Relação complicada com o hino nacional causa preocupação na Alemanha


Relação complicada com o hino nacional causa preocupação na Alemanha
Hino e símbolo (a águia) nacionais ainda causam constrangimento devido ao passado nazista do país que abrigará a Copa do Mundo
Hino e símbolo (a águia) nacionais ainda causam constrangimento devido ao passado nazista do país que abrigará a Copa do Mundo

Antoine Jacob
Correspondente em Berlim


Estamos no estádio de Bremen, em setembro último. A seleção alemã de futebol prepara-se para enfrentar a África do Sul num amistoso. Um telão mostra o rosto do capitão do time alemão, Michael Ballack, cantando o hino nacional. Na parte de baixo da imagem, a letra aparece em sintonia com a música, de maneira a ajudar o público a entoar esta canção, composta por August Heinrich Hoffmann von Fallersleben, a partir de uma melodia de Joseph Haydn (1732-1809).

Mas nada diz que este exercício será bem-sucedido e livre de qualquer dissonância. Até hoje, os alemães cultivam uma relação ambivalente com o seu hino, mesmo que ele tenha sido expurgado das suas duas primeiras estrofes, carregadas de conotações pesadas em conseqüência da sua exploração pelos nazistas --"Deutschland über alles, über alles in der Welt" ("Alemanha acima de tudo, acima de tudo em todo o mundo").

Faltando menos de seis meses para o início da Copa do Mundo de futebol, que este país organizará, alguns responsáveis estão buscando formas de fazer com que este constrangimento na hora de entoar o Canto dos alemães desapareça.

Numa entrevista ao "Berliner Zeitung" (principal diário da capital), publicada em 23 de dezembro, Markus Söder, o secretário-geral da União Cristã Social (CSU), a ala bávara do partido presidido por Angela Merkel, a nova chanceler alemã, se disse convencido de que a competição contribuiria para "desenvolver um patriotismo positivo, uma fé na pátria". Sendo o hino uma parte integrante deste sentimento, seria uma coisa boa que as crianças aprendessem sua letra na escola e que elas a cantassem, prosseguiu Markus Söder.

O presidente da Federação Alemã de Futebol, Theo Zwanziger, aprovou esta iniciativa. Contudo, ele acrescentou que "é preciso explicar muito bem para as crianças aquilo que elas estão cantando e o que isso significa". Será mesmo necessário entregar esta missão aos docentes?, rebateram alguns.

Outros, tais como o sociólogo Karl Siegbert Rehberg, temem que seja fortalecido o "potencial agressivo" do esporte, "uma vez que o entusiasmo pelo futebol já está muito vinculado ao orgulho nacional".

Foi precisamente com esta idéia em mente que Joseph Blatter, o presidente da Federação Internacional de Futebol (Fifa), questionou, em novembro, a oportunidade de continuar a tocar os hinos antes das partidas internacionais. Ele estava reagindo então aos incidentes que acabavam de predicar as partidas entre a Suíça e a Turquia, qualificativas para a fase final do Mundial. Tanto no jogo de ida como no de volta, os hinos haviam sido copiosamente vaiados. "Aquilo demonstrou uma falta total de respeito e uma ofensa ao orgulho nacional", havia comentado Blatter.

A sua idéia de suprimir os hinos, que já havia sido considerada pelo Comitê Internacional Olímpico (CIO) nos tempos da guerra fria, suscitou reações negativas. "Por que não acabar de uma vez com as partidas internacionais, já que nós estamos falando nisso?", havia respondido ironicamente Uli Hoeness, o presidente do Bayern de Munique. No início de dezembro, Joseph Blatter anunciou que os hinos seriam mantidos durante o Mundial.

Em mais um sintoma de que os temas do patriotismo e do nacionalismo germânicos permanecem sensíveis, o comitê organizador da Copa do Mundo escolheu deliberadamente um leão como mascote para a competição, e não uma águia, a qual, contudo, é o símbolo nacional.

"É verdade que o leão não é um símbolo particularmente alemão", admitiu recentemente um porta-voz do comitê, "mas nós chegamos à conclusão de que seria problemático utilizar a águia, em razão do passado".

Tradução: Jean-Yves de Neufville
 
 

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