países islâmicos vivem hoje um período de decadência. O Ocidente cristão, com o qual conviveram e combateram ao longo dos séculos em pé de igualdade, às vezes até de superioridade, superou-os vastamente em matéria de progresso material, científico, administrativo e tecnológico. A primeira organização fundamentalista moderna, a Fraternidade Muçulmana, foi criada em 1928 pelo xeque Hasan al-Banna num Egito humilhado pelo colonialismo britânico. Também ganharam contornos de males a ser combatidos as liberdades individuais, a emancipação das mulheres, as mudanças nos padrões familiares e outras transformações que se sucederam nas sociedades ocidentais.

Chegamos, assim, àquilo que distingue o fundamentalismo em sua vertente mais extremada: o recurso à violência como meio não só legítimo como obrigatório. Ancorados em textos do Corão ou ensinamentos do profeta e seus seguidores, evidentemente interpretados da maneira mais literal, os fundamentalistas aperfeiçoam há séculos uma teoria da violência total. "Aqueles que ignoram tudo do Islã pretendem que ele recomende não fazer a guerra. São insensatos. O Islã diz: 'Matem todos os infiéis da mesma maneira que eles os matariam'", escreveu um dos aiatolás que lançaram as bases da revolução fundamentalista que derrotou o regime do xá Reza Pahlevi no Irã. O aiatolá complementa: "Aqueles que estudam a guerra santa islâmica compreendem por que o Islã quer conquistar o mundo inteiro. Todos os países subjugados pelo Islã receberão a marca da salvação eterna. Pois eles viverão sob a luz da lei celestial". Quando Osama bin Laden diz que "matar americanos e seus aliados, civis e militares, é um dever individual de todo muçulmano que tenha condições de fazer isso, em qualquer lugar onde seja possível fazer isso", ele está seguindo exatamente o mesmo raciocínio.


DEBATE
O papel da mulher no islamismo
Elas ainda sofrem, mas a culpa não é apenas da religião

POR TRÁS DOS VÉUS: garota olha entre mulheres afegãs com burcas

A lista de horrores já soa, a esta altura, familiar. Meninas proibidas de ir à escola e condenadas ao analfabetismo. Mulheres impedidas de trabalhar e de andar pelas ruas sozinhas. Milhares de viúvas que, sem poder ganhar seu sustento, dependem de esmolas ou simplesmente passam fome. Mulheres com os dedos decepados por pintar as unhas. Casadas, solteiras, velhas ou moças que sejam suspeitas de transgressões - e tudo o que compõe a vida normal é visto como transgressão - são espancadas ou executadas. E por toda parte aquelas imagens que já se tornaram um símbolo: grupos de figuras idênticas, sem forma e sem rosto, cobertas da cabeça aos pés nas suas túnicas - as burqas. Quando o Afeganistão entrou no noticiário por aninhar os terroristas que bombardearam o World Trade Center e o Pentágono, essas cenas de mulheres tratadas como animais voltaram a espantar o Ocidente. Elas viviam em regime de submissão absoluta havia muito tempo, mas a situação ficou ainda pior desde que a milícia Talibã tomou o poder no país, em 1996.
O cenário de Idade Média não era uma prerrogativa afegã. Trata-se de uma avenida permanentemente aberta aos regimes islâmicos que desejem interpretar os ensinamentos do Corão a ferro e fogo. A isso se dá o nome de fundamentalismo. Há países de islamismo mais flexível, como o Egito, e outros de um rigor extremo, como a Arábia Saudita. Para o pensamento ortodoxo muçulmano, a mulher vale menos do que o homem, explica Leila Ahmed, especialista em estudos da mulher e do Oriente Próximo da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos. "Um 'infiel' pode se converter e se livrar da inferioridade que o separa dos 'fiéis'. Já a inferioridade da mulher é imutável", escreveu Leila num ensaio sobre o tema, em 1992.

Por trás dessa situação há uma ironia trágica. A exclusão feminina não está presente nas fundações do islamismo, mas apenas no edifício que se erigiu sobre elas. O Corão, livro sagrado dos muçulmanos, contém versículos dedicados a deixar claro que, aos olhos de Alá, homens e mulheres são iguais. O mais importante deles é o que está reproduzido nesta página. Ele mostra que Deus espera a mesma fidelidade de ambos os sexos, e que a premiará de forma idêntica. O Corão é o mandamento divino, e não uma interpretação qualquer da vontade de Deus. Como se explica, então, que idéias tão avançadas tenham se perdido, para dar lugar a Estados religiosos em que as mulheres têm de viver trancafiadas e cobertas por véus, em pleno século XXI? As respostas têm de ser buscadas muito longe, no próprio nascimento do Islã.

Casamento aos 9 - Quando tinha 25 anos, Maomé se casou com Khadidja, uma viúva rica que o empregara para supervisionar sua caravana de comércio entre a cidade de Meca, na atual Arábia Saudita, e a Síria. A própria Khadidja, de 40 anos, propôs as núpcias, num arranjo que não era assim tão incomum. Naquela época, a Arábia era uma das poucas regiões do Oriente Médio em que o casamento comandado pelo marido ainda convivia com outros tipos de união. Acredita-se que havia até mulheres que tinham vários maridos - e muitas viviam com considerável autonomia pessoal e financeira. Era o caso de Khadidja, uma negociante experiente. Alguns anos depois de seu casamento, Maomé começou a receber o que seriam revelações de Deus. Julgando-se louco, procurou o conselho da esposa. Ela dispersou suas dúvidas e, para provar sua confiança no marido, converteu-se à nova religião. O primeiro muçulmano foi, assim, uma mulher. Quando Khadidja morreu, Maomé entrou em vários casamentos simultâneos. A mais célebre de suas esposas é Aisha, que tinha 9 anos na ocasião das bodas. Segundo alguns relatos, ela brincava no quintal quando foi chamada para dentro de casa. Lá, encontrou o noivo e foi posta sobre seus joelhos. Os pais da menina se retiraram, e o casamento teria se consumado ali, na casa paterna.

Aisha é uma figura central nesses primeiros anos do Islã (cujo calendário começa a ser contado no ano 622 da era cristã). Inteligente, articulada e dona de uma memória prodigiosa, ela foi a mais querida e respeitada das mulheres do profeta - embora todas partilhassem de seus ensinamentos e apoiassem ativamente sua causa. Eram, aliás, tão assediadas por pessoas em busca de favores e influência que talvez por isso tenham sido as primeiras muçulmanas (e, por algum tempo, as únicas) a usar véu e ficar recolhidas em casa - e, ainda assim, só nos últimos anos da vida de Maomé. Aisha tinha 18 anos quando Maomé morreu. Nas quase cinco décadas seguintes de sua vida, ela foi inúmeras vezes consultada em pontos importantes da religião, da política e também da conduta do profeta. Isso porque Maomé legou aos muçulmanos o Corão, que é quase um tratado ético, mas não teve tempo de regulamentar todos os princípios que deveriam reger o cotidiano dos convertidos. Quando vivo, podia ser consultado a qualquer momento. Depois de sua morte, tornou-se tarefa de seus seguidores próximos transferir da memória para a escrita as palavras e ações do profeta. A intenção era que o conjunto servisse de guia aos fiéis. Esses "ditados" são os Hadith. Juntos, eles compõem a tradição maior, a Sunna. Com as complicações surgidas por causa da sucessão de Maomé, os Hadith tornaram-se uma ferramenta crucial. Não era difícil que alguém sacasse um deles para resolver um impasse. E, é claro, não demorou para que muitos fossem forjados. Cerca de 200 anos depois da morte do profeta, um respeitado historiador do islamismo, al-Bukhari, contou 7 275 Hadith genuínos, contra quase 600.000 inventados. Mesmo os tidos como verdadeiros merecem algum escrutínio, argumentam estudiosos como a marroquina Fatima Mernissi.

Fatima investigou a origem dos Hadith que são as pedras angulares para justificar a inferioridade feminina no Islã. Um deles é o que compara as mulheres aos cães e jumentos na sua capacidade de perturbar a oração. Fatima concluiu que o narrador desse Hadith, Abu Hurayra, era um homem com sérios problemas de identidade sexual e um feroz opositor de Aisha, que amiúde o repreendia em público por sua mania de inventar Hadith. Nessa ocasião, ela corrigiu Hurayra, dizendo que o profeta costumava rezar perto de suas mulheres sem nenhum medo de que elas o atrapalhassem. Mas sua versão não passou à história. Outro Hadith que todo muçulmano sabe de cor é o que diz que "aqueles que confiam seus negócios a uma mulher nunca conhecerão a prosperidade". Segundo Fatima Mernissi, o surgimento desse Hadith é ainda mais misterioso. Abu Bakra, seu narrador, lembrou dessa frase do profeta (e pela primeira vez) mais de vinte anos depois de supostamente ela ter sido dita. Curiosamente, veio-lhe à memória (assim ele afirmou) no momento em que Aisha sofreu sua grande derrocada. A viúva do profeta virou o centro de uma crise quando, ao suspeitar de um golpe, pegou em armas para intervir numa das etapas da sucessão de Maomé. Na batalha que se seguiu, perdeu 13.000 de seus soldados e saiu derrotada, em vários sentidos. Foi, primeiro, criticada por ter se exposto de uma maneira inconveniente a uma mulher. E, com a perda de prestígio, teve muitos de seus comentários e correções sobre importantes Hadith suprimidos ou ignorados - como no caso daquele que fala dos cães e jumentos. Esses são só alguns exemplos de como a voz feminina, tão valorizada nos primórdios do Islã, começou a se silenciar.

Ideais de pureza - A pesquisadora Leila Ahmed tem mais explicações para a opressão das mulheres no Islã. Os muçulmanos, diz ela, costumavam manter os hábitos das regiões onde se firmavam, desde que esses estivessem em sintonia com seu pensamento. O restante era descartado. Na Arábia, por exemplo, eliminaram as outras formas de casamento para que prevalecesse apenas o patriarcal. Quando conquistaram a região que hoje abarca o Irã e o Iraque, assimilaram a prática de formar haréns, o uso disseminado do véu para as mulheres e, principalmente, os mecanismos de repressão feminina que eram uma característica marcante dos povos locais. Foi nesse ambiente altamente misógino que, nos séculos seguintes, o direito islâmico foi elaborado. Separado em escolas que diferem em vários pontos, mas se apresentam como sendo timbres diversos de uma só voz, esse direito é dado como absoluto e imutável. Seus princípios não podem ser questionados nem relativizados à luz de traços culturais. Por isso são, até hoje, um instrumento útil para calar as mulheres em países nos quais vigora o regime teocrático. Um dado complicador é que as muçulmanas têm até hoje um conhecimento muito vago da lei divina. Aderem ao fundamentalismo atraídas pelos ideais de pureza da religião e, quando ele é instaurado, são surpreendidas por seus rigores - a exemplo do que ocorreu no Irã dos aiatolás.

Não é pequena a importância de estudos históricos como os de Leila Ahmed e Fatima Mernissi. Eles ajudam a demonstrar que a liberdade feminina não equivale à ocidentalização e à aculturação - ou, em outras palavras, à traição do Islã. Pelo contrário: é possível ser, ao mesmo tempo, uma muçulmana livre e uma muçulmana fiel. Se a democracia chegou para as mulheres que vivem sob a égide da civilização judaico-cristã, que também não é lá muito célebre por sua visão feminista do mundo, não há por que ela não possa ser almejada pelas muçulmanas que se orgulham de sua religião. Em tempo: um dia, um seguidor de Maomé lhe indagou qual a pessoa que ele mais amava no mundo. "Aisha, minha mulher", respondeu o profeta. Irritado com uma resposta assim, no feminino, o curioso insistiu: "E qual o homem que o senhor mais ama?". Maomé não hesitou. "Abu Bakr. Porque ele é o pai de Aisha."

POLÍTICA
A democracia poderá prosperar?
A ofensiva para reformar os regimes mais opressores

POUCOS PODEM VOTAR: muçulmana na eleição presidencial argelina

Entre mais de meia centena de países com maioria muçulmana, apenas três nações adotaram regimes com características democráticas: Turquia, Bangladesh e Indonésia. Com exceção da Turquia, no entanto, nenhum governo islâmico seria reconhecido como democrata pelos padrões ocidentais. Eles são governados por teocracias, monarquias absolutas, ditaduras de partido único e presidentes perpétuos. Mesmo na Turquia a situação é bastante diferente se comparada às democracias ocidentais. Na fundação do país sobre as ruínas do Império Otomano, o Estado tornou-se laico na marra: foram impostas roupas ocidentais, o uso do véu feminino em repartições e escolas públicas foi proibido e o alfabeto árabe foi substituído pelo latino no prazo recorde de seis meses. Os militares turcos trataram de impedir, desde então, que os fundamentalistas chegassem ao poder - na única vez em que isso ocorreu, na década de 90, eles caíram um ano depois de assumir o governo. O Estado supervisiona a educação religiosa, nomeia os 80.000 clérigos do país e paga seus salários. Mesmo assim, o islamismo continua forte. De cada dez turcos, nove fazem o jejum no mês do Ramadã e metade reza cinco vezes por dia para Alá.
A esperança de democracia no Oriente Médio se assenta principalmente na multiplicação dos muçulmanos moderados. Esses personagens não oferecem perigo ao Ocidente. Eles são, no entanto, uma ameaça para os regimes totalitários da região - que ganharam a tolerância do Ocidente por tanto tempo justamente por combaterem os extremistas - na verdade, oprimindo qualque voz forte de oposição. Serão necessárias centenas de milhares deles em dezenas de países para que a química explosiva da região encontre um mínimo de equilíbrio. Para muitos analistas ocidentais, essa possibilidade não passa de uma utopia. Mas todos concordam que a única barreira real de longo prazo para deter o terrorismo religioso são os moderados islâmicos. A eficiência dos serviços de contenção dos radicais prestados por regimes totalitários pró-ocidentais na região está se exaurindo. Essa tendência deve acentuar-se com a presença dos Estados Unidos no Iraque, na exata medida em que os americanos sejam bem-sucedidos na instalação de um governo minimamente representativo no país que já foi de Saddam Hussein e seus asseclas.

Maldição do petróleo - Se no mundo islâmico em geral a democracia é raridade, nos países árabes ela inexiste. Segundo especialistas, a dificuldade de criar regimes democráticos em países árabes decorre de fatores históricos e culturais, mas se agrava hoje em dia em razão de dois aspectos. De um lado, existe um estado permanente de beligerância, pela vizinhança com Israel, o que tende a concentrar o poder nas mãos de um líder ou de um grupo. O constante clima de guerra, além disso, torna prioridade o fortalecimento do Exército, do serviço de inteligência, da polícia secreta, da guarda nacional, instituições que também servem para conter aspirações populares malvistas pelos dirigentes.

De outro lado, a comunidade árabe é dividida pela glória e pela desgraça do petróleo. Quem tem senta-se sobre ele. Quem não tem usa sua influência junto aos países ricos em petróleo para garantir investimentos e ajuda externa. Assim, tanto os com-petróleo quanto os sem-petróleo, excessivamente amarrados à dependência de capital externo, tendem a ignorar as demandas internas por maior participação política. "A principal barreira à democracia no mundo árabe não é o islamismo ou a cultura árabe. É o petróleo", diz o jornalista Fareed Zakaria, jornalista da revista Newsweek e professor da Universidade Harvard. "Como bastava furar o chão para o dinheiro jorrar, não houve a necessidade de criar uma economia capitalista moderna, que exige trabalho duro. Costumo dizer que o petróleo é a maldição do mundo árabe. Pelo menos no que diz respeito à modernização econômica e política. De todos os países com petróleo, apenas um, a Noruega, é democrático."

Sinais de mudança - Na avaliação de outro importante especialista no assunto, o escritor Bernard Lewis, os exemplos de democracia no mundo islâmico são "raros, mas não impossíveis". "É um processo lento e difícil. Não podemos esquecer que generalizações são sempre imprecisas. Quando discutimos o Islã, estamos falando de mais de catorze séculos de história, mais de cinqüenta países, uma tradição cultural de uma diversidade enorme. O Islã pode ser interpretado de várias formas", diz ele. É inegável que os sinais de mudança estão aparecendo. Além dos casos do Iraque e do Afeganistão, em que os americanos investem pesado para estimular a democracia, e do Irã, onde o rígido regime islâmico não impediu uma onda de apoio popular às reformas democráticas, há vários episódios animadores:

Horas depois da queda da capital iraquiana, o presidente do Egito, Hosni Mubarak, anunciou sua desistência de fazer o filho, Gamal, seu sucessor no poder. O Egito está submetido a variações de estado de sítio desde 1931 e seus principais órgãos de imprensa são estatais. Portanto, o gesto de Mubarak tem um peso.

O príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Abdullah bin Abdul Aziz, anunciou em 2003 o desencadeamento de um plano de "aprimoramento econômico e político" que, segundo Alkebsi, prevê a eleição de um Parlamento. Monarquia religiosa, a Arábia Saudita é o país formalmente mais alinhado com o Ocidente na região. Mas existem evidências desconcertantes de que, nos bastidores, a dinastia saudita dá sustentação a grupos terroristas. O aceno com a possibilidade de eleger um Parlamento é a melhor notícia ventilada daquele lado do deserto há dezenas de anos.

Em setembro de 2002, o Marrocos promoveu as primeiras eleições livres de sua história. A ida às urnas foi fiscalizada por monitores internacionais. Um partido ligado ao clero islâmico ganhou um bom número de cadeiras no Parlamento, e o governo reconheceu oficialmente o resultado.

Também no fim de 2002, o Barein, um pequeno país do Golfo com menos de 1 milhão de habitantes, convocou eleições gerais em que, pela primeira vez, as mulheres também puderam votar e se candidatar a cargos eletivos.

Do Iraque à Suíça - A empolgação sobre a possibilidade de espalhar a democracia pelo mundo islâmico contagia os ocidentais, mas os próprios defensores da idéia de que vale a pena semear democracia no deserto alertam para os perigos. O mais evidente deles é o fato de que naturalmente os políticos com ligações com o clero islâmico serão, pelo menos no primeiro momento, os mais populares. Há possibilidade também de que os radicais sejam os mais votados e até que cheguem ao poder pelo voto. Na Argélia, em 1992, os militares deram um golpe preventivo assim que as pesquisas não deixavam mais dúvidas de que os fundamentalistas chegariam ao poder nas eleições gerais daquele ano. O que fazer nesses casos?

Esse é um ponto crucial, pois, se os eleitores dos países árabes suspeitarem que a democracia só vale quando forem eleitos políticos com simpatia pelo Ocidente, todo o processo ficará desmoralizado. "Não esqueçamos que Adolf Hitler chegou ao poder na Alemanha por meio de uma eleição. Se a democracia for introduzida de forma prematura, é possível que tenha vida curta", afirma Bernard Lewis. "Uma eleição livre é o fim de um processo de democratização, não o começo. A democracia é um remédio forte que tem de ser tomado em doses pequenas e com cuidado. Não se pode importar a democracia como quem compra um brinquedo com instruções no estilo monte você mesmo. O Iraque não vai transformar-se numa Suíça da noite para o dia."



ECONOMIA
O caminho para o desenvolvimento
Por que não há países islâmicos entre os mais ricos?

AVANÇANDO POUCO: sauditas acessam a internet num hotel de Riad

Ainda sob o choque do 11 de setembro de 2001, o mundo descobriu, espantado, que os homens que haviam derrubado o maior símbolo do capitalismo mundial viviam num dos países mais miseráveis e arrasados do planeta. A pobreza, obviamente, não é uma exclusividade daquele país. E muito menos se trata de uma criação muçulmana. Mas uma pergunta começou a ser feita: seria o Islã uma barreira intransponível para o surgimento de uma sociedade rica, moderna e democrática? As estatísticas, se não respondem a tal questão, oferecem ao menos uma constatação: não há nenhuma nação com maioria muçulmana que se situe entre as mais avançadas do mundo. Ao contrário - a esmagadora maioria delas ocupa posições vexaminosas nas categorias que aferem o desenvolvimento humano e os graus de instrução e de liberdade da população.
Nem mesmo os países do Golfo Pérsico, que embolsaram centenas de bilhões de dólares nos últimos anos por meio da exportação de petróleo, conseguiram (ou souberam, ou quiseram) melhorar o estado geral das coisas de maneira a incluir-se no clube dos desenvolvidos. Entre os cinco maiores produtores de óleo do Oriente Médio (Irã, Iraque, Arábia Saudita, Emirados Árabes e Kuwait), o PIB conjunto quadruplicou nos últimos trinta anos - enquanto o PIB mundial apenas dobrou de tamanho. Os petrodólares, na verdade, só serviram para aumentar a concentração de renda e criar simulacros de modernidade em meio às areias escaldantes do deserto. Para se ter uma idéia, a família real saudita detém 40% de toda a renda nacional.

Ocidentalização forçada - Nas nações islâmicas, a religião espraia-se pelos campos econômico, social e moral de maneira sufocante. E não se está falando apenas dos regimes teocráticos, como o do Irã e o do Afeganistão. Mesmo nos países com um governo descolado formalmente da hierarquia religiosa, essa distância não é suficiente para neutralizar a crescente ingerência de imãs, aiatolás e ulemás em assuntos que se encontram fora do âmbito teológico. A exceção é a Turquia, que passou por um violento processo de ocidentalização forçada na década de 20. O problema é exatamente esse: entre os muçulmanos, a religião não é parte, mas cada vez mais o todo. Engana-se quem acha ser esse um pecado original.

O totalitarismo islâmico - uma outra designação para o fundamentalismo que hoje Osama bin Laden encarna de forma tão assustadora - é produto recente, tem menos de meio século, como notou o jornalista Fareed Zakaria, da revista Newsweek. Ele foi adubado em terreno secular e árabe. Nasceu no Egito, na década de 50, como resistência ao processo de modernização que o então presidente Gamal Abdel Nasser procurou implementar a ferro e fogo. Nasser causou a reação fundamentalista ao tentar, por meio de uma repressão feroz, divorciar completamente o Estado da religião muçulmana. Falhou, como está claro, principalmente porque suas reformas nunca foram além do aspecto cosmético. E, ao falhar, abriu caminho para que o fundamentalismo ganhasse corpo dentro e fora das fronteiras egípcias.

'Preço dos melões' - No Ocidente, a reforma protestante do século XVI engendrou uma ética que, como demonstrou o sociólogo alemão Max Weber, acabaria por libertar o espírito empreendedor das amarras católicas e impulsionar o capitalismo. O fundamentalismo islâmico do século XX, e que adentra o XXI, é uma mentalidade que, do ponto de vista econômico e social, se originou da oposição cega a avanços de qualquer tipo. Alimenta-se da pobreza e, por isso mesmo, não pode ser apartado dela, sob pena de desaparecer como uma miragem. Daí a razão de seu discurso ser irracional - está sempre atrelado a causas genéricas e vagas, como o "pan-islamismo" e a "destruição do Grande Satã". Nunca se detém sobre as questões que realmente interessam. Em seu grande momento, a revolução iraniana de 1979, o fundamentalismo encontrou sua tradução mais fiel numa frase do aiatolá Khomeini: "A revolução refere-se ao Islã, e não ao preço dos melões".

Para alguns especialistas, não é possível dizer que o islamismo determina o fracasso econômico e comercial de uma nação. No cenário atual, porém, é impossível não culpar o fundamentalismo pela escassez de avanços nos países islâmicos. Ele não encerra projeto que vise, pelo menos em tese, ao desenvolvimento de um povo. No máximo, oferece migalhas assistencialistas - um modo eficiente, aliás, de arregimentar os jovens sem futuro que perambulam nas superpovoadas e caóticas metrópoles do Oriente Médio. A um fundamentalista cabe tão-somente vagar no inferno, com a esperança de alcançar um paraíso que não existe. O Islã é uma barreira para o desenvolvimento? Diante do radicalismo que contaminou a religião nas últimas décadas, infelizmente sim.


A RELIGIÃO ISLÂMICA

Origem

O islamismo foi fundado no ano de 622, na região da Arábia, atual Arábia Saudita. Seu fundador, o profeta Maomé, reuniu a base da fé islâmica num conjunto de versos conhecido como Corão - segundo ele, as escrituras foram reveladas a ele por Deus por intermédio do Anjo Gabriel.

Assim como as duas outras grandes religiões monoteístas, o cristianismo e do judaísmo, as raízes de Maomé estão ligadas ao profeta e patriarca Abraão. Maomé seria seu descendente. Abraão construiu a Caaba, em Meca, principal local sagrado do islamismo. Para os muçulmanos, o islamismo é a restauração da fé de Abraão.

Ainda no início da formação do Corão, Maomé e um ainda pequeno grupo de seguidores foram perseguidos por grupos rivais e deixaram a cidade de Meca rumo a Medina. A migração, conhecida como Hégira, dá início ao calendário muçulmano. Em Medina, a palavra de Deus revelada a Maomé conquistou adeptos em ritmo acelerado.
O profeta retornou a Meca anos depois, perdoou os inimigos e iniciou a consolidação da religião islâmica. Quando ele morreu, aos 63 anos, a maior parte da Arábia já era muçulmana. Um século depois, o islamismo era praticado da Espanha até a China. Na virada do segundo milênio, a religião tornou-se a mais praticada do mundo, com 1,3 bilhão de adeptos.



A RELIGIÃO ISLÂMICA

Profeta Maomé

Maomé nasceu em Meca, no ano de 570. Órfão de pai e mãe, foi criado pelo tio, membro da tribo dos coraixitas. De acordo com historiadores, tornou-se conhecido pela sabedoria e compreensão, tanto que servia de mediador em disputas tribais. Adepto da meditação, ele realizava um retiro quando afirmou ter recebido a primeira revelação de Deus através do anjo Gabriel. Na época, ele tinha 40 anos. As revelações prosseguiram pelos 23 anos restantes da vida do profeta.

Contrário à guerra entre tribos na Arábia, Maomé foi alvo de terroristas e escapou de várias tentativas de assassinato. Enquanto conquistava fiéis, empregava as escrituras na tentativa de pacificar sua terra - tarefa que cumpriu antes de morrer, aos 63 anos, depois de retornar a Meca. Para os muçulmanos, Maomé é uma figura digna de extrema admiração e respeito, mas não é o alvo de sua adoração. Ele foi o último dos profetas a trazer a mensagem divina, mas só Deus é adorado.



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Conversão

Não é preciso ter nascido muçulmano ou ser casado com um praticante da religião. Também não é necessário estudar ou se preparar especialmente para a conversão. Uma pessoa se torna muçulmana quando proferir, em árabe e diante de uma testemunha, que "não há divindade além de Deus, e Mohammad é o Mensageiro de Deus". O processo de conversão extremamente simples é apontado como um dos motivos para a rápida expansão do islamismo pelo mundo. A jornada para a prática completa da fé, contudo, é muito mais complexa. Nessa tarefa, outros muçulmanos devem ajudar no ensinamento.



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Crenças

A base da fé islâmica é o cumprimento dos desejos de Deus, que é único e incomparável. A própria palavra Islã quer dizer "rendição", ou "submissão". Assim, o seguidor da religião islâmica deve obedecer às escrituras, orar e glorificar apenas seu Deus e ser fiel à mensagem que Maomé trouxe.

Os muçulmanos enxergam nas escrituras divulgadas por Maomé a continuação de uma grande linhagem de profecias, trazidas por figuras que fazem parte dos livros sagrados dos judeus e cristãos - como Adão, Noé, Abraão, Moisés, Davi e Jesus. Os cristãos e judeus, aliás, são chamados no Corão Povos das Escrituras, com garantia de respeito e tolerância.

O seguidor do islamismo tem como algumas de suas obrigações "promover o bem e reprimir o mal", evitar a usúria e o jogo e não consumir o álcool e a carne de porco. Um dos principais desafios do muçulmano é obter êxito na jihad - que, ao contrário do que muitos acreditam no Ocidente, não significa exatamente "guerra santa", mas sim o esforço e a luta do muçulmano para agir corretamente e cumprir o caminho indicado por Deus.

Os muçulmanos acreditam no dia do juízo final e na vida após a morte, quando o praticante da religião recebe sua recompensa ou sua punição pelo que fez na Terra. Acreditam também na unidade da "nação" do Islã - uma crença simbolizada pela gigantesca peregrinação anual a Meca, que reune muçulmanos do mundo todo, lado a lado.



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Cinco pilares

Os cinco pilares do islamismo formam a estrutura de vida do seguidor da religião. São eles:

Pronunciar a declaração de fé intitulada "chahada": "Não há outra divindade além de Deus e Mohammad é seu Mensageiro".

Realizar as cinco orações obrigatórias durante cada dia, no ritual chamado "salat". As orações servem como uma ligação direta entre o muçulmano e Deus. Como não há autoridades hierárquicas, como padres ou pastores, um membro da comunidade com grande conhecimento do Corão dirige as orações. Os versos são recitados em árabe, e as súplicas pessoas são feitas no idioma de escolha do muçulmano. As orações são feitas no amanhecer, ao meio-dia, no meio da tarde, no cair da noite e à noite. Não é obrigatório orar na mesquita - o ritual pode ser cumprido em qualquer lugar.

Fazer o que puder para ajudar quem precisa, no chamado "zakat". A caridade é uma obrigação do muçulmano, mas deve ser voluntária e, de preferência, em segredo. O muçulmano deve doar uma parte de sua riqueza anualmente, uma forma de mostrar que a prosperidade não é da pessoa - a riqueza é originária de Deus e retorna para Deus.

Jejuar durante o mês sagrado do Ramadã, todos os anos. Nesse período, todos os muçulmanos devem permanecer em jejum do amanhecer ao anoitecer, abstendo-se também de bebida e sexo. As exceções são os doentes, idosos, mulheres grávidas ou pessoas com algum tipo de incapacidade física - eles podem fazer o jejum em outra época do ano ou alimentar uma pessoa necessitada para cada dia que o jejum foi quebrado. O muçulmano que cumpre o jejum se purifica ao vivenciar a experiência de quem passa fome. No fim do Ramadã, o muçulmano celebra o Eid-al-Fith, uma das duas principais festas do calendário islâmico.

Realizar a peregrinação a Meca, o "haj". Todos os muçulmanos com saúde e condição financeira favorável deve realizar a peregrinação pelo menos uma vez na vida. Todos os anos, cerca de 2 milhões de pessoas de todas as partes do mundo se reúnem em Meca, sempre com vestimentas simples - para eliminar as diferenças de classe e cultura. No fim da peregrinação, há o festival de Eid-Al-Adha, com orações e troca de presentes - a segunda festa mais importante.



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O Corão

O livro sagrado dos muçulmanos reúne todas as revelações de Deus feitas ao profeta Maomé através do anjo Gabriel. No Corão estão instruções para a crença e a conduta do seguidor da religião - não fala apenas de fé, mas também de aspectos sociais e políticos. Dividido em 114 "suratas" (capítuolos), com vários versículos cada (o número varia de 3 a 286 versículos), o Corão foi escrito em árabe formal e, com o tempo, tornou-se de difícil entendimento.

O complemento para sua leitura é a Sunna, coletânea de registros de discursos do profeta Maomé, geralmente em linguagem mais clara e fluente. Cada uma dessas mensagens tiradas dos discursos é conhecida como "hadith". Como os relatos foram de pessoas diferentes, há muitas divergências entre os registros de ensinamentos do profeta: cada um contava a mensagem da forma que o interessava. Além de contradições, as "hadith" provocaram também uma expansão dos conceitos do Islã, ao incorporar tradições e doutrinas sobre sociedade e justiça - aspecto importante na formação da cultura islâmica em geral, que não ficou restrita à religião.




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Sharia

É a lei religiosa do islamismo. Como o muçulmano não vê distinção entre o aspecto religioso e o resto da sua conduta pessoal, a lei islâmica não trata só de rituais e crenças, mas de todos os aspectos da vida cotidiana. Apesar de ter passado por um detalhado processo de formatação, a lei islâmica ainda é aplicada de formas variadas ao redor do mundo - os países adotam a sharia têm interpretações mais ou menos rigorosas dela.

Na Arábia Saudita, por exemplo, vigora uma das mais conservadoras versões da lei islâmica. O Afeganistão da época da milícia Talibã teve a mais dura e radical aplicação da sharia nos tempos modernos - proibia música e outras expressões culturais e esportivas, restringia gravemente todos os direitos das mulheres e ordenava punições bárbaras. A sharia, porém, é adotada formalmente numa minoria de países com grandes populações islâmicas.



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Mesquitas

As construções reservadas para as orações dos muçulmanos são chamadas mesquitas, ou "masjids". Os prédios, contudo, não precisam ser especialmente construídos com esse fim - qualquer local onde a comunidade muçulmana se reúne para orar é uma mesquita.

Há dezenas de milhares de mesquitas no mundo, e elas vão desde as construções mais esplendorosas, com arquitetura riquíssima, às mais modestas, adaptadas dentro de outras estruturas.

A mesquita de Caaba, em Meca, é uma das mais famosas, pois é o centro da peregrinação do "haj". A mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, também é um local muito visitado pelos muçulmanos de todo o mundo - ela abrigaria a pedra de onde Maomé "ascendeu ao céu".



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Festas e datas

As duas principais festividades do islamismo são o Eid-Al-Adha, que coincide com a peregrinação anual a Meca, e o Eid-al-Fith, quando se quebra o jejum do mês do Ramadã. O mês sagrado, aliás, é o principal período do calendário islâmico.

Os muçulmanos xiitas também comemoram o Eid-al-Ghadir - aniversário da declaração de Maomé indicando Ali como seu sucessor. Outras festas islâmicas são o aniversário de Maomé (Al-Mawlid Al-Nabawwi) e o aniversário de sua jornada a Jerusalém (Al-Isra Wa-l-Miraj).



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Grupos

Os muçulmanos estão divididos entre sunitas, o grupo majoritário, e xiitas, a minoria dentro da religião. Os sunitas formam o tronco principal da religião, ligado à interpretação mais aceita da história islâmica, e reúnem cerca de 90% dos muçulmanos no mundo. A diferença em relação ao Islã xiita é a aceitação à seqüência de califas da história islâmica. Sem características comuns entre si, os muçulmanos sunitas incluem praticantes da religião em todas as partes do mundo e de todas as tendências, dos mais conservadores até os moderados e seculares.

Os xiitas, que reúnem cerca de 10% dos muçulmanos, surgiram como movimento político de apoio a Ali e acabaram formando uma ramificação da religião islâmica. A dissidência surgiu quando os xiitas se uniram para apoiar Ali, primo de Maomé, como o herdeiro legítimo do poder no Islã após a morte do profeta, com base na suposta declaração de que ele era seu sucessor ideal.

A evolução para uma fórmula religiosa diferente teria começado com o martírio de Husain, o filho mais novo de ali, no ano de 680, em Karbala (no atual Iraque). Os clérigos xiitas são os mulás e mujtahids, mas o clero não tem uma hierarquia formal. Os xiitas foram os responsáveis pela revolução islâmica do Irã, em 1979, e têm graves divergências com setores do islamismo sunita.




OS PAÍSES COM MAIORIA ISLÂMICA

Oriente Médio



Arábia Saudita
95% de muçulmanos sunitas, 5% de muçulmanos xiitas

Berço do Islã, abriga as cidades sagradas de Meca e Medina e adota uma interpretação conservadora da lei islâmica. País natal de Osama bin Laden e de quinze dos 19 seqüestradores dos aviões de 11 de setembro de 2001. Em função de sua boa relação com os EUA, a família real sofre a oposição de vários grupos radicais, incluindo a rede Al Qaeda. Sabe-se, porém, que muitas figuras importantes ajudam a financiar os terroristas muçulmanos.



Irã
89% de muçulmanos xiitas, 10% de muçulmanos sunitas

O país se tornou uma República Islâmica depois da revolução de 1979. Desde então, os aiatolás são a autoridade política máxima, cujo poder se sobrepõe ao do presidente e do parlamento, eleitos em votação popular. Desde o fim da década de 90, o Irã vive uma luta entre os clérigos conservadores e os reformistas, que defendem a flexibilização do regime islâmico.



Iraque
60% de muçulmanos xiitas, 32% de muçulmanos sunitas

No regime de Saddam Hussein (um sunita), o estado era secular, e manifestações religiosas eram proibidas dentro da estrutura do governo. Com a queda do ditador, a maioria xiita pretende ter um papel mais influente no comando do país. A guerra teve um efeito contrário ao esperado pelos EUA: o fanatismo religioso e o terrorismo ligado à religião estão mais fortes que na época de Saddam.



Egito
94% de muçulmanos sunitas

O governo e o sistema judicial são seculares, mas as leis familiares são baseadas na religião e a atuação de grupos radicais ainda é grande. O Egito é o local de origem da primeira facção radical do Islã, a Irmandade Muçulmana, e deu origem também ao grupo Jihad Islâmica. Depois da execução do presidente Anuar Sadat pelos radicais, em 1981, o governo prendeu e matou milhares de pessoas na repressão ao extremismo religioso.



Territórios palestinos
90% de muçulmanos

A sociedade e a política palestinas têm fortes tradições seculares. A revolta contra Israel, no entanto, deu força a grupos religiosos radicais (Hamas, Jihad Islâmica, Brigadas de Mártires de Al Aqsa) e a influência do islamismo na política tornou-se dominante.



Líbano
41% de muçulmanos xiitas e 27% de muçulmanos sunitas

Com uma formação de governo que reflete a distribuição religiosa da população (primeiro-ministro é sempre sunita e o presidente do parlamento, xiita), é a terra do grupo radical Hezbolá. Para os EUA, o Hezbolá é uma organização terrorista; para o Líbano, um movimento legítimo de resistência contra os israelenses e uma organização política legalizada.



Jordânia
92% de muçulmanos sunitas

A família real está no poder desde a independência, em 1946 - e sua aceitação se baseia no fato de que os príncipes seriam descendentes diretos do profeta Maomé. A sociedade é conservadora e a interpretação do Islã é rigorosa - costumes de séculos atrás são mantidos graças à religião.

Outros países de maioria muçulmana: Iêmen, Omã, Emirados Árabes Unidos, Catar, Bahrein, Kuwait, Síria



OS PAÍSES COM MAIORIA ISLÂMICA

Ásia



Indonésia
88% de muçulmanos

Apesar de abrigar a maior população muçulmana do planeta, o país tem uma constituição secular. Há dezenas de facções radicais que defendem a adoção da lei islâmica e a formação de um estado com governo religioso, mas os muçulmanos moderados são contra. É a terra do Jemaah Islamiah, grupo ligado à Al Qaeda culpado pelo atentado que matou 200 pessoas em Bali, em 2002.



Afeganistão
84% de muçulmanos sunitas, 15% de muçulmanos xiitas

País onde surgiu a mais radical forma de interpretação do islamismo, através da milícia Talibã, que governo o país do fim da década de 90 até depois do 11 de setembro de 2001. Serviu de campo de treinamento para terroristas islâmicos do mundo todo, até que a ação militar americana atacou essas instalações e colocou no poder um líder muçulmano moderado.



Paquistão
77% de muçulmanos sunitas, 20% de muçulmanos xiitas

Formado como um estado muçulmano resultante da partilha do subcontinente indiano, em 1947, trava uma tensa disputa com a vizinha Índia pela posse da Caxemira. Os extremistas islâmicos atacam os soldados indianos, que controlam o território, por julgar que a área é dos muçulmanos. Além disso o país sofre com conflitos entre sunitas e xiitas e entre muçulmanos radicais e cristãos.



Malásia
53% de muçulmanos

O governo diz ser tolerante com todas as religiões, mas o islamismo é a fé oficial do país. Não-muçulmanos dizem ser vítimas de discriminação das autoridades. Os radicais muçulmanos dizem que não é o bastante: querem oficializar a adoção da lei islâmica tradicional em toda a Malásia.


Outros países de maioria muçulmana: Brunei, Bangladesh